sábado, 29 de novembro de 2008

MANHÃ


Gláucia Lemos


Pela manhã os pombos vêm. Esvoaçam, irresponsavelmente, e se empoleiram na fiação elétrica. Não ficam. Só alguns. A maioria retoma o vôo, manobrando com graça as asas simétricas, à pouca altura, planando como se um grande prazer lhes chegasse da exibição no espaço, na frouxa claridade semi-aberta. O vôo é uma suprema beleza inatingível a muitos. É um poder. Não só de Ícaro foi o maravilhoso sonho. Todos, alguma vez, elaboramos nossas asas de cera e nos alçamos à meta de algum sol. Inútil tentar saber quantos terão se erguido da queda; quantos terão carregado uma sutura no rosto, um coração transplantado, um pé defeituoso, uma cicatriz no peito, resquícios do seu sonho de Ícaro. E todos continuarão tentando, faz parte da programação existencial. Quem a traçou?
Não está fazendo muito sol nesta manhã. A luz vem coada, lembrando manhãs mal acordadas de cidades da Chapada, ou pós-madrugadas de beira-mar. Tampouco está frio o clima; há uma perceptível friagem, que mais parece umidade, muito confortável para se sentir. Silêncio de templo e nenhuma ventilação. Só agora, neste mesmo momento em que escrevo, uma folha da begônia vermelha no cachipo de bambu, em um ângulo da sala, se põe a tremer levemente, anunciando um princípio de aragem.
Ao longe tem início um ronco de motor, como ronronar de gato. Pressinto que principia a findar este momento de paz. Uma hora, na eternidade, de absoluta paz, que raramente se deixa acontecer, pelo menos para mim, que pouca importância tenho para as horas todas da misteriosa eternidade. Hora episódica, como toda paz. Sem calor, sem ruídos, sem preocupações, sem cobranças existenciais, sem discursos, sem insistência de luz intensa ferindo a vista. Instante de comunhão com beleza e bem-estar. Comunhão com Deus.
Os ruídos dos ônibus lentamente vão se multiplicando. Vão conquistando espaços a poluir, dentro do espaço límpido, puro, belo, tranqüilo, que os antecede. O relógio badala sete vezes. A campainha da porta vibra, chega a titular da cozinha. Minha manhã acabou, tem começo a manhã de todo o mundo.
Ouço, dos longes da minha memória, a voz de Agostinho dos Santos: A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor. Não sei se Agostinho sabia que cantava a verdade. Felicidade é fugaz, está no script: Cai como uma lágrima de amor.


Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta, com 33 títulos publicados.

Foto "Manhã em Itapuã", de Briza Mulatinho, retirada do Flickr.

7 comentários:

fred disse...

"A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor"

É também ler textos assim.

Beijos

gláucia lemos disse...

Que estilo elegante de fazer um elogio! obrigada, Fred. Beijo. Gláucia

pereira disse...

Gláucia: você sempre deixando uma gota de poesia cair no papel da crônica. Muito lindo!

gláucia lemos disse...

Pereira: A poesia não é minha, sim do compositor daquela bossa nova cantada por Agostinho dos Santos, lembra-se dele? anos 60. A própria definição da felicidade: uma gota em uma pétala, assim é ela, demora pouco, cai depressa. É só clarear o dia e toda aquela paz, "cai como uma lágrima de amor" como finaliza a canção, que caiu na crônica para o seu agrado. Obrigada.

pereira disse...

Eu sei, Gláucia, mas foi você que deixou cair no seu texto uma gota de poesia.

Flamarion Silva disse...

Adorei essa crônica, Gláucia. Traz um gostinho da minha infância, no fim; das manhãs fresquinhas; e de uns sons de mãe que não ouço mais: talvez uma felicidade infantil que se perdeu... Por que crescer dói?
...
Beijos. Você andou sumida, viu.

gláucia lemos disse...

Flamarion: gosto de mãe não passa nunca. A gente cresce, mas uma parte do coração fica lá atrás, e, embora com saudade, é bom que fique. Um beijo. (Sumi por um tempinho mas não abandono este blog, nem meus generosos leitores.)