sábado, 18 de outubro de 2008

É CERTO?

Gerana Damulakis

Há alguns assuntos miúdos que são capazes de desestabilizar toda uma harmonia anteriormente construída. E há assuntos graúdos que derrubam por completo a teia urdida por uma existência atenta. O equilíbrio leva anos para ser logrado; a desarmonia se desfaz como bolha de sabão. Eu tento entender o mundo e sei que, ao fim e ao cabo, não adianta nem tem serventia porque logo não precisaremos mais entender as coisas e, ainda que estejamos aqui, tampouco serve a compreensão. Eis que se desmancham tão facilmente quaisquer edifícios de segurança, certezas, tranqüilidade.
Este é um discurso típico de quem desaprendeu como se vive — vale perguntar se alguma vez soube ou acertou viver — e sequer vislumbra a mais tênue esperança de certo dia vir a conseguir pelo menos, quando mais não seja a paz, pelo menos a completa tolerância quanto às desventuras, os dissabores, os acasos da vida.
É certo tomar conhecimento dos transtornos mais profundos da alma — não gosto da palavra “alma”, remete mais a fantasmas do que a espírito, estado anímico etc — , dizia eu dos transtornos absurdos da alma, da total inadequação à vida, talvez por conta da carência insuportável, da carência e do vazio, é certo ficar ciente de tudo isto?
Não gosto de filosofia, na verdade, um quebra cabeça dos pensamentos que cultivamos, mas que, apesar de bela quanto às suas quatro faculdades, acaba sempre sem respostas para as três perguntinhas básicas. Não gosto de psicologia, sou pequena para ela, termino chorando. Gosto da literatura, da criação de vidas, porque funciona como se cada autor fosse um Deus, com todo o poder nas mãos. Tentemos, pois. Este texto é pura ficção: existe um "ela" que anda meio perdida porque perdeu o pai, ela afunda, sabe sobre tudo o que sente, mas não consegue resolver e blá-blá-blá. Não alcancei a literatura, só arranjei mais uma pergunta: é certo transformar tudo em literatura, a grande escapatória?

Foto de Ondina (bairro de Salvador, Bahia), onde moro, retirada do Flickr, pertencente a M.Amaral Silva.

3 comentários:

Flamarion Silva disse...

Sei lá. Dentro do nosso esquema, a vidinha vale a pena (rimou); metafisicamente, nada vale. Não sei, não sei, não sei...

gláucia lemos disse...

Quem sou eu para ditar sabedoria? Ando tambem à procura dela. Mas tenho uma posição: é certo fazermos tudo o que não nos fira, nem fira os nossos semelhantes. É certo buscarmos o nosso prazer e o nosso equilíbrio em tudo o que não violente a nossa dignidade, nem a alheia. Não existe uma fórmula absoluta, a cada um conforme seu temperamento e sua personalidade. O certo ou errado se pautam segundo o respeito humano.Assim penso eu.

Renata Belmonte disse...

Sim, acho que é certo. Pelo menos, faço isso. E tem funcionado, sabe?
Beijos, querida!