quarta-feira, 15 de outubro de 2008

ASSIM

Goulart Gomes

Foi assim: quando eu percebi, já estava falando essa droga de assim em cada frase. Assim, de repente. No começo eu observava todo mundo falando assim, e achava ridículo. Mas mesmo assim, não pude me controlar. Bem que o Cristo dizia assim: “Orai e Vigiai”. Vacilei e fiquei assim, falando assim o tempo todo. Estou meio-assim-assim. Quando eu era criança, pequenininho assim, a praga era o “né”. Todo mundo parecia japonês, falando “né” ao final de cada frase. Assim também era o Pelé, que finalizava as falas assim: “Entende? Entende? Entende?”. Por último, veio um político famosíssimo, que assim que termina cada frase, diz: “Sabe? Sabe? Sabe?” Olha que ele nem fala tão difícil assim, como seu antecessor. Todo mundo entende, sabe? Né assim que o povo todo fala? Quando os Secos & Molhados faziam sucesso, todo mundo falava “assim assado”, que é um “assim” metafórico, engajado. Depois teve o Peninha, que dizia que “de repente eu me vi, assim, completamente seu”, mas nem assim o “assim” pegou. Assim se passaram muitos anos... Dito assim isso tudo parece uma besteira, mas a coisa é seria, por isso, assim mesmo é preciso repetir. Assim, eu não sei se isso tudo começou com algum apelo mercadológico, personagem de novela, entrevista de jogador de futebol ou refrão de pagode, o certo é que virou uma pandemia assim. Será que Zaratustra falava assim? Assim que quase conseguimos exterminar o mal dos gerúndios, propagado oralmente por milhares de operadores(as) de telemarketing, já nos defrontamos com outro problema! Assim não dá! Assim não dá! Assim mesmo, não podemos nos render. Assim, eu recomendo que você comece a observar o modo como está falando, “tá ligado?”, para evitar ficar repetindo esses cacoetes que surgem assim, não se sabe de onde e que grudam mais que carrapato. Senão, assim você vai acabar passando por otário. Simples assim.Assim seja.

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6 comentários:

gláucia lemos disse...

Goulart, agora é um tal de então, que toda gente no mundo televisivo começa as frases com um Então completamente deslocado. O entrevistador pergunta uma coisa, e a primeira palavra da resposta é Então. Quando começará seu próximo film? - Então, ainda não resolvi se aceito esse papel. Onde você nasceu? -Então, nasci em Morro do Chapeu mas fui criada em Batatais.
Pior é que quando aparece um vício de linguagem desses, todo mundo cá da província logo trata de assimilar. Adorei a crÔnica.

Flamarion Silva disse...

Então, Gláucia, muito bem lembrado. Esse "então" é uma praga que, ao que me parece, só o escutamos na televisão. É um vício miserável que dá nojo. Creio que seja um novo marcador conversacional, uma conclusão precipitada, uma desordem textual, uma introdução do tipo: "veja bem..." Sei lá.
Parabéns ao autor pelo texto
Abraços.

Gerana Damulakis disse...

Eu também lembrei do famoso "então" para iniciar uma resposta. O vício que me irrita mais, no entanto, é aquele amontoado de verbos: "posso estarrrrr levando". Não resisto e começo meu discurso em torno dessa construção irritante: "Por que você não diz que pode levar? E blá-blá-blá".

Gerana Damulakis disse...

Lendo o comentário de Flamarion, lembrei que o "veja bem" já foi uma praga também, tal como "de repente", "ao nível de" (que, por sinal, o certo é "em nível de"). É tão irritante. Por que me irrito tanto com isso?

Carlos Vilarinho disse...

Tem uma propaganda, Gerana, do "veja bem" que ilustra legal isso "assim". Mas "veja bem" é por aí, né...

gláucia lemos disse...

Gostei tanto dessa crônica que voltei a lê-la e conclui que todos os comentários acabaram traçando o perfil de uma nova crônica "tipo assim" um resumo dos vícios de linguagem que nos ocorreram durante a leitura. Ficará um texto "tipo assim" uma crônica bem atualizada.
Vocês com certeza já notaram a antipatia da conversa pontuada pelo "tipo assim", que, afinal, não quer dizer nada e é horrível.