domingo, 10 de agosto de 2008

A CRÔNICA DE UM ENCONTRO


Gláucia Lemos



Começou com a moça errando a escada. Subiu dois lances, conferiu os números nas portas dos apartamentos, não era o número do seu destino. Deveria ser na escada anterior. A moça não era muito de subir escadas. E se não era de subir, menos ainda de descer. Tinha medo de descer escadas, de vez em quando deixava o salto no degrau anterior e lá se ia escada a baixo. Mas que remédio? Segurou bem firme no corrimão e desceu os dois lances. Retornou alguns passos no térreo, alcançou a escada certa e subiu outros dois lances dos novos degraus. Chegou finalmente a seu destino, ofegante. Era hora dos abraços bem embalados com os amigos. Um foi falando que esperava sua vinda para ter quem servisse aos convidados, esse era um dos seus favoritos cumprimentos de boas-vindas para a moça. Ela sabia que no dia em que ele não a cumprimentasse assim, seria um sinal de que a amizade estava abalada. Seguiu-se a troca de novidades entre risadas e comentários. Chega mais um amigo, e logo mais outra amiga, a conversa anima, fala-se de tudo e ri-se por tudo e por nada. Todo mundo está previamente preparado para a alegria do encontro.
Quem trouxe o quê para a ceia, cada um já levou para a cozinha. Sim, é preciso colaborar com o anfitrião que, embora aprecie receber amigos, afinal não está aí para alimentar poetas participantes do sodalício que apareçam à hora sagrada da ceia para filar bolos de milho ou de chocolate e outras iguarias por propósito preparadas, à custa da generosidade anfitriã. É verdade que o dono da casa disse não ser preciso: - vai sobrar muita coisa; mas os poetas têm boas-maneiras e todos trouxeram suas bandejas.Apareceu até uma garrafa de vinho. Comentaram os de bom paladar que o somelier foi muito feliz na indicação, o vinho bem que era da melhor safra e alguns se regalaram, molhando com gosto as palavras durante o ágape.
A moça limitou-se a seu refrigerante zero-açúcar, que, se toma vinho, começa a morrer de tédio e acaba entristecendo em meio à alegria geral.
Finda a ceia bem temperada com gracinhas em torno de taças e copos especiais para cada bebida, o que quer dizer, para água e guaraná, copos azuis; mas para o vinho, copos brancos para que a límpida coloração do néctar – que (sem faltar com o respeito) até Jesus Cristo também tomava, a Bíblia conta - mostrasse sua pureza colorida. Dizem os apreciadores que se até Jesus distribuiu vinho a seus apóstolos na Santa Ceia, por que nós, vis pecadores, não o podemos fazer nas nossas ceias profanas?
Então teve início a verdadeira finalidade do encontro. Foram lidos os poemas, mais os poemas inspirados por outros poemas, os melhores poemas de alguns poetas, e alguns menos melhores até de grandes nomes como Pablo Neruda. E se brincou, e se pegou no pé do anfitrião, e foram feitas fotografias repetidamente – mais uma que esta não ficou boa, uma com Fulano e mais uma com Beltrano, não se esqueça de me mandar pela Internet e por aí a fora.
22 horas, ou melhor 10 horas da noite, baianamente falando. Hora de retornar para casa. A moça quis saber quem iria levá-la na carona. Porque a moça não dirige carro. Já lhe chega dirigir a própria vida, cuja direção não concede a ninguém, nem por decreto do papa, nem para pagar promessa. Despedidas, abraços longos, confissões de alegria pelo reencontro, beijinhos trocados. Então o anfitrião resolve, e quer porque quer que cada qual leve de volta o que sobrou do que trouxe. Ninguém concorda, o anfitrião insiste, e fica todo mundo parado, esperando o que será resolvido sobre o destino de uns certos salgadinhos e uns gostosos quadriláteros de chocolate que o dono da casa implicou para que voltassem à sua origem nas mãos de um dos poetas que se recusava a recebê-los. A moça não viu o que ficou decidido, mas tem quase certeza de que continuaram na mesa do anfitrião. Então todos finalmente saíram. Saíram juntos todos os que tinham chegado sozinhos. A moça desceu mais uma vez os degraus de mármore, bem agarrada ao corrimão e cuidando muito bem dos saltos para não deixar um deles preso no degrau anterior. Cada qual rumou para seu carro ou sua carona. Pareciam felizes. Estavam felizes.
Moral da história: procure sempre encontrar os seus amigos. Cada reencontro fortalece a amizade, renova a alegria no coração e torna a vida muito mais bonita.

Foto de Lima Trindade: da direita à esquerda temos Lima Trindade, Gláucia Lemos, Kátia Borges, Luis Antônio Cajazeira Ramos e, praticamente no chão, Gerana Damulakis.

6 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Gláucia: para mim, é realmente uma renovação da alegria. A leitura dos poemas (de Ildásio Tavares, de Ruy Espinheira Filho, de Kátia Borges) me enchem de alegria; talvez Cajazeira tenha razão e eu goste mesmo da dramatização da poesia. Lembremos que foram lidos poemas do próprio Cajazeira, de Gláucia, de Aramis, de Cecília e um poema que está no Madame K e é ótimo, vindo do blog Blag.

Kátia Borges disse...

Delícia de encontro, gente! Engordei mais um tiquinho. Adorei o texto, Gláucia, leve como a alma da gente. Gerana, o aniversário de Madonna é no dia 16, mas fiz minha parte. BJ

gláucia lemos disse...

É, Gerana, não citei nomes, espero que os respectivos autores me desculpem, a intenção foi criar uma crônica mais leve, falei dos presentes só por alusões. Mas você o fez no comentário, muito bem.Tb gosto do poema interpretado com emoção. Kátia, não engordou não, o que se faz com alegria só faz bem a gente, e tudo estava tão alegre! Bjs às duas.

Alexandre Core disse...

Gerana,

O que você precisar já está autorizada a fazer. Eu é fico agradecido e honrado pelas suas palavras.
bjs,

Nilson disse...

Gerana,

fiquei honrado com sua visita ao Blag, ainda mais por ter gostado do poema e em especial, agora, feliz e encabulado com a leitura. Voltarei sempre aqui. Abraços.

Lima Trindade disse...

O mais bonito é que nessa época de guerras nada olimpicas, de tanta vaidade e desconfiança, estávamos completamente desarmados ali, apenas aceitando o riso e a poesia do outro. É um prazer estar em meio a gente assim. Bjos e parabéns pela bela crônica.