sexta-feira, 27 de junho de 2008

FOGUEIRAS, ENQUANTO TEM


Gláucia Lemos



Este ano vivi um São João aquecido. Fogueiras, muita fumaça carregada pelo vento noturno, muito espoco de bombas, e danças de faíscas pelo ar. Muito vulcão jorrando das calçadas e tanta espada arriscando a segurança dos combatentes corajosos. Fogo no ar, enfim, uma noite iluminada por uma luz que negava a nossos olhos o prazer tranqüilo de contemplar a luz das estrelas.
Havia muitos anos que não via fogueiras. O fogo é um elemento que nos proporciona um especial espetáculo de beleza. O braseiro tem um vermelho particular, brilha sem fosforescer na raiz da chama, enquanto essa se inflama amarelada quase da cor da abóbora, evoluindo sorrateira e inconstante, se elevando volúvel como em uma coreografia mentirosa, sem jamais se fixar, e acaba sendo uma ilusão que fenece sem cinzas. A chama é apenas uma ilusão.
Há muita verdade na associação do fogo aos sentimentos do coração. Paixão que arde como fogo, chama de amor, morte de amor associada a cinzas, e por aí vai.
Quanto a mim, prefiro dispensar a chama dessa paixão e acreditar no sentimento escondido que permanece na raiz da chama, no braseiro que queima quieto, e ainda permanece por muito tempo depois que a chama se extingue. E ainda quando aquele vermelho da brasa, por força das chuvinhas que sempre caem nas noites de São João, as mais frias do ano, quando ele arrefece e já não brilha para o sabermos vivo, o carvão que se apresenta negro e aparenta frieza, permanece ardente, queimando em segredo, e se lhe dermos um sopro vigoroso, estalará de leve, e se mostrará na força do braseiro que alimentara a chama anterior. Assim é o fogo das fogueiras, assim são os sentimentos amorosos mais profundos, quando os chuviscos das noites juninas da vida os ameaçam e os cobrem do negrume do carvão aparentemente apagado. Um sopro e voltarão a arder. Porque a chama é ilusão, mas a brasa é a verdade do fogo.
Perco horas contemplando uma fogueira queimando, uma fascinação. Optei por esse privilégio, neste ano. O São João que não é mais, e nunca mais será, como as noites de junho da infância da minha geração, sequer da geração dos meus filhos, ainda é uma festa de alegria, embora tenha perdido a graça da credulidade nas adivinhações tão comuns e praticadas pela juventude de ontem. Não é preciso espírito saudosista para comparar as melodias ingênuas e o ritmo dos baiões do Gonzagão com a invasão sem propósito do axé. Até o forró que era dançado alegremente aos pares frente-a-frente, agora está contaminado por passos mirabolantes de rock. A dama há que se embolar pelas costas do cavalheiro, de vez em quando, e outras acrobacias. O advento do progresso às vezes invade indevidamente alguns espaços que, por tradição cultural, deveriam ser preservados. Incluindo a solta dos balões que pontuavam o espaço com suas luzes cada vez mais distantes, cada vez mais distantes, romanticamente viajando para o nunca mais, e que, por motivos mais que justificados e corretos, foram apagados definitivamente. No entanto, ainda temos os bailes nas cidades pequenas, os forrós puxados a sanfona ou a CDs, as fogueiras estalando, fabricando fumaça espessa, e tirando lágrimas dos nossos olhos. E o sempre licor de jenipapo, de mão em mão, descontraidamente, brindando ao santo que tanto foi sacrificado e cuja homenagem faz a festa mais brilhante do ano.
E viva São João, enquanto ainda tem!

Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. Autora de mais de 20 títulos e muito premiada. Foto de jvc, retirada do Flickr.

Um comentário:

pereira disse...

O livro vai de vento em popa. Não esqueça de me convidar. Mais uma crônica saborosa. Vou até ali na cristaleira pegar meu licorzinho de jenipapo.