segunda-feira, 12 de maio de 2008

DO AMOR I



Manuel Anastácio

Amor,
Minha só e única razão
para chorar o eterno deserto
interno em mim.
Minha só e única razão
Pensamento e fim:
Fizesse eu de luz o poema
que deveria, por maior razão, nos teus olhos se reflectir
e limitar-me-ia a descobrir,
ainda mais,
a minha boçal, trivial, banalidade.

É por isso,
por mero egoísmo,
e medo de te perder,
de nos perder,
que prefiro a escuridão dos caminhos abertos pelas palavras.




Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/): há entrada para ele diretamente do leitoracritica.blogspot.com/, na coluna “Favoritos”. Tal como Saramago exige, que a ortografia portuguesa seja conservada, ainda que o livro esteja circulando aqui no Brasil em edição da Companhia das Letras (editora brasileira), também conservei, no texto de Manuel Anastácio, a ortografia usada em Portugal, daí o “reflectir”.

A foto é Labirinto do amor, por Felipe Arte, retirada do Flickr.

7 comentários:

Kátia Borges disse...

Oi, Gerana, vou ligar pra Luís amanhã e marcar com ele para mandar o livro. Acho que ainda não dá pra ir aos doces (estou de licença-médica). Bjs

Carlos Vilarinho disse...

Ele está certo. Manter a Língua. Divulgá-la. Acariciá-la. Afinal, é nossa...

pereira disse...

Belo poema e ótima a sua resolução em manter a ortografia do poeta, afinal a língua portuguesa pertence a Portugal. Nós aqui só tratamos de estragá-la com o gerundismo, as abreviações etc. Assim como fazem os americanos em relação ao britânico.

Luís disse...

Que versos pungentes! A segunda estrofe tem um quê de divino, de sagrado. Ele tem livro publicado aqui no Brasil?
Quanto ao comentário de Pereira, discordo. Acho que a língua é a mesma, os maneirismos de cada povo é que são diferentes.E são apenas e tão-somente maneirismos.

Carlos Vilarinho disse...

Beleza de poema. Beleza, beleza, beleza!!!!

gláucia lemos disse...

"Minha só e única razão para chorar o eterno deserto interno em mim."

Nunca mais alguém vai escrever alguma coisa tão comovente. Não há nada mais a dizer. Quando é demais, qualquer palavra diz menos.

Manuel disse...

Bem, o que os vossos comentários me fazem ao ego, nem digo. Mas impropriamente, porque o poema não é meu. É exterior a mim, e mais será quanto mais dele se apropriarem. Se alguém gosta de um poema, é porque o rouba irremediavelmente ao autor. Obrigado por mo roubarem. :)

Luís: não, não tenho livro publicado no Brasil... E em Portugal, também não! :(