sexta-feira, 30 de novembro de 2007

DEZEMBROS


Aramis Ribeiro Costa



A mente lerda, entorpecida, arrasta
Em lentidão o tempo, idéias, membros
A tarde é morna e a própria vida é gasta
Na lassidão completa dos dezembros.

Nas esperanças dos janeiros basta
A vida que desbasta dos novembros
E a tarde se acomoda, lenta e vasta
Na tessitura lorpa dos dezembros.

O mormaço conjuga clima e fados
E em planos inconclusos e adiados
A tarde dezembral planeja e lembra.

São tempos vesperais que sinos plangem
Enquanto idéias poucos ventos tangem
E a mente, mole, sem querer, dezembra.




Este poema está em Espelho Partido - Sonetos Escolhidos - 1971/1996 (FUNCEB, 1996).

UM PARAÍSO

Gerana Damulakis


Um ruído me faz desejar
um paraíso:
tempo e espaço,
um lugar que diminuísse
o mundo para alargá-lo.

Tenho tantos livros para ler,
tantas cidades para conhecer,
tanto pensamento por escrever.

Mas não vou embora pra Pasárgada,
não sei onde está,
nem conheço o rei de lá.


Este poema pertence ao livro Guardador de Mitos (Edição do Autor, 1993).

NORMAN MAILER ( * New Jersey, 31/01/1923 - + Nova York, 10/11/2007 )



Gerana Damulakis


Na Antiguidade, quando os gregos iam fazer o obituário de alguém, perguntavam aos que conheceram muito bem o morto: “Ele viveu com paixão?”. Esta era a única questão importante. A morte de Norman Mailer levanta imediatamente uma associação com a pergunta dos gregos porque a resposta sobre ele é, sem dúvida: sim, viveu com muita paixão. Participou como sargento do exército americano no Pacífico sul, nas Filipinas, na Segunda Grande Guerra, foi preso por protestar na frente do Pentágono contra a Guerra do Vietnã, formou-se em engenharia aeronáutica em Harvard, estudou na Sorbonne, foi boxeador, foi roteirista em Hollywood, ganhou prêmios como o George Polk, por reportagens, e como o Pulitzer, duas vezes, em 1969 e em 1980, com Os exércitos da noite (Record, esgotado) e com Canto do carrasco (Portugal: Editora Europa-América, 1983) e, ainda, o National Book Award. Gostava de briga, deu uma cabeçada em Gore Vidal por conta de uma crítica, deu duas facadas na segunda de suas seis mulheres, tentou eleger-se prefeito de Nova York pelo Partido Democrático, em 1969, opinou sobre tudo e sempre, até sobre a invasão do Iraque, o que fazia dele um escritor influente nas muitas polêmicas travadas.
Mais de 30 títulos compõem uma obra iniciada aos 25 anos de idade com Os Nus e os Mortos (Record, 1976), que o consagrou de imediato. Encontram-se na obra estereótipos da sociedade americana; os diálogos, algumas vezes, ao modo de Hemingway; a fragmentação do texto nos moldes do precursor John Dos Passos; o conteúdo pleno de debates sobre as conseqüências da guerra e, enfim, uma teoria: a teoria do hipsterismo, que está no artigo “The white negro: superficial reflection on the hipster”, de 1957, incorporado ao livro de ensaios Advertisements for myself (1959). Este ensaio é um panegírico ao tipo “inadaptado aos valores vigentes”; o que, de saída, estabelece a simpatia com os beats. Em Parque dos cervos (Record, 2001), Mailer leva o leitor para Hollywood no tempo do macartismo e das desilusões quanto à esperança por um futuro diferente: ou seja, no tempo em que o sujeito já não sabe como escapar e se vê entregue às prerrogativas sociais. Um sonho americano (L&PM Editores, 2007), de 1965, trabalha a dialética entre o hipster e o engessado pelas regras sociais.
A crítica encontra Mailer mais bem sucedido quando mescla ficção e realidade. Com o talento jornalístico, que o marcou como aquele que fez a imprensa alternativa, com a fundação do jornal The Villag Voice e com a fama que alçou seu nome a expoente do new journalism, chega ao “romance não ficcional”, segundo a expressão cunhada por Truman Capote. Um bom exemplo é Canto do carrasco, quando é contada a história verdadeira de um assassino condenado à morte. Mailer não utiliza apenas ocorrências históricas, mas também figuras reais dramáticas como em Marilyn, a biography, de 1973; em A luta (Companhia das Letras, 1998), de 1975, narrando a luta entre os boxeadores Muhammad Ali e George Foreman em 1974, ou em Evangelho segundo o filho (Best Seller, 2007). O último título, The castle in the Forest, de 2007, trata da primeira parte da vida do jovem Adolf Hitler, é mais um exemplo. Para finalizar, uma sugestão que garante trazer o clima norte-americano, aquele “american way of life”, é Homem que é homem não dança (Record, 2002): vale conferir.



Este texto é a coluna Olho Crítico do jornal Tribuna da Bahia, 01/12/2007.

SEM TÉDIO E SEM SAUDADE

Gláucia Lemos



Aqui não tenho ninguém comigo. Tenho a minha alegria particular. No meio da tarde apanho um chapéu e saio ao sol. Os gravilhões do jardim trincam sob meus pés, venço o jardim onde guardo os meus silêncios e venero as alamandas, as espirradeiras e as buganvílias, pela festa que me oferecem de graça. Caminho sobre areia da rua sem me incomodar com a poeira fina do verão.
A maré que subiu sem justificativa, inaugurando um dezembro qual se fora março, atravessou o cais e, se arrastando até a rua, quase interrompe o meu percurso. Passa límpida e rasa a água franzida, tangida pelo vento, e eu entro por ela, sem descalçar as sandálias, divertindo-me com essa rebeldia infantil extemporânea. Caminho ao ritmo do chap chap que meus passos orquestram, rompendo a corrente, leve, com a água me banhando as panturrilhas. É tão simples esse prazer simplório, mas agora é como se o tivesse pela primeira vez, e descubro o conforto da água fria na pele dos meus pés, que quase afundam na lama fina e clara e limpa da areia inundada. Arde o sol nos braços e no decote. Parece derreter o filtro que me protege. Fico cheirando a um coquetel de bronzeador e maresia, então sorrio de mim. Ando inclinada a me gratificar com esses pequenos grãos de satisfação. Eu já sabia que, às vezes, os grãos são mais saborosos que as fatias generosas. Por isso tento racionalizar o meu momento para possuí-lo inteiro. Raros são os que possuímos inteiros.
Minha filha está em um curso na Espanha, minha irmã em uma excursão com amigas, eu acabo de desistir de uma viagem à Argélia (alô Camus, sem por isso deixar de amá-lo fielmente como aprendi)). Estou plena e tranqüila nesse esconderijo do mundo, uma ponta insignificante do continente, tentativa de voluntário exílio, entre nativos de corpos tisnados e balaios de crustáceos, vivendo solidão sem tédio e sem saudade, a mais que perfeita solidão. E isto também se chama Liberdade. Esta solidão — a que quero reter, cada vez que atravesso a baía retornando, e me enfio indefesa na guerrilha urbana, na qual inevitáveis punhais despertam nas gentes o primitivo impulso de fugir aos predadores, nossos próprios semelhantes.
Aqui descubro o fascínio da fotografia, nas manhãs em que me aventuro pelos troncos cinzentos que a natureza retorce com arte somente sua; pelos arranjos eventuais dos barcos encalhados na maré-baixa, que nem sabem da harmonia e do ritmo que exibem em suas formas; no contraste dos galhos coloridos de hibiscos debruçados por cima dos muros em ruínas limosas. Descubro esse mundo e me apaixono, com a paixão guardada em pequeninos rolos de celulóide. É uma alegria nova, uma paixão solitária que se realiza em si mesma quase egoísta, refletindo para dentro de mim a criação que de mim foi descoberta, no encontro dos detalhes.
Retorno da padaria com os braços cheirando a pão quente. Pão de milho que ainda se faz com gosto de milho. Refaço o percurso da volta, com direito a novo mergulho de pés calçados, no transbordo da maré.
Há duas redes de madras esperando na varanda com a paciência monacal que só as redes nas varandas parecem ter. Chego-me, a concha me abraça. Capitu aproxima-se abanando a cauda e lambendo o sal dos meus pés que estão sobrando pela borda rendada, enquanto aguardo a revoada de periquitos que, a cada fim de tarde, atravessa o espaço no rumo do poente espalhando pelo ar uma longa harmonia barroca em vários diapasões.
Esvoaça uma garriça no beiral da casa, onde adivinho um ninho. Um ninho! É um berço de palhas, uma manjedoura... Natal é quase amanhã.
Fecho os olhos. Lembro-me de que ainda é tempo de acreditar. Acho que acredito em quê... Na tranqüilidade que pode ser. Ainda pode ser. Na alegria que é bonita e, algumas vezes, está guardada em rolos de celulóide. Sobretudo acredito na solidão perfeita. Sem tédio e sem saudade.



Gláucia Lemos é autora de mais de três dezenas de títulos. Entre os premiados estão O riso da raposa, A metade da maçã e As chamas da memória.



VESTIDO BRANCO


Carlos Vilarinho

Estava embaixo da mesa catando pimenta. Esparramou toda no chão, dizem que é um perigo. Contudo acho que naquele dia desmitifiquei a ação da pimenta, pelo menos sobre mim. Lá embaixo da mesa, de quatro, ouvi os passos. Não eram passos de salto alto, mas eram de mulher. Dizem também que mulher e pimenta se completam. Continuei a catá-las. A pimenta me tomou por inteiro, que entrei em transe picante, ouvi o tilintar dos talheres sendo lavados por minha sobrinha. Ouvi também a louça, presente de minha avó estilhaçar-se. Minha sobrinha achava que eu não sabia, mas era facilmente perceptível o estado de letargia que ficava quando fumava maconha.
— Ai, Amelinha, acho que preciso de um amante.
Voltei do transe imediatamente. Era a voz de Harmonia. Desde que a conheci, o nome me instigava a conversar com ela. Convertia-se num imenso vai-e-vem. Harmonia era uma mulher sexy, tinha trinta e um anos. Madura o suficiente para ser verdadeiramente mulher, diria Balzac. Conversávamos durante horas, sentia um comichão por dentro quando falávamos. Que mesmo do alto dos meus quarenta e quatro anos não sabia discernir com precisão o que aquilo representava. Harmonia uma vez fez queixas coléricas a respeito do marido dela. Segundo me disse ele a qualificou de uma pífia dona de casa.
— Que absurdo!!
Disse pensando em raptá-la.
— E ele não faz nada, Vadinho. Mal sabe fritar um ovo.
Isso tem tempo. Mas a mágoa ainda passeia dentro dela. Pois já me repetiu duas vezes.
Minha sobrinha Amelinha guardava os domingos na minha casa. Eu sabia o que ela fazia escondida. E ela me olhava todas as vezes que eu ia ao sótão, demorava horas e voltava aéreo. Longe dessa desconfiança interativa, tratava-se de uma excelente menina. Conversávamos sobre filosofia e linguagem. Amelinha sempre trazia uma novidade da faculdade que estudava. Comecei sem entender a amizade de Harmonia e Amelinha, dada a diferença de idade. Depois não foi difícil perceber que Harmonia precisava de alguém para conversar. Na verdade desconfiei que ela ia conversar era comigo.
Então de quatro, como estava catando pimentas, ouvi uma boa parte do desejo obscuro de Harmonia embaixo da mesa.
— Ai, Amelinha, não agüento mais aquele cara.
Vi então uma reunião de pimentas vermelhas, caíram todas formando imagem estelar. Aí vi também os pés de Harmonia. Estavam enfiados em uma sandália cheia de miçangas. Uma sandália marrom, toda enfeitada. Eram lindos os pés de Harmonia, tinha as unhas feitas e sem cutículas. Lembrei-me então que Harmonia só andava de salto alto. Me estiquei um pouco mais para a frente e vi a ponta do vestido rodado de Harmonia. Era todo branco. Vi também o começo das pernas, uma canela compacta e bem morena.
— Tio, já catou?
— Quem é?
—Sou eu, Harmonia.
Harmonia abriu um largo sorriso e um brilho piscou em seus olhos. Me ajudou a levantar e comentou até que eu estava mais magro. Fiquei contente e lembrei do chá de ervas emagrecedoras que Amelinha me presenteara. Eu tomava o chá em jejum logo quando acordava. Estava desconfiado que não estava adiantando nada quanto ao emagrecimento, até porque quando dava umas dez, dez e meia, abria a primeira cerveja depois de ter entornado uma folha podre, erva-doce. Comia moela e coraçãozinho de frango. Harmonia comentou ratificando meu peso. Olhei então para ela toda, vestida de branco e de sandálias de miçangas. Estava linda assim e me repreendia envergonhada. Então eu tirava os olhos de mira e deixava os de esconso.
— Não sabia que estava, Vadinho.
Ri satisfeito com o semblante de Harmonia e falei sobre as pimentas.
— Há uma lenda que pimenta no chão é sorte no amor. Dizem que um largo sorriso se abrirá e todo o universo, a partir do ardor da pimenta, se unirá em conjunto com dois casais próximos e que até então não sabem que se amam.
Falei com a cara mais deslavada e num blefe gigantesco. Lembrando instantaneamente de um autor romano, lá pelos séculos do império, que dizia o seguinte: “Qual homem experiente que não combina beijos e palavras de amor?”. Quase que repito a frase subitamente. Parei no meio da oração e olhei Harmonia rindo para mim, esquecendo do conjugue estorvo.
— O quê?
— Nada...
Disse-lhe que tinha escrito um novo poema. E ela mais do que depressa se ajeitou na minha mesa esperando para ouvir.
— Fiz pensando em você.
Blefei de novo, acreditando eu mesmo no meu blefe. Amelinha riu e como se estivesse tudo combinado entre elas. Saiu. Eu notei tudo. Lembrei das sandálias de miçangas e das canelas. Pedi para que pegasse água e quando se voltou para ir à cozinha, fitei em zoom ou raios-X se Harmonia usava algo por baixo do vestido. Era uma calcinha branca bem comportada. Mesmo assim suscitou meu desejo. E agora propositalmente com os olhos de mira, pus as vistas no decote. Harmonia encabulou-se e tentou esconder o volume, mas como? Mesmo encabulada Harmonia sorria e exalava uma suavidade plena que só as grandes mulheres são donas. E eu disse.
— Você tem duas qualidades raríssimas em uma pessoa, sobretudo porque és mulher.
Ela continuou encabulada, mas agora mais curiosa.
— Vou lhe dizer...
Harmonia se desnudou. Senti languidez em seu semblante e um orgasmo singelo de carência. Antes de dizer recordei as falas que tivéramos entre nós. E ali naquela hora percebi que ela só tivera mesmo vontade de ter orgasmo.
— Você é dona de uma autenticidade ímpar e o que é mais importante, talvez em conseqüência disso a sua sabedoria seja tão latente...
Queria continuar a falar algo mais, mas não tinha o que falar. Harmonia então me beijou suavemente passando a mão com cheiro de creme sob a minha face.
— ... e também é doce e suave...
Harmonia colocou o rosto bem em frente ao meu.
— ...e também é...
Sempre andava com metáforas e comparações, achava importante fazer link de uma coisa à outra.
— ...e também é morena como jabuticaba...
Ridículo, me senti. Mas foi tão simples, aliás, simplório, que singelamente Harmonia quedou-se aos meus encantos metafóricos. Me beijou, aí eu disse.
— Que homem experiente não combina beijos com palavras de amor?

25/11/ 2007
Carlos Vilarinho é autor de As Sete Faces de Severina Caolha & Outras Histórias (SCT, FUNCEB, 2005)

sábado, 24 de novembro de 2007

LUNARIS

Gerana Damulakis




Carlos Ribeiro é experimentado contista e romancista, só para ficar na literatura e deixar o jornalista um pouco longe dos comentários desta coluna. Lunaris (EPP Publicações e Publicidade, 2007) é seu mais recente romance; simplesmente não há como ignorar o quanto é instigante sua leitura. Ir descobrindo quem é o personagem, para qual lugar caminha, esta é a grande chave do romance. A epígrafe é de Stanislaw Lem, autor polonês consagrado no século XX como grande nome da literatura científica, cuja obra mais importante e conhecida, Solaris (Relume-Dumara, 2003), é de 1961 e hoje é tida como um clássico da ficção científica, já com versão cinematográfica. Solaris é um planeta com órbita entre dois sóis, tendo como exclusivo ser vivo um oceano inteligente, responsável pela existência do próprio planeta. Quem deseja que façamos o paralelo com Lunaris é o próprio autor, pois há aqui mais do que sugestão, há indicação explícita: “Este lugar — que chamava de Lunaris, numa referência ao romance Solaris, de Stanislav Lem —, era uma forma especial de pensar”. Em Solaris, o psicólogo Kris Kelvin vai à estação para socorrer os cientistas que estudam o planeta inteligente. O que se passa é o seguinte: os tripulantes ficam espantados porque imagens de seus próprios pensamentos são corporificadas pelo oceano. Kelvin recebe, inclusive, a visita de sua mulher que se suicidou há 10 anos. Não há propriamente um diálogo entre as duas obras, a de Lem e a de Ribeiro: antes, há uma ponte, uma obra e sua ligação com a outra, tal como ocorreu com o romance O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati (Nova Fronteira, 1984) e o poema de Konstantinos Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, ambos de um lado da margem, enquanto do outro está o romance homônimo do poema, que J.M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura de 2003, escreveu: entre as obras uma bela ponte.
Voltando à leitura de Lunaris: para Alberto, personagem de Carlos Ribeiro, basta lançar uma garrafa ao mar, ou jogar um aviãozinho de papel ao ar, que prontamente é atendido e visitado por Hélio, habitante de Lunaris, pois que este lugar é assim como uma possibilidade. Em meio ao dilema entre viver para trocar lâmpadas e comprar pão, ou viver numa dimensão, digamos, mais elevada que o reles dia-a-dia da humanidade, Alberto entra no ensaio das idéias, discutindo literatura, nomes e valores, mitos como Glauber Rocha para, mais uma vez, sentir-se com vontade de escapar. Estes são ótimos momentos.
Quando se desloca para outro plano, Alberto vislumbra uma vida que pode ser, mas no final — e é um grande final — ele se vê prestes a ter que optar. Nada mais pode ser dito aqui sem causar prejuízo na leitura. No total, o oceano de Solaris é, em Lunaris, o próprio Alberto, haja vista ser ele quem “refaz pessoas, reconstrói acontecimentos, elimina todos aqueles que o aborrecem”, na medida em que sabe como escapulir de um mundo para outro.
A estrutura do romance é muito bem lograda, com capítulos curtos que vão num crescendo de interesse para o leitor. Chega a ser ousadia dizer que neste crescendo, cresce também o escritor — ousadia, pois Carlos Ribeiro já é portador de uma obra importante —, mas é notório que Lunaris confirma a competência da arte de Carlos Ribeiro.

Este texto é a coluna Olho Crítico da Página Aberta do jornal Tribuna da Bahia, 24/11/2007.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

"ESTOU FARTO DO LIRISMO..."



Gerana Damulakis


É fácil constatar que a crítica literária, tal como a crônica, sofre por ser datada. Ressalva feita para quando o autor está morto, portanto a obra concluída e, no extremo, sem riscos de que apareçam títulos póstumos. O fato é que avaliar um escritor em plena produção carrega uma gama de equívocos que apenas o futuro apontará.
Fica patente quando se pode averiguar isto num livro como A Leitora e seus Personagens, daquela que talvez tenha tido a maior lucidez analítica na crítica brasileira do meado do século XX: Lúcia Miguel Pereira. O brilho de seu pensamento, nas décadas de 40 e 50, percorreu as obras das mais diversas correntes literárias do país. Com uma cultura invulgar, uma bagagem de leituras invejável e uma percepção crítica como poucos, Lucia Miguel marcou seu lugar como militante na imprensa literária. Mas nada disso evitou o erro que só o tempo, implacável, acentua.
A leitura da reunião de textos críticos deixa evidente um caso interessante. Trata-se da avaliação dos, então, últimos poemas de Manuel Bandeira, vistos pela crítica no Jornal do Comércio, em 1936. Quase uma diatribe, não fosse seu cuidado para com o poeta amigo, Lúcia diz encontrar "uma nova maneira" na poesia de Bandeira. Tal maneira nova seria a ironia, avaliada como que uma negação de tudo aquilo em que o poeta acreditara, "alguma coisa de tenso, de voluntariamente desprendido". E conclui: "essa é a grande modificação". Então transcreve uma das estrofes de "Poética", poema que consta do livro Libertinagem: "Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbados/ O lirismo difícil e pungente dos bêbados/ O lirismo dos clowns de Shakespeare./ — Não quero mais saber do lirismo que não é libertação".
A crítica vê na ânsia de libertação uma obrigação do poeta em zombar de tudo e não se deixar dominar por coisa alguma, pois a ironia está "corroendo sua inspiração". Ora, tanto a poesia posterior de Bandeira quanto o próprio Manuel em seu livro Itinerário de Pasárgada, sua autobiografia literária, atestam que o lirismo não deixou os versos do poeta de Estrela da Tarde nem o poeta teve tal intenção. A feitura do poema estava intimamente ligada ao momento modernista, daí um grito, não contra o lirismo, mas contra certos tipos de lirismo: "Estou farto do lirismo comedido/ do lirismo bem comportado..."
Imagine-se se fosse levado a sério o fim do lirismo em favor da ironia absoluta. Enfim, a ironia incorporou-se à lírica moderna. Hoje, tão distantes daquele momento, atestamos o lirismo mais do que presente, a própria poesia: o lirismo pungente de Ruy Espinheira Filho quando diz: "Quero/ me apagar na noite,/ ser a noite/ esse grande silêncio/ lá fora,/ onde espero que o mundo/ não esteja mais". O lirismo Femina de Myriam Fraga: "Revesti-me de mistério/ Por ser frágil,/ Pois bem sei que decifrar-me/ É destruir-me". O lirismo a plenos pulmões de Ildásio Tavares: "Há um resto de mim em toda a parte/ Que nunca pude ser inteiramente". O lirismo musical de Aramis Ribeiro Costa: “O sol brilhando em plena madrugada/ O desejo de ser – sem ser loucura/ A vida, num segundo, iluminada”. O lirismo apurado de Florisvaldo Mattos: "Nada sei do que me contam/ as furiosas páginas dos diários mudos". Os versos líricos de Luís Antonio Cajazeira Ramos: "O sonho acabou./ Não mais acordei./ Mas tudo que sou-/ -be, no sonho, deixei". O lirismo refinado de Maria da Conceição Paranhos: "Mor ventura não há neste meu fado/ do que mirar teu corpo e usufruí-lo,/ pausadamente, a mão a desvesti-lo,/ saboreando teu olhar de dardos,..."
Lucia Miguel Pereira reclamava do fim da simplicidade de Bandeira. A lírica moderna pode não ter o acesso fácil de outros tempos, mas aí reside o seu fascínio. O lirismo é categoria tradicional e eterna na poesia, seja ele mais claro, seja obscuro e mágico. Menos mal que a crítica não pode ver além de seu tempo.



Este texto foi publicado no caderno 2 do jornal A TARDE, coluna Leitura Crítica, em 01/08/2001.