terça-feira, 13 de novembro de 2007

POEMA DO MÊS

SHANGRI-LÁ

Talvez me entediasse em Shangri-Lá
Quando visse montanhas me cercando
E séculos e séculos passando
Talvez me entediasse em Shangri-Lá.

Leria livros - todos que há por lá
E passaria o tempo meditando
Os mistérios da vida desvendando
Que aborrecido, que seria lá!

Veria sempre o mesmo passarinho
Fazendo e desfazendo o mesmo ninho
Pois ninguém morre nunca em Shangri-Lá!

Mas talvez fosse boa a eternidade
E o tempo fosse pouco, na verdade
Se eu encontrasse o amor, em Shangri-Lá.

Este poema é de Aramis Ribeiro Costa e foi retirado de seu Espelho Partido - Sonetos Escolhidos 1971/1996 (Salvador: EGBA, FUNCEB, 1996)

sábado, 10 de novembro de 2007

TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE


Tanto os escritores quanto os leitores vão adquirindo certos preconceitos como, por exemplo, não admirar outros escritores da mesma idade, região ou gênero, sequer lê-los porque não se pode perder tempo lendo o que os contemporâneos escrevem quando há muito clássico para “reler”. Se o escritor estiver na mídia, aí o nariz e a boca se contorcem e estará decidido que nada haverá de bom naquelas linhas escritas por fulano, seguramente. O mesmo se passa em qualquer área, é lugar-comum, humano demasiado humano. Imaginem o que dizem os oncologistas sobre seus colegas que exercem a medicina aplicando botox nas dondocas: simplesmente, para os primeiros os demais não são médicos. Quando se sabe, na verdade, que não é bem assim, há de haver de tudo, inclusive o que é fruto de preconceito.
Vamos fazer a leitura da escritora que está na mídia: Fernanda Young e seu sétimo romance, Tudo que você não soube (Ediouro, 2007). Primeiramente, vale lembrar que ela foi roteirista das séries Os Normais e A Comédia da Vida Privada, e que tem um programa no canal fechado, GNT, chamado Irritando Fernanda Young. Enfim, uma escritora inteiramente dentro da mídia. E ela faz questão de repetir que são romances o que sabe fazer melhor.
Afastando os tais preconceitos, nem que seja para ler apenas o primeiro capítulo, logo se dará o encantamento com o texto. A narrativa é uma catarse feita por uma filha para seu pai moribundo. Por vezes o tom é pesado, pois pesadas são a rejeição e a solidão que permearam uma infância sinônima de abandono afetivo. A capa do livro traz um martelo em relevo. É com ele que a narradora agride a mãe na adolescência, mas tudo que escreve para o pai não se quer como justificativa de atos passados, o desejo é o de verbalizar a mágoa. Imediatamente vem uma lembrança: o livro Carta ao pai de Franz Kafka, embora aqui haja um fundamento existencial concreto. O interessante é que Fernanda Young procura levar o leitor em outra direção, como quando escreve; “Caso fosse uma escritora, mesmo, deixaria que você morresse, antes, para poder me esbaldar nessas velhas lembranças; talvez transformando-as em patéticos biscoitinhos amanteigados num pratinho, como fez a bicha chata do Proust”. De resto, não deixa de estar presente o humor de Fernanda.
O mais incrível é que, embora pareça haver um esforço desmedido em certos momentos para que o leitor se assuste com tanto desamor, o relato acaba passando uma sensação incontestável: seja ódio, seja amor, há um sentimento muito intenso, por isso o romance consegue que o leitor se envolva com a narradora em algum ponto. Se houvesse indiferença e superação, a história não teria logrado êxito. Para além de preconceitos, portanto, é hora de saber Tudo que você não soube.

Gerana Damulakis

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

OS SERTÕES


Quando se questionou neste espaço a expressão indevida “qual a maior obra-prima da literatura brasileira?”, que abria um debate na internet, o texto pretendia apenas defender a existência de muitas obras de qualidade no mesmo patamar de excelência. Tendo em vista tão somente passear pela literatura brasileira e citar algumas obras com juízos de valor garantidos pelo tempo, ficou claro que não era pretensão o levantamento de cânone algum. Inclusive porque todo cânone é ditado pelo gosto pessoal de quem faz a listagem. O espaço aqui não alcançaria a enumeração das obras brasileiras de forma a satisfazer todos os títulos que possivelmente surgiriam na lembrança.
Vale enfatizar que, mesmo sendo como as considerações supracitadas deixam evidente, principalmente no que tange ao gosto pessoal, os autores mencionados no texto “Não há maior obra-prima”, sem dúvida, foram de uma importância capital para a história literária do Brasil. Por exemplo: José de Alencar foi prejudicado pelo romantismo exacerbado, mas como não reconhecer o escritor? Se Peri e Ceci incomodam o leitor de hoje, é provável que o romance Senhora produza encantamento. Outro exemplo: Jorge Amado, que tanto seduziu os leitores, que foi o precursor de uma literatura que chegou a impulsionar um Gabriel García Marquez, não pode ficar de fora de um passeio literário pelas letras brasileiras, bastando, para confirmar, uma leitura de A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água. Mas faz pouco tempo que Jorge Amado se foi, restam muitos ressentidos ainda fazendo o discurso do contra.
Por outro lado, voltando à ocasião da feitura da “lista” que não se queria como lista, ali não se leu o título de Euclides da Cunha, Os Sertões, obra monumental. É inesquecível e pungente o final, quando Canudos deixa de existir. Segundo Antônio Cândido: “livro posto entre a literatura e a sociologia naturalista, Os Sertões assinalam um fim e um começo: o fim do imperialismo literário, o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira”. Alicerçada pelas palavras do maior crítico literário do Brasil, vale lembrar que a coluna “Olho Crítico” frisou que, no rápido passeio pela literatura brasileira, havia limites: o olhar estava restrito ao “romance ficcional”, não aos afluentes como romance reportagem ou romance histórico, os autores citados estavam mortos, o tempo abrangia do final do século XIX até o século XX. A leitura atenta desta coluna comprova tais requisitos cuidadosamente postos. O resto é questão de gosto, não de verdade absoluta.

Gerana Damulakis

domingo, 4 de novembro de 2007

CONTO DO MÊS

A ARMA DE CADA UM

– Eu andava solteiro, aí conheci a Diva, mulher bonita, loura, os homens endoideciam ao vê-la passar pelas ruas de Cruz das Almas. Mas Diva era uma dessas mulheres, como se diz, perdidas. Ganhava a vida assim, indo com um e com outro. Contudo, não se gastava, conservava o charme, a altivez, a postura. Sabe aquela atriz do cinema americano, a Marilyn Monroe? A Diva parecia-se com ela. Mulher bonita!
– Quem? A Marilyn?
– Também, também, mas a Diva... ah, bonita igual a ela, nunca vi.
– E o que aconteceu com a Diva?
– Tirei-a da rua. Levei-a para morar comigo.
– Casou-se com uma mulher da vida?!
– Casei-me. Ficamos juntos um ano e seis meses. Pensei que a Diva endireitava, mas... sei lá... talvez o destino de certas mulheres seja levar essa vida mesmo. A Diva me traiu com o Nestor. Peguei-os na minha cama. Dupla infeliz.
– E você, o que fez? Matou-os?
– Nada! Ia lá me sujar com dois perdidos!
– E então?
– “Vistam-se,” disse-lhes, firme. “Vamos, rapaz, não tenha medo. Não vou te matar.” O cabra ficou assustado, tremia igual vara verde. “Venha tomar café, você deve...”
– Convidou-o para tomar café?!
– Foi o que eu disse.
– “Venha tomar café. Você deve estar muito cansado, precisa alimentar-se. Venha, vamos à mesa. Você também, Diva.”
– Foram à mesa comigo. Botei-os na minha frente. Não se pode confiar, gente que trai é um perigo. Botei-os na minha frente. Apontava o revólver para os dois.
– Revólver?! Você tinha um revólver? Por que não os matou?
– Ah, menino, você ainda é muito novo, não sabe onde reside a sabedoria do homem.
– Eu não sabia que existia a sabedoria do... do...
– Vai, diz. Acostume-se logo com essa palavra. Todo homem tem de estar preparado.
– Eu, hein. Bem, o que fez com os dois?
– Nada.
– Nada?! Você não fez nada?
– Não. Tomaram café. Disse a ele, apenas: “Olhe, rapaz, a Diva vai com você, ela vai ser a sua mulher, e ai de você se fizer algum mal a ela.” Falei isso só para meter medo nele, a Diva era uma pobre coitada. “Levantem-se” disse-lhes. “Tome”, e passei meu revólver a ele.
– Endoideceu!
– Nada. Eu sabia o que fazia. Disse-lhe: “Tome, leve este revólver, você pode precisar. Tem dinheiro para o transporte? Não? Então tome aqui dez contos.” E se foram.
– E aí?
– Aí eu continuei levando minha vida. Até que, um dia, quando eu passava em frente à cadeia de Santo Antônio, alguém chama meu nome.
– “Seu Manuel Jorge, seu Manuel Jorge, lembra-se de mim? O senhor tem um cigarro para me dar?”
– Era o Nestor. Espiava a rua através de uma grade de ferro, retangular e minúscula. Lá estava Nestor, preso. Tirei um maço de Hollywood do bolso, aproximei-me da grade e passei-lhe o cigarro. Perguntei:
– “O que lhe aconteceu, Nestor?”
– “A Diva, seu Manuel, a infeliz fez comigo o que fez com o senhor. Peguei-a na cama com outro; matei os dois com aquele revólver que o senhor me deu. Estou vingado. Estamos vingados.”
– “É, Nestor, estamos vingados”, disse-lhe. E saí andando, livremente.
Flamarion Silva é contista, autor de O Rato do Capitão (Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA, 2006 - Coleção Selo Letras da Bahia, 108)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

RECEBIDOS E LIDOS

Livros, “livros à mão cheia...” dizia Castro Alves. São tantos que chegam. Devidamente recebidos e lidos foram os seguintes títulos: Todo sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005), de Lima Trindade, reunião de 13 contos; As borboletas são assim (As borboletas, 2007), de Tatiane de Oliveira Gonçalves, coletânea com 18 contos; Andarilhos (Bagaço, 2007), de Maurício Melo Júnior, composto por duas novelas e, por fim, Ávidas paixões, áridos amores (Grafmarques, 2007), de Arriete Vilela.
A produção da alagoana Arriete Vilela, mestra em Literatura e com mais de uma dezena de títulos publicados, incluindo romance, contos e poesia, vem sendo muito aplaudida dentro e fora do meio acadêmico. No mais recente volume, Ávidas paixões, áridos amores, qualquer exemplo que dali seja retirado mostrará, tal a ordenação e a harmonia das peças poéticas, a busca incessante pelas palavras, guiada por um intenso sentimento: paixão ou amor, não; paixão e amor guiam o desejo de decifrar de vez o enigma através de questões assim formuladas: “Como pude escrever/ que os relhos da paixão não me deveriam esporear/ a alma, se é isto exatamente o que mais quero,/ pondo-lhes à disposição o próprio dorso/ da minha poesia?”.
As novelas que compõem Andarilhos, do jornalista da TV Senado Maurício Melo, são “Caminho só de ida” e “Volta à seca”. Ambas, ao misturar história e invenção, resultaram instigantes e, como estão acompanhadas do estilo do escritor, desde logo aliciador, não há como pensar em deixar a leitura antes do fim. Merece destaque a impecável narrativa sobre um cangaceiro de Lampião que, após cumprir 18 anos de cadeia, vai tentar uma vida decente no Rio de Janeiro, mas acaba envolvido num incidente, digamos, político. Está presente um toque inusitado, que talvez esteja na esperança que permeia a narrativa e que, com a aproximação do final, vira pó, ilusão, palavra “que a vida não alcança”, como escreveu Drummond no poema “Viver”, de As impurezas do branco (J. Olympio, INL, 1973).
As borboletas são assim, de Tatiane Gonçalves, vem trazendo o aval indiscutível de Maria da Conceição Paranhos que percebeu, de saída, o insólito emergindo da banalidade e as surpresas que concorrem para o desvio de rota nas narrativas de casos corriqueiros. “Meninice” é exemplo disto, uma história bem amarrada, que surpreende. Por vezes aproximando-se do fantástico (ou usa o fantástico como alegoria?), há textos com pitadas de magia e ilusão, como “Revirando”, “Um homem no tempo”, “Receita fúnebre”. Outros mostram a nossa complexidade, como as coisas nos afligem e como criamos escapatórias para a opressão da rotina, como os carimbos no conto “Os carimbos de Amélia”. Conceição aponta o talento para a ficção, notório em Tatiane. Está apontado!
E ainda na casa do conto, Lima Trindade também deixa evidente seu talento. Desta feita é Állex Leilla quem assina as orelhas e abarca o universo do autor neste livro Todo sol mais o Espírito Santo: “O universo de Lima Trindade é amplo, vai da infância possível, passando pela que jamais teve,criando divertidos suspenses ou uma história delicada de meninas, navegando em mares Gideanos ou num bonde meio Borges, meio Julio Cortázar”. As construções de Lima Trindade são maduras, mostram que o ofício é dominado pelo escritor, tanto na montagem do espaço, quanto na alegoria elaborada para vestir a história. Vale apontar o conto que dá título ao livro “Todo sol mais o Espírito Santo”, como um texto que merece ser antológico e, dentre outros bem logrados, vale citar “O pecado de Santa Helena”, “Calças de pintor”, “Luz mortiça” e a homenagem ao conto “Ônibus”, do volume Bestiário, de Cortázar, intitulado “Fim de linha”. Muito se pode esperar da literatura de Lima Trindade.
Aí estão os livros recebidos e lidos.

Gerana Damulakis
Ó PAI


"Por que me abandonaste?'
Cristo


Qualquer dia, qualquer mês
e estou só.
Só as estrias de luz mostram o ar
carregando suas massas de partículas
redondas, tantas quantas são
as pessoas da multidão.
Lá fora é onde deve haver alguém.
Por que tarda?
Estou em plena tarde
sem perder o relógio de vista.
Preciso dizer-te isto, meu Pai,
que já vivo a minha tarde
e tenho medo.

Gerana Damulakis

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

150 ANOS DE MADAME BOVARY


A edição comemorativa dos 150 anos da publicação do romance Madame Bovary, de Flaubert, pela Nova Alexandria, traz a íntegra do processo movido pelo Ministério Público de Paris contra o texto que ofendia a moral e a religião. A inclusão do processo no volume torna possível uma avaliação sobre o modo como foi recebido o romance, ainda que, pela ocasião em que se deu, Madame Bovary tivesse sido publicado na Révue de Paris, não estando em livro todavia. É tal o grau da mistura entre autor, personagem e linguagem que não se sabe quem está sendo agredido, se Gustave Flaubert, se Emma Bovary ou se o estilo do livro. Diante disso, fica imortalizada também a exclamação de Flaubert: “Madame Bovary, c’est moi!”.
O subtítulo “Costumes de província” é importante para começar a formação da idéia em torno do que se pode esperar: uma história banal dentro de um cotidiano mais banal ainda e que, talvez por isso, tenha alcançado a tragédia. Vale lembrar que Henry James definiu o romance sobre a saga de Emma como o “épico do comum”. Um comum com tal força que foi parar no dicionário: o “bovarismo” acabou por indicar a tendência de certos espíritos romanescos de fugir da realidade e emprestarem a si mesmos uma personalidade fictícia, numa definição usando um pouco dos dois dicionários, o Aurélio e o Houaiss.
Emma Bovary não consegue cumprir o destino tedioso guardado para as mulheres na vida privada burguesa e idealiza uma vida apaixonante e um viver apaixonada. Deixar de ser o que toda mulher deveria ser, levou-a ao trágico desfecho. É o olhar crítico para a sociedade oitocentista que abala tal sociedade, ou que a ameaça; enfim, é a literatura realista abrindo uma via de leitura, além do aceitável ou desejável.
A professora Eliane Robert Moraes, da PUC-SP, tem uma colocação interessante diante do reconhecimento da imparcialidade do texto de Flaubert quando o narrador não demonstra compaixão nem desprezo, tampouco apelo moral, como se o autor estivesse “transferindo para o leitor a desconfortável tarefa do julgamento”. Eliane atenta que assim fundou-se um novo pacto entre a literatura e seu público: “Não mais o pacto encarnado por Madame Bovary que se perdia nos romances para compensar a banalidade da vida, mas aquele do ‘leitor hipócrita’, cúmplice das incertezas de seu próprio criador”. Adiante com a argumentação e acrescentando a reunião dos poemas de Charles Baudelaire, As Flores do Mal, igualmente causadora de processo, a professora conclui que há 150 anos nasciam as duas primeiras obras-primas do modernismo.
A edição comemorativa é primorosa e a leitura dos autos da ação movida contra Flaubert concorre para aumentar o envolvimento do leitor com o clássico da literatura francesa. É sempre um prazer revisitar Emma e certas cenas antológicas, como a do fiacre, ou qualquer outra dentre as “artes” de Emma.

Gerana Damulakis