domingo, 12 de outubro de 2008

SEMPRE BANDEIRA



Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira,

teu nome é para nós, Manuel, bandeira.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

AO CADÁVER DESCONHECIDO


Aramis Ribeiro Costa


Depositado sobre a lage fria
Álgido, exangue, rijo e dissecado
Guardas, no corpo teu, formolizado
Exaustivas lições de Anatomia.

Teus órgãos, veias, músculos que, um dia
Foram teu corpo vivo e respeitado
São peças de um cadáver retalhado
De alguém que mais ninguém conheceria.

Devias ter, no entanto, um monumento
Um dia consagrado, um pensamento
Do mundo contristado e agradecido.

Homem, mulher, criança, não importa!
Salvando vidas, tua carne morta
Revive, ó imortal desconhecido.

Aramis Ribeiro Costa tem 17 títulos publicados: romance, novelas, contos, poemas e histórias infantis. Este poema está em Espelho Partido (FUNCEB, 1996).

MIRADA

Gerana Damulakis


para os grandes CDA e Mario Quintana

Possuo uma ânsia de andar este caminho

e concentrar as alegrias momentâneas

de viver completamente

uma fantasia que se fez real.

Possuo tanta angústia - muita angústia -,

muita consciência e muito medo

e uma dúvida constante nestes instantes

que me cobre e me pergunta

sobre o limite.

Possuo lágrimas de emoção

e risos de satisfação.

E possuo, finalmente, a certeza da tênue

fronteira entre a plenitude da vida

e o abismo do fim

- e daí me consumo.

De Guardador de Mitos. Homenagem a Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana, Praça da Alfândega, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, por rvolcan, retirada do Flickr.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 2008


Gerana Damulakis

Anunciado o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2008: Jean-Marie Gustave Le Clézio.
O romance O peixe dourado (Companhia das Letras, 2001) é uma bela amostra da literatura do novo Nobel, nascido em Nice, em 1940. Comentarei em breve.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

ADORMECIDA


Castro Alves

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
Pra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor de minha vida!..."

De "Espumas Flutuantes".
Foto da Praça Castro Alves, em Salvador - Bahia, de koichimura, retirada do Flickr.

POEMA INESQUECÍVEL: A canção de amor de J. Alfred Prufrock, de T. S. ELIOT


Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

Tradução de Ivan Junqueira.

O poema é longo. Fico dividida entre a tradução de Ivan Junqueira e a de João Almeida Flor. Segue outro trecho, mais ou menos na metade do poema; desta vez a tradução é de Almeida Flor.

Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.

Pois já conheço todas bem, conheço todas -
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que se esvaem as vozes em breve agonia
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?

sábado, 4 de outubro de 2008

UM POEMA DE MANUEL ANASTÁCIO

Aestus


A terra cheira a vinho abafado.
As couves, tenras, aconchegam caracóis.
As vides, soltas, erguem falanges, tecem fantasmas.
A terra cheira a vinho abafado.
A mosto guardado em formol,
Como a doçura de quem nunca morreu.
Só mais umas gotas desta dor que, ardendo
Sabe a mel.
Em vez de fumo, nevoeiro,
E em vez de brasas, bagas de romã.



Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/) e está preparando um livro de poemas.

Foto de marina vrgs, da série "por dentro - romã", retirada do Flickr.