terça-feira, 18 de dezembro de 2007

I CARRY YOUR HEART WITH ME


No filme IN HER SHOES, traduzido aqui como EM SEU LUGAR, Cameron Diaz diz o poema de e. e. cummings de uma forma espetacular. Sou fã deste poema e uma insatisfeita com as traduções que encontrei. Pedi, então, ao Manuel Anastácio, do blog Da Condição Humana ( tem entrada pelos meus favoritos, mas mesmo assim, vai aqui o endereço: http//:literaturas.blogs.sapo.pt/), que aceitasse o desafio de traduzir o poema para nossa língua. Creio sinceramente que os portugueses sabem usar melhor as possibilidades do nosso rico vocabulário. Por exemplo: pra o verbo "to carry", eu achei quem traduzisse pelo verbo "carregar" e por "levar". Não gostei do resultado, que ficou assim para o primeiro verso, respectivamente: "carrego o teu coração comigo" e "eu levo o seu coração comigo". Manuel Anastácio optou por "trago o teu coração comigo". Por tal exemplo já dá para perceber a sutileza na hora de usufrir da língua portuguesa. Vale apreciar a escolha em "segredo a todos velado": a poesia alcançando a poesia. Agradeço a Manuel Anastácio pela tradução que coloco, com sua permissão, para que seja desfrutada, pois é a melhor até hoje realizada para o poema de cummings.



I carry your heart with me

I carry your heart with me ( i carry it in
my heart). I am never without it ( anywhere
I go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
I fear
no fate (for you are my fate, my sweet) I want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

I carry your heart ( I carry it in my heart)


Trago o teu coração comigo (guardo-o dentro
do meu coração) nunca o deixei noutro lugar (onde quer
que vá, vais comigo, meu amor; e o quer que seja feito
apenas por mim, é por ti feito, minha querida) temerei

jamais qualquer destino (pois és o meu destino, minha doçura) quererei
jamais qualquer mundo (que a tua formosura é todo o meu mundo, minha verdade)
e és tu o que uma lua sempre possa ter significado
e o quer que tenha sempre um sol cantado, és tu

aqui está o mais profundo segredo a todos velado
(aqui está a raiz da raiz e o botão do botão
e as alturas das alturas de uma árvore chamada vida; que cresce
para além do que a alma pode esperar ou o pensamento esconder)
e é esta a maravilha que mantém as estrelas separadas

Trago o teu coração (guardo-o dentro do meu coração)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

DEPOIS DO INÍCIO

Gerana Damulakis


O que restará agora?
Na verdade, o que restará?

Agora pensei em criar,
pensei vibrar com cada ilusão.

Naquele dia parti enfim,
nem olhar olhei, sem visão.

Não levei lembranças sem fim,
sem validade, sem mala.

Como quem, deixando a sala,
deixa o ontem, tudo, escombros.

Tudo deixado atrás dos ombros,
restou o sonho, essa viagem

para a qual não achei passagem.



De Guardador de Mitos (Edição do Autor, 1993).

domingo, 16 de dezembro de 2007

CONTO DE NATAL



Carlos Vilarinho



Sofia me disse que sua mãe era fã incondicional dos artistas italianos. Daí seu nome igual ao da atriz italiana. Ela não conhecia as atrizes, via somente os livros que o tio Pepe lia com avidez e por vezes languidamente derretendo-se na poltrona. Tinha nove anos e uma curiosidade enorme em saber o que aquelas letras todas reunidas faziam na mente de tio Pepe. Uma vez assistindo a um desenho animado, meio atenta na tela, meio atenta na conversa de Antonio e Lúcia, ouviu:
— Não, querida, para que livros para Sofia no Natal?
— Antonio, a Sofia vive nos braços da poltrona de Pepe tentando fazer as leituras que ele faz...
— Não, nada disso, vamos comprar uma boneca bem bonita parecida com ela.
Sofia saiu totalmente do mundo animado da TV e voltou-se para dentro de casa. Olhou a estante e a poltrona vazia de tio Pepe. Dependurou-se e arriscou pegar qualquer um que estava ali. Ela então abriu e leu uma história de uma menina que cultivava livros. Leu com dificuldade, é certo, mas conseguiu ler. Depois daquele dia, Sofia adquiriu uma paixão imensa pelos livros. Chegou a sonhar que era uma personagem que se escondia naquela estante. Primeiro voava por um lugar do nunca, havia um amigo com o nome parecido com o do tio Pepe. Depois conversava livremente com um príncipe pequeno, do mesmo tamanho dela; contudo, gigantesco nas idéias. Por vezes, enquanto conversava com o príncipe pequeno, como ela, tinha imagens de letras e palavras rondando eles dois. De repente viu passar nitidamente um bloco de palavras e letras combinadas, que já ouvira falar em poesia. Achou a combinação e a imagem que aquelas letras lhe proporcionaram tão criança e infantil quanto ela, contagiantes ao se pronunciarem. Era assim:
Sonhadora menininha,
cativas o universo.
Para mostrar sua vida lindinha,
em sonho de verso.
Vira ainda as renas que carregavam aquele velhinho gordinho que ria fácil e trazia presentes. “Ah! Que mundo aquele dos livros e das histórias!”, pensava. Ouviu o som da garagem. Correu para a porta já entreaberta e espionou por um facho de luz.
— Então, Lúcia? Olhou o presente de Sofia?
— Eu achava melhor livros... Vou concordar com você, ainda que muito duvidosa.
— Não se preocupe, diremos quando chegar a hora da leitura.
Sofia pressionou os lábios entre os dentes. E ficou pensativa. Ouviu a mãe dizer que ia levá-la no dia seguinte para escolher. Feliz e convicto que daria um belo presente para a filha, Antonio falou, Sofia ouvia e sentia a satisfação do pai em presentear-lhe. Sentiu orgulho nas palavras do pai. Afinal Micheli não ganharia presentes, foi o que a amiga lhe dissera. Mas logo o orgulho se dissipara, lembrou que garantira a Michele que também não aceitaria presentes. E olhou os livros do tio Pepe esparramados pelo quarto.
Enquanto se arrumava dentro de um misto de tristeza e decepção, Sofia teve uma idéia. E se dissesse ao pai com toda a sua pureza e autenticidade de princesa pequena que queria pelo menos um livro? De uma forma ou de outra iria comprar os presentes de Natal, não destituiu contudo a idéia de ter livros para si. Viu novamente a satisfação no rosto do pai. Definitivamente Sofia não era uma menina como as outras, ela sentia isso. Insistia para o tio Pepe contar-lhe histórias e, como uma mágica, lá estava ela facilmente no mundo das histórias dos livros.
Havia uma árvore de Natal enorme em frente ao shopping que todos iam. Parecia que toda a cidade dirigia-se unicamente para aquele lugar cheio de lojas caras e só duas livrarias. Lembrou-se de que uma vez o tio Pepe leu para ela a história de Natal que um velho sovina ficava sozinho durante a noite da ceia e então ao refletir sobre sua vida tentou mudar para melhor. Era esse então o espírito natalino. Com neve ou no calor do verão, o Natal servia para despertar nas pessoas o sentimento franco e puro. Mas só no Natal? Que estranho. Então nos outros trezentos e tantos dias as pessoas podem magoar umas às outras? Aquilo era demais para Sofia, que pensava agora em Micheli.
Conseguiu, com a ajuda da mãe, convencer o pai a ganhar livros também.
— Só livros, não. Vou lhe dar uns presentes bem bonitos, umas roupinhas e uma bonequinha parecida com você para se divertir... Leitura faz bem, mas na hora certa, de qualquer forma escolha o livro.
Escolheu “Vinte mil léguas submarinas” e “As mil e uma noites”. Teria o seu próprio e não esperaria mais o tio Pepe para ler as histórias de Sherazade.
Micheli chegou com a mãe. O pai constrangido não se integrou à reunião natalina. Havia de tudo na mesa e os presentes ao pé da árvore de Natal. Sofia estava especialmente feliz. E não era só porque ganharia seus dois primeiros livros mais importantes. Era porque dentro dela estava a imagem e as palavras que vira quando viajava pelo mundo das letras. Sofia cativava o universo. Transformaria um sonho em realidade. Na hora da entrega dos presentes, notou ao fundo, bem serena, dona Helena e a filha Micheli com um ar perdido na atmosfera bendita da noite feliz. Sofia encarregou-se, em frente a todos, de segurar duas caixas bem enfeitadas, em uma havia a bonequinha que parecia com ela e na outra a roupinha em linho que o pai escolhera. E com o riso infantil de Natal cruzou toda a extensão da sala e brindou com mimo de criança viajada pelo mundo das letras, disse:
— Papai, o Natal não serve para despertar nas pessoas o sentimento franco e puro?
E então deu as duas caixas de presente à Micheli. Pelo rosto do pai passearam contornos de decepção. Depois de surpresa. E finalmente de felicidade e orgulho pela filha que tinha. Sofia deliciava-se com Simbad, o marujo, Ali Babá e os quarenta ladrões, além do capitão Nemo. E com o riso infantil do Natal, completou:
— Feliz Natal, Micheli!




16/12/07
Carlos Vilarinho é autor de As Sete Faces de Severina caolha & Outras Histórias (SCT, FUNCEB, 2005).

UM CAFÉ NA TARDE FRIA



Gláucia Lemos


Espantou um moleque que, à porta da rua, gritava para dentro: velho maluco!, depois voltou para a sala devagar. Mais uma vez olhou, no canto da mesa, a cafeteira suja. Depois sentou-se no banco a um canto, e acendeu o cigarro. O corpo era pequeno e frágil como o de um adolescente. As mãos delicadas e leves seguravam o cigarro como se estivessem vazias.
Pelo chão, espalhavam-se os cavacos de cedro.
Fixou os olhos no piso, em um ponto qualquer. Fora pela porta em frente que ela entrara naquele fim de tarde. Apressada. Quase correndo a abrigar-se da chuva. Como um potro assustado.
— Dá licença?
O homem ergueu a cabeça. Ela transpunha o batente sacudindo a chuva do vestido branco. Passando as mãos pelos cabelos cacheados.
— A chuva me pegou. — Parecia desculpar-se.
— Pode entrar, fique à vontade.
Ele como que emergiu da sisudez habitual. Sorriu. Só com os olhos. Como só sabia sorrir. A mulher parecia assustada. Olhava em volta com olhos de expressão espantada. A sala pequena, as ferramentas espalhadas, não sei quantas esculturas povoando o ambiente, desordenadamente, com a mudez da madeira. Depois, ela ficou olhando o homem. Barbado, o peito nu não muito forte, cabelos crescidos, grisalhos nas têmporas, parecendo velho.
A mão soltou a goiva em cima da mesa, e Samuel aproximou-se dela. A silhueta da mulher de branco na moldura da porta, pareceu-lhe um anjo. Mãos levemente pendidas, o corpo parado, o cabelo curto cacheado. E os olhos muito abertos fixando seu rosto. Parecia um anjo. Ele tentou sorrir com seus dentes grandes. E descobriu que ainda sabia. Repetiu.
— Pode entrar, fique à vontade.
Ela tentou um sorriso tímido. Depois sorriu também um sorriso aberto e livre, como criança.
— Não quero atrapalhar, pode continuar no seu trabalho.
Parecia medrosa. Talvez do escultor excêntrico. Ninguém aproximava-se dele. Calado, sombrio, sozinho, um ar de velho no rosto grave. Só eventualmente, pessoas estranhas aos vizinhos apareciam de carro e levavam suas peças. No mais, era só solidão.
Ele retomou as ferramentas e voltou a seu trabalho. Ela ali ficou, sentada em um banco, até que a chuva passou. Calada. Só olhando os movimentos de Samuel. Os pedaços de madeira caíam ao chão, as formas nasciam dos hábeis movimentos das mãos pequenas, e ela acompanhava sem desviar os olhos.
Quando a chuva passou a mulher levantou-se e foi embora. Sem dizer nada. Ele apenas viu seu vulto transpondo a porta e continuou no trabalho, como se nada houvesse acontecido.
Uma tarde, algum tempo depois, alguns meses, ela voltou. Chegou devagar, como quem não quer nada, espiou na porta com a antiga timidez, e perguntou.
— Dá licença?
O homem ergueu a vista para a mulher, que, sem esperar resposta, entrava devagar. De olhos ausentes, como se a visse pela primeira vez, ele não a reconheceu de pronto. Ela sentou-se no mesmo banco, encolhida e perguntou, como criança
— Posso ficar aqui?
Fez que sim, com a cabeça. Ela sorriu e ficou. Calada. A tarde inteira. No fim da tarde, foi embora.
Depois dessa vez ela voltou. Outras e outras mais. Não todos os dias, mas sempre que as tardes eram frias, ou sempre que chovia.
Uma tarde, Samuel perguntou seu nome.
— Lúcia. — Respondeu lacônica.
— Mora onde, Lúcia?
Ela sorriu.
— Aqui perto.
— Que é que você faz?
— Uma porção de coisas... e você?
—Eu?... - Samuel fixou-a admirado — Não está vendo? Eu corto madeira, faço uns troços... Faço árvore virar figura de gente. Isso tudo que está por aqui espalhado, não está vendo? E espanto os pivetes que vêm a minha porta me amolar. Me chamar de velho... e de maluco.
Não parecia importar-se muito com o detalhe.
Uma tarde ela chegou e entrou em silêncio. E, como sempre, sentou-se no mesmo banquinho. E baixou a cabeça entre as mãos, e chorou. Chorou muito, calada. O homem, surpresa no rosto, deixou seu trabalho e ajoelhou-se ao lado dela. Os olhos claros sempre tranqüilos tornaram-se inquietos. E, qual se estivesse diante de um ser de outro mundo, não atinava com o que fazer para consolá-la. Pôs-se a seu lado calado e ansioso, sofrendo por vê-la sofrer e vendo-a transformar-se ante seus olhos, em um ser mais real, mais concreto. Por várias vezes tentou passar as mãos pelos cabelos dela, para consolá-la, e por várias vezes recuou. Por timidez. Não deveria tocar em Lúcia. Mas a dor de Lúcia, por que quer que ela fosse, foi uma revelação para Samuel. Aquele anjo que enchia a sua solidão chorava. Aquele ser envolto em pureza, tão cheio de doçura e de silencioso mistério, para quem não lhe seria possível olhar com malícia, era uma mulher. E tinha mágoas. Aquele anjo era uma mulher, Samuel descobriu com perplexidade. E foi então que se lembrou de olhar um espelho depois de muitos anos sem o fazer. E também descobriu que não era um velho. Era um homem maduro, sensível, que se escondia naquela solidão que o afastava do mundo e vincava-lhe o rosto e o envelhecia. Um homem que perdera o hábito de sorrir e reaprendera que existia vida pulsando dentro de si, por causa da presença de Lúcia.
Depois daquela tarde, ela continuou a vir como se nada houvesse acontecido. Nunca lhe disse quais eram suas mágoas e Samuel nunca lhe perguntou. Mas agora, ele lhe passava as mãos pelos cabelos com carinho mudo, de quem entende que sendo uma mulher e não um anjo, Lúcia precisava de carinhos. E lhe afagava o rosto e lhe beijava os olhos porque descobrira que ela era uma mulher. E uma mulher que se abrigava à sua sombra, tão recluso que era, tão solitário que sempre fora, era porque ela também não tinha amigos. E assim, Lúcia descobriu a cafeteira a um canto de uma velha mesa e lhe fazia café todas as tardes. Porque estavam em um inverno muito chuvoso e frio, e assim sendo, Lúcia vinha a Samuel todas as tardes. E se amavam. Naturalmente. Como um homem e uma mulher se descobrem e se amam, desde que o mundo é mundo.
Ele soltava as ferramentas do trabalho, quando a mulher lhe estendia a xícara de café, com as mãos delicadas, de pele fina. E Samuel punha-se a perguntar a si mesmo, que mulher era aquela? Frágil, quase como uma criança, de rosto delicado e mãos bem cuidadas, de modos finos e cabelos encaracolados, que lhe trazia todos os dias um sorriso inocente, nos lábios rosados. De onde teria vindo aquela mulher nem bem madura, nem bem menina, que entrara em sua vida de repente pela porta a dentro, numa tarde de chuva? E se tornava indispensável. E mudava toda a sua vida. E o levava a descobrir que ainda era moço e sabia sorrir e sentia vontade de viver. E tornava tudo tão diferente à sua volta que até os pivetes deixaram de vir importuná-lo. Mas suas perguntas ficavam insatisfeitas, porque Lúcia sempre respondia com gracejos, dizendo qualquer coisa, menos o que ele ansiava por ouvir.
— Eu? Eu sou uma princesa encantada.
— Eu sou Cinderela.
— Eu sou Rapunzel de cabelos cortados.
Talvez nem mesmo se chamasse Lúcia. Mas, que importava o nome? Se ela mesma nem se preocupava com o depois? Não lhe fazia perguntas, não lhe dizia respostas. Apenas existia. Era só uma presença que ele sabia que se repetia todas as tardes, sem compromisso. Sem promessas e sem segurança. Enquanto chovesse, ele soube depois.
Quando o inverno acabou, na primeira tarde de sol, ela não veio. E não veio nunca mais. Sem adeus, sem despedida. Sem recado e sem explicação.
O homem pôs-se a esperar. Primeiro com a inquietude e o desespero dos apaixonados. Depois com a saudade e a dor dos abandonados.
Todas as tardes ele ficava contemplando a cafeteira suja a um canto da mesa, como Lúcia a deixara pela última vez. Sem tocá-la. Como um objeto sagrado. E a goiva e o formão descansados sobre a mesa. O trabalho que iniciara no tempo em que Lúcia lhe vinha, nunca foi concluído. E no atelier nunca mais foi ouvido o toc, toc do formão talhando a madeira. Era só o silêncio e o homem esperando, com a fronte escorrendo em suor, e o calor da tarde abrasando tudo com a força do sol que dourava lá fora o céu de verão.
As têmporas grisalhas de Samuel depressa embranqueceram. Seu corpo pequeno e magro tornava-se em um corpo de velho baixinho e mirrado. A barba lhe chegava ao peito como a de um ermitão e os dentes grandes nunca mais sorriram. Agora os pivetes voltavam à sua porta para xingá-lo de velho.
Samuel sentiu o cigarro arder-lhe entre os dedos pendidos. Queimara todo. Sacudiu a mão e a baga caiu entre os restos de cavacos antigos. Uma dor profunda, física, começou a apertar o peito do homem. Levantou-se lentamente. Uma angústia nos olhos. Foi até a porta, por onde ela sempre viera, no tempo em que vinha. Olhou para o céu, azul e brilhante e começou a pensar... Se chovesse. Quem sabe? Quem sabe, se chovesse ela voltaria? Ergueu os braços para o céu e clamou:
— Chova! Que chova muito! Que chova muito e alague o mundo!
Transpôs a soleira. Olhos para o céu azul e seco. Os braços erguidos em súplica incompreensível para quem assistia. Que chova muito! Começou a andar pela rua. Os pivetes juntaram-se em volta acompanhando. Velho maluco! Velho maluco! Gritando, assobiando, dizendo piadas. Samuel indiferente à zombaria de olhos agoniados para o céu, prosseguia clamando. Que chova muito!!! As mãos para o alto, a voz em apelo de comover os passantes. Alguns paravam para olhar, alguns riam. Louco, está bêbedo, é o velho que faz esculturas Sempre teve um parafuso frouxo.
Repentinamente, escureceu. Grossos pingos começaram a cair. Ribombou o trovão, e o temporal veio abaixo, inundando a rua. A molecada correu a abrigar-se. Os curiosos dispersaram-se. O homem, perplexo, demorou-se parado no meio do asfalto, debaixo do aguaceiro. E sorriu. Primeiro com os olhos, depois com os dentes grandes como reaprendera a sorrir no tempo de Lúcia. Em seguida foi caminhando devagar até a casa. A porta estava aberta. A chuva respingava nas figuras de madeira. Samuel entrou. Olhou em volta, não havia ninguém. Permanecia o deserto que torturava os dias de Samuel havia tanto tempo. A cafeteira suja lá estava em um canto da mesa, no fundo da sala, como Lúcia a deixara. E na bancada do trabalho, em frente, o imenso e pesado bloco de jaqueira, inacabado, de onde começava a emergir, Deus sabe há quanto tempo, um torso de mulher para o qual Lúcia posava, quando vinha. No mais, o silêncio e o vazio.
Samuel sentou-se frente à mesa e atirou com violência a cabeça atormentada por cima dos braços dobrados. A mesa balançou mal aprumada. O trabalho inacabado, foi lá, veio cá, e despencou-lhe por cima da cabeça pesadamente.
Lá fora, chovia ainda. No fim da tarde o vento estava frio.
Lúcia veio vindo lá do fundo da sala, devagar, e estendeu ao homem inerte a xícara de café. O vestido branco colado ao corpo, encharcado de chuva. Caracóis molhados nos cabelos curtos. Um sorriso inocente nos lábios pequenos. Como um anjo.
Não sei se Samuel despertou ou se dormira definitivamente. Lúcia nunca me contou.







Gláucia Lemos é ficcionista e poeta, além de ter vários títulos dentro da literatura infanto-juvenil. Este conto pertence ao volume Todas as águas.








sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

UMA NOITE, MUITAS HISTÓRIAS

Gerana Damulakis

A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos/ Do meu Natal sem sinos?
Manuel Bandeira

A literatura tem seus temas universais. Mesmo a literatura mais regional, aquela que liga o homem à sua terra, trata, em instância mais profunda, das paixões, das angústias, dos sentimentos, enfim. Dentre os temas considerados consubstanciais aos prosadores, encontra-se o tema do Natal. Afeito aos contistas por encerrar geralmente um episódio bastante rico e possível de conter igualmente a brevidade e a densidade que o gênero busca, o tema natalino já se traduz como uma tradição.
O Natal traz a magia despertada pela luz dos enfeites, as recordações de outros dias de Natal e com elas as pessoas amadas que se foram e que outrora riram diante de um presente inusitado ou de um desejo realizado. É um dia de confraternização, porque o espírito natalino envolve todos com bondade, resignação e tolerância. O ritual permite impulsos imaginários e, logo, criações que se tornam narrativas recheadas de surpresas e efeitos literários. Se o tema do Natal fascina, há também, junto ao desejo de contar, o desejo de ouvir histórias, inerente ao homem desde a infância. A linguagem dos contos é explorada na sua condição simbólica, e se o mundo esperado pelo leitor é um mundo mágico ou lírico, então a composição natalina marca a embriaguez entre o real e o irreal. Neste tocante, o escritor francês Guy de Maupassant é um bom exemplo com seu “Conto de Natal”, porque há qualquer coisa de salvação, própria do clima natalino, quando certos vazios ou certos desencantamentos ganham esperanças, ilusões de uma noite. A referência vai para a Editora Itatiaia Limitada, que tem uma bela edição com cinco volumes: Obras de Guy de Maupassant.
Uma das mais pungentes narrativas natalinas é de O. Henry, pseudônimo de William Sidney Porter: o magistral conto “O Presente dos Magos”, que conta sobre um casal pobre, quando, pelo Natal, cada um deseja intensamente presentear o parceiro. Mas eles não têm dinheiro; no entanto, possuem outros tesouros: ele, um relógio de ouro, que pertencera ao avô, e que levava preso num cordão de couro gasto, fazendo com que sentisse vergonha de consultar as horas; ela, portadora de vasta cabeleira, como uma cascata caindo-lhe nas costas. Sem que um soubesse da angústia do outro para conseguir comprar um presente, acabam provando a mesma intensidade de amor. Ele vende o relógio e compra um jogo de pentes de tartaruga, orlados de pedraria, para os cabelos da amada. Ela vende o cabelo, que é cortado tão rente a ponto de conferir-lhe a aparência de um meninote e adquire uma corrente de platina digna do relógio do marido. Este conto está no volume da Ediouro, com seleção e prefácio de José Paulo Paes, Caminhos do destino e outros contos.
A literatura ocidental vem sendo enriquecida com os contos de Natal desde Charles Dickens, que escreveu sua “Canção de Natal” para iniciar, logo depois, uma série de contos natalinos com a história “Uma Árvore de Natal”, publicada primeiramente em revista, por ocasião do número correspondente à festa. O sucesso foi enorme, aquele número se converteu em verdadeira árvore de Natal, como dizem seus historiadores, porque outros contistas foram colocando adornos, enfeites luminosos e presentes nos ramos literários. Todos os contos de tal série de Dickens parecem ser a primeira chama natalina, que se fará presente na ficção do mundo cristão. A sugestão é o volume O manuscrito de um louco e outras histórias, que contém cinco destas histórias natalinas, também com tradução e seleção de José Paulo Paes para a Ediouro.
No leste, os mestres russos do realismo, refletem a festa cristã em condições adversas, aproveitando para espelhar a realidade dura da nação, seja na trajetória da criança desvalida, do conto “A Árvore de Natal de Cristo”, de Dostoiévski , seja através dos dois velhos abandonados pelo destino, personagens meigos e tímidos diante da vida, do conto “Sonho de uma Noite de Natal”, de Górki, ambas em Histórias de Natal (Boitempo Editorial, 1995).
Entre nós existe uma produção de contos fundados no ambiente natalino, seus sentimentos e expectativas. O conto de Machado de Assis, “Missa do Galo”, parece ser um marco, está em todas as antologias de contos do bruxo. O mestre do conto não descreve uma celebração de Natal, não há uma festa, mas há sentimentos evocados pela data, há um tempo suspenso, a espera pela hora da missa, insinuando uma probabilidade. Lygia Fagundes Telles não resistiu e escreveu “Missa do Galo (variações sobre o mesmo tema), que saiu pela Summus Editorial, 1977, enquanto Antonio Callado homenageou o Natal e a obra-prima de Machado com seu conto “Lembranças de Dona Inácia”. Ainda que fora da linha traçada por Machado, há contos natalinos inesquecíveis na literatura brasileira, como “O Peru de Natal”, presente em Os melhores contos de Mário de Andrade (Global Editora, 1988), ou “A Noite em Que os Hotéis Estavam Cheios”, de Moacyr Scliar, só para citar dois dentre tantos.
Mais exemplos ficam com a prosa dos baianos: João Ubaldo Ribeiro, com seu “Jingobel, Jingobel (Uma história de Natal)”; Hélio Pólvora, com seus “Conto de Natal”, do volume O rei dos surubins (Imago, 2000) e “Natal com Julieta”, que está em Os galos da aurora (Fundação Casa de Jorge Amado, 2002) e Aramis Ribeiro Costa, com “Era Véspera de Natal”, da reunião de contos O mar que a noite esconde (Iluminuras, 1999), que podem ilustrar a fortuna da literatura baiana tratando de tema tão caro. O volume Contos para um Natal brasileiro (Relume- Dumará, 1996) traz as narrativas citadas de Callado, João Ubaldo e Scliar. São sugestões de leitura que podem colocar mais luz no Natal do leitor, ou, no mínimo, podem garantir alguns momentos de prazer literário.

Coluna Olho Crítico da Página Aberta do jornal Tribuna da Bahia, 15/12/2007.

HISTÓRIA DOS MITOS GREGOS


Gerana:
Pygmy woman of great beauty who lived in Egypt, or perhaps India. According to the myth, she despised the gods, and had a special aversion to Artemis and Hera. Gerana married a pygmy man called Nicodemos, and the couple had a son: Mopsos. Hera then turned Gerana into a stork, as a punishment for the woman's hatred of her. From then on, Gerana's only concern was to get her baby back. When the pygmies saw that the bird was trying to abduct Mopsos, they drove it away. From then on the storks and the pygmies were at constant war. It is from this myth we get the vision of the stork carrying a baby.
www.in2greece.com/english/historymyth/mythology/names/gerana.htm

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

SITUAÇÃO

Gerana Damulakis
Para meu amigo que se foi tão cedo: o poeta Daniel Cruz Filho

Onde estou?
Como me situar
se espaço, tempo, energia
são conceitos relativos da teoria do homem?

Onde estou?
Como me geografar
se a equação ilógica
é indemonstrável, complexa questão
da mutabilidade do mundo
a cada segundo?

E, afinal, onde estou?
Como me localizar
se o eu vaga mais que o corpo,
é totalitário e onipotente,
refazendo-se à revelia de mim?

Como me plantar
nos meus pés
quando se fixar pode significar morte,
o fim absoluto,
renegado sete vezes,
sete vezes injuriado?

E, afinal, o que esperar?
Que um mapa deva limitá-lo
em seu mundo, ó imaginário:
viajante de mim.



De Guardador de Mitos (Edição do Autor, 1993).
O poema é dedicado a Daniel Cruz Filho desde sua feitura, mas na ocasião ele estava vivo.