quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A MARCHA

Luís Antonio Cajazeira Ramos



É sempre madrugada, os deuses dormem,
o céu é longe, a caminhada insana,
e vai, antes que os vórtices se formem
no pó da estrada, a lenta caravana.

Nem o ganir do cão, rasgando as fardas
deixadas para trás, quebra o silêncio
dos deuses — não se envolvem nas jornadas.
...E o dia é logo ali, na ponte pênsil.


Só a neblina esconde leve a aurora
e vê (se é dado ver ao vento frio
que sabe quanto é morna qualquer hora)
a razão do vacilo e do arrepio


contra o salto no abismo: os desenganos.
Abandonem seus deuses, homens! Vamos!




Luís Antonio Cajazeira Ramos assina a antologia de seus poemas intitulada Mais que sempre (7Letras, 2007).

A CASA



Gláucia Lemos




Eu sou a tua casa, sou teu pouso.
Deita na rede que te dá meu colo.

Eu te amo como o rio que prossegue
no leito que não muda nem regressa.
Como a união das asas da gaivota
na sincronia firme do seu vôo.
Eu te quero como a dor que me persegue
pelo pão que me alimenta em teu abraço.

Vem ter comigo quando a noite é treva!
Pois é na nossa chama que se eleva,
que o universo se ilumina e aquece.



Gláucia Lemos é autora de Procissão e outros Contos (FUNCEB, 1996) e mais 20 títulos.

TÃO IMENSO


Kátia Borges





Tão pouco, este meu suado salário,
pelo qual agradeço, cada centavo,
cada moeda de dez, cada níquel
que sobra no bolso.


Tão pouco, este meu teto, abençoado,
sobre o qual se sustentam outros sete,
mesmo que ainda deva uns tostões à CEF,
e a vizinha de cima faça barulho.


Tão pouca, esta minha poesia,
pela qual agradeço, cada verbo,
cada palavra rimada, ritmada,
cada verso que escapa.


Tão pouca, esta minha vida,
pela qual agradeço, cada órgão
que funciona a contento. Cada um dos meus olhos,
caçando beleza, achando mistérios.

Tão pouco, este meu talento,
pelo qual agradeço, estas mãos,
que aprenderam cedo a ganhar o pão.
E esta língua, que não sabe de línguas, mas fala de amor.


E este amor, meu amor, este amor.
Tão pouco, este amor,
pelo qual agradeço.
E tão imenso.



Este poema de Kátia Borges está nos blogs Madame K e Blag. Kátia Borges é autora do volume de poemas De volta à caixa de abelhas (FUNCEB, 2001).

terça-feira, 12 de agosto de 2008

EU, JAMES GANDOLFINI (OU JUKEBOX)


Lima Trindade


Eu era o James Gandolfini naquele filme em que ele contracena com a Julia Roberts. A noite estava quente e seca como o diabo e eu entrei no Caneca de Prata louco por um chope cremoso. Antes mesmo de começar a beber, já sentia o chope escorrendo pela garganta, molhando meu cavanhaque espesso e ruivo, quase castanho. Os lábios, molhados da espuma cremosa do chope, não para me sentir desejável ou sexy ou quente como aquela noite de outono. Muito mais, eu pensei, eu penso, agora aqui sentado no balcão, muito mais que não chovia há um bom tempo e eu não costumava avançar pelas ruas com uma garrafa de conhaque debaixo do braço, oprimido pelo intuito imperioso de encontrar alguém que me amasse como eu era – grande, gordo e calvo; olhos bovinos, mas, no entanto, dentes brancos e perfeitos – porque eu me cuidava de verdade, gostava de mim, gostava tanto que me mimava às vezes e ouvia Charles Mingus e lia Caio com a paixão de quem faz tudo isso sem comer morangos mofados. Se a gente deixa o mofo crescer e se espalhar pelo pulmões, eles fazem um puta estrago dentro da gente. Todavia, ainda que, pense comigo se não tenho razão, ler Caio – eu quase vejo ele em minha frente: magro, alto, olhos bovinos, calvo e a pele esverdeada –, assim como ler Hilda ou Trevisan – eu quase o enxergo também: os cabelos lisos, espetados, os ossos da face, o sorriso e o olhar maroto – ou, me desculpe se excedo, contudo, saiba, é absolutamente necessário que eu escreva, ou ter conosco Lygia e os contos de Lygia, pense e admita, isso é a mesma coisa que na solidão nunca estar sozinho. São quatro anjos pousados sobre nossos ombros. E a gente pode chorar junto de felicidade, a alma saciada e o corpo pedindo mais. O corpo gritando que a gente vá para a rua e entre num bar como esse, onde a luz é parcial e se pode sentar bem de junto ao balcão, mesmo sendo você o James Gandolfini ou alguém parecido com este homem ao meu lado, baixinho, barba grisalha, pele morena e igualmente gordo como eu. Contudo, repare, reparo, parecemos mais fortes do que gordos, pois nossas carnes são duras, rijas e imponentes. Sim, é verdade. Eu e o baixinho ao meu lado. Parecidos com esses aí das mesas ou aqueles lá adiante, a conversar. Ou com o grupo de amigos em pé e do lado de fora. Cães – melhor diria, ursos? – zelosos, protegendo a fachada do bar. Todos eles lembram um pai perdido, um pai que, por um desentendimento qualquer, juntou as tralhas e ganhou o mundo. Não caio nessa. Essa é apenas a leitura mais fácil. A lógica pão-pão-queijo-queijo. Tão simples quanto enganadora. O baixinho ao meu lado possui um olhar tristíssimo, apesar do sorriso meigo e os gestos seguros ao levar a caneca de bebida à boca, molhando a barba de espuma. Ele não parece meu pai. Quero dizer, todos se parecem pais quando são ternos e acolhedores. Que se foda Freud e seus complexos. Quando a gente quer trepar, ao contrário do que segredou minha psicanalista (sim, eu faço análise), a última coisa que lembramos, lembro, é dos pais. Eles nem passam pela nossa cabeça. Se passassem, brocharíamos. Então, se acontece o lance da paixão, pouco me importa querer explicar qualquer merda dessas. Sou eu e ele. Dois caras. Homens. Se amando. E o baixinho é bem bonito. Há um quê árabe nele. Contei que amo os homens árabes? Não? Não importa. Importa. Suas sobrancelhas são grossas e os olhos amendoados. Ele me olha timidamente e enviesado, não diretamente, estamos lado a lado. O baixinho me vê por meu reflexo. Olha minha imagem no espelho em frente. Espelho que se faz de parede e abriga prateleiras com inúmeras garrafas de uísque, vodca, martini. Espelho-parede que reflete a procura, minha, dele e dos demais. Entre garrafas o vejo, bonito como ele só. O garçom traz outra caneca de chope. Devo ter bebido quantos, meu Deus? Sete? Oito? É hora de acender um cigarro. Estamos imóveis os dois. Não respiramos. Lado a lado. Três jovens conversam numa mesa ao centro. Falam de desemprego, crise econômica, corrupção política, desespero. São minoria no bar. Nas demais mesas do salão reinam, absolutos, os coroas. Ou maduros, se preferir. Os jovens são minoria, mas se sentem à vontade. Um deles se levanta, deposita uma ficha na máquina colorida do fundo do bar. Escolhe um tango antigo. Começa a dançar. Não é Gardel. Nem Piazzola. Ele dança com um parceiro imaginário, os braços envolvendo o próprio corpo esguio. O incrível neste bar é justamente isso, nele você pode ser e querer o diferente. Dá-se ao luxo até de ser melancólico numa noite seca de outono. E romântico. Em uma mesa perto da entrada, um homem de bigodes bastos segura a mão de um senhor negro, vestido de jeans e camisa de algodão branca. Fumo meu cigarro. Sou James Gandolfini e posso me transformar em Jack Radclif de um instante para o outro se desejar. Eu, James e Jack. Jack é um homem quase perfeito na opinião de vários conhecidos meus. A salvação, para mim, é o quase. Não gosto de perfeições. Nada mais pobre no mundo quanto algo perfeitinho guardado numa caixinha de cristal para todos apreciarem e serem alertados que não é permitido tocar, avançar a linha amarela ou fotografar. Pff! É como a vida sem a loucura, a música sem a dissonância, a memória sem seus vazios. De qualquer modo, viro-me em direção ao homem árabe. Ele pode se chamar Kalil, Lázaro ou Marcelo. Viro-me. Viro minha cabeça e corpo, esbarrando levemente o joelho em sua cintura, projetando minha vista para além dele, para fora do Caneca de Prata. Estou suando. Permaneço nesta posição alguns segundos, esperando. Ele não se move, o rosto voltado para o maldito espelho que reflete outro espelho na parede atrás de nós. Esquadrinha-me. Ri de mim. Posso jurar mesmo sem ver. Finjo esperar alguém, encaro o relógio e volto para posição anterior, a cara enfiada no balcão, sonhando com a morte. Fim do tango. Silêncio. Suspense. Uma nova música se inicia. Ele se volta para mim. Toca One, do U2. Eu o espio pelo espelho-parede, desenho fragmentado entre rótulos e vidros coloridos de bebidas. É o momento de falar “oi, eu me chamo James Gandolfini”. Reconheço a voz de Bono e balanço a cabeça no ritmo do som. Ele espera um sinal, uma palavra, um gesto meu. Está de frente pra mim. Esperando. Eu despenco. Adio. Faço-me prisioneiro. O pior: capaz de perceber toda a doçura existente neste homem, sentir seu perfume misturado ao sabor tenro de um bom charuto. Escurece dentro de mim. Estamos eu e o árabe juntos. Recordo a cena de um filme, uma página lida em solidão. Milhões de livros despencam de dentro da minha cabeça. Um passeio de carruagem. O veneno e a palidez de um jovem casal. Vivo neles e eles em mim. Lanço meu apelo, meu pedido de socorro, cego sobre os arranha-céus. E não adiantam as telenovelas nos horários nobres, meu coração machucado navega numa caneca gelada de chope. Se eu falasse, talvez seguíssemos por um caminho conhecido, seguro. Nós brindaríamos sorridentes na madrugada. Nossas palavras se emendariam e se complementariam, completando-nos. Quando estivéssemos bem bêbados, pagaríamos a conta, acenaríamos para a pequena imitação do David de Michelangelo na estante e avançaríamos São Paulo adentro no meu velho carro prateado. Eu mostraria a ele minha casa, as fotos premiadas numa exposição, minha banheira. E, antes do amor, eu secaria suas costas com toalhas felpudas, exibindo toda a minha calma e tranqüilidade. Depois, diria ao meu homem árabe que foi tudo muito mais do que uma boa foda. Ele juraria um amor misturado a choro e bebedeira. Eu acreditaria. Eu quero acreditar. Dividiríamos nossas horas entre filmes em preto e branco e beijos intermináveis. Seria este o cenário. O amor, novamente um clichê. Transformaríamos nossas vida num roteiro ruim. E então, quando não sobrasse insignificância que não fosse conhecida, o celular dele tocaria baixinho, quase sem alarde, sorrateiro. E de seu ruído morno, o convite para a despedida. Eu não sou daqui, ele me dirá... Eu não tenho amor... Sou da Bahia... De São Salvador. O telefone e um chamado urgente. Eu mudo, diante do fim. Estarei no aeroporto e não terei coragem de estender meus braços. Ele não olhará para trás, para encarar a fúria e o desespero do meu corpo. E eu não estarei mais lá. Eu, um pobre James Gandolfini abandonado. Ele, meu homem árabe. Ou, imagine, imaginem, nada tanto assim. Talvez apenas eu e ele parados dentro desta noite quente como o diabo, outonais. Estaremos no Caneca de Prata e o calor agitará o ar até que espessas nuvens se formem, o vento irrompa sem aviso e grossas gotas de chuva despenquem com virulência, alagando as saídas do metrô, levando as árvores da praça e inundando nosso bar com a maior tempestade de amor que existiu no mundo. É a mesma tempestade que me fez, me faz, aqui, no Caneca do Prata, chamar o garçom e pagar a conta, deixando-o ali, sentado no balcão. Tão distante e inalcançável como é belo o azul.




LIMA TRINDADE é autor de Supermercado da Solidão (Novela, LGE, Brasília, 2005), Todo Sol mais o Espírito Santo (Contos, Ateliê Editorial, São Paulo, 2005) e Corações Blues e Serpentinas (Contos, Arte PauBrasil, 2007).

Foto: Lima Trindade e Gerana Damulakis

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

INFÂNCIA E TEMPORAL



Alexandre Core




Grades de ferro e temporal.
E eu olhava o mundo da janela
Embaçada pela minha respiração.
Lá fora, o céu cinzento.
Lá dentro, solidão de menino
Vendo as pessoas correndo da chuva,
Tentando um abrigo sob as marquises.
Quanta tolice!, eu pensava...
Quando o que eu mais queria
Era correr com o vento.
E a praia logo ali como um convite,
E o mar em ondas me chamando,
Sucessivas vezes quebrando
Meu nome e sobrenome sobre as pedras.
Mas eu ali, preso e casto, pois
Nem uma gota de orvalho maculara
O desejo por detrás daquelas grades.
Riscos de fogo pelo céu invadem,
E conto o tempo entre clarões e trovões,
Agarrado ao leme do meu návio-janela
Mãe, solta-me na chuva, por favor.
Ser criança é um temporal de fim de tarde...
Imaginação que urge e arde,
E quando se dá conta já passou.



Alexandre Core posta seus poemas no blog Anema & Core (entrada pelo meu "Favoritos"): http://anemaecore.blogspot.com/
Foto retirada do Flickr, de Rui de Carvalho.

domingo, 10 de agosto de 2008

A CRÔNICA DE UM ENCONTRO


Gláucia Lemos



Começou com a moça errando a escada. Subiu dois lances, conferiu os números nas portas dos apartamentos, não era o número do seu destino. Deveria ser na escada anterior. A moça não era muito de subir escadas. E se não era de subir, menos ainda de descer. Tinha medo de descer escadas, de vez em quando deixava o salto no degrau anterior e lá se ia escada a baixo. Mas que remédio? Segurou bem firme no corrimão e desceu os dois lances. Retornou alguns passos no térreo, alcançou a escada certa e subiu outros dois lances dos novos degraus. Chegou finalmente a seu destino, ofegante. Era hora dos abraços bem embalados com os amigos. Um foi falando que esperava sua vinda para ter quem servisse aos convidados, esse era um dos seus favoritos cumprimentos de boas-vindas para a moça. Ela sabia que no dia em que ele não a cumprimentasse assim, seria um sinal de que a amizade estava abalada. Seguiu-se a troca de novidades entre risadas e comentários. Chega mais um amigo, e logo mais outra amiga, a conversa anima, fala-se de tudo e ri-se por tudo e por nada. Todo mundo está previamente preparado para a alegria do encontro.
Quem trouxe o quê para a ceia, cada um já levou para a cozinha. Sim, é preciso colaborar com o anfitrião que, embora aprecie receber amigos, afinal não está aí para alimentar poetas participantes do sodalício que apareçam à hora sagrada da ceia para filar bolos de milho ou de chocolate e outras iguarias por propósito preparadas, à custa da generosidade anfitriã. É verdade que o dono da casa disse não ser preciso: - vai sobrar muita coisa; mas os poetas têm boas-maneiras e todos trouxeram suas bandejas.Apareceu até uma garrafa de vinho. Comentaram os de bom paladar que o somelier foi muito feliz na indicação, o vinho bem que era da melhor safra e alguns se regalaram, molhando com gosto as palavras durante o ágape.
A moça limitou-se a seu refrigerante zero-açúcar, que, se toma vinho, começa a morrer de tédio e acaba entristecendo em meio à alegria geral.
Finda a ceia bem temperada com gracinhas em torno de taças e copos especiais para cada bebida, o que quer dizer, para água e guaraná, copos azuis; mas para o vinho, copos brancos para que a límpida coloração do néctar – que (sem faltar com o respeito) até Jesus Cristo também tomava, a Bíblia conta - mostrasse sua pureza colorida. Dizem os apreciadores que se até Jesus distribuiu vinho a seus apóstolos na Santa Ceia, por que nós, vis pecadores, não o podemos fazer nas nossas ceias profanas?
Então teve início a verdadeira finalidade do encontro. Foram lidos os poemas, mais os poemas inspirados por outros poemas, os melhores poemas de alguns poetas, e alguns menos melhores até de grandes nomes como Pablo Neruda. E se brincou, e se pegou no pé do anfitrião, e foram feitas fotografias repetidamente – mais uma que esta não ficou boa, uma com Fulano e mais uma com Beltrano, não se esqueça de me mandar pela Internet e por aí a fora.
22 horas, ou melhor 10 horas da noite, baianamente falando. Hora de retornar para casa. A moça quis saber quem iria levá-la na carona. Porque a moça não dirige carro. Já lhe chega dirigir a própria vida, cuja direção não concede a ninguém, nem por decreto do papa, nem para pagar promessa. Despedidas, abraços longos, confissões de alegria pelo reencontro, beijinhos trocados. Então o anfitrião resolve, e quer porque quer que cada qual leve de volta o que sobrou do que trouxe. Ninguém concorda, o anfitrião insiste, e fica todo mundo parado, esperando o que será resolvido sobre o destino de uns certos salgadinhos e uns gostosos quadriláteros de chocolate que o dono da casa implicou para que voltassem à sua origem nas mãos de um dos poetas que se recusava a recebê-los. A moça não viu o que ficou decidido, mas tem quase certeza de que continuaram na mesa do anfitrião. Então todos finalmente saíram. Saíram juntos todos os que tinham chegado sozinhos. A moça desceu mais uma vez os degraus de mármore, bem agarrada ao corrimão e cuidando muito bem dos saltos para não deixar um deles preso no degrau anterior. Cada qual rumou para seu carro ou sua carona. Pareciam felizes. Estavam felizes.
Moral da história: procure sempre encontrar os seus amigos. Cada reencontro fortalece a amizade, renova a alegria no coração e torna a vida muito mais bonita.

Foto de Lima Trindade: da direita à esquerda temos Lima Trindade, Gláucia Lemos, Kátia Borges, Luis Antônio Cajazeira Ramos e, praticamente no chão, Gerana Damulakis.

sábado, 9 de agosto de 2008

CALENDÁRIO, livro de Márcia Tude



por Goulart Gomes




O que teria levado a poetisa Márcia Tude a dividir o ano em seis partes? Os meses e os signos o divide em doze; as estações, em quatro. Márcia decidiu agrupá-lo aos pares – calendas gregas – talvez por sua natureza geminiana ou germiniana. Este calendário que hoje utilizamos, o devemos aos romanos: Calendas era o primeiro dia do mês daquele povo do Lácio, quando surgia a Lua Nova e seu sinal de renovação. Até então, o mês era o período entre duas luas e a semana era ditada pelas suas quatro fases. Apenas com o imperador Júlio César, 46 anos antes do Cristo, seria adotada a medida solar. Mas as mulheres continuam sendo luas que menstruam, como adverte Elisa Lucinda.

Calendário, o primeiro livro publicado por Márcia Tude, é bimestral em sua essência, cada capítulo agrupando os pares de meses, misturando as estações. A reinvenção desse milenar modo de fatiar o tempo (ajuda-me, Drummond!) concedeu a ela um dos Prêmios Braskem de Cultura e Arte 2008. Calendário já nasceu com a grandeza de um ano inteiro, escorrendo dos dedos de uma poetisa que nada tem de bissexta.

Há vários anos que Márcia tece os seus dias com a linha da poesia, seja como ávida leitora de clássicos e modernos; seja como editora de escritores contemporâneos, nas páginas do jornal Correio da Poesia e na sua recém-nascida editora Livro.com. O ordenamento do seu texto não é incipiente, é instigante, e tudo incomoda a Narciso, não sendo espelho. A sua seleção vocabular é própria do seu tempo e dos seus sentimentos, dlas suas amarguras e paixões: “Toda mulher tem uma rosa ao ventre, brotando ao rés do solo”, ela nos confessa, entre Setembro e Outubro.

Que importa se as folhas caem entre Janeiro e Fevereiro? É outono no outro hemisfério do coração. Março e Abril passam em clima de primavera, com flores no jardim, lareiras imaginárias, cheiro de frutas, vendavais em campos de pluma, vento frio, areia branca e gemidos de sol e sal. “Nada resiste ao mês de abril” e ninguém resiste à força telúrica de Calendário, que tem por títulos dos poemas algarismo... romanos. De Maio a Junho as meninas desfilam, talvez a própria, uma delas, e “os rapazes da praça dão adeus quando ela surge”: Eliot, Yeats, Pound, talvez, os poetas com os quais dialoga.

Os dísticos surgem de Julho a Agosto, versos curtos, intrincados, sintéticos. Todos sabemos que esses não são meses para se pescar. Mas Márcia se aventura ao mar, costura redes para apanhar estrelas, transmuta-se em ninfa, ondina, sereia, tece teias e enreda-se no oceano. Em Setembro e Outubro surge o soneto, “marcante feito o corte da navalha”. Márcia cultua a métrica, mas se permite a liberdade, nos versos e na imaginação.

O ano termina com apenas seis poemas. Novembro e Dezembro: cantos de pardais, frágeis pássaros, uma pomba que arrulha. O livro termina, mas o Tempo, senhor de todos os Destinos, não se acaba. Observem: nunca destacamos a última página da “folhinha”. A cada novo ano o calendário renasce, como renovam-se as nossas noites, Phoenix ressurgindo do fogo da poesia. Bailam sobre as datas, os dias. Surge, em plenilúnio, uma nova poetisa, Márcia em sua pleni-Tude. Nem Júlio, o César, que aprendeu a divinizar o Sol enlevado por sua Cleópatra, jamais imaginaria.