quarta-feira, 30 de julho de 2008

HOMEM


Kátia Borges



Meu homem chega cansado,
o suor grudado na pele.
E eu, que o imagino calmo, me deito,
rosto contra o travesseiro
e aguardo.
Ele deita seu peso sobre meu corpo,
e seu cheiro é forte,
como o de um cavalo.
Sinto seu hálito no pescoço,
suas pernas forçando passagem
entre minhas pernas.
O amor não tem rosto, penso,
é essa pressão — pele contra pele
— esse atrito de pêlos.
Quero dormir e sonhar que nos amamos,
e que antes de me possuir, ele me despe, delicado.
Quero dormir e sonhar que ele chega,
só em sonho posso tê-lo sem essa fúria.

(poema do livro “De Volta à Caixa de Abelhas”). Ilustração de Adriano Fujinaga, retirada do Flickr.

PRÊMIO CAMÕES 2008


O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro venceu o Prêmio Camões 2008.
A lista dos vencedores:
1989 Miguel Torga (Portugal, 1907-1994)
1990 Joao Cabral do Melo Neto (Brasil, 1920-1999)
1991 José Craveirinha (Mozambique, 1922)
1992 Vergilio Ferreira (Portugal, 1916-1996)
1993 Rachel de Queiroz (Brasil, 1910-2003)
1994 Jorge Amado (Brasil, 1912-2001)
1995 José Saramago (Portugal, 1922)
1996 Eduardo Lourenço (Portugal, 1923)
1997 “Pepetela” Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos (Angola, 1941)1998 Antonio Candido (Brasil, 1918)
1999 Sophia de Mello Breyner (Portugal, 1919-2004)
2000 Autran Dourado (Brasil, 1926)
2001 Eugenio de Andrade (Portugal, 1923-2005)
2002 Maria Velho de Costa (Portugal, 1938)
2003 Rubem Fonseca (Brasil, 1925)
2004 Agustina Bessa-Luis (Portugal, 1922)
2005 Lygia Fagundes Telles (Brasil, 1923)
2006 Luandino Vieira (Angola, 1935)
2007 Antonio Lobo Antunes (Portugal, 1942)
2008 João Ubaldo Ribeiro (Brasil, 1941)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

A GAROTA DO TERCEIRO ANDAR



Fred Matos


Para Gerana Damulakis



Decidiu quando acordou que aquele seria um dia diferente, encheu de café a garrafa térmica, muniu-se do adoçante, de uma xícara, arrumou os papéis, pôs ordem na mesa, ajustou a cadeira, ligou o computador. A luz da manhã, mesmo filtrada pelo vitral psicodélico da porta da varanda, incidia sobre a tela. Levantou-se, improvisou uma cortina. Hoje nada de Internet, nem me ocuparei com jogos. Abriu o editor de texto, escolheu a formatação para parágrafos e fonte. Lá estava, alva, a tela que deveria receber a sua obra prima, a obra para a qual se sentia preparado após longos cinqüenta anos de leituras, dos clássicos da antiguidade até os vanguardistas contemporâneos. O primeiro cafezinho. Acendeu um cigarro. Não tinha história pronta ou iniciada na cabeça, mas isso não o preocupava. É tudo uma questão de começar, depois palavras virão puxando outras e será como na conversa de dois amigos que se reencontram após longos anos de separação: ao mutismo, à falta de assunto inicial, uma qualquer lembrança será a pequena chama que acende o pavio. É inevitável a explosão e as suas conseqüências, páginas e mais páginas de boa prosa, um lugar na Academia de Letras, o nome nos jornais, convites para palestras, viagens, coquetéis, noites de autógrafos, o sucesso, o Prêmio Nobel, o assédio das fãs. Mãos à obra. Preocupa-o agora definir um estilo. Podia optar, mas não se sentia atraído pela prosa arrastada e detalhista de Proust, nem pela complexidade do Joyce de Ulisses. Pensou na pontuação subversiva de Saramago, mas não queria que a sua obra-prima fosse recebida e citada pela crítica como um pastiche. Imperioso, portanto, afastar a tentação de beber nas fontes de Guimarães Rosa. A tela ainda branca, serviu-se de outro café, outro cigarro. Levantou-se, reajustou a altura da cadeira, caminhou pela sala. Será o meu próprio estilo, uma mistura de todos os estilos que conheço. Preferia romances novelas e contos com começo meio e fim, comparava-os a uma estrada reta e ensolarada, cujo previsível destino é, aqui e ali, interrompido por incursões em pequenas veredas acidentadas que ao cabo retornavam ao fio escorreito da narrativa, mas algo assim não terá o impacto que desejo, cairá na vala comum do esquecimento, devo tratar de montar um quebra-cabeça, contudo sem deixar a possibilidade de que se pense ter imitado o Cortázar. Terei fôlego para um romance? Veremos, não devemos antecipar dúvidas quando sequer se tem um começo.
Lembrou-se na moça do prédio defronte. Todos os dias, das segundas às sextas-feiras, pontualmente às 19 horas, ela abre as cortinas e a janela do quarto, põe pra tocar uma música que ele não ouve, despe-se e dança. Nos primeiros dias envergonhou-se por invadir a privacidade da moça e retirou-se, depois não resistiu. Ela há de me ver aqui, é tão próximo, que feche as cortinas. Mas vendo-o, ele tem certeza que ela o vê, não demonstra pudor. Exibe-se para mim. É bela e jovem, cerca de vinte anos. Depois de dançar nua alguns minutos, ela penteia cuidadosamente os cabelos longos castanhos escuros, veste-se, unta os lábios com batom vermelho, dança mais alguns minutos em frente a um espelho que há na porta do guarda-roupa, fecha a janela, as cortinas e sai. Ele continua na varanda, espera que alcance a rua e a acompanha com o olhar até que desapareça na esquina. Sabe que o espetáculo de strip-tease se repetirá às dez da noite, hora que ela chega, sabe-se lá de onde. Posso criar uma história a partir disto. Mas estava decidido a não se permitir fantasiar com aquela ou com qualquer outra moça, achava que não tinha mais idade para aventuras. Já é bastante que me inflame, não devo me envolver com ela, sequer literariamente.
Sentou-se. Outra vez a tela alva, outro café, outro cigarro. Desligou o rádio. As vozes, as músicas estavam interferindo. Impossível obter silêncio, da rua chegam freios, motores, vozes, latidos e há o barulho monótono e redondo do cooler ventilando o processador do micro. Já sei, preciso escolher uma boa citação, tomá-la talvez como mote, fio condutor. Levantou-se. Foi à estante, tantos livros, gavetas atulhadas de anotações. O mais inteligente é escolher algo que permita mil e uma interpretações, algo indefinido que eu e o leitor possamos preencher com a nossa imaginação. Abriu ao acaso Fernando Pessoa nas “Ficções do Interlúdio” de Álvaro de Campos. Lá estava, perfeita:
“No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...”
Agora sim, três versos na tela, parágrafo alinhado à direita, fonte em itálico e negrito em corpo 10. Café, Cigarro. Uma hora gasta deste dia que se prometia diferente de todos os outros, e nenhuma palavra realmente minha, deve ser a ansiedade, talvez o excesso de luz e de ruídos, ou a ausência de lembranças, o temor de criar personagens à minha imagem e semelhança, personagens acanhados. Venceu a vontade de jogar contra o computador uma partida de dominó ou de gamão. Não me renderei aos passatempos inúteis. Venceu a vontade de ler as mensagens dos amigos, gastaria muito tempo respondendo-as. Preciso de uma idéia. Lembrou-se que muitos autores fizeram fama e fortuna recontando fábulas antigas, pareceu um caminho fácil e óbvio. Não é o que farei. Talvez no jornal haja algo. Levantou-se, trocou o pijama por um short, foi à banca da esquina, comprou o jornal, tantas páginas, milhares de palavras, nada, nenhuma notícia realmente nova, nada inusitado, nenhum humor que pudesse usar, vestir com a sua verve. Duas horas, tantas xícaras de café, inúmeros cigarros, e tudo o que havia eram três versos de outrem. Limpou o cinzeiro. No fim de tudo dormir. No fim de quê? Devo me concentrar nestes versos, não necessariamente entender, deixar que eles me tomem, despersonalizar-me. No fim de quê? No fim do que tudo parece ser. E o que é que tudo me parece ser? Um vazio cheio de pequenos momentos vazios. Mas aquilo que me parece não essencialmente o é. Sacudiu a cabeça como para afastar a melancolia daquelas reflexões. Não há que se servir ao leitor um prato frio de angústias existenciais, isso é coisa que todos têm de sobra, é preciso dar ilusões, a possibilidade de identificação com um dos personagens, comovê-los. Não foi uma boa escolha a citação. Apagou-a. Não levantou, o livro de Pessoa estava ao alcance da mão, abriu-o, página 158, Caeiro: “... Que me importam a mim os homens. E o que sofrem ou supõem que sofrem?” Não, esta não me serve. A mim os homens importam muito e o que sofrem e sentem deve ser a essência de qualquer boa obra. Lembrou-se, não precisou procurar no livro, da Tabacaria: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Fechou o livro. Quatro gotas de adoçante na xícara. Dois dedos de café morno. Outro cigarro. A tela alva refletindo seu rosto.
Sentiu fome, e, como se sabe, o estômago precede a literatura, as necessidades básicas da sobrevivência ao prazer estético. Esquentou o resto de feijão que sobrara da véspera, fritou dois bifes, bebeu cerveja. Sei que me dará sono, melhor assim, durmo o resto do dia. Adiou para a noite uma nova tentativa. Na cama, a cabeça cheia de idéias, o sono não veio. Voltar ou não ao micro? Melhor ter primeiro a trama bem concebida e, mais importante, por onde começar. Nunca fora um observador arguto, desses que retêm cada aspecto da paisagem, da indumentária das pessoas, dos gestos, das inflexões vocálicas que podem variar de uma região para outra, dos aromas, principalmente dos aromas que tanto contribuem para enriquecer os textos, da vegetação, ele que mal sabe distinguir entre uma rosa e um hibisco. Ligou a televisão. Em todos os canais o mesmo péssimo programa. Desligou. Bebeu outra cerveja, a cada dois copos um cigarro. Francamente, estou convencido que não tenho um grama de imaginação. Decidiu sepultar definitivamente o projeto de escrever obras-primas, ligou o rádio, Caetano Veloso cantava “Outras Palavras”. Eu não as tenho. Nenhuma palavra. Nenhuma história que valha a pena contar. Fechou o editor de texto. Desligou o computador. Desmanchou a cortina improvisada e foi tomar sol na varanda. O sol se pondo atrás das montanhas, o céu tinto de todos os tons que se pode obter na mistura do amarelo com o vermelho, um pequeno avião decolando. Hoje é sábado, não esperava que houvesse strip-tease, mas lá estava ela, ainda mais bela à luz do crepúsculo e hoje, diferente dos outros dias, ela não se contentou com a dança voluptuosa, masturbou-se em pé, no meio do quarto, o único local de onde podia se exibir inteira. Não restou dúvida, ela o via e sentia prazer em ser admirada, em provocar a libido dele. Quando escureceu, o computador continuou desligado e o candidato a escritor, completamente esquecido dos seus projetos literários, conjeturava se valia ou não a pena tentar uma aproximação com a garota do terceiro andar.



Fred Matos é autor do livro de contos Melhor que a encomenda (FUNCEB, EGBA, Selo Letras da Bahia, 2006). Foto de jan_zamoyski retirada do Flickr.

POEMA DE ILDÁSIO TAVARES







Que fará o favor que vós não dais
Quando o vosso desprezo torna a vida?
Luis de Camões






Quando me condenaste ao exílio, amiga
seqüestrando de mim a tua imagem,
restou-me a dor por esperança, aragem
que o coração, por ilusão, abriga.
Julgaste. Sentenciaste. A alma mendiga
vagou (pelo relento da paisagem)
esfarrapadamente na friagem
quando me condenaste ao exílio, amiga.
Não obstante, eu te quero ainda mais
e o teu desdém me atrai e tem-me preso,
barco que o vento traz de volta ao cais.
Minha inimiga, se arde assim meu peito
quando é só o desprezo que me dás,
será o sol se tu me dás teu leito.




Ildásio Tavares fez Letras na UFBA, Mestrado na Southern Illinois University, Doutorado na UFRJ, Pós-Doutorado na Universidade de Lisboa. É poeta, ficcionista, cronista, tradutor, compositor, especialista em Ernest Hemingway e em Camões. Um de seus títulos mais recentes é O Domador de Mulheres, da Imago Editora, 2003.

sábado, 26 de julho de 2008

O TAL UNIVERSO PARALELO





Gláucia Lemos




De vez em quando ficam em moda determinados assuntos. Aparecem líderes, quando é o caso, ou os donos da verdade, quando se trata de descobertas,. Em conseqüência crescem facções, quem é a favor, quem é contra, quem acredita quem nega, quem não está nem aí.
Foi assim anos atrás, quando alguém ouviu, ou leu, a respeito do universo paralelo, e o assunto virou até música de Gil. Sei quase nada sobre o assunto, somente - resumindo – que seriam doublés de cada pessoa, que existiriam em uma outra dimensão, portando as mesmas características nossas, isto é, dos que vivem aqui nesta nossa dimensão, no nosso mundo material. Sou pessoa de credulidade muito rala, a quem qualquer coisa não convence facilmente, por isso nunca me interessei em me inteirar com profundidade. E mais não sei.
Os fatos da vida vão se juntando, nossos, como dos nossos circunstantes, e lá um dia a gente se pega à toa, sem propósito, matutando sobre eles. Vamos juntando coisas e quase sem querer, como quem junta peças de jogo de armar, vamos tirando conclusões, às vezes lógicas, às vezes hipotéticas e até fantasiosas.
É assim que estou acreditando que todos nós – ou pelo menos razoável maioria – temos o nosso universo paralelo. Mas não pensem que aderi à teoria do duplo – para mim bastante improvável. Um universo aqui mesmo nesta nossa dimensão material suficientemente pragmática que é a nossa realidade. Será o universo pessoal, privado, oculto, no qual vivemos paralelamente ao universo social do qual participam familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos, enfim todos com os quais socialmente participamos da existência, inclusive os nossos mais íntimos.
Vejamos: Quem não tem, no caminhar da existência, um fato ou um ato guardado lá no escaninho mais estreito da memória, ou do coração, não importa há quanto tempo, que não abre para ninguém? Pode ser um fato inocente, até que não passaria de bizarro, ou mais grave e até criminoso que macularia a dignidade. Uma gafe em local inconveniente, um escapar de um arroto em público ou em presença cerimoniosa, uma infidelidade amorosa, uma traição a amigo, uma mentira injustificável, um amor impossível e condenável que não se esqueceu? Este conteúdo que não se revela, no entanto não há tempo que o apague - porque já diz o ditado que palavra dita e pancada dada nem Deus tira - causaria constrangimento sendo conhecido, ou condenaria às labaredas do inferno segundo o arbítrio dos justos. Este conteúdo permanece no nosso universo que cá está paralelo ao universo social do nosso cotidiano.
Sabemos de pessoas, casais, que um dia se conheceram em circunstâncias normais, e sem a intervenção da vontade, de mera conversa se identificaram como se houvera anterior entrosamento, o sentimento se fazendo mais profundo que a fugacidade da paixão, ou a embriaguez do encantamento. E daí nunca mais foi possível se separarem. Quem entende dos mistérios que transitam entre uma mulher e um homem, quando uma verdade se põe entre os dois? Solidificou-se um sentimento que socialmente seria condenável, por haver implicações anteriores. Separam-se, mas permanecem um na vida do outro em silêncio, e nem sob suplício chinês o revelariam a quem quer que fosse. Esse amor está vivendo no universo paralelo dessas pessoas.
Ou não se separam e optam por vivê-lo perigosamente, como quem furta a própria felicidade, usufruindo outra vida, ao lado da vida social que continuam mantendo, e que é a que todos conhecem. Quem não presenciou ou soube de alguns quadros semelhantes? E esse é só um exemplo entre muitos, por ser o mais comum, de vidas que pulsam em um universo paralelo, o do segredo da transgressão. Ninguém vê essa realidade, mas ela existe, nesse universo inviolável que todos temos.
Estou convencida de que o universo paralelo existe, no qual não temos um duplo nos representando, somos nós próprios, unos e indivisíveis, vivendo as circunstâncias inevitáveis que nos colhem, para o bem ou para o mal.



Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. Mais de 20 títulos publicados e vários prêmios fazem parte de sua carreira literária. Foto de Juan Pablo, retirada do Flickr.

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