terça-feira, 11 de dezembro de 2007

TRANSE RITUALÍSTICO



Carlos Vilarinho

Foi quando lambi Eleonora pela primeira vez que a minha memória brilhou. Fingia que dormia e ia, em seguida, espreitar minha mãe e meu pai antes de dormir. Ouvia de mês em mês, meu pai dizer para minha mãe.
— Ah, Luciana! Que maravilha de sangue.
Ele estava com a cabeça enterrada entre as pernas de mamãe. Sempre tive curiosidade de saber o que aquilo significava e voltava para a cama com o gosto de sangue na lembrança. Ficava intrigado também com o sussurro de pathos que minha mãe emitia. Parecia uma comoção empírica que ela tirava do fundo da alma. Ao mesmo tempo a angústia e o remorso de pecador me perseguiam lado a lado. Sentava na cama e rezava o Pai-Nosso e a Ave-Maria.
— Não me castigues, ó Deus, todo poderoso! Livrai esse filho, ainda menino, da expiação luxuriosa.
E então estudava latim para me tornar padre. Havia um sacerdote estranho e esquisito, contava histórias escabrosas e, em todas as oportunidades, contava num ímpeto irregular olhando para mim. Como se soubesse o que eu seria em poucos anos a partir dali. Tinha uma fundura nos olhos e um olhar penetrante de quem quer hipnotizar. Todos tinham medo, menos eu. Eu ria de través querendo despertar um desejo obscuro. Foi assim que percebi qual a data que meu pai chupava o sangue de minha mãe. Era todo dia vinte e oito. Cresci espionando todo dia vinte e oito do mês. Quando era adolescente, lá pelos quinze, dezesseis, eu olhava e depois me masturbava gozando um prazer estranho. Prazer de ter minha mãe. Queria ser Édipo. Acho que minha mãe chegou a perceber, pois um dia ao andar pela sala, ela baixou os olhos em mim e me viu teso, olhando as suas ancas.
E assim fui crescendo, esperando ter uma mulher e sem conseguir nenhuma.
Eleonora chegou para cuidar de meu pai. Era uma sarará bonita e grande, cheia de sardas pelo corpo. Meu pai ficou estafermo, não servia mais para nada. Minha mãe ia receber o soldo da aposentadoria e deixava a metade na farmácia. Se não fossem as casas de aluguel que construiu, teríamos passado fome. Eu não sabia o que eu mesmo era. Não consegui ser padre. Um dia vi minha mãe conversando e gesticulando muito forte com o sacerdote. Não sei o que houve, mas depois desse dia ela nunca mais foi, nem me deixou, voltar à igreja. Ali, naquele tempo, eu já sabia o que significava a cabeça de meu pai entre as pernas de minha mãe. Era quase um masturbador profissional. Entretanto sabia que ainda faltava algo em mim que por certo se concretizaria algum dia.
— Ah, Luciana! Que maravilha de sangue.
Era um silogismo que faltava a inferência da conclusão. Eleonora então fazia o seu trabalho regiamente, fazia a comida, lavava a roupa e banhava meu pai todos os dias. Eu a olhava com uma fome diferente. E algo grunhia na minha barriga descendo pela virilha. Comecei a pensar qual seria o dia da sangria de Eleonora. Tentei de várias formas olhar o volume entre as suas pernas, mas não conseguia discernir. Eleonora era tão grande quanto o que havia entre as pernas. Não sabia se o volume que via era natural, ou fabricado colado à calcinha. Também ela fechava a porta, durante o banho, bem fechada, além de, ao que parece, tampar a fechadura com papel higiênico.
E eu continuava sem mulher aos vinte nove anos. Eleonora tinha uns trinta e cinco por aí. Um dia vi que me olhava esgueirando-se na porta da cozinha. Passava os dias assistindo televisão e sonhando com as atrizes de novela. Sonhava tanto que às vezes trocava os nomes de minha mãe e até de Eleonora pelo das atrizes. Acho que isso despertou uma certa curiosidade em Eleonora, noveleira que era também. Então começamos a conversar brevemente. E por vezes notava um sorriso meigo de Eleonora para mim. Mas eu sorria pouco, nem sabia direito o que significava sorrir. Quando estava no catecismo o sacerdote dizia que risos e galhofas eram parte do demônio e, em seguida, ele mesmo ria um riso satânico. Que por sinal eu adorava e aprendi a rir só daquele jeito. O riso de Eleonora era diferente, era mais leve e brando. Acho que aquele deveria ser verdadeiramente o riso de uma mulher. Comecei então a ficar mais perto de Eleonora, mesmo sem jeito e acabrunhado. Aos poucos Eleonora acumulou funções. Passou a me servir também, além de os afazeres com meu pai. Minha mãe logo desconfiou e, ao contrário do que eu imaginava, incentivou Eleonora a me seduzir.
Em poucos dias dei o primeiro beijo da minha vida. Meu beiço tremia e meu corpo todo esquentou. Lembrei de meu pai e o sangue de minha mãe. Quando chegava perto de Eleonora sentia uma fome diferente, como já havia dito antes. Sentia a carne quente e macia da sarará cheia de sardas. Como não tinha experiência com mulher, custei a me firmar diante de Eleonora. Meu pai moribundo não me dava instruções sexuais. Nunca dera, não seria agora depois de semimorto que daria. Minha mãe foi que um dia chegou bem perto de mim e me disse com agir com uma mulher. Fiquei muito constrangido e indignado com aquele atrevimento sem pudor de minha mãe. Senti de novo o cheiro de sangue. Dessa vez ele emergia de minha mãe.
Aos poucos então a minha dúvida foi se diluindo. Já sabia mais ou menos o que queria fazer e quem eu era na verdade. Pus-me então a orar dia e noite.
— Não me castigues, ó Deus, todo poderoso! Livrai esse filho, agora homem crescido, da expiação luxuriosa.
E rezava em latim. Um dia ao entrar no quarto de meu pai vi os seios de Eleonora, fiquei vermelho de vergonha e saí. Eleonora veio atrás de mim e, decidida, começou a me acariciar. Disse-lhe que parasse que o pior poderia acontecer. Tentava então avisar, pois já sabia o que eu era de fato. Mas ela não deu ouvidos e disse que tinha sangue entre as pernas. Imediatamente foi acionado dentro de mim o que havia desde criança e só descobri alguns meses atrás. Fui para o quarto com Eleonora e comecei a lamber-lhe as pernas, lembrando das palavras de meu pai com minha mãe quando eu os espreitava. Lambi todo o sangue que saía de Eleonora, suguei tudo. Em seguida fiz minha segunda vítima em três meses de antropofagia delirante. Abocanhei todo o sexo de Eleonora e com uma mordida firme arranquei os lábios vaginais. Eleonora deu um grito de dor lancinante, tentou desvencilhar-se e com minha força descomunal, mordi as nádegas. O sangue então jorrava com mais abundancia. Lembrei do bebê que havia devorado semanas atrás. A carne era diferente. A do bebê era mais deliciosa e suculenta, mais macia. A carne de Eleonora era um pouco mais dura e acho que as sardas davam um gostinho meio acre. Parecia que tinha sido banhado com limão, mesmo assim havia em mim um apetite monstruoso. Entendia então a fome diferente que passei a sentir por Eleonora. Como um lobo faminto, destrocei toda a parte carnuda da mulher que já não respirava e, em êxtase canibalesco, lambia e chupava-lhe as costelas. Ao terminar, voltei a mim, não sabia quem eu era realmente: se esse que voltara do transe antropofágico, ou aquele imbecil que nunca fizera nada na vida. Como me livrar daqueles restos ali? Foi então que vi a figura de meu pai em pé se escorando em alguém, moribundo e rindo o riso dos sádicos.
— Muito bem, pensei que nunca ia aprender...
Vi, então, que quem o escorava era minha mãe, já com um saco para colocar os chupa-molhos que sobraram de Eleonora. Levamos para o quintal e fizemos o ritual de agradecimento ao deus canibal...




08/12/07
Carlos Vilarinho é autor de As Sete Faces de Severina Coalha & Outras Histórias (FUNCEB, 2005).
A ilustração foi retirada do Flickr e é de La Manzana Digital, tendo por título Vampiro Baudelaire.

domingo, 9 de dezembro de 2007

ENCANTAÇÃO


Gerana Damulakis



Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui

Manuel Bandeira



Diz a lenda que a alcachofra guarda o mistério, todos os segredos do amor pleno, do romance realizado.Com sua aparência de coisa que existe desde a memória dos tempos, exige uma paciência romântica para ser degustada. É preciso despetalá-la até chegar ao coração que, ainda segundo a lenda, além de ser a parte mais saborosa, é a mais nutritiva e a que guarda, afinal, os fluídos afrodisíacos. Um ritual, portanto. Há de ser cumprido o percurso. O percurso é tudo.
O encantamento e a carne são duas palavras que se situam em cantos opostos. O encantamento está mais ligado ao lirismo, seja pela natureza, pela alma, pelo próprio amor, de preferência platônico, distante, com muita dor e sofrimento e saudade e impossibilidade.
A carne, dito assim, lembra um bife suculento; seguramente, se você não é vegetariano, pensa em algo comestível. Há, é certo, os que são movidos à libido e, então, a carne é a palavra para a apetitosa exibição de algum corpo perfeito, uma Vênus saindo da concha ainda com gotas salgadas escorregando por sua pele. De qualquer forma, encantamento e carne têm sonoridades distintas.
E é dessa conceituação que nasce a história de um homem. Um homem plenamente realizado nos setores que criamos para gerar bastante angústia e ansiedade na vida quando não perfeitamente preenchidos. Ele é um sósia apolíneo, com um perfil helênico, maçãs do rosto salientes como as dos corsos e dos sardos e um cérebro privilegiado: ali está tudo desde Zola e Sartre, de Valéry e Foucault, de Proust a Camus. Entende Einstein e sua relatividade, afora outras físicas.
Quanto às mulheres, várias passaram por sua vida, jamais deixou de conseguir aquela que despertou um mínimo de interesse. Até conhecer Maria. Foi daí que surgiu a tal expressão “encantamento pela carne”, encantação.
Ninguém entendia a razão da paixão despertada num homem como ele, primeiramente porque ela, Maria, não é uma mulher que tenha atrativos: tão normal, insípida, apagada, alguém que quase não existe.
Convencido do que queria, ele partiu para conquistar a mulher feita de carne tão especial. No início, chamava-a ao telefone apenas para desejar bom dia, carregando na voz grossa e rouca, daquelas irresistíveis. No final da tarde, mandava-lhe flores; das flores foi um passo para os bombons, chegava um telegrama convidando-a para jantar. Vinha a parte mais difícil, ele ficava horas e horas junto ao aparelho esperando que ela respondesse aos apelos e, nada.
Os amigos tentaram dissuadir o belo homem. Aliás, até os menos próximos se atreveram a distribuir conselhos, e as outras mulheres sequer podiam aceitar o fato de que alguém recebendo orquídeas arrematadas por laços de cetim colorido e caixas de bombons de chocolate, em formato de coração, recheados com licor, e telefonemas com música de Mahler ao fundo, e telegramas urgentes, sim, ninguém podia aceitar o fato da mulher, motivo de tudo isso, ser indiferente a tanta sedução.
Depois das flores e dos doces, seria a vez dos presentes: jóias para as loiras burras, livros raros para as intelectuais chatas — seguindo, claro está, as regras machistas que conceituam a mulher —, mas seria grosseiro enviar-lhe presentes nessa fase, afinal, ela ainda não os merecia. Diante da situação, ele resolveu partir para o diálogo e foi ter com Maria.
Antes do grande dia da confissão, ele prestou uma espécie de justificativa a todos que seguiram o curso dessa paixão unilateral, essa verdadeira “volúpia do inferno”, como disse Nietzsche. A explicação estava na carne de Maria. O homem deixou claro que ela tem uma temperatura diferente, ela é mais quente. Risadas por toda parte. Seriedade. Ela é rosa, mais sangüínea e, por isso, mais quente, enfim, a pele, a carne, é mais macia, daí a encantação nascida desde que com ela dançara numa festa. Confiantes na explanação, restou ao grupo esperar o que Maria diria quando escutasse aquelas baboseiras.
Deu-se o seguinte: ela adiantou que não entendia a perseguição de um homem tão belo e bem sucedido porque tinha uma avaliação correta de si mesma, sabia o quanto é monótona, e sabia mais, sabia sobre ele, um homem dado a grandes aventuras, mulheres sofisticadas ou, pelo menos, inteligentes.
Chegou o momento, ele foi totalmente franco, usou a palavra encantação, usou a palavra carne, juntou tudo, e ela ficou lívida. Maria nunca esperou ouvir algo tão bonito. Tremeu de choque, de emoção. Finalmente alguém reparou na única coisa diferente que ela possuía, somente ela. Acreditou na paixão, ele havia percebido, apenas ele. Permitiu-se despetalar lentamente.

Seduz pelo que é dentro ou será,
quando se abra.
João Cabral de Melo Neto







Este conto está na Revista iararana, n° 1 — outubro, 1998, Salvador - Bahia.
A foto da alcachofra é de Arqstein, retirada do Flickr.

sábado, 8 de dezembro de 2007

CAIXA GÓRKI


Gerana Damulakis




Se há um romance que sempre consta nas listas dos clássicos, este romance é A mãe, de Górki. Alguns contos também são lidos, como os que formam o volume Certo dia de outono & outros contos, encontrado, tal como o romance, no catálogo da Ediouro. Já era notória a maneira como Górki extraiu literatura da vida através das confissões que estão nos ensaios de Três russos e como me tornei um escritor (Martins Fontes, 2006), assim como do volume organizado por Boris Schnaiderman, Carta e LiteraturaCorrespondência entre Tchékhov e Górki (Edusp, 2001), partindo do trabalho de Sophia Angelides.
A novidade fica por conta da Editora Cosac Naify, trazendo neste 2007 a prosa autobiográfica de Górki em reunião na caixa com três volumes: Infância(1913) , Ganhando meu pão (1916) e Minhas universidades (1922), escritos que abarcam mudanças drásticas em sua vida. Boris Schnaiderman e Rubens Figueredo são os tradutores, além de completarem a bela caixa com textos enriquecedores. Górki estava com 45 anos quando escreveu a trilogia no exílio político. A nota pitoresca em Infância é igualmente a nota mais emotiva do volume: a figura da avó. Ela é uma personagem interessantíssima e plenamente envolta numa aura de amor e carinho. Com isto estamos, entretanto, longe de sequer encontrar, quanto mais sentir explicitamente, algum exagero, alguma pieguice. Pois que Górki já tinha naquela altura toda a consciência literária e todo o apuro formal, que não permitiam que uma linha fosse escrita sem seu famoso posicionamento autocrítico, por vezes talvez rigoroso demais, ainda que responsável pela mistura de refinamento e matéria popular bem lograda, como salienta Rubens Figueredo.
Foi uma vida de caminhante, andou quilômetros pela sua vasta terra, podendo experimentar de tudo: padeiro, pintor, estivador, lavador de pratos. Se nos seus primeiros contos, o linguajar rústico era estranho para seus mentores, Korolenko e Tchekhov, foi a trajetória de uma operária rumo ao heroísmo de uma militante em A mãe, que fez deste romance o modelo da prosa do realismo socialista imposto pelo Congresso de Escritores, em 1934, como estilo oficial, ou seja, do agrado de Stálin. Nada, porém, salvou Górki de ser descartado quando não era mais útil ao regime. Daqui em diante são outras histórias.
Da caixa Górki dá para auferir o valor do escritor, o talento somado à experiência enorme de vida, ou dos vários modos de viver vidas numa só, como quem sabe extrair tudo até do que é apenas possibilidade. Quando mais não fosse para confirmar a riqueza da literatura russa, tal trilogia das memórias de Górki seria já por si mesma uma lição de persistência e determinação, necessárias a todo escritor.
Coluna Olho Crítico, da Página Aberta do jornal Tribuna da Bahia, 08/12/2007.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

MARIA



Flamarion Silva

“Se a alma e o coração sujos estão,
dê ao corpo água e sabão.
Se o lado de fora limpo está,
no lado de dentro fica a impressão.”

Remontam o caminho de volta os talhos da tiririca, que iam, de um e outro lados, penitenciando-me docemente. Também dos matos, as suas galhas, largadas num debruço, e o sol, no desmaio da tarde, caíam sobre mim.
Ia ao Apicum, onde me aguardava Maria.
Decerto por estas trilhas imaginais sons: os pés chapechapeando a água e a lama; sururus em suas cantigas estaladas; piados longe; chiados; aqui, mais perto, neste canto da memória, o desejo a sofregar: Maria antecipada, Maria distante, Maria nunca mais.
“De pirraça”, disse ela bem à frente, no caminhar da história. “De pirraça e por pura maldade me manda a mãe lavar o sujo da roupa.”
“Maria!”, chamei-lhe, a que só olhasse para trás.
Virou-se. Viu-me e sorriu-se toda. Dengosa. Porém, o tempo também aí já é outro, mais tarde, depois de tanto antes nos termos tentado na ignorância sabida do caso. Foi o acaso que nos levou, outras desvariadas vezes, pelas mesmas várzeas do caminho.
No Apicum, Maria acocorada. Da bacia as roupas ia tirando. Os pés n’água. Abeirado a ela, puxei conversa, pois Maria, agora, tão calada, aguava a roupa, concentrada.
Puxei um fio:
“E é de maldade que Dona Esterzinha te manda lavar essa roupa, e sempre a esta hora alta, Maria?”
Respondeu, sem dizer palavra, que sim. E esfregava o vestido com sabão e ódio. Porém dele e dela a nódoa não se soltava.
“Tanta raiva tenho dela!”
“Tem raiva dela não, Maria. É tua mãe.”

“Antes-de-ontem me mandou cortar uma gamela de maturi... Olha só o magoado das mãos.”
“Maciazinha”, disse mentiroso, tocando de leve os talhos da mão.
Maria se recolheu diante do afago, como se fosse moça prometida transgredindo contrato.
“O pai me fez um agrado: me deu um corte de pano. Disse:”
‘É para fazer um vestido para a festa de ano; Nossa Senhora das Candeias merece.’
“O pai é bom. Ele me deu a fazenda e saiu para a pescaria. A mãe, afastada, na fonte,
quando voltou e viu o tecido aberto na cama, disse:”
‘Tem dois vestidos do ano passado, Maria.’
‘Mas são desde o ano retrasado, minha mãe; tão ruços’, “disse suplicante.”
Este é meu, Maria, só meu’, “e saía feita dona do corte que me dera o pai.”
‘Conto pro pai’, “afrontei”
“A mãe virou-se, já com a bofetada guardada na mão. Chamou-me de atrevida. Juntos, ao pai se faz doce. Mas a mãe tem um fel no coração, amorzinho... Desde então me castiga...”
Maria se lavava no enxaguar da roupa. E esta foi a última vez que a vi animada. Deu-me seu amor por último e estas palavras, que nunca se me saíram:
“Quero morrer... quero morrer...”
Pensei morria por mim, ensandecida pelo fogo do nosso amor. Qual nada! Intenção escrita no pensamento, arma engatilhada.
E foi, que no outro dia, no mesmo marcado encontro, lá fui eu fazer companhia a Maria. Porém Maria não havia mais. Nem pios nem chios. Tudo silencioso.
“Onde Maria? Terá ela lavado toda a roupa suja e se foi?” intriguei-me.
Mais adiante, num passado marcado, mais lá no fundo do Apicum, onde eram as águas mais profundas e menos confiáveis, eu a vi.
“Maria!”

Fazia-se tarde. O escuro descendo do céu assombrava tudo. Por certo eu não via direito. O corpo dela, assim meio de viés, preso pelos cabelos nas galhas, abandonado no mangue, como se lhe puxasse pelos cabelos a mãe, num último castigo.
“O mal se corta é pela raiz”, diziam os pais duros de antigamente.
Maria ficou em mim, como fica na boca o travo de fruta devez. E nunca me saiu o gosto dela, este grudado na memória e na pele, com toda sua natureza, toda ela no meu eu, este travo que não me sai. Maria.



Flamarion Silva é contista, autor de O Rato do Capitão (Secrataria da Cultura e Turismo, EGBA, 2006 – Coleção Selo Letras da Bahia,108).

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

MÊS AMARELO




Gláucia Lemos



O jardim de minha avó ficava em frente à casa, passado o portãozinho, e a acompanhava pela lateral, em longos canteiros de margaridas brancas e amarelas, até chegar à garagem no fim do quintal. Ali morria em uma humilde touceira de resedá. Sempre considerei, por conta própria, aquele resedá como se fosse um marco proposital para o fim de jardim. É uma das minhas fixas recordações de infância. Tinha o piso forrado de seixos roliços que faziam ruído semelhante a dentes gigantescos mastigando. Cada vez que eu pisava nas pedras – o que fazia todos os dias, tinha a impressão de que uma bocarra misteriosa, invisível, mastigava ruidosamente imensuráveis grãos de milho seco, ou talvez de pedregulhos. Era impossível transitar pelo jardim sem que se fosse denunciado para as salas e quartos, dos quais as janelas se abriam para a festa das cortinas alvoroçadas pelo vento. E todas se abriam justamente para o jardim. O jardim era uma festa de todos os dias, sem outro motivo que não o prazer de estar entre canteiros, observando a mastigação dos pedregulhos, que mudava o ritmo de acordo com os passos que eu ficava variando por pura diversão. Calada, provocando e ouvindo. Mania minha, muito guardada, jamais revelada a alguém qual valioso segredo.
Havia um pé de acácia amarela – não sei se devo dizer acácia amarela, talvez não exista acácia de outra cor, mas sempre falamos assim. Pois havia um pé de acácia amarela a um canto do jardim, bem na entrada. Debruçava-se para a rua por cima do largo portão verde. Em dezembro floria. Os cachos amarelos eram quase escandalosos, na imodéstia com que esbanjavam ouro e alegria, quando o vento os sacudia na viração vinda do mar, que lá estava, a uns três quarteirões da casa. Então caíam lá do alto pequeninos anéis que eu nunca soube se eram pistilos pecos, ou se tinham o propósito de sujar todo o piso, dobrando o trabalho do rapaz que o limpava.
Penso que foi aquele pé de acácia que me fez, toda a vida, achar que o Natal é uma festa amarela. Sempre tive o costume de atribuir forma aos nomes próprios, e ligar a cores todas as coisas e datas, com uma espontaneidade toda minha. Por isso, entre outras coisas que coloria, o Natal se me afigurou sempre amarelo, como o Carnaval, mais intenso talvez, vermelho e verde conjuntamente. Não sei se por isso, dezembro, que ressuscita todos os anos ora brilhante ora sombrio conforme a minha paisagem interior, na minha percepção aparece através da copa do pé de acácia, generosamente florida, sorrindo em ouro por cima dos seixos roliços do jardim de minha avó. Natal e galhos de acácia têm a proximidade mais íntima, incompreensível a quem deles eu falasse.
Um antigo jardim que hoje só existe no registro permanente ao lado de outros registros que não se apagaram, porque todo o vivido escreve uma história. No seu lugar, agora, há de se ter levantado um edifício de apartamentos, no qual crianças, aglomeradas em caixas superpostas, espiam, com olhos imensos e gulosos, por entre grades com as quais o progresso as defende da sanha urbana. Crianças que vêem Natais de cores metálicas, piscando e fosforescendo em néon, multicoloridamente artificiais, e nunca saberão que existem acácias que florescem nos dezembros. Ou floresciam. Nunca saberão que os jardins forrados de seixos roliços escondem gigantes e monstros enormes que mastigam pedregulhos toda vez que uma criança caminha por cima deles. Nunca saberão como os dezembros podem ter uma cor definida, e se tornar amarelos, e podem até pintar de amarelo todos os Natais de alguém, para sempre. Ainda que o amarelo tenha se tornado menos forte e menos brilhante, continuará sempre amarelo, pois as acácias também podem perder um pouco do vigor da floração com a passagem dos anos, mas jamais deixarão de ser amarelas.



Dezembro de 2007.






Gláucia Lemos é autora, dentre dezenas de outros títulos, de Procissão e Outros Contos (FUNCEB, 1996).

O FOTÓGRAFO

Carlos Vilarinho




Sempre quis ser escritor. Quando adolescente lia até com certo furor, mesmo não entendendo muita coisa. Na verdade ficava maravilhado com aquele mundo de letras reunidas num papel dentro de um livro. Ouvi uma vez de um fotógrafo que certo escritor russo delongava-se em explicitar o psicológico humano. Contou-me também uma história do tal russo, que não lembro como se pronuncia o nome. Era a história de um estudante que matava uma velha e se apoderava do dinheiro ou coisa que o valha. Aí, segundo o fotógrafo, o aluno rebelde passava toda a história do livro com remorso. Tentei ler, mas não entendi uma só palavra. Mesmo assim prometi a mim mesmo que seria escritor. O tempo passou e só consegui escrever cartas para uma mulher por quem estava apaixonado. Um dia ela resolveu sair comigo. A criatura, provavelmente pela força da curiosidade estava lá na hora marcada. Eu que cheguei atrasado, pois estava compondo um poema para entregar-lhe. Resolvi recitá-lo, quando abri a boca e consegui ir até a segunda estrofe, a mulher levantou-se num rompante, muxoxou e grunhiu. Foi embora e nem se despediu.
Em tempos conheci outro fotografo. Era um velho tarado. Disse-me que as imagens poderiam ser coladas, para, quem sabe, forjar algum acontecimento. Lembrei da pintura de Dom Pedro primeiro às margens do rio Ipiranga, gritando “Independência ou morte”. Aquela pintura seria burlesca. Lembrei disso, não que eu tenha disponibilidade de raciocínio, mas vivo nos bares dos universitários e ouço muita coisa que falam. Essa é uma delas. O fotógrafo velho e tarado convidou-me para ser seu assistente. Aceitei sem piscar. Ele não tinha uma das vistas em perfeita condição. Precisava então que alguém junto com ele e sob sua coordenação espreitasse as imagens fortuitas da rua. O velho fotografava e mandava para umas revistas. Sei que uma era para turistas. Não entendia porque ele, na maioria das vezes, escolhia umas neguinhas xexelentas para registrar. Não pelas neguinhas, mas pela xexelentologia. Uma vez ele me disse que eu era muito opaco, só porque fiz a pergunta em relação às neguinhas. Achei que era elogio e ri satisfeito.
Um dia ele me disse que se envolvera com duas mulheres distintas. Conheci uma delas. Era uma coroa também, meio pelancuda, mas dava um caldinho, pensei de imediato, depois mudei de idéia. A mulher era muito desbocada, falava cinco palavrões em cinco palavras. Ele, o velho fotógrafo, ria divertindo-se e achando que aquela balbúrdia lexical e semântica era a sensualidade latente da mulher independente. Esquisito. Eu ficava enojado quando aquela criatura aparecia enquanto trabalhávamos. Nunca mais bebi no mesmo copo do velho depravado. Em alguns dias ele me levou e mandou que tirasse fotos dos dois em letargia hipnótica do namoro. Tirei as fotos e eu mesmo as editei. Depois me disse que ia me mostrar as fotos que ele mesmo tirara com a outra criatura. Sempre que chegava à casa do velho me intrigava com a bateria de remédios que ele mesmo tomava. Era um colírio e alguns remédios para a pressão e para alergia. Com tanta droga não sei como agüentava beber do jeito que bebia. Disse-me também que quando acordava ressaquiado só podia beber chá. Perguntei, então, pelos remédios enfim.
— Não posso, alguns ali são de restrita responsabilidade, tenho que tomá-los de vez em quando por causa da alergia.
E assim fiquei sabendo que alergia mata. Nesses tempos destituí a idéia de ser escritor. Decidi ser fotógrafo. Até porque já dominava a técnica satisfatoriamente. E graças ao velho saía aos poucos do meu estado de burrice sólida que me acompanhava desde pequeno. O velho mandou que eu lesse alguns livros e imaginasse as imagens escritas pelo escritor.
— Fotografia também é assim, só que você capta a imagem, registra e ela aparece numa tela de computador.
— As imagens de um livro só aparecem em nossa mente, não é isso?
— Isso mesmo.
E, então, ao conversarmos ele começou a me mostrar umas fotos. Segundo ele, eram clássicas, publicadas em revistas antigas, “O CRUZEIRO” o nome de uma delas. Foi aí que, para meu desespero, havia uma entre tantas, a foto de minha irmã beijando a boca imunda e execrável daquele velho fotógrafo. Senti uma quentura por dentro, fiquei meio cego e não ouvi mais a fala do velho.
— Aaah! Essa é a garota que lhe falei, ela é mais nova do que eu e é quente, quente e quente... Parece um bule de café ou uma chaleira em chamas... Você entende metáforas? Não, é muito opaco para entendê-las.
Ali desconfiei do “ser opaco” e entendi que não se tratava do que eu achava que fosse. Aproveitei a minha falta de transparência e dissimulei o que sentia. Olhei nos olhos do velho fotógrafo e percebi um certo temor. Continuamos, então, a passar fotos e em seguida fomos editar algumas. Minha mente estava ainda confusa e aos poucos absorvi aquele ciúme fraternal que me tomava como uma onda. Não entendia como minha irmã, que não era nenhuma neguinha xexelenta, poderia dependurar-se nos beiços imundo daquele velho chupador de clitóris antigo. Uma vez, ele mesmo me contou uma história a respeito de um rei que matou o pai e casou-se com a mãe. Disse-me que a história era tão antiga que acabou virando complexo. Não entendi direito, mas agora me passava pela mente que aquele velho tinha idade de ser pai de minha irmã. Seria complexo também isso? Comecei a me sentir como o estudante se sentira, menosprezado e cheio de soberba arrodeando meu eu.
— Aqui, achei... Isso aqui é um convite para eu fotografar o grande evento que haverá no palácio dos governantes amanhã... Eu não sei quem é esse cara, mas li nos jornais que será um evento de primeira, é minha chance para erguer-me novamente e ir para o top de linha da fotografia, tenho que colocar minha foto nesse crachá e me apresentar, você vai comigo como assistente...
Tudo veio nitidamente à minha cabeça. Olhei o convite e lembrei-me de ter ouvido algo a respeito daquele evento na televisão. Deixaria de ser opaco. Esperei de fato o momento que colocaria em prática o plano que me tomou de assalto e teria que executá-lo.
— Meu remédio, garoto. Vamos, pegue o meu remédio...
O velho gostava de água bem gelada para entornar a cápsula. Servi-lhe e voltei para a edição das fotos. Ele morreu inchado. O edema de glote tampou a passagem do ar. Senti remorso como Raskolnikof. No outro dia apresentei-me ao palácio dos governantes com a minha foto no crachá. As fotos que tirei foram as mais elogiadas. Deixei de ser opaco e assumi o posto de fotógrafo exclusivo do palácio. Não sabia, mas minha irmã herdou o seguro de vida que o velho tinha feito e colocado o nome dela. Ela e a coroa pelancuda dividiram o dinheiro, as duas juntas extorquiam o velho safado. Não tive mais remorso, mas fiquei com raiva de minha irmã e da coroa. Comecei a achar que essa história de crime e castigo não existe. Só mesmo na cabeça de escritores...




02/12/2007







Carlos Vilarinho é autor de As Sete Faces de Severina Caolha & Outras Histórias (FUNCEB, 2005).

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

DEZEMBROS


Aramis Ribeiro Costa



A mente lerda, entorpecida, arrasta
Em lentidão o tempo, idéias, membros
A tarde é morna e a própria vida é gasta
Na lassidão completa dos dezembros.

Nas esperanças dos janeiros basta
A vida que desbasta dos novembros
E a tarde se acomoda, lenta e vasta
Na tessitura lorpa dos dezembros.

O mormaço conjuga clima e fados
E em planos inconclusos e adiados
A tarde dezembral planeja e lembra.

São tempos vesperais que sinos plangem
Enquanto idéias poucos ventos tangem
E a mente, mole, sem querer, dezembra.




Este poema está em Espelho Partido - Sonetos Escolhidos - 1971/1996 (FUNCEB, 1996).