terça-feira, 6 de abril de 2010

AI DE TI, RIO!

Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.
Rubem Braga


Ilustração: Great Wave, de Katsushika Hokusai.

domingo, 4 de abril de 2010

UMA VIAGEM COM KEROUAC

Gerana Damulakis

Não vou dizer que reli: não reli. Li há muito tempo e não esqueci a deliciosa viagem pela Rota 66, com Jack Kerouac, em Pé na estrada.

No dia 5 de setembro de 1957 foi publicado o livro On the Road, de Jack Kerouac. Por conta do aniversário de 50 anos, a editora Viking lançou, em 2007, pela primeira vez em formato de livro, a versão original que o autor datilografou em um rolo de papel para telex de 36 metros de comprimento. O manuscrito difere da versão final por não ter parágrafos, por ser maior em 120 páginas, por trazer os nomes verdadeiros dos personagens, por conter descrições sexuais sem censuras, afinal, é fruto de uma escrita enlouquecida que levou três semanas para ser concluída, contando uma aventura que se prolongou por sete anos. Após três revisões, o que era memória virou ficção, ganhou adornos literários e Neal Cassady, amigo de Kerouac, passou a ser chamado de Dean Moriarty, enquanto surgiu Sal Paradise, personagem com base no autor, formando um par que atravessa os EUA bebendo, ouvindo música e se envolvendo com todos que cruzam seu caminho.

Da “batida” do jazz associada ao misticismo oriental nasceu o termo “Beat”, em 1952, cunhado por Kerouac para o “movimento que daria voz ao espírito de uma geração em revolta contra o conformismo e a respeitabilidade dos EUA da Multidão Solitária”, segundo Malcolm Bradbury, em O romance americano moderno (Jorge Zahar Editor, 1991). Por outro lado, é certo que a palavra beat tem uma gama de outros sentidos: vai da “batida”, até “botar o pé na estrada” (beat the way), passando por “trilha”, “furo” (jornalístico), mas Kerouac ouviu da boca de um marginal com o sentido de “exaltada exaustão”.

Ainda que William Burroughs tenha sido mais importante como experimentador e, ainda que a expressão poética deste clima emocional tenha ficado por conta do longo poema “Howl” (“Uivo”), de Allen Ginsberg, é o romance de Kerouac, aqui traduzido como Pé na estrada, editado pela L&PM, com tradução, prefácio e delicioso posfácio de Eduardo Bueno, que marca a “prosa bop espontânea”, que influenciou uma horda de escritores nos anos 60.

Não parece necessário que haja uma idade certa, tanto para ler Pé na estrada, quanto para ler O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, parece mais possível que haja o leitor certo para estas narrativas que vivenciam tão profundamente a juventude, sendo até melhor fazer a leitura quando já se está olhando, na segurança da praia, como as ondas são revoltas.

A revolução comportamental gerada por On the Road inclui gente como Bob Dylan, que fugiu de casa depois de ler o livro. Basta que o leitor seja capaz de lembrar a inquietação, o fascínio pelas descobertas e o sonho de liberdade, para que usufrua totalmente tais caminhadas. A dupla de Kerouac cruzando o país inteiro a partir da Rota 66, desbrava, transgredindo, outra estrada: a que se vai construindo ao abandonar a infância. A “bíblia hippie”, o mito On the Road, para usar o chavão proporcionado pelo livro-prisão, ofuscou suas outras obras, como The Dharma Bums (Os vagabundos iluminados). Jack Kerouac morreu em 1969: estava apático, sem nenhum espírito de aventura.

sábado, 3 de abril de 2010

TRECHO FINAL DE "RESSURREIÇÃO", DE CRUZ E SOUSA

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.........
Porém tu, afinal, ressuscitaste
E tudo em mim ressuscita.

E o meu Amor, que repurificaste,
Canta na paz infinita!
-------------------------Cruz e Sousa



Ilustração: Ressurreição (1463-65), de Piero della Francesca. Museu Cívico (Pinacoteca Comunale) de Sansepolcro, Toscana.

quinta-feira, 1 de abril de 2010


A TENTAÇÃO
---------------Murilo Mendes

Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".



Ilustração: Cristo na Cruz, de Eugène Delacroix (1845). Museum Boijmans van Beuningen, Roterdã, Holanda.

domingo, 28 de março de 2010

PERSONAGENS INESQUECÍVEIS: LEONARDO E BLIMUNDA SETE-LUAS


Gerana Damulakis

Tenho uma quantidade enorme de personagens inesquecíveis que, de uma forma ou de outra, me habitam. Mas tenho minhas preferências, ou aqueles que mais me marcaram. Muitas vezes sequer entendo a razão.
Ficarei, por enquanto, na literatura de língua portuguesa.
O personagem masculino que não me deixa: Leonardo, do romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861). Publicado em livro em 1854 (primeiramente saiu como folhetim no Correio Mercantil do Rio de Janeiro), a linguagem direta e ágil contribui para que as andanças do personagem Leonardo sejam muito vivas e levem o leitor por ruas e peripécias. Leonardo, filho de Leonardo-Pataca e Maria-da-Hortaliça, nascido de uma amor que começou depois de uma pisadela e um beliscão, é um herói picaresco, um herói às avessas.
Para mim, foi um deleite quando Ruy Castro publicou Era no tempo do rei - Um romance da chegada da Corte (Alfaguara/Objetiva, 2007), trazendo o Leonardo de Manuel Antônio de Almeida para participar do romance, em outras andanças, desta feita, com Pedro, o futuro imperador.
Portanto, meu personagem inesquecível, o que primeiramente rememoro e cito seu nome como símbolo de um personagem que me encantou é Leonardo.
Agora, a feminina: aquela que instigou, criou cumplicidade, fascinou meus olhos durante a leitura foi Blimunda Sete-Luas, de Memorial do Convento, romance de José Saramago (1922- ), publicado em 1982. Possuidora de capacidades, tal como a vidência do interior das pessoas, ela faz a colheita das vontades. Inesquecível.
Portanto, meu personagem inesquecível do universo de mulheres que povoam a literatura de língua portuguesa é Blimunda Sete-Luas.

Deixe nos comentários seus personagens preferidos (um masculino, outro feminino) da literatura de língua portuguesa. Vou adorar saber quem são eles.

Ilustração: Rafal Olbinski.

sexta-feira, 26 de março de 2010

WELLADAY,WELLADAY!

Gerana Damulakis

O poema abaixo foi retirado do volume Música de Câmara (Iluminuras, 1998), de James Joyce, tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Primeiro livro publicado pelo autor de Ulisses, nada acrescenta, nada diminui, serve como uma curiosidade genética em torno da obra de Joyce, ainda que vista como uma poesia de segunda ordem.

IX
Ventos de maio, em dança mar afora,
Dançando lá numa giranda em glória,
De sulco em sulco, a espuma esvoaçando
Ao alto, até tornar-se uma guirlanda
De arcos prateados que atravessam o ar -
Não viram meu amor nalgum lugar?
------Malandança, malandança!
------Ah, ventos de maio em dança!
Amor é triste se amor está a distância!



Ilustração: Gisèle Freund, James Joyce lendo, 1939.

quarta-feira, 24 de março de 2010

SATISFAÇÃO GARANTIDA


Gerana Damulakis

Acompanho (lendo, é claro) todos os títulos de Enrique Vila-Matas (1948- ) que são traduzidos pela Cosac Naify e finalizo as leituras sempre completamente satisfeita. Por que? Por conta do estilo, é a resposta usual. Tudo é questão de haver empatia ou não com o estilo do escritor. O espanhol Vila-Matas me seduz, me envolve em suas digressões (ele gosta de criar uma vizinhança da ficção com o ensaio) e me deixa com uma sensação de que li o que gostaria de ter escrito. Mais um título que leio agora, ainda pelo meio, mas sabendo que é satisfação garantida: Doutor Pasavento (Cosac Naify, 2009).

Agora sou mais que um discreto literato escondido, um narrador de escrita privada que olha da janela para o vazio e para o mar, e que sabe que, se uma pessoa observa durante muito tempo o abismo, o abismo acabará por observá-la também.
Enrique Vila-Matas in Doutor Pasavento