quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

UMA JANGADA DE PEDRA A CAMINHO DO HAITI


O Grupo Leya, a Editorial Caminho e a Fundação José Saramago lançaram com outros parceiros, a campanha “Uma Jangada de Pedra a caminho do Haiti”, ato de solidariedade para com as vítimas do terremoto no Haiti.
A ajuda será dada através da venda de uma edição especial do livro “A Jangada de Pedra”, nas livrarias portuguesas a partir da próxima sexta-feira.
As editoras de José Saramago na Espanha e na América Latina farão campanhas semelhantes nos respectivos países.
Tanto a capa quanto a notícia foram retiradas do Bibliotecário de Babel (http://www.bibliotecariodebabel.com/).

HOJE É COM CECÍLIA MEIRELES

Gerana Damulakis

Minha relação com a poesia vem desde muito cedo. Claro que a culpa foi do ambiente. Pessoa na família que era poeta, todos falavam muito de literatura, outra pessoa na família que era jornalista e escritor, biblioteca em casa. Tudo isto ajuda e influencia, embora não necessariamente, tampouco definitivamente. De forma que trago a poesia e a admiração pelos poetas dentro de mim, eles acharam morada permanente. Acontecimento automático: adorar descobrir poetas, vibrar com as realizações deles. E, assim, alimento a poesia que reside em mim.

Cada dia amanheço com certos versos. Fiel, Manuel Bandeira tem lugar cativo. Mas ando muitos passos com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros ... para ficar com aqueles de nossa língua.

Hoje são os versos de Cecília Meireles (1901-1964) que tomam os pensamentos, se repetem como frases musicais, me encantam, trazem imagens belas e estranhas. A poesia é um mundo fascinante.

4º MOTIVO DA ROSA

-----------Cecília Meireles

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

MINICONTO


OS DIAS, AS NOITES E OS DIAS

Aramis Ribeiro Costa

---- Era um péssimo sujeito durante o dia inteiro. Pequenas ruindades a torto e à direita, com Deus e o mundo.
-----À noite sentia remorsos, achava-se mau. Às vezes perdia o sono. Fazia planos para mudar.
-----Mas, no dia seguinte, tudo recomeçava.



Ilustração: retirada de jornale.com.br

ILDÁSIO TAVARES: POESIA VIVA


Gerana Damulakis

Dia 27 de janeiro será a homenagem aos 70 anos do poeta Ildásio Tavares (convite acima), mas seu dia de nascimento é hoje: 25 de janeiro. Parabéns para o poeta e amigo.
Ildásio Tavares fez Letras na UFBA, Mestrado na Southern Illinois University, Doutorado na UFRJ, Pós-Doutorado na Universidade de Lisboa. É poeta, ficcionista, cronista, tradutor, compositor, especialista em Ernest Hemingway e em Camões. Um de seus títulos - são tantos - é O Domador de Mulheres (Imago Editora, 2003). Tenho sempre perto de mim o volume 50 poemas escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, 2006). É desta reunião citada que retiro o poema abaixo.

RESTOS
------Ildásio Tavares

Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.

Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.

Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.

Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.

Há um resto de mim em toda parte
Que nunca pude ser inteiramente.

sábado, 23 de janeiro de 2010

POESIA ENQUANTO CINEMA

Gerana Damulakis

É do livro de poemas intitulado Cinema, vencedor do Prêmio Braskem Cultura e Arte, na categoria Literatura, promovido pela Fundação Casa de Jorge Amado, o exemplo da arte poética de Herculano Neto, do blog Por que você faz poema? (http://herculanoneto.blogspot.com/).
A estrutura do livro remete a planos cinematográficos, quando a visão foca muito de perto, quando se afasta para usar de certa ironia. Suas partes: "Filmografia", "Curta-metragem", "Matinês" guiam o leitor para tudo se acabar no excelente "cinema", poema que fecha o volume antes do "epitáfio III".
É fácil entender a razão do livro ter sido vencedor, seja pelo valor (claro), seja pelo cuidado (queiram ou não, isso conta) de sua organização. Resta parabenizar o poeta.

"morangos silvestres"
---------------Herculano Neto

----quando mainha chamou:

- vem pra dentro que invernou!

-era de tarde e eu ainda não

sabia o que era melancolia



----quando mainha chamou

--------o quintal era grande

chole e os vizinhos ainda estavam vivos

--------eu era outro menino



-------------quando mainha

PARABÉNS PARA A POETA ANA TAPADAS



Gerana Damulakis

Os aquarianos têm a cabeça nas nuvens, dizem. Não concordo. Parece que nós, aquarianos, temos um pé na terra e outro no ar, sabemos viver a realidade muito intensamente, assim como sabemos voar, quando nos apetece escapar de tanta realidade. Mas, esqueçamos as generalizações fáceis dos signos.
Ana Tapadas é uma poeta, uma poeta singular no uso de palavras que transmitem muita força. O resultado geralmente é o poema forte, vibrante, sempre muito bem realizado. Tarefa difícil a escolha dos exemplos de sua poesia. Optei por um soneto para evidenciar a sua destreza com a forma fixa, e outro poema que me toca muito de perto.
Foi através do blog de Janaina Amado (http://acreditandonotruque.blogspot.com/) que conheci o Rara Avis (http://raraavisinterris.blogspot.com/), blog de Ana Tapadas.
Querida Ana: neste seu dia e em todos, saúde e alegria para você.

"OMNIS HOMO MENDAX"

--------------Ana Tapadas

Falar de ti é sentir a palavra pequena
Para dizer-te a verdade que não liberta...
É ler-te na vida a razão do poema
Na teia de teus sonhos encoberta!

Falar de ti é ter dois dedos de luz
Presos ao orvalho da procura...
É erguer os olhos para a cruz
Fecundando paz no ventre da amargura!

É ter dois passos de noite, o sol e o luar,
Espreitando o último mistério da oração,
Ao apontar o imperativo do verbo amar!

É sentir amizade, ter confiança e ler solidão,
Dentro da penumbra perturbada do teu olhar.
Falar de ti é: vergar o orgulho à gratidão!

A ESMO

--------Ana Tapadas

Inquietas-te alma - criança,

tantas vezes te fiz lutar...

E farei! Pois farei!

Exigente...(e se o não fora?)

Se eu pudesse exigir;

se não temesse incomodar;

se conseguisse fazer despertar

essas serenidades abstractas;

essas beatitudes beatas!

Revolta? (não, não é isso!)

É o silêncio que incapacita,

que mortifica ...

e não deixa que saibais amar.

Conheceis-vos tão bem

- beatitudes hipócritas! -

que esqueceis o que enalteceis.

Injusta? (eis o que sou.)


Ilustração: Rafal Olbinski

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O NASCIMENTO DOS DESEJOS LÍQUIDOS


Gerana Damulakis

Não entendo e nem procurarei entender uma associação que surgiu em mim: O nascimento dos desejos líquidos, de Salvador Dalí, a obra acima, de 1932, e o poema "Fera" de Carlos Drummond de Andrade, do livro Farewell (Record, 1996).
Pontes que são criadas sem sabermos a razão. A ponte aqui estaria na sensualidade presente em ambas as obras? Escrevo outra vez para sentir: a sensualidade do poema de Drummond (o Drummond "tigre" dos poemas de Farewell) e a sensualidade dos "desejos líquidos" de Dalí. Tão boa a sensação. Não é preciso entender.

FERA
-------Carlos Drummond de Andrade

Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel
como é próprio da espécie.
Outras, cochila
ou se enrosca em afago emoliente
mas sempre tigre; disfarçado.