domingo, 10 de janeiro de 2010

EXATOS 50 ANOS DA MORTE DE ALBERT CAMUS

Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade.
----------------------------------------Albert Camus

Gerana Damulakis

As obras filosófica e literária de Albert Camus (1913-1960) trazem as marcas dos dilemas absurdos da existência. Seu nome foi incluído entre os que praticaram a famosa estética do absurdo. E o não menos famoso "ciclo do absurdo" - o romance O estrangeiro, o ensaio O mito de Sísifo e a peça Calígula - atesta sua teoria de que não há um sentido no mundo, o sentido precisa ser criado por cada um. Rejeitando o existencialismo de Sartre e Heidegger, Camus mostrou que é o indivíduo quem dá significado aos fatos.

O estrangeiro entrou para o cânone universal, apesar de outros grandes títulos, tais como A peste e A queda, talvez por ter Meursault como um personagem emblemático na sua inconsequência, na misantropia apontada, na sua falta de emoção; emblemático, enfim, do absurdo que vem a ser seu destino.

sábado, 9 de janeiro de 2010

PARABÉNS PARA KÁTIA BORGES

A poeta Kátia Borges está fazendo aniversário. Autora dos livros De volta à caixa de abelhas (Secretaria da Cultura e Turismo, FUNCEB, EGBA, 2001) e Uma balada para Janis (Edições P55, 2009), além de marcar presença em antologias nacionais, Kátia é admirada e aplaudida desde o seu primeiro livro. Para você, afilhada literária: saúde e muita poesia.

TODA VIDA
-------------Kátia Borges

Para chegar a mim,
siga nesse beco sem saída
toda vida e, antes do fim,
dobre à esquerda.
Verá apenas uma casa,
no descampado, sem jardim,
com ar de abandono e luzes
permanentemente acesas.
Cuidado: um cão feroz vaga
por ali. Senhor absoluto
do castelo, zela por
fantasmas. E formas estranhas,
numa arquitetura de Gaudí,
compõem a vizinhança:
crianças sem cabeça,
homens amarelos e mulheres
cáqui acenam das janelas.
E a bela Vicens, e a rua Morgue
ficam perto. É só seguir
toda vida nesse beco
sem saída
para chegar a mim.

MAR
--------Kátia Borges

Eu falaria do mar se soubesse
compreender, das águas, o mistério.
Mas tenho os pés presos à terra
e nada sei de navegar. O mar
é monstro em meus sonhos. Morre
espumando e me amedronta. Imensidões
me deixam tonta. Só presa ao chão posso voar.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

POR QUE VOCÊ FICA LENDO ROMANCES?

Gerana Damulakis

Por que eu leio tantos romances? Seguramente não é pela mesma razão que Emma Bovary. Ao contrário de Flaubert, Madame Bovary, c'est pas moi!
Quem me deu a resposta foi o escritor argentino Tomás Eloy Martínez (1934 - ), no romance Purgatório (Companhia das Letras, 2009):

As coisas que não existem são em número muito maior do que as que chegam a existir. O que nunca existirá é infinito. As sementes que não encontraram sua terra nem sua água e não se transformaram em planta, os seres que não nasceram, os personagens que não foram escritos. As rochas que voltaram a ser pó? Não, essas rochas, em algum momento, chegaram a ser. Falo apenas daquilo que podia ser e não foi. O irmão que não existiu porque você existiu no lugar dele. Se o tivessem concebido alguns segundos antes ou alguns segundos depois, você não seria quem é e não saberia que sua existência se perdeu no ar sem que você mesmo se desse conta disso. Aquilo que não chega a ser nunca sabe que poderia ter sido. Os romances são escritos para isso: para compensar no mundo real a ausência perpétua daquilo que nunca existiu.

Os romances servem para preencher uma falta, o que não chegou a existir.
E você, por que fica lendo romances, quando poderia fazer outra coisa?

Foto: Tomás Eloy Martínez, do periódico el País.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

SARAMAGO, PARA GLÁUCIA LEMOS


Gerana Damulakis

A escritora Gláucia Lemos e eu somos aficionadas pela literatura de José Saramago. Lemos toda a prosa, seja de ficção, seja a dos Cadernos de Lanzarote, também as crônicas etc.

Gláucia, todavia, não conhece a poesia de José Saramago. Escolhi do meu exemplar de poemas Provavelmente Alegria (Editorial Caminho, 1987), um dos mais melódicos e belos versos.

Para você, Gláucia, um poema de José Saramago.

AS PALAVRAS DE AMOR
---------------------José Saramago

Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.

Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia
Dizer amar na língua da semente?

O CÉU QUE NOS PROTEGE



Gerana Damulakis

Quando escolhi O céu que nos protege (Alfaguara/ Objetiva, 2009), de Paul Bowles, com tradução de José Rubens Siqueira, para ilustrar minha lista dos livros lidos em 2009 que me marcaram, escrevi também sobre a sensação que um romance poderoso causa no leitor.


A história de O céu que nos protege enfatiza a busca pelo sentido da existência, mais aguçada nas pessoas que têm muito tempo livre, usufruem do ócio, passam a vida viajando, procurando, buscando, inquietando-se. Irremediavelmente, lançam-se em situações perigosas, porque se faz necessário um sentimento que desafie a rotina, algo próximo da morte. Port e Kit Moresby estão casados há 10 anos, não precisam trabalhar, rodam pelo mundo e no pós-guerra vão para a África. O deserto é o cenário constante. É no deserto que Port sente como o céu fica mais perto, como um manto protetor: o céu que nos protege. O desenrolar é a escalada da decadência, é triste, é trágico. Não irei contar a história.


Paul Bowles (1910-1999) faz parte da legião de escritores norte-americanos que levou a literatura dos EUA aos picos do reconhecimento no século XX. Seu estilo é fluente, apesar de não abrir mão da densidade, exatamente sentida a cada passo dado pelo casal durante a narrativa de seu fastio e de sua perdição.


Sobre O céu que nos protege, o Evening Standard diz tudo: “Um romance com toque de gênio, um livro de poder e alcance desafiadores, uma história de tensões praticamente insuportáveis”.
O livro foi adaptado para o cinema pelo próprio Bowles, com direção de Bernardo Bertolucci, e é muito fiel ao romance. O escritor começa narrando e aparece no começo e no final do filme, sentado no bar a espreitar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

LISTA DAS MELHORES LEITURAS EM 2009

Gerana Damulakis

O escritor Goulart Gomes, do Território Inimigo (http://www.goulartgomes.com/) gosta tanto de listas quanto eu. Diante do fim dos anos 00 deste século, que agora já não é mais tão novinho (como a primeira década passou rapidamente), não me senti capaz de elaborar uma lista com os livros que mais me fascinaram. Primeiramente porque, ao contrário de pessoas como o escritor Aramis Ribeiro Costa e minha filha, que anotam os livros que leram e ainda opinam sobre eles em um caderno especial, não costumo, por mais que prometa a mim mesma, seguir tal comportamento. E, depois, segundo Goulart, que insistiu para que eu fizesse a lista, deu preguiça mesmo, sou baiana assumida.

Fico com os livros lidos em 2009, melhor dizendo, com os que me ocorreram imediatamente, do que deduzo, então, serem os que ficaram cravados na mente. E escolhi, para ilustrar a postagem, o que me fez trepidar, ou seja, aquele causador da seguinte sensação: um envolvimento a tal ponto que se chega a sentir que o livro está tomando vida própria entre nossas mãos.

FICÇÃO ESTRANGEIRA (romances e contos)

- O céu que nos protege (Alfaguara/ Objetiva, 2009) – PAUL BOWLES

- O mundo (Planeta do Brasil, 2009) - JUAN JOSÉ MILLÁS

- Refrão da fome (Cosac Naify, 2009) – J. M. LE CLÉZIO

- Indignação (Companhia das Letras, 2009) – PHILIP ROTH

- Lady Macbeth do Distrito de Mtzenzk (Editora 34, 2009) – NIKOLAI LESKOV

- Elogio da madrasta (Alfaguara/ Objetiva, 2009)- MARIO VARGAS LLOSA

- Estrela Distante (Companhia das Letras, 2009) – ROBERTO BOLAÑO

- O compromisso (Editora Globo, 2004) – HERTA MÜLLER

- A mão do amo (Companhia das Letras, 2008) – TOMÁS ELOY MARTÍNEZ

- Suicídios exemplares (Casac Naify, 2009) – ENRIQUE VILA-MATAS

- Caim (Companhia das Letras, 2009) – JOSÉ SARAMAGO

- Cenas da vida na aldeia (Companhia das Letras, 2009) – AMÓS OZ

- Iniciantes ( Companhia das Letras, 2009) – RAYMOND CARVER

- Após o anoitecer (Alfaguara/ Objetiva, 2009) – HARUKI MURAKAMI

- Fazer amor (Globo, 2005) – JEAN-PHILIPPE TOUSSAINT

domingo, 3 de janeiro de 2010

ESTRELA DE ANA BRASILA


Gerana Damulakis

A Coleção Cartas Bahianas brilhou em 2009. Não, não listarei os títulos, nem revelarei a melhor novela da coleção, nem direi dos contistas da coleção que me surpreenderam, nem os poetas citarei. Porque também não irei me deter nos Continhos para cão dormir (P55 Edições, 2009), igualmente da coleção, escrito por Maria Guimarães Sampaio. Mas, vale alertar, não escreverei sobre o livro citado por uma razão: desta coleção, me fixei nos títulos que trouxeram poemas e, como exceção, escrevi sobre a novela de Állex Leilla, O sol que a chuva apagou - creio que foi o único livro de prosa para o qual teci uma espécie de resenha, já que acompanho a produção de Állex desde seu primeiro livro, depois resenhei seu romance na minha coluna do jornal A Tarde e continuo seguindo com muita atenção, repito, suas realizações literárias.

No entanto, poderia ter escrito sobre o livro de Maria, não fosse a posição de seguir apenas os poetas, pois Continhos para cão dormir traz mini-contos, como prefiro chamar, que suscitam as mais variadas emoções; com eles o leitor ri, se entristece, se espanta, se solidariza com a dor e, por fim, Tieta morre: mais emoção com o peculiar modo de escrever da autora.

E é este modo de dizer, o “como dizer”, a maior personagem do romance de Maria Sampaio, Estrela de Ana Brasila – estória sem compromisso com verdade nenhuma, nem bicho, nem planta, nem gente, nem lugar, nem tempo – e nem falares (Record, 2004). Mais do que sabido, em literatura não importa o que se conta, mas como se conta. Maria conta e como conta! Com isso, quero dizer que a história guardada neste romance é uma história que importa, assim como importa a maneira como ela é contada.

Viajamos no tempo com Branca Marana, mulher típica do século XX, se libertando de amarras que oprimiam o sexo frágil. De um capítulo para o outro, estamos no tempo das senzalas e o romance vai ganhando força, surge a mãe da personagem do título, Ana Brasila, surge Prudença, surgem seus amores, surge Estrela de Ana Brasila, surge Frutuoso, surge Brianda, elas também vão tendo seus filhos, surgem muitos personagens: é um mundo criado nessa volta do tempo, um mundo onde habitam os índios, os negros, os brancos e, sem exagerar, onde surge o brasileiro e a brasileira, frutos dessa mistura – não é sem razão que Ana é Ana Brasila.

Não vou buscar influências literárias para a obra de Maria, registro tão somente que não há como não lembrar de Guimarães Rosa, embora a linguagem que a escritora apresenta seja totalmente de acordo com seus personagens e não com os personagens de Rosa. A lembrança, portanto, fica restrita apenas ao fato de Rosa ser um escritor que simboliza tal atitude literária. Outra lembrança também ocorreu, não por encontrar influência da obra que citarei sobre Estrela de Ana Brasila, mas por construir uma saga, elencar personagens vários: a lembrança foi a da leitura de Cem anos de solidão, de García Márquez. São, todavia, pontes que o leitor gosta de fazer.

O romance de Maria Sampaio cria um mundo, com seu tempo, ou melhor, seus tempos, sua história muito bem contada. Original, plena de sentimentos, acompanhando as circunstâncias das vidas, a obra é rica, envolvente, dá vontade de aplaudir e, no final, com os cães Merlin e Tieta (sim, Tieta que acaba morrendo em Continhos para cão dormir), Maria ainda arranca um sorrisinho do leitor quando Branca Marana (voltamos para ela) passa por Moreno e, bem depois, em casa, reconhece que era ele. Redondo, o romance termina. Bravo!