Adelice Souza é também contista. Está na minha Antologia Atual do Conto Baiano com um texto excelente, intitulado "O Ensaio", merecedor, sem dúvida, do real significado da palavra "antológico", ou seja, do grego: "inesquecível".
quarta-feira, 10 de junho de 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
PRÊMIO CAMÕES 2009: ARMÉNIO VIEIRA
Gerana Damulakis
O escritor de Cabo Verde, Arménio Vieira, ganhou o Prêmio Camões 2009. Li alguns poemas e fiz a minha escolha do que segue abaixo porque tenho especial apreço por poemas que são a ars poetica do autor.Arménio Vieira
Com pauzinhos de fósforo
podes construir um poema.
Mas atenção: o uso da cola
estragaria o teu poema.
Não tremas: o teu coração,
ainda mais que a tua mão,
pode trair-te. Cuidado!
Um poema assim é árduo.
Sem cola e na vertical,
pode levar uma eternidade.
Quando estiver concluído,
não assines, o poema não é teu.
[Texto retirados de uma antologia, ainda inédita, organizada por José Luiz Tavares]. Encontrei em Bibliotecário de Babel (entrada pelos meus favoritos).
O Prêmio Camões 2009 teve os seguintes jurados:
Júri brasileiro: Marco Lucchesi e Ruy Espinheira Filho
Júri português: José Seabra Pereira e Helena Buescu
Júri de outros países: Corsino Antônio Fortes e Luiz Carlos Patraquim
segunda-feira, 8 de junho de 2009
POEMAS-DIÁLOGO

Gerana Damulakis
O mais interessante nos poemas-diálogo abaixo é que Vinícius de Moraes tece a homenagem ao poeta Cabral usando realmente todo o fazer poético do homenageado: as quadras cabralinas (forma), a métrica (redondilha menor), as palavras despidas de lirismo, "áridas" como "pedras", daí a imagem final do diamante, a pedra mais dura e também a mais preciosa. Já Cabral procura minimizar o elogio, aceitando a aridez, mas não a da pedra valiosa, tal o diamante, e sim a do diamante industrial, que vale pelo que tem de cacto. Dois mestres, dando um show de poesia!
RETRATO À SUA MANEIRA
(João Cabral de Melo Neto)
Vinícius de Moraes
Magro entre pedras
Calcárias possível
Pergaminho para
A anotação gráfica
O grafito Grave
Nariz poema o
Fêmur fraterno
Radiografável a
Olho nu Árido
Como o deserto
E além Tu
Irmão totem aedo
Exato e provável
No friso do tempo
Adiante Ave
Camarada diamante!
RESPOSTA A VINÍCIUS DE MORAES
Magro entre pedras
Calcárias possível
Pergaminho para
A anotação gráfica
O grafito Grave
Nariz poema o
Fêmur fraterno
Radiografável a
Olho nu Árido
Como o deserto
E além Tu
Irmão totem aedo
Exato e provável
No friso do tempo
Adiante Ave
Camarada diamante!
RESPOSTA A VINÍCIUS DE MORAES
João Cabral de Melo Neto
Camarada diamante!
Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz de vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.
Camarada diamante!
Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz de vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.
À esquerda, escultura de Vinícius de Moraes, trabalho de Juarez Paraíso. Local: Rua Carlos Drummond de Andrade, Itapuã, Salvador, Bahia.
À direita, escultura de João Cabral de Melo Neto. Local: Rua da Aurora, Recife, Pernambuco.
domingo, 7 de junho de 2009
O POETA CASSAS: CONVERSA DE DOMINGO
Meu amigo, o poeta Luís Augusto Cassas, telefonou pela manhã, de São Luís, Maranhão. Acho que é sempre assim, nos falamos apenas aos domingos, jamais em outro dia da semana. Adoro nossa conversa. Falamos de poesia o tempo inteiro, até porque cada frase dele é um verso. Cassas pensa poesia. Ele tem casos interessantíssimos que, seguramente, dariam crônicas, ou, com o tempero da invenção, ótimos contos. Mas, não. Ele verte tudo para a poesia.
Lembramos, então, versos de poetas que nos habitam. Sim, ele é como eu (já escrevi aqui que penso muito em versos, os que me povoam, os que martelam dentro de mim); sendo como eu, ficamos desfilando os versos que nos chegam assiduamente. Outro ponto em comum: a maioria é de Manuel Bandeira. Tecemos a apologia ao grande poeta e sua simplicidade enganosa. Cassas lembrou que o poeta e ensaísta Ivan Junqueira disse muito bem quando, em seu Testamento de Pasárgada (Nova Fronteira, 2003), apontou Bandeira como um poeta que sabia rigorosamente tudo no que toca à arte poética e aos segredos da poesia. Daí passamos para o livro Cinzas do espólio (Record, 2009), já que Ivan Junqueira analisa a poesia brasileira e destaca poetas pelo Brasil afora. Do Maranhão, meu amigo Cassas é destaque, claro! Da Bahia estão: Ruy Espinheira Filho, Ildásio Tavares, Myriam Fraga, Florisvaldo Mattos e Luís Antonio Cajazeira Ramos.
Voltando aos versos que nos arrebatam. Coincidimos em: “Este anseio infinito e vão/ de possuir o que me possui”, que estão no poema “Resposta a Vinícius”; “Na vida inteira que podia ter sido e que não foi”, em “Pneumotórax” e
“Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro,Teodora.”
do poema “Neologismo”. Manuel Bandeira é realmente uma estrela da vida inteira.
Seguindo pelos versos inesquecíveis, reproduzo, de “Leilão de poeta”, do próprio Cassas: “Quem doa amor de ouro ou prata/ àquele que à dor o coração ata/ e de amor morre mas não mata?”
Ah, Cassas, como é bom conversar com você. Esqueci de acrescentar aquele verso de T.S.Eliot que vivo me dizendo e que pertence ao longo poema “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”: “Às colherinhas de café andei medindo a minha vida”, na tradução de João Almeida Flor para a edição da Assírio e Alvim.
Nossa sintonia espiritual, como você diz, me enche de alegria. Aguardo sua poesia reunida, sabendo desde logo (o que muito me honra) que estarei lá, na sua fortuna crítica, através de meus textos, reconhecendo a sua arte.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
LEMBRANDO DAS SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOIRA
E DA ARTE PARA INICIAR UMA PROSAGerana Damulakis
Certa vez escrevi aqui sobre o primeiro parágrafo de Anna Kariênina, de Tolstói, por conta de ser ele o mais interessante começo de romance: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, na tradução de Rubens Figueiredo para a edição da Cosac Naify.
Sempre trocando ideias com Aramis e sempre constatando e confirmando seu imenso cabedal literário, ele (que também tem muita leitura e muita memória) desfilou o início do conto de Eça de Queiroz, “Singularidades de uma rapariga loira” (loira com "i", mais bonito do que loura), que eu simplesmente adoro:
“Começou por me dizer que o seu caso era simples – e que se chamava Macário...”
Iniciar um texto de ficção - conto, novela ou romance - é equivalente a elaborar um convite, exige que o desejo de persuadir o leitor seja posto em ação, o que, de saída, exige também conhecimento, ou seja, leitura. Para transformar o talento em arte no papel é preciso ler muito. Estou convencida de que todo escritor deve ser, antes de mais nada, um grande leitor. É apenas a minha opinião. Que seja.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
CANTIGA DE CRER
Nilson PedroCreio em deuses sutis
que podem bem ser um
e ser mais, que podem
ser apenas a luz, ou essa
falta de, essa não. Creio
em deuses senis, em
outros pueris, colibris.
Creio na salvação, na
minha, e na de qualquer
irmão. Creio no meu
amor, e ainda no de
seja quem for. Creio
quase sem crer, como
se fosse assim por
prazer.
Nilson Pedro é o poeta do blog Blag http://nilsonpedro.wordpress.com/
Foto: "Mãos em prece!", por francileide, retirada do Flickr.
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