quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O LADO DURO DA VIDA: SOBRE O LIVRO UNS & OUTROS

Gerana Damulakis

Conheci a prosa de David nos blogs, acho que no Canto dos contos. Minha atenção se prendeu no conto “Suicida”, extremamente original, uma idéia de primeira. Pedi autorização e postei o conto no meu blog. Mostrei para Aramis Ribeiro Costa, ficcionista experimentado, que também gostou muitíssimo. Daí para frente, venho seguindo sua produção e posso dizer que já tenho formada minha impressão — sim, é uma crítica impressionista — a respeito da ficção de David Nóbrega.
Seu ritmo é um predicado importante: geralmente veloz, o texto avança rumo ao resultado sem concessões outras, porque importa mesmo é contar a história. O que o autor colhe disto é a certeza de que seu leitor não deixará a narrativa até que ela tenha sido concluída. E se conclui: o conto de David tem começo, meio e fim, tem compromisso com o enredo e seu desfecho. Outra certeza seria a satisfação da curiosidade, já que nada fica em suspenso; melhor dizendo, o nó ficcional é moldado, toma a forma no clímax e se desfaz ainda no texto.
O que o autor conta ao longo das suas vinte e tantas histórias curtas do volume está de mãos dadas com o lado mais duro da vida. A sensação é a de que nada se lhe escapa, seja a doença, seja a solidão física e/ou anímica, seja a miséria. O episódio detonador da narração está em plena concordância com a tragédia, não começa com tudo perfeito ao redor e, de repente, surge o acaso destruindo a calmaria. Não. Na contística de David entra-se de chofre na “tragicidade” — palavra cara a Adonias Filho — com seus personagens e suas situações adversas.
Ao fim e ao cabo, estamos lendo atualmente a própria realidade monstruosa que nos cerca, que nos atinge, que vivenciamos: violência, falta de relacionamentos estáveis, solidão, doença. A literatura não está distante da vida mesma, está reproduzindo-a porque, estupefata, se alinhou completamente com os dissabores, com o lado duro da inexorável condição humana.
Entre estes contos, destaco ainda “Casual” e “Cruzamento”, Em “Casual”, que plasma justamente a superficialidade dos relacionamentos, encontro um ponto muito alto da coletânea. Em “Cruzamento”, confirmo a observação aguçada, na verdade, emblemática do contista. Destaco-os como contos antológicos, assim como “Suicida”. O que vale dizer que a reunião dos contos foi muito bem lograda, haja vista a existência de tantos exemplos antológicos em um volume — em grego, antológico é inesquecível.
Em suma, o que temos são histórias que contam, e contam com estilo firme, com a mão de quem sabe conduzir sua narrativa do começo ao fim sem tropeços e, ainda, que gera um envolvimento total durante a leitura: não é pouco, portanto, o que aguarda os leitores.

Salvador, 4 de novembro de 2008
Este texto está na quarta capa do livro de David Nóbrega. Para adquirir Uns & Outros, acesse o blog: http://scriptusest.blogspot.com/

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

UNS & OUTROS


Gerana Damulakis


Tive a honra de assinar o texto da quarta capa do livro de contos de David Nóbrega, Uns & Outros (Virtualbooks Editora, 2008), da Coleção Moderna Literatura Brasileira (vol. 12). Sucesso para a obra e seu autor!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O LIVRO NEGRO


"Nada é tão espantoso quanto a vida!" (...) "Exceto a literatura"

Orhan Pamuk

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

31 DE JANEIRO: PARABÉNS PARA ARAMIS


Quando foi publicado o primeiro livro de contos de Aramis Ribeiro Costa, A nota de Rosália, eu não conhecia o escritor. Por ocasião do segundo volume de contos, A assinatura perdida, ganhei a seguinte dedicatória: "Para Gerana - vestida de amor e poesia". No seguinte, O mar que a noite esconde, está: "Para Gerana - mais este mar navegado". Em O fogo dos infernos: "Para Gerana - e nossas histórias unidas". Em O baú dos inventados: "Para Gerana - que caminha ao meu lado os velhos e os novos passos". Os bandidos traz: "Para Gerana - a permanência do amor". No seu mais recente livro de contos, Reportagem urbana, lemos: "Para Gerana - e a dor sem termo das nossas perdas". Ao ler esta dedicatória, que me fez chorar muito, entendi que a dor em comum (para mim, a perda de meu pai e, para ele, a perda da mãe) havia mergulhado nós dois numa outra fase da vida. E todavia estamos vivendo-a. Meu pai dizia que a vida é cheia de fases, o importante é saber conviver com elas. Continuamos aprendendo a conviver com a "dor sem termo das nossas perdas". O conto abaixo é inédito e, mais uma vez, me fez chorar porque reflete o sentimento de solidão, na figura do barco, provocado pela morte de quem amamos.
Aramis, mais um aniversário seu e não sei o que escrever a não ser isto, usando a rima mais comum da nossa língua: seguimos juntos nesta dor. Com amor.



UM BARCO NO MAR
Aramis Ribeiro Costa


De repente, tudo lhe pareceu negro e sem saída. A amargura caía pesada sobre sua alma, e eram toneladas de amargura, que não podiam ser removidas com a simples vontade. Então, olhou o mar à distância, do alto do seu apartamento, no décimo primeiro andar, e compreendeu que precisava navegar sem destino por aquelas águas que se perdiam no horizonte, enfrentar as ondas, as correntes marítimas, o vento, quem sabe a tempestade, a noite, o frio, a fome. Compreendeu que precisava navegar sem saber se voltava, sem saber se encontrava outro porto, deixando simplesmente que o mar o levasse por mares insuspeitados, ou que o tragasse no mais profundo das suas águas.
Sim, tudo era negro e tudo era sem saída, como são todas as crises enquanto não passam, como são todas as amarguras enquanto não se desfazem, como são todas as inseguranças que envenenam a alma enquanto as soluções não chegam. Aquele mar azul que avistava do alto e à distância parecia o horizonte buscado, ou então o fim abrupto e trágico da circunstância intensamente sofrida. Precisava navegar com as velas abertas para o vento mais forte, deixar que a quilha da embarcação rompesse as correntes contrárias, as ondas, o tumulto das águas, como alguém que tenta caminhar em sentido contrário à multidão, acotovelando-se, sofrendo empurrões, ouvindo protestos, mas persistindo na caminhada.
De súbito, do alto do seu apartamento, percebeu, na faixa azul que ia de uma ponta a outra na extensão que a sua vista alcançava, um veleiro rompendo vagarosamente as águas. Naquela distância parecia um barco de proporções reduzidas, mas era difícil dizer. A proa erguia-se e abaixava-se, para logo erguer-se e tornar a abaixar-se, como se fosse ao fundo e voltasse, como se naufragasse e submergisse, desaparecendo por instantes e logo voltando a compor a paisagem. Não havia outro barco em toda a imensa faixa azul e líquida que era vista do alto e à distância, aquela faixa azul que emendava, na linha curva do horizonte, com a amplidão de azul mais suave e sem ondas do espaço infinito, azul sobre azul, tom sobre tom.
Então, ele entrou naquele barco, postou-se diante da roda do leme, segurou-a com mão firme, assumiu o comando da embarcação solitária e perdida no mar imenso. Diante dos seus olhos fixos as ondas agigantaram-se, enfureceram-se, bateram com violência no casco, como se quisessem rompê-lo, atiçaram água e sal no estreito convés, seus pés de marinheiro encharcaram-se, foram sete pragas, uma cada dia. A proa erguia-se e abaixava-se, para logo erguer-se e tornar a abaixar-se, agora em movimentos insuportavelmente bruscos, que pareciam irreversíveis para, logo em seguida, pela continuidade, parecerem intermináveis. Na popa, a esteira alvíssima de espumas.
Daquele barco ele via-se à distância, lá no alto do seu apartamento no décimo primeiro andar, e com ele toda a sua imensa amargura, sua circunstância negra e sem saída, sua prisão de ansiedade. Segurando o leme com firmeza, as velas pandas, côncavas ao sopro do vento mais forte, ele apenas quis vencer aquele espaço imenso e difícil, seguir para compor outra paisagem mais adiante, renovada, sem correntes contrárias, sem ondas contrárias, sem ventos contrários, uma paisagem onde não precisasse submergir para depois reaparecer. Compreendeu que o final dos tempos, sempre anunciado e jamais acontecido, ocorre a cada momento para cada um que mergulha irreversivelmente nas águas fundas e escuras. Compreendeu que as águas fundas e escuras estavam permanentemente a um passo do convés, sempre a um passo, à frente, aos lados, à retaguarda do pequeno barco, bastando apenas o salto para o mergulho. Compreendeu que o desespero é uma tempestade que é preciso vencer.
Naqueles breves instantes, no comando do barco, enfrentou a tempestade, a noite, o frio, a fome, desviou-se de um inesperado e perigoso rochedo, mergulhou nas águas profundas e escuras de onde nem sempre se volta, mas subiu ao leme no terceiro dia porque era preciso levar aquele barco, singrar aquele mar desconhecido e revolto, mas que de repente se abria em azul. Finalmente, venceu o espaço.
Do ângulo da sua janela, no alto do décimo primeiro andar, já não podia ver a pequena embarcação que seguia vagarosamente, singrando e rompendo as águas, as correntes, as ondas contrárias, com suas velas brancas enfunadas, com sua esteira alvíssima de espumas após. Então, fechou a janela e foi compor outra paisagem.


Nota: do livro A moça acompanhada, pequenos contos e crônicas.

31 DE JANEIRO: PARABÉNS PARA CYRO DE MATTOS


Cyro de Mattos é um dos escritores mais premiados da Bahia. Excelente contista, também poeta, ensaíata, organizador de antologias, enfim, uma pessoa voltada para a literatura de tal forma que acaba nos incentivando. Ele me estimula a produzir, é amigo, ouvinte e tem toda a minha admiração. Feliz aniversário!


PARÁBOLA
Cyro de Mattos

Prometeu soltar os pássaros,
Não extrair a lágrima da árvore,
Repartir os frutos com os outros,
Deixar a água limpa,
Não envenenar o céu.

No último gesto
Pensou que era morto
E viveu.


Acima, um poema de “Ecológico”, de Cyro de Mattos. E, a seguir, um de seus contos antológicos.


OS RECUADOS
Cyro de Mattos

- Seu nome?
- Diacuí.
- Casada?
- Sem homem.
- Idade?
- Sei não.
- Vive de quê?
- Vender pente, espelhinho e outras coisas miúdas.
- Quantos filhos?
- Oito com Dianuri.
- Os outros vivem com você?
- Estão por aí espalhados pelo mundo.
- Quando foi que comprou o querosene?
- Pela tarde. Tinha ido comprar um pouco de sal e café na barraca de Pedro Mineiro.
Foi aí que eu vi a lata de querosene lá no canto e me lembrei de Dianuri.
- Você não sabia que o fogo podia pegar rápido nos barracos vizinhos? - o delegado pergunta, observando que a feira ia virar cinza em pouco tempo, se o povo todo não chega depressa com as latas cheias d’água.
- Só queria botar fogo nele.
Sensação de mal-estar percorre os cantos da sala pequena.
Murmúrios saem das pessoas que se apertam na porta, janela e do lado de fora.
O delegado recua um pouco na cadeira.
Passa o lenço na testa.
- Quem dava dinheiro pra ele beber?
- O povo daqui mesmo da feira.
- Você não sabia que ele era seu filho?
Uma careta desenha-se no rosto da mulherzinha, puxa os olhos e se forma de maneira sofrida.
- Eu não agüentava mais. Ele só chegava em casa bêbado. Parecia um bicho. Não tinha dia que não fosse achar ele dormindo na sarjeta.
Pára novamente, faz um esforço e continua.
- Tinha vez que ele batia com a cabeça na porta, falava pra ele mesmo: bicho feio, bicho imundo, bicho besta, camacã que não presta pra viver na cidade.
“Lugar de índio é no meio da sua gente, lá no mato”, repetia, soluçando.
A mulherzinha pára mais uma vez, aperta as mãos pequenas, respira fundo. Toma fôlego.
- Ele era meu filho... mas na hora, seu delegado, só fiquei pedindo que o fogo queimasse logo ele de uma vez.
O delegado manda que o soldado leve a mulherzinha para o cubículo nos fundos da delegacia, que serve como cela.
Opiniões desencontradas saem agora da pequena multidão no lado de fora. Vozes confusas comentam sobre a confissão que Diacuí havia acabado de fazer ao delegado. No meio da multidão, um homem velho nada diz sobre a confissão da mulherzinha.
Permaneceu calado durante todo o interrogatório em que Diacuí havia sido submetida. Sua expressão de rancor é a de quem acabou de provar o lado amargo da vida ligado ao amor em toda a sua extensão. Ele mora num barraco vizinho ao de Diacuí.
Conhece a dor que a mulherzinha carregava no peito, drama que vinha sendo sustentado por ela em ombros tão pequenos. Ela via o filho bêbado todos os dias e nada podia fazer para afastá-lo da vida infeliz que levava. Pobre diabo que andava pelas ruas da cidade sem rumo, falando bobagens pela boca que nunca parava.
O mormaço do dia envolve a sala vazia nesse instante.
Luz do céu vidra a manhã lá fora, reverbera sobre as coisas na feira.
A mulherzinha transpira tremores misturados com cinzas. Há suspiros fundos, profundos, no cubículo quase sem luz. Minutos passam num ritmo que fere quando ela começa a lembrar o que tinha de ser. Até que chega essa brisa para envolvê-la com ondas ligeiras, trazendo certo alívio no peito que não pára de gemer. A brisa permanece no rosto sob a pele enrugada, em carícia de lenço. Nos olhinhos de sagüi, que piscam nervosos. Vermelhos e úmidos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PARABÉNS PARA FLAMARION SILVA


Flamarion Silva faz aniversário no dia 29 de janeiro (no mesmo dia que alguém, que conheço muito, também nasceu). Sua estreia, ao publicar O Rato do capitão (Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA - Selo Letras da Bahia, 2006), foi a de um escritor pronto. Os contos do volume não são os de um escritor em processo, são contos elaborados por quem sabe como alcançar uma história bem lograda. Confirmo sempre o seu talento. Sem dúvida.
Além do escritor, a pessoa de Flamarion é, como escrevemos aqui, D+; portanto, para o escritor baiano, para o marido de Graça, para o pai dedicado dos seus filhinhos, para o meu amigo: Feliz aniversário!



MARIA

Flamarion Silva

Para Gerana Damulakis

Se a alma e o coração sujos estão,
dê ao corpo água e sabão.
Se o lado de fora limpo está,
no lado de dentro fica a impressão
.”

Remontam o caminho de volta os talhos da tiririca, que iam, de um e outro lados, penitenciando-me docemente. Também dos matos, as suas galhas, largadas num debruço, e o sol, no desmaio da tarde, caíam sobre mim.
Ia ao Apicum, onde me aguardava Maria.
Decerto por estas trilhas imaginais sons: os pés chapechapeando a água e a lama; sururus em suas cantigas estaladas; piados longe; chiados; aqui, mais perto, neste canto da memória, o desejo a sofregar: Maria antecipada, Maria distante, Maria nunca mais.
“De pirraça”, disse ela bem à frente, no caminhar da história. “De pirraça e por pura maldade me manda a mãe lavar o sujo da roupa.
“Maria!”, chamei, a que só olhasse para trás.
Virou-se. Viu-me e sorriu-se toda. Dengosa. Porém, o tempo também aí já é outro, mais tarde, depois de tanto antes nos termos tentado na ignorância sabida do caso. Foi o acaso que nos levou, outras desvariadas vezes, pelas mesmas várzeas do caminho.
No Apicum, Maria acocorada. Da bacia as roupas ia tirando. Os pés n’água. Abeirado a ela, puxei conversa, pois Maria, agora, tão calada, aguava a roupa, concentrada.
Puxei um fio:
“E é de maldade que Dona Esterzinha te manda lavar essa roupa, e sempre a esta hora alta, Maria?”
Respondeu, sem dizer palavra, que sim. E esfregava o vestido com sabão e ódio. Porém dele e dela a nódoa não se soltava.
“Tanta raiva tenho dela!”
“Tem raiva dela não, Maria. É tua mãe.”
“Antes-de-ontem me mandou cortar uma gamela de maturi... Olha só o magoado das mãos.”
“Maciazinha”, disse mentiroso, tocando de leve os talhos da mão.
Maria se recolheu diante do afago, como se fosse moça prometida transgredindo contrato.
“O pai me fez um agrado: me deu um corte de pano. Disse:”
‘É para fazer um vestido para a festa de ano; Nossa Senhora das Candeias merece.’
“O pai é bom. Ele me deu a fazenda e saiu para a pescaria. A mãe, afastada, na fonte, quando voltou e viu o tecido aberto na cama, disse:”
‘Tem dois vestidos do ano passado, Maria.’
‘Mas são desde o ano retrasado, minha mãe; tão ruços’, “disse suplicante.”
‘Este é meu, Maria, só meu’, “e saía feita dona do corte que me dera o pai.”
‘Conto pro pai’, “afrontei”
“A mãe virou-se, já com a bofetada guardada na mão. Chamou-me de atrevida. Juntos, ao pai se faz doce. Mas a mãe tem um fel no coração, amorzinho... Desde então me castiga...”
Maria se lavava no enxaguar da roupa. E esta foi a última vez que a vi animada. Deu-me seu amor por último e estas palavras, que nunca se me saíram:
“Quero morrer... quero morrer...”
Pensei morria por mim, ensandecida pelo fogo do nosso amor. Qual nada! Intenção escrita no pensamento, arma engatilhada.
E foi, que no outro dia, no mesmo marcado encontro, lá fui eu fazer companhia a Maria. Porém Maria não havia mais. Nem pios nem chios. Tudo silencioso, como se aguarda um momento a hora de um outro ver.
“Onde Maria? Terá ela lavado toda a roupa suja e se foi?” intriguei-me.
Mais adiante, num passado marcado, mais lá no fundo do Apicum, onde eram as águas mais profundas e menos confiáveis, eu a vi.
“Maria!”

Fazia-se tarde. O escuro descendo do céu assombrava tudo. Por certo eu não via direito. O corpo dela, assim meio de viés, preso pelos cabelos nas galhas, abandonado no mangue, como se lhe puxasse pelos cabelos a mãe, num último castigo.
“O mal se corta é pela raiz”, diziam os pais duros de antigamente.
Maria ficou em mim, como fica na boca o travo de fruta devez. E nunca me saiu o gosto dela, este grudado na memória e na pele, com toda sua natureza, toda ela no meu eu, este travo que não me sai. Maria.

Foto "Mangue" (Porto Seguro, Bahia), de Paula Marina, retirada do Flickr.

MORMENTE A DOR

Gerana Damulakis


Mágoa, que dor
— lugar onde cheguei,
espaço onde pisei.

No entanto,
gastando quilômetros
de lágrimas,
noctâmbulo oito
horas,
transpondo seus muros
árabes, muralhas
chinesas, paredões
castristas

tal contido estava,
parecendo perdido,
acorrentado, rumo
à saída certa,
única e onipotente
da morte.

Transpondo a estrada
do pranto,
sim transpus, lavando
as águas nas águas
da fonte;

renasci aqui, em pé,
de pé no monte
das minhas palavras.


Do livro Guardador de mitos.