segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

NÓS, OS AQUARIANOS



Gerana Damulakis

O mês de janeiro já começou com o aniversário da poeta Kátia Borges, mas ela todavia fica no signo de capricórnio. Janeiro adentro teremos muitos aniversários, inclusive o meu (buá!). Os aquarianos são: Ildásio Tavares, prosador, ensaísta, poeta de mão cheia e pessoa certa do meu afeto; Flamarion Silva, contista, cada vez mais sabedor do valor da linguagem nas histórias que conta, meu afilhado literário e companheiro de aniversário (no nosso 29 de janeiro); Cyro de Mattos, poeta, contista, premiado tantas vezes pelo seu inegável valor. E dia 31 de janeiro, o romancista, contista e poeta Aramis Ribeiro Costa, este que mora no meu coração (aquário com aquário, dá para imaginar o quanto já sonhamos juntos).



Foto "Signo de Aquário", de nightcrawler6, retirada do Flickr.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

10 DE JANEIRO: ANIVERSÁRIO DE KÁTIA BORGES

Gerana Damulakis

Dia 10 de janeiro é o dia do aniversário de Kátia. Faz meio ano que nos reunimos mensalmente e, neste tempo, fomos nos conhecendo de outra forma, porque conheci primeiramente a jornalista, depois a poeta do livro De volta à caixa de abelhas, mas nos encontros do grupo é a pessoa antes da profissional ou da poeta quem está presente. Por isso, invertendo a ordem que foi seguida na história do nosso conhecimento, em primeiro lugar vou parabenizar a pessoa, desejando saúde, depois passo para a poeta para desejar a realização do próximo livro ainda este ano e chego até a jornalista conceituada e respeitada para desejar que seu trabalho seja cada vez mais reconhecido. E para todas desejo amor.


DE VOLTA À CAIXA DE ABELHAS
Kátia Borges

Com zelo e alguma tristeza, guardo coisas:
cartas antigas, fotos antigas, calendários.
Se me perguntarem a razão, direi que sei,
direi que um dia saberei...

Há quase um ano aguardo notícias importantes
dentro desta caixa de abelhas.
Todas as noites o carcereiro chega,
põe sua cabeça na pequena grade e ri.

Amanhã mesmo deixo estas coisas, esta caixa.
É algo que assumo cuidadosa,
como se soubesse que não vou voltar,
como se conhecesse o rosto que se oculta,
ou como se mentisse, quando sinto que sei.

Ontem mesmo o carcereiro esqueceu-se de vir.
Minhas lembranças zuniram tontas,
entre as paredes desta caixa,
doloridas de saudade.


Poema que dá título ao livro, De volta à caixa de abelhas, publicado em 2001 com o Selo Editorial Letras da Bahia (Secretaria da Cultura e Turismo, FUNCEB, EGBA). Kátia Borges é jornalista de A TARDE, poeta e assina o blog Madame K (http://mmeka.wordpress.com/).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

MINHAS LEITURAS PREFERIDAS EM 2008











Gerana Damulakis


A minha fixação pela leitura deveria suscitar mais um pouco de ordem ao meu redor, tal como a elaboração de uma lista com os livros lidos a cada mês. Não fazendo deste modo, acabo encerrando o ano com a lembrança mais imediata dos títulos lidos já nos últimos meses. A conclusão é a de que sou uma pessoa repetitiva haja vista a presença do escritor Ohran Pamuk mais uma vez (estou segura de que ele estava na minha lista de 2007 com, pelo menos, Istambul) e agora com O livro negro. A grande descoberta foi o Nobel de Literatura de 2008, Jean-Marie Gustave Le Clézio, com os títulos Peixe dourado e O africano (ainda estou lendo A quarentena), os quais me permitem dizer de seu estilo: um estilo fascinante, levando o ato da leitura a assemelhar-se a um voo espetacular. A literatura japonesa segue me encantando e o destaque entre as leituras feitas fica com Kokoro, de Natsume Soseki. Meu autor de cabeceira, José Saramago, com A viagem do elefante, brindou de novo seus leitores. O modo como Arthur Schnitzler plasma seu interesse pela natureza humana está bem intenso em Crônica de uma vida de mulher (romance traduzido em 2008), talvez mais intenso do que em Breve romance de sonho, ou em Aurora, ou mesmo em A senhora Beate e seu filho. Eu disse que a descoberta do ano foi Le Clézio, mas a prosa inventiva de W. G. Sebald, que já havia me conquistado com Os anéis de Saturno e Os emigrantes, me deixou estarrecida e, de uma sentada, li este ano Vertigem e Austerlitz, duas maravilhas da prosa.
Entre nós, o romance premiado de Gláucia Lemos, Bichos de Conchas, proporcionou um orgulho para todos os seus leitores e os seus amigos, porque vibramos com o prêmio. E agora, sabendo que muitos me rotularão de praticante do cabotinismo, vou enfatizar a emoção surgida da leitura das histórias essenciais de Reportagem urbana, de Aramis Ribeiro Costa: seus contos habitam imediatamente a nossa mente, que sempre fica ávida por mais. É sempre assim quando Aramis publica mais um volume de contos.
Porque a literatura não tem compromisso com mensagem, ou com ajudar nas transformações que julgamos necessitar para nossas vidas; ela tem que envolver, que cativar e, enfim, despertar aquele prazer único, o prazer estético.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ONDE SE CALOU UM AGRADECIMENTO



Gláucia Lemos



Recebi um presente que não agradeci e que, conquanto honrada pelo ofertante, jamais agradecerei.
Anos passados, tantos que mais parecem beirar os séculos, A Tarde Cultural era “risonha e franca” aos autores da terra. Entre eles, esta escriba, com notável freqüência, comunicava em suas páginas, pesquisas e estudos no formato de ensaios de arte. Não sabia que, entre seus leitores, um poeta, tradutor de vários idiomas, crítico de arte respeitável e respeitado, estava fielmente tomando conhecimento do seu trabalho, dispensando-lhe atenção.
Em uma ocasião, conversando com amiga comum, quis ele saber quem era a autora dos ensaios e pediu para conhecê-la. Ficamos de fazer-lhe uma visita, já que ele tinha dificuldade de locomoção. No entanto, apesar da boa intenção, essa visita jamais se concretizou, por motivos os mais diversos.
Ocorreu que no ano de 2001 aquele senhor, que outro não era que não o conhecido e festejado poeta e crítico, Wilson Rocha, publicou o livro Artes plásticas em questão e me fez chegar às mãos, por intermédio da referida amiga, um exemplar autografado elogiosamente. Tive o prazer de desvelar-me em apuro para escrever a resenha e encaminhá-la para A Tarde Cultural, pois era um tempo bom, em que a prata da casa publicava com freqüência naquele caderno. Obviamente a resenha foi lida pelo resenhado que, gentil, autografou seu livro de poesias mais recente Poesia Reunida e endereçou-o ao jornal para que esta autora o recebesse. A amiga comum mudara de cidade, e ele não tinha meu endereço nem telefone. Atirou no escuro.
Mas o tempo passou. Eu não esperava qualquer agradecimento, muito menos alguma manifestação do autor do livro. Estava feliz e satisfeita pela oportunidade de ser apreciada por ele, agora em relação a suas próprias idéias. Sabendo, como sabia, que minha assinatura em um artigo sempre merecera sua atenção. Ele era, com certeza, o meu mais ilustre leitor.
Wilson morreu em um desses últimos anos. Não cheguei a vê-lo, ele não me conheceu, como demonstrara desejo, por admiração - não por mim, mas pelo meu trabalho publicado.
Neste início de 2009, chega-me às mãos, como um presente de ano novo, o exemplar de Poesia Reunida, autografado com um agradecido abraço e as lembranças amigas. Datado de 3 de março de 2003. Beirando os 6 anos de ter sido escrita esta dedicatória chega finalmente a seu destino.
Doi-me não ter podido corresponder à sua possível expectativa de que certamente eu lhe dissesse Recebi seu livro de poemas, muito obrigada. Não se deixa de dizer muito obrigado a um amigo que nos doa uma parte de si. Não se pode deixá-lo esperando uma palavra que se devia dizer. Eu não disse. Estou devendo isso a mim mesma.
Assim são as circunstâncias.

É da autoria de Wilson Rocha, o poema seguinte, retirado de Poesia Reunida.


EXTENDE MANUM TUAM SUPER MARE
A Maria Inês Maldonado

Busca os mistérios mais sutis, esses
de que se formam as coisas mais simples
- o sortilégio do azul, por exemplo,
que é a infância das sombras,
e a tristeza do amor
feito de solidões.
Olha profundamente a beleza fugitiva
a forma vã, a pequenez da criatura
- essa impressentida extensão.
Guarda cada momento que é a vida passando
- esse mover-se em distâncias.
Escuta no teu e em cada coração
o fluir da eternidade destilando
a densidade dos tempos.
Contempla a majestade do infinito.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

PRIMEIRA CANÇÃO ÚLTIMA

Manuel Anastácio


Guardo o desejo
De te guardar,
Como te fazes lembrar no resplendor das cinzas
Sobre o espelho esquecimento do terror das águas,
Na memória dos mortos que nos limitam a respiração
A um frio arrepio de esperança
Disfarçado de canção.
Esquecido será já o teu sorriso sob o escuro musgo do
paraíso,
E continuaremos a sonhar com árvores, crepúsculos,
Com o teu cheiro a tangerina,
E com o arco abaunilhado dos teus olhos
No negro inconformado de um reflexo de quitina.
Como um milagre de inverno rescenderás
A rosas e a pão quente
E verás em mim
Aquele que o abraço da terra vence,
Ao, somente, respirar.
Abraçar-me-ás em terno silêncio, sem que mais pense,
E poderei, por fim, em ti ,descansar.



Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/). Foto "Cataratas do Iguaçu", Paraná, Brasil, de Ricardo Kuehn, retirada do Flickr.

sábado, 3 de janeiro de 2009

VAMOS ESQUECER O TREMA, CERTOS ACENTOS, O HÍFEN EM MUITOS CASOS



Não esqueçam: desde 1º de janeiro de 2009 entrou em vigor o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

A maior parte dos jornais, a exemplo da "Folha de São Paulo" e do "O Estado de São Paulo", dois dos principais jornais do Brasil, adotaram desde o dia primeiro de janeiro as novas regras da reforma ortográfica da língua portuguesa.

Foto de menina.da.LUA, retirada do Flickr.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ESPAÇO UNIBANCO DE CINEMA GLAUBER ROCHA



Espaço Glauber – o Ouro

Ildásio Tavares

Sair de minha choupana em Itapuã onde durmo ao embalo da música das ondas que Debussy tentou captar a vida inteira; sair do meu sossego atlântico, ainda mais de noite, só mesmo por alguma coisa muito sedutora ou muito do meu afeto. Desta vez, eu ainda tive o incentivo de uma musa inspiradora, uma amiga fiel que veio me pegar em casa e, na volta, me deixou no Iguatemi na cara de um táxi. E desta vez o estímulo foi duplo – sedução e afeto.Tratava-se da revitalização do antigo Cinema Guarany, rebatizado de Glauber Rocha e agora devolvido ao público baiano em grande estilo. A inauguração oferecia, de quebra, um clássico, O Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade, obra prima de nosso genial cineasta.
Este belíssimo filme ganhou, lá fora, o título de Antônio das Mortes para facilitar o público, mas para descaracterizar um aspecto da proposta do mais brasileiro dos cineastas de fazer um cordel cinematográfico, referencializado no título original. Gláuber usa, inclusive, a linguagem do cordel nos diálogos e a parodia no mis-en-scène. A película não podia ser mais nordestina, uma perfeita alegoria das relações de dominação no sertão, flagrando, de forma magistral, a catarse de Antônio das Mortes que desperta de seu letargo de matador de cangaceiros=sertanejos e parte para combater o verdadeiro mal configurado no latifúndio e nos seus coronéis - passa de dragão para santo, ao lado de Mário Gusmão feito S. Jorge. no final.
É digno do primeiro mundo, o espaço Glauber Rocha. Vi algo semelhante em Roma, um espaço multiuso onde assisti a um fabuloso concerto sinfônico. O espaço, não pretende ser uma mera casa de espetáculos. Possui variada vocação cultural – uma livraria, uma galeria, um restaurante quatro salas de projeção finamente equipadas, poltronas das mais confortáveis e com uma técnica de projeção que une o mais bem resolvido da imagem ao mais bem requintado dos sons, o que pude constatar na exibição do filme de Glauber cuja cópia, por sinal, rivaliza com o original em qualidade.
Lembro-me de que vi o filme original no Cine Capri, com Aloysio de Oliveira que aqui estava na produção do filme Capitães de Areia, (obra de Jorge Amado) de Hall Bartlett, diretor de um filme de sucesso na época, Fernão Capelo Gaivota, (Jonathan Seagull). Aloysio fora aos Estados Unidos com o Bando da Lua, acompanhando Carmem Miranda, e trabalhara com Walt Disney. O tempo todo, ele reclamou de defeitos técnicos do filme, na montagem, inclusive. Vendo o filme agora, na verdade não descobri nenhum. Acho que foi pura birra do meu amigo Aloysio que cobrava o filme fosse hollywoodiano, a última coisa que Glauber gostaria para um filme que fez com as vísceras do nordeste de fora.
Espero,que as autoridades prestigiem o esforço criativo que brindou a Bahia com este espaço. À frente da Fundação Gregório de Mattos um poeta da maior expressão, terá o desafio de rechear a praça; de Criar e recriar e de acrescentar mais ouro a este ouro que nos deram.