quarta-feira, 3 de setembro de 2008

OUTROS 10 TÍTULOS


Gerana Damulakis


DA LISTA

21- Pais e filhos, de Turguêniev

22- Os tambores da chuva, de Ismail Kadaré

23- O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati

24- Meu nome é vermelho, de Orhan Pamuk

25- Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino

26- A consciência de Zeno, de Italo Svevo

27- Belos e malditos, de Scott Fitzgerald

28- Riso na escuridão, de Vladimir Nabokov

29- Padre Sérgio, de Tolstói

30- O bom soldado, de Ford Madox Ford

TRECHO de O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati (foto).

Aos poucos a fé se enfraquecia. Difícil é acreditar numa coisa quando se está sozinho e não se pode falar com ninguém. Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela; que se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso que causa a solidão da vida.


MANTRA

Fred Matos


para Isis


este frio que cresce no meu plexo
é léxico de uma língua antiga e rara
almenara tatuada na minha pele

a noite é de lã um manto negro
o meu mais cálido agasalho
de saudades e ausências salpicado

nenhuma palavra perfura o aço
nenhuma açoita o tempo
nenhuma funda a eternidade

mas aquele léxico diuturno
forasteira luz do meu vocabulário
penetra cada fresta do manto

e canto um monótono mantra
trama sânscrita desta escrita
negra etérea noite infinita.


Fred Matos é autor de Melhor que a encomenda (FUNCEB, 2006). Foto "There's that Mantra again", por biffybeans, retirada do Flickr.

CRUZAMENTO


David Nobrega



Olha moça, eu posso até contar como aconteceu, mas não vai adiantar nada.Sou apenas um traste, um dos muitos neste cidadão imenso, a tal capital, lotando cruzamentos com nossas bala, flor e carregador de celular. Ninguém dá valor prá gente - a não ser quando a gente tem garrafinha de água para vender e o trânsito pára -, quanto mais ouvidos.Naquele cruzamento deveria ter um semáfro. Eu já havia dito isso antes, mas não mando nada e ninguém presta atenção na gente.Vai aparecer em que jornal isso? Preciso lembrar de pedir pro meu moleque gravar isso pra mim. Famoso por um dia, né? Coisa de pobre. Mas sou pobre e honesto e não custa nada deixar gravado pra mostrar pros vizinho.Bom, voltando ao assunto: O caminhão desembestou lá em cima, perto daquela placa amarela que a senhora pode ver ali em cima, ó. Tá vendo, seu câmera? Não, do outro lado! Essa mesma!Pois é...ele veio correndo de um jeito que a gente, acostumado a ver acidente aqui já sabia que ia dar mer...quer dizer...ia dar pobrema. Não, não acho que tenha perdido os freio ou qualquer coisa assim, não.O carro da madama ali tava certo sabe? A preferencial é dela e quem cruzou foi o caminhão. Mas também não custava nada o motorista dar uma paradinha e espiá antes de cruzar.Não, moça. Ninguém sabe direito onde o motorista do caminhão foi parar. Assim que ele viu a mer...quer dizer...a besteira que ele aprontou, deu no pé.É, fui eu que tirei a criança do banco de trás sim. Tinha muito sangue, mas quando me enfiei no meio dos ferro deu pra ver que o sangue todo era da mãe, Deus a tenha.Os bombeiro estavam ali ó, do outro lado do rio. Até eles dar o retorno e voltar aqui, com esse trânsito todo fud...quer dizer...parado, a menininha podia ter morrido. Já pensou se pega fogo nisso tudo aí?Ah sim...eles me disse que está tudo nos conforme agora. A mãe não viveu mesmo. O motorista também não.Mas a menininha, essa eu salvei. Deus tava comigo no momento se é que a senhora me entende.Parece que o pai dela já foi lá pras Clínicas buscar ela.Recompensa? Não moça. Não quero nada não. A gente faz o que a gente pode e se não for para ajudar os outro, melhor nem viver não é mesmo?Mas bem que a senhora podia ajudar a gente e comprar umas balinha...prum sobrinho talvez?A caixa toda?!Por quê você tá chorando moça?



David Nobrega criou e escreve nos blogs coletivos, pseduo-poemas http://www.pseudo-poemas.blogspot.com/ e no Canto dos contos http://contodecanto.blogspot.com/.
Este conto está no blog http://scriptus-david.blogspot.com/. A foto que acompanha o texto foi realizada por David Nobrega.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

MAIS 10 TÍTULOS INESQUECÍVEIS


Gerana Damulakis


O poeta Goulart Gomes gosta tanto de listas quanto eu, e ficou ansioso com a minha decisão de colocar os romances inesquecíveis de 10 em 10 títulos. Ele disse que isto fica parecendo capítulo de novela e, assim, iria ter que acompanhar. Só para aplacar a curiosidade dele, que é um leitor muito respeitado por mim, vou adiantar mais 10 títulos. Os 100 já estão listados mas, creio, ficariam como algo excessivo para um blog, ninguém iria ter paciência para ler 100 títulos (apenas Goulart). Há outra razão para não apresentar a lista total: a idéia (de Kátia Borges) de reproduzir trechos de alguma das 10 obras se perderia.


DA LISTA


11- Pé na estrada, de Jack Kerouac


12- O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger


13- O jovem Törless, de Robert Musil


14- Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa


15- Adolpho, de Benjamin Constant


16- A Colmeia, de Camilo José Cela


17- Os Buddenbrooks, de Thomas Mann


18- Crime e castigo, de Dostoiévski


19- Petersburgo, de Andrei Biéli


20- O zero e o infinito, de Arthur Koestler


TRECHOS DE Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (foto).


Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; (...) Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio, como eu solucei meu desespero.


................................................................................
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
— Meu amor!...


..........................................................................................
A mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa-senhora. Só faltou – ah! – a pedra ametista, tanto trazida... o Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristãmente, pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: — Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

SETEMBRO DE 1908: PARA MACHADO, O AMOR

Gerana Damulakis

Machado de Assis morreu no dia 29 de setembro de 1908.
Minha homenagem será trazer, sobre alguns temas, algumas frases do Bruxo do Cosme Velho (epíteto que, consagrado a Machado, ficou conhecido no meio literário por conta do poema de Carlos Drummond de Andrade, "A um bruxo, com amor", quando o poeta refere-se à casa número 18 da rua Cosme Velho, Rio de Janeiro, onde morou Machado de Assis.

Do AMOR, por Machado de Assis

Cada qual sabe amar a seu modo; o modo pouco importa; o essencial é que saiba amar. (Ressureição)

O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. (A mão e a luva)

O amor nasce muita vez do costume. (A mão e a luva)

Iaiá ignorava tudo; não soletrava o amor, aprendera-o de um lance. (Iaiá Garcia)

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (...). (Memórias póstumas de Brás Cubas)

Os melhores amores nascem de um minuto.
(do Epistolário, carta a Salvador de Mendonça)

domingo, 31 de agosto de 2008

OS 100 ROMANCES INESQUECÍVEIS

Gerana Damulakis



Quando Kátia Borges começou, lá no blog Madame K http://mmeka.wordpress.com/, a listar suas 100 músicas prediletas, fiquei com vontade de fazer o mesmo, listando meus 100 romances inesquecíveis e/ou os 100 poemas que não deixam meus pensamentos. Comentei com Kátia que iria fazer isto e ela me deu a idéia de destacar um, usando trecho do texto, sempre que enumerasse 10 deles, tal como ela faz com a lista: 10 de cada vez, e ela coloca o vídeo de uma das músicas.

Aviso que a lista não segue a preferência maior enquanto os demais são menos inesquecíveis. Inesquecível é inesquecível, obviamente. Todos no mesmo patamar. O que fiz foi levantar da cadeira e passar rapidamente o olhar pelas prateleiras das estantes e quando o olhar parava, anotava o título, deixando, assim, que meu inconsciente ditasse. Quer forma mais confiável do que esta? Ledo engano. Pois que não parei primeiramente na frente dos russos (quantos romances inesquecíveis eles escreveram!) e o único russo que surgiu na memória foi Soljenitsin por conta de sua morte recente; pois que também nem cheguei na parte da literatura japonesa (que vem me seduzindo nos últimos três anos) e, que absurdo!, deixei de olhar para Hemingway e Fitzgerald e John Dos Passos e....

A LISTA (toda semana 10 títulos)

1- Daniel Deronda, de George Eliot

2- Auto-de-Fé, de Elias Canetti

3- O tambor, de Günter Grass

4- Retrato de uma senhora, de Henry James

5- Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras

6- Eugênia Grandet, de Honoré de Balzac

7- Emma, de Jane Austen

8- Amsterdam, de Ian McEwan

9- O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago

10- Um dia na vida de Ivan Denisovich, de Alexandre Soljenitsin

TRECHOS DE O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago (foto).

Podia ser verdade, podia ser mentira, é essa a insuficiência das palavras, ou, pelo contrário, a sua condenação por duplicidade sistemática, uma palavra mente, com a mesma palavra se diz a verdade, não somos o que dizemos, somos o crédito que nos dão.

A mais inútil coisa deste mundo é o arrependimento, em geral quem se diz arrependido quer apenas conquistar perdão e esquecimento, no fundo, cada um de nós continua a prezar as suas culpas.

O jogo entre uma memória que puxa e um esquecimento que empurra é jogo inútil, o esquecimento acaba por ganhar sempre.

O mundo esquece tudo, o mundo esquece tanto que nem sequer dá pela falta do que esqueceu.

Não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor.

A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.

21

Luiz Britto


Na palidez marmórea da tarde,
apenas uma xícara vazia
uma mancha molhada na mesa,
flores fanadas num vaso,
uma tarde tão fria

E um canto lúgubre de plátanos e
pântanos,
uma certa presença erradia,
dores inauditas e secretas,
que fazem caminho nas penedias

Uma viola parada, a cítara muda,
a harpa que hoje morria,
e o vento passando, como sempre
trazendo a espuma longínqua do mar
numa despedida cheia de bizarria


2 1 --- o vigésimo primeiro texto de VESTÍGIOS DA NOITE SOBERANA, livro de poemas. Foto de giusmelix, retirada do Flickr.