
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
OUTROS 10 TÍTULOS

MANTRA
Fred Matospara Isis
este frio que cresce no meu plexo
é léxico de uma língua antiga e rara
almenara tatuada na minha pele
a noite é de lã um manto negro
o meu mais cálido agasalho
de saudades e ausências salpicado
nenhuma palavra perfura o aço
nenhuma açoita o tempo
nenhuma funda a eternidade
mas aquele léxico diuturno
forasteira luz do meu vocabulário
penetra cada fresta do manto
e canto um monótono mantra
trama sânscrita desta escrita
negra etérea noite infinita.
Fred Matos é autor de Melhor que a encomenda (FUNCEB, 2006). Foto "There's that Mantra again", por biffybeans, retirada do Flickr.
CRUZAMENTO

terça-feira, 2 de setembro de 2008
MAIS 10 TÍTULOS INESQUECÍVEIS

Gerana Damulakis
O poeta Goulart Gomes gosta tanto de listas quanto eu, e ficou ansioso com a minha decisão de colocar os romances inesquecíveis de 10 em 10 títulos. Ele disse que isto fica parecendo capítulo de novela e, assim, iria ter que acompanhar. Só para aplacar a curiosidade dele, que é um leitor muito respeitado por mim, vou adiantar mais 10 títulos. Os 100 já estão listados mas, creio, ficariam como algo excessivo para um blog, ninguém iria ter paciência para ler 100 títulos (apenas Goulart). Há outra razão para não apresentar a lista total: a idéia (de Kátia Borges) de reproduzir trechos de alguma das 10 obras se perderia.
DA LISTA
11- Pé na estrada, de Jack Kerouac
12- O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger
13- O jovem Törless, de Robert Musil
14- Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa
15- Adolpho, de Benjamin Constant
16- A Colmeia, de Camilo José Cela
17- Os Buddenbrooks, de Thomas Mann
18- Crime e castigo, de Dostoiévski
19- Petersburgo, de Andrei Biéli
20- O zero e o infinito, de Arthur Koestler
TRECHOS DE Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (foto).
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; (...) Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio, como eu solucei meu desespero.
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Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
— Meu amor!...
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A mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa-senhora. Só faltou – ah! – a pedra ametista, tanto trazida... o Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristãmente, pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: — Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba...
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
SETEMBRO DE 1908: PARA MACHADO, O AMOR

Machado de Assis morreu no dia 29 de setembro de 1908.
domingo, 31 de agosto de 2008
OS 100 ROMANCES INESQUECÍVEIS

Aviso que a lista não segue a preferência maior enquanto os demais são menos inesquecíveis. Inesquecível é inesquecível, obviamente. Todos no mesmo patamar. O que fiz foi levantar da cadeira e passar rapidamente o olhar pelas prateleiras das estantes e quando o olhar parava, anotava o título, deixando, assim, que meu inconsciente ditasse. Quer forma mais confiável do que esta? Ledo engano. Pois que não parei primeiramente na frente dos russos (quantos romances inesquecíveis eles escreveram!) e o único russo que surgiu na memória foi Soljenitsin por conta de sua morte recente; pois que também nem cheguei na parte da literatura japonesa (que vem me seduzindo nos últimos três anos) e, que absurdo!, deixei de olhar para Hemingway e Fitzgerald e John Dos Passos e....
A LISTA (toda semana 10 títulos)
1- Daniel Deronda, de George Eliot
2- Auto-de-Fé, de Elias Canetti
3- O tambor, de Günter Grass
4- Retrato de uma senhora, de Henry James
5- Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras
6- Eugênia Grandet, de Honoré de Balzac
7- Emma, de Jane Austen
8- Amsterdam, de Ian McEwan
9- O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago
10- Um dia na vida de Ivan Denisovich, de Alexandre Soljenitsin
TRECHOS DE O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago (foto).
Podia ser verdade, podia ser mentira, é essa a insuficiência das palavras, ou, pelo contrário, a sua condenação por duplicidade sistemática, uma palavra mente, com a mesma palavra se diz a verdade, não somos o que dizemos, somos o crédito que nos dão.
A mais inútil coisa deste mundo é o arrependimento, em geral quem se diz arrependido quer apenas conquistar perdão e esquecimento, no fundo, cada um de nós continua a prezar as suas culpas.
O jogo entre uma memória que puxa e um esquecimento que empurra é jogo inútil, o esquecimento acaba por ganhar sempre.
O mundo esquece tudo, o mundo esquece tanto que nem sequer dá pela falta do que esqueceu.
Não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor.
A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.
21
Luiz BrittoNa palidez marmórea da tarde,
apenas uma xícara vazia
uma mancha molhada na mesa,
flores fanadas num vaso,
uma tarde tão fria
E um canto lúgubre de plátanos e
pântanos,
uma certa presença erradia,
dores inauditas e secretas,
que fazem caminho nas penedias
Uma viola parada, a cítara muda,
a harpa que hoje morria,
e o vento passando, como sempre
trazendo a espuma longínqua do mar
numa despedida cheia de bizarria
2 1 --- o vigésimo primeiro texto de VESTÍGIOS DA NOITE SOBERANA, livro de poemas. Foto de giusmelix, retirada do Flickr.