sexta-feira, 15 de agosto de 2008

OS BARCOS DA TARDE


Gláucia Lemos










Vede os barcos que ficaram solitários
quando os ventos passaram...
São como a alma
das mulheres sozinhas
quando passaram os tempos
das esperas.

Não tocai nessas velas,
não tocai!
São como os seios
das mulheres castas
pulsando inutilmente.
Não tocai...

Vede como são mortos
esses barcos...
Como morrem em silêncio
essas mulheres...



Gláucia Lemos publicou este poema na revista ArteLivro, 1996.A foto foi retirada do Flickr, de Loulair Harton.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

EPIFANIA


Ruy Espinheira Filho


Alguns anos não consigo
deixar nas águas do Lete:
os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete.
Muitas coisas se afogaram,
e rostos, e pensamentos,
e sonhos, e até paixões
que eram imortais...
Porém,
os meus magros dezessete
e os teus catorze morenos
não entram nem em reflexo
nesse Rio do Esquecimento.

Que magia nos levou
a um espaço e a um momento
para que de nós soubéssemos:
tu, meus magros dezessete;
eu, teus catorze morenos?
Que astúcia do Imponderável
nos abriu aqueles dias
que permanecem tão claros
como quando nos surgiram?
Eu não sei. Mas sei que a vida
nunca mais me foi vazia.

Como não foi fácil, nunca,
por tanto me visitarem
os Arcanjos da Agonia.
Pois, se fui iluminado
por estarmos lado a lado
— os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete —,
seria fatal que também
viesse a sentir a alma
em chagas multiplicadas
por setenta vezes sete.

Ah, os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete!...
Quanto sofrimento fundo
— mas quanto sonho profundo
e alto! Que belo mundo
foi-me então descortinado,
porquanto me era dado
o privilégio preclaro
de penar de amor no claro,
no escuro, em todas as cores,
em todos os tons da vida,
dia e noite, noite e dia,
varrido ao vento das asas
dos Arcanjos da Agonia
(que eram, por algum prodígio,
os mesmos da Alegria!...).

Ah, que por mim chorem flautas,
pianos, violoncelos,
as cachoeiras, os céus
comovidos dos invernos...
Chorem, chorem, que mereço
essas lágrimas, porque
tudo sofri no mais pleno
de paraísos e infernos.
Que chorem... Mas eu, eu mesmo,
não choro... Como chorar,
se mereci essa dádiva
de um amor doer na vida
por setenta vezes sete
mais que qualquer outra dor,
mais que qualquer outro amor?
Só me cabe agradecer,
pois a vida perderia
(e, o que ainda é mais cruel,
sem nem saber que a perdia...)
se não provasse os enredos,
insônias, febres, venenos
que em meus magros dezessete
acendeu a epifania
dos teus catorze morenos!

Na foto, a capa de um dos livros de Ruy Espinheira Filho, Elegia de Agosto e Outros Poemas (Bertrand Brasil, 2005).

PLENO DE VIDA AGORA



Walt Whitman







Cheio de vida agora, sólido, visível,
Eu, quarenta anos nos oitenta e três anos dos Estados Unidos,
A alguém daqui a um século ou daqui a qualquer número de séculos,
A você que ainda não nasceu, estou procurando você.

Quando você ler isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora você que é sólido, visível, percebendo meus poemas, procurando por mim,
Fantasio o quanto você seria feliz se eu pudesse estar com você e fosse seu camarada,
Sinta isto como se eu estivesse com você. (Esteja seguro que eu estou agora com você).





Esta é uma tradução bastante livre, enfatizando apenas o conteúdo, do poema "Full of Life Now", de Walt Whitman. A seguir, leia o poema "Pensa, Whitman", de Nilson Galvão; então, sinta apenas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

PENSA, WHITMAN

Nilson Galvão







Pensa, Whitman, a poesia triunfou.
O homem só pode viver do que sonha,
e de sonhos é composta toda a trama
que há em volta. Toda maravilha
do mundo.


Calcula, Whitman. Toda a extensão do teu amor
não abarca a extensão do que veio e virá
para além dos teus versos. Mas
o amor, Whitman, foi inventado pela poesia,
e a ela deve tudo. A poesia
triunfou.



Este poema está nos blogs Blag e Madame K, ambos com entrada nos meus "Favoritos".

A CONTRAMARCHA

Aramis Ribeiro Costa


para o poeta Cajazeira Ramos


É preciso deixar os deuses quietos
Que as caravanas passam e eles ficam
E os cães ladrando insanos, irrequietos
São meros animais — com tudo implicam.

É preciso deixar os deuses mansos
Que dos mortais há muito se fartaram
Deixar que esqueçam seus eternos ranços
E olvidem sobretudo que falharam.

É preciso que os deuses, no silêncio
Não impeçam as lentas caminhadas
Que vão do sonho louco à ponte pênsil
E renascem na luz de uma alvorada

A Lua se sumindo na neblina
O Sol iluminando o pó da estrada.




Este poema dialoga com o poema "A Marcha" de Luís Antonio Cajazeira Ramos.
Aramis Ribeiro Costa tem 17 títulos publicados, é ficcionista e poeta, autor de Espelho Partido (FUNCEB, 1996).

A MARCHA

Luís Antonio Cajazeira Ramos



É sempre madrugada, os deuses dormem,
o céu é longe, a caminhada insana,
e vai, antes que os vórtices se formem
no pó da estrada, a lenta caravana.

Nem o ganir do cão, rasgando as fardas
deixadas para trás, quebra o silêncio
dos deuses — não se envolvem nas jornadas.
...E o dia é logo ali, na ponte pênsil.


Só a neblina esconde leve a aurora
e vê (se é dado ver ao vento frio
que sabe quanto é morna qualquer hora)
a razão do vacilo e do arrepio


contra o salto no abismo: os desenganos.
Abandonem seus deuses, homens! Vamos!




Luís Antonio Cajazeira Ramos assina a antologia de seus poemas intitulada Mais que sempre (7Letras, 2007).

A CASA



Gláucia Lemos




Eu sou a tua casa, sou teu pouso.
Deita na rede que te dá meu colo.

Eu te amo como o rio que prossegue
no leito que não muda nem regressa.
Como a união das asas da gaivota
na sincronia firme do seu vôo.
Eu te quero como a dor que me persegue
pelo pão que me alimenta em teu abraço.

Vem ter comigo quando a noite é treva!
Pois é na nossa chama que se eleva,
que o universo se ilumina e aquece.



Gláucia Lemos é autora de Procissão e outros Contos (FUNCEB, 1996) e mais 20 títulos.