quarta-feira, 23 de julho de 2008

COMO UM ANJO

Gláucia Lemos




Onde andará o rei que tocou minha sina,
onde andará o anjo que recolheu as asas
e teceu uma trama em meu sossego?

Não enlacei um fio para prender seus pés,
não levantei porteira para guardar seu flanco.
Só lhe entreguei a jarra para matar a sede.
Só aceitei seus pés
em peso no meu ombro.

Só recebi suas asas ganhando o meu espaço,
e lhe abri meus braços
para voar seu vôo.

Entrou na minha sala
quando a ceia era servida,
trocou as alpercatas
e partiu.



Gláucia Lemos é poeta, ficcionista e cronista. Tem mais de duas dezenas de títulos publicados e é bastante premiada.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Hugh Grant apaixonante

Somos como um mosaico. Meu lado pop é fã incondicional de Hugh Grant: apaixonante! Nestas imagens ele dança... resta suspirar! A cena Hugh Grant dançando é do filme Simplesmente Amor. Mais pop, impossível. Ainda assim, delicioso.

ELA É ASSIM

Gerana Damulakis


Não é necessário fazer isso, contudo farei porque, do contrário, irei morrer de raiva. E o que farei a seguir será contar como ela é.
Ela já amanhece pensando em coisas terríveis, catástrofes pessoais e descobertas de doenças raras. Vai direto para a cozinha e toma um copo de leite desnatado, gelado. Está toda vestida com um pijama de mangas longas já que dorme com o ar-condicionado ligado. Só então passa para o banheiro e escova os dentes e lava o rosto e se olha: toma sempre um susto diante da constatação do inchaço nas pálpebras inferiores, cada vez mais uma evidência dos anos que se passaram implacáveis. Feita a rotina, ela continua com outra, passando a rezar a oração de todos os dias, que acaba por acalmá-la um pouco. Volta para a cozinha, desta vez para tomar um café preto sem açúcar, que ela mesma prepara bem forte, e comer um pão de sal com queijo de Minas. Daí em diante há a questão sobre o que fazer. Ir ao banco, estudar o mercado financeiro, ler mais romances. A vida está assim resumida.
Os prazeres mais freqüentes entre as mulheres, tais como ir ao shopping e lá ficar até conseguir gastar o que têm e o que não têm, ir à casa de uma amiga para fofocar sobre outra amiga, ou mesmo entrar num curso de inglês sem objetivo algum já que não acrescentará nada ao currículo inexistente, nada de uma lista assim a atrai. Ela não é assim.
Ela acha que o único dinheiro bem gasto é o que se paga em troca de livros e o tempo bem passado é o que se perde, ou se ganha, lendo esses livros. Isto porque ela é como um barril cheio de vinho que jamais foi gotejado, nem mesmo para os enólogos provarem. Ela passou muito tempo lendo desde a infância e isto se agravou na adolescência e mais ainda na vida adulta. Algum período se mostrou produtivo e ela colocou bastante texto em cadernos e cadernos grandes para depois jogar tudo no lixo.
Cada instante sem leitura é um instante para tecer tragédias pessoais. Ela antecipa os inesperados golpes do destino, como quem vive em luta com o acaso. Só que o acaso não avisa, ou não seria acaso. Um lance de dados jamais abolirá o acaso, disse Mallarmé. O pai dela morria de medo do acaso, e, por conta do medo, desenvolveu uma série de superstições, de resto algo bem típico dos que nasceram na primeira metade do século XX: de nada adiantou, o acaso o pegou de jeito. Ela ficou tomada por esse medo, sem lembrar que mesmo o acaso pode levar uma lufada da sorte ou do azar, não deixando de ser exatamente o que se chama de sorte e o que se chama de azar. Quanto às superstições, não as desenvolveu, preferiu ir no certo e contar logo com a destruição antes que seja anunciada.
E cada momento sem leitura, sem busca por doenças, sem previsão de tempestades prováveis e iminentes, é um momento de elaboração de algum livro. Houve tempo que era a poesia, seguiu-se o conto, agora é o romance. Ela tece romances inteiros na mente e nunca os escreve. Passou a cultivar um olhar crítico sobre o texto dos outros e sempre encontra pontos positivos porque o simples fato daquelas pessoas terem conseguido colocar na página em branco algumas linhas, para ela, já é um fator que pede aplausos.
Assim foram elaborados verdadeiros tesouros da literatura impossível; impossível por não existir fora da cabeça de alguém. E para ir mais longe, é certo perguntar nesta altura a razão que levou tal criatura a escapulir dos chamados da literatura. Porém, a coisa se complica muito se eu resolver entrar na seara da psicologia que tenta desbravar os motivos que desviam o caminho de um destino, mudam a rota da seta antes que ela atinja seu derradeiro lugar, seja o alvo, seja o chão.
Passado o dia sem graça, ou cheio de expectativas quanto às catástrofes, ela mergulha nos romances, entra em êxtase com achados poéticos, com metáforas incomuns e inteligentes, com enredos fascinantes. Cada escritor descoberto e enaltecido por ela é um tanto ela própria, ou guarda um tanto do que poderia ter sido e que não foi, como reza um verso brilhante do grande Manuel Bandeira. Há épocas em que ela está segura de que pode viver assim, mas há épocas insuportáveis: é muita angústia, muita aflição. Um imaginário tão povoado e tão tomado pela realidade e pela ficção se assemelha a uma represa no período das chuvas intensas: um dia ela irá transbordar. E eu não quero ficar tão perto.
É verdade que não seria necessário fazer isso, contar as mazelas dela aqui, mas ela está tão entranhada em mim, tão próxima que, de alguma maneira, preciso deixá-la sair um pouco de dentro de meu corpo para não morrer em breve. Talvez seja assim como assassinar uma parte de si mesmo, o que, às vezes, se faz preciso. Assassinando-a, é de se esperar que prevaleça alguma parte mais sadia. Penso que sou melhor do que ela, eu tenho qualidades que ela não pode sequer almejar. Então, digo que ela é assim. E eu não a suporto mais.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

AO AMIGO DESCONHECIDO














Prezada G. D.,

Lago Júnior


Quero ser o que escrevo.
Consubstanciar-me-se.
Afinal, não passo de um objeto de estudo?
Ora, bolas!
Eu reinvento meu minuto, cada um não reinventa o seu?!

Entre os dedos - literalmente
falando - guardo e consumo
um incenso de alfazema.
Cheiro de simplicidade.
Logo eu (eu... eu... ) um complexo anônimo;
um cavalo de troças, um vilão bonzinho.
(Argh.) Eu queria sorrir muito.
Mas nem sempre é singular.






Do livro Ao amigo desconhecido, que Lago Júnior lançará dia 31/07.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

SONETO DO AMOR INDEFINIDO


Aramis Ribeiro Costa

Amor não se define - é mágica e loucura
Encontro e desencontro e encanto conquistado
É cegueira total e olhar que tudo apura
E tem em tal contraste o fogo renovado.

Indefinido amor, impulso incontrolado
Que se refaz de espera e tudo crê e jura
Que arde e consome e mata o próprio ser amado
Amor que se acomoda, amor que se aventura.

Amor que nasce morto e ainda assim existe
Amor que se desgasta em vão e se maltrata
Amor que tudo pode e deve e exige e serve!

Amor - encantamento que afinal resiste
A esperança maior, a sensação mais grata.
Indefinido amor: que o sonho te conserve!



Soneto de Espelho Partido - Sonetos Escolhidos 1971-1996 (Funceb, 1996).

quarta-feira, 16 de julho de 2008

SONETO DO DEFINIDO AMOR


Aramis Ribeiro Costa



Melhor amor se faz de coisas certas
Que de sonhares vãos, imaginados
Que os sonhos todos morrem, se guardados
E portas de sonhar são sempre abertas.

Amor que se detém nas descobertas
E não nos desencontros isolados
É este o definido amor dos fados
O amor que acerta as vidas mais incertas.

Amor... amor... talvez um firmamento
De estrelas e cometas aloucados...
Talvez um desvairado sentimento.

Melhor amor se faz de coisas veras
Amor de encontros, gostos e cuidados
Amor de estradas longas e sinceras.



Soneto retirado de Espelho Partido - Sonetos Escolhidos - 1971-1996 (Funceb, 1996).

DE CRIATURA A CRIADORA, MULHER, PERSONAGEM (SONHO) DE SI MESMA

Gerana Damulakis
(sobre a literatura escrita por mulheres ao longo do tempo)





De criatura a criadora, a mulher percorreu um longo caminho de tributos e punições. E no início eram Adão e Lilith. O mito de Lilith é bastante explorado na literatura, William Faulkner e Mac Donald foram dois escritores que se encantaram com toda a gama de significações encerrada nesta lenda. Criados por Deus em condições de igualdade, Adão e Lilith viviam juntos até Lilith cometer o primeiro pecado – que não foi a mordida da maçã – ao proferir o nome d’Ele. Expulsa do paraíso graças aos seus excessos, afoiteza e galhardia, e suas inquietações, Lilith passou a simbolizar a desventura, o mal, o diabólico exagero.
Adão ficou só, mas não sustentou a solidão por muito tempo e rogou a Ele uma outra mulher. Porém dessa vez havia um preço a ser pago: uma parte de seu corpo. É sintomático desde logo o que resolveu a questão: de Adão não foi retirado nada dos olhos ou ouvidos, pois a mulher não deveria ver ou ouvir melhor que ele; nada a tirar da cabeça, do contrário, ele iria correr risco de ter um mulher que pensasse; também nada havia a retirar de suas pernas para que ela não corresse mais do que ele. Deus sugeriu, então, o osso curvo que chamamos costela. É um osso que não faz falta, além de ter a vantagem dessa curvatura que figura tão bem o sempre-curvado-a-ele.
A pequena história conta, em síntese, o papel da mulher, o que lhe coube, e daí vem a luta para reverter o conto e alcançar, ainda que na contramão, o destemor de Lilith. Na literatura escrita por mulheres se conta outra vez a lenda da primeira desafiadora: no início foi Safo, igual aos seus amigos poetas, ou mesmo mais ousada tal qual Lilith. Há ainda um escritora importante na hipótese de Harold Bloom, que foi capaz de propor uma polêmica quando, no O Livro de J. , que levanta "o mistério J." e a autoria original de trechos como os da criação de Adão, Noé e o dilúvio, José e seus irmãos e o episódio do Êxodo, do Velho Testamento dos cristãos. J. teria sido uma mulher, uma escritora da estatura de um Homero ou de um Shakespeare.
Mas, antes do século XVIII, o que encontramos é uma ou outra voz feminina, seja Sor Juana Inés de la Cruz, do México, ainda nos 600, seja a fama das Cartas de Amor de Mariana Alcoforado, escritas três séculos atrás. O que se vê, na verdade, é a mulher se debatendo com uma linguagem proibida. Emily Dickinson enfatiza o “sacrifício da mulher associado à fala considerada ilegítima e à sexualidade considerada subterrânea”. Contudo, as Novas Cartas Portuguesas já comprovavam o desassossego por originar uma linguagem aceitável para o gênero feminino. No princípio do século XVIII, as mulheres começaram a escrever e publicar expressivamente tanto no continente europeu como nas Américas, ainda que o palavreado refletisse a índole feminina firmada na rainha do lar. Apesar disso, a outra faceta virtualizava o mal e no instante em que se dá a autoria, a mulher criadora revelada pula fora da vida privada e, intrusa, faz da atividade cultural, que não lhe é própria, passagem para a simbolização da bruxa malvada. Seguindo essa trilha de condenação, a história e o hábito estéticos determinam a dádiva ou a faculdade de criação artística, como algo especialmente masculino, o que não causa admiração, afinal é a figura Paterna, o criador, o determinador.
Vê-se que pertence a mulher o papel alegórico, diabólico ou celestial, enfim, intercessora entre o criador, artista pois, e o mistério, doutrinando-o para a perversão e/ou lançando-o ao estado de candura. Em suma: musa. Essa posição diferenciada da mulher em relação ao homem permanece até o século XX.
Basta olhar os ideais cristãos da Idade Média apartando o sexo, o gênero, dos demais valores espirituais ou sociais, e, se depois a Inquisição rotula a mulher como emissária do demônio, enviada com o intuito de tentar o homem, então, resta olhar a Renascença, quando um “certo casamento” parece mais harmonioso.
Dando um salto direto para o Romantismo, vemos uma elevação da emoção e dos sentimentos e, com isso, a mulher é enaltecida para ser digna de contemplação. Estamos, outra vez, no século XX porque a conclusão fica a cargo das teorias psicanalíticas e das pesquisas científicas, responsáveis pela mudança relevante da visão humana de gênero, igualando os sexos e seus poderes.
A literatura acompanhou o desenrolar da luta dos gêneros: longe do tempo em que, cercada de lendas amorosas que aumentavam sua fama, a poeta Safo celebrizou os cantos de amor às suas ninfas, a autora obriga-se a criar contradizendo o modelo nascido do protótipo através de personagens representativas de sua contida, represada e acobertada aspiração, de forma a conseguir arremessar os ímpetos revolucionários e a energia do desespero em imagens excêntricas ou entusiasmadas, desfiguradas ou patéticas. É como se o próprio ato de escrever criasse o sujeito insano, “a figura da louca”. Cecília Meireles diz: “Sentada estava a Rainha, sentada em sua loucura./ Que sombras iam passando,/ naquela memória escura?
O interessante é que no final dos 800 está evidente a quantidade de alterações nos temas e nas metáforas, remarcando, portanto, os papéis sexuais devido à necessidade de uma determinação dos gêneros e dado o pesar intrínseco na palavra “fim”, de fim de século, e toda a implicação que essa expressão carrega e produz como convulsão de conceitos.
Acontece a incursão feminina no mundo dos intelectuais, levantando discursos e discussões: é o tempo da guerra dos sexos.
Aqui e ali, uma Francisca Júlia (1874 – 1920) seguindo as diretrizes do realismo, uma Rosália de Castro ( 1837 – 1885), na Espanha, marcando seu nome com eternas letras femininas na poesia. Não resta dúvida de que a prosa foi mais fecunda: na ficção, desde 1678, Madame de Lafayette aparece com La Princesse de Clèves. Impossível não mencionar Madame de Stäel (1766 / 1817), e mais além Charlotte e EmilyBrontë, nos 800, enquanto na Inglaterra, Ann Radcliffe, por exemplo, torna-se a escritora mais popular e mais bem paga no século XVIII; também Mary Shelley, já no Romantismo, cria o mito eterno de Frankentein.
Mas, estamos mirando especialmente a poesia e, para tanto, é indispensável olhar a poeta romântica Emily Dickinson, americana que viveu de 1830 até 1886, tendo uma corrente de sucessores que testemunham sua importância. A pesquisa evidencia a fertilidade dos 800, chegando à contemporaneidade em todo o mundo com nomes como Elizabeth Barret Browning, nascida e 1806, consagrada pelos seus Sonnets From the Portugueses; sem esquecer Christina Rossetti, nascida em 1830, em Londres, irmã mais moça de Dante Gabriel Rossetti.
Na poesia norte-americana, encontramos Hilda Doolittle, nomeada H.D., contemporânea de Pound e William Carlos Williamns, pregadora dos "imagistas” e da “ausência de emoção”, enquanto Mariane Moore perseguia a exatidão com tanto radicalismo que ficou sendo rotulada de poeta cerebral e, de resto, fez uma poesia das mais fluentes na época com seus animais chamados “antipoéticos”, que serviam de isca para pegar o flagrante da verdadeira poesia e, assim “Poetry”, sua ars poética, consta de toda antologia publicada em qualquer parte do mundo.
Ainda, Edna St. Vicent Millay, Prêmio Pultizer, em 1923, ou Elizabeth Bishop, que nos é cara pois traduziu nossos poetas, por exemplo, Drummond. Sem deixar de mencionar Anne Sexton, também Prêmio Pultizer, ombro a ombro com Sylvia Plath devido a nota nova que ambas se preocupam em imprimir à poesia escrita por mulheres, de saída, diferente da frieza de M. Moore, mostrando uma vontade firme de abrir espaços. Anne Sexton, norte-americana, nascida em 1928, morreu tragicamente, suicidando-se em 1974, o que sugere uma comparação com a sorte de Sylvia Plath: vidas sofridas e encantos sublimes, as mesmas inquietações, como em: “Auge”, de Plath:
A mulher está perfeita./ Morto,/ Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,/ A ilusão de uma necessidade grega/ Flui pela dobras de sua toga,/ Nus, seus pés/ Parecem dizer:/ Fomos tão longe, é o fim. "
No Brasil, Henriqueta Lisboa, vinda dos anos 30 do século XX, amadurece junto com o nosso Modernismo, e Cecília Meireles desponta, em 1945, com Mar Absoluto. Ainda na nossa língua, Sophia de Mello Breyner Andersen, em Portugal, é voz marcante sem se desfeminilizar. Em 1945, a poesia e a mulher são premiadas com o Nobel de Literatura através da chilena Gabriela Mistral por seu conjunto de obras: Croquis Mexicanos, Desolación, Ternura, Tala.
A poesia escrita por mulheres é fato reconhecido, nomes imortais estimulam ensaios e estudos. João Carlos Teixeira Gomes assinala no livro A Tempestade Engarrafada a convergência das poetas Alfonsina Storni e Florbela Espanca, baseada na paixão e na agonia. O ensaísta diz: “O recalque atávico, de clara conotação freudiana na sua expressão individual (...) denuncia as pressões desencadeadas por 20 séculos da repressão sexual vinda do bojo da concepção judaico-cristã do mundo, que ela (Storni) repele, numa veraz e voraz celebração do impulso erótico e da força dos instintos nos jogos amorosos”: "Pudiera ser que todo lo que en verso he sentido/ no fuera más que aquello que nunca pudo ser,/ no fuera más que algo vedado e reprimido/ de família en família, de mujer en mujer".
Esta é Alfonsina Storni, naturalizada argentina, colocando no modus faciendi da condição feminina a sensualidade sem hipocrisia, tal como fez sua contemporânea Florbela Espanca. Ambas, e isso lembra o outro paralelo linhas acima entre Plath e Sexton, resistem, bravas, quanto ao desejo do homem, daí o caminho da negação: “O amor dum homem? Terra tão pisada,/ Gota de chuva ao vento baloiçada.../ Um homem? – Quando eu sonho o amor dum Deus? ...”.
Já levantei, em outra ocasião, uma semelhança entre Florbela e a brasileira Gilka Machado, nascida um ano antes que Florbela. Gilka expõe na poesia a diferença entre as naturezas feminina e masculina, ao plasmar a verdade do sentimento machista que não traz culpa nem ânsia de amar, pois, na sociedade em que vivemos, este parece ser um pecado essencialmente feminino, herança legada pelo mito de Lilith e por Eva, desafiadoras das leis em nome do desejo.
Gilka for precursora na luta pelos direitos da mulher em alcançar as representações do desejo na poesia, isto é, “não mais um corpo marcado pelo a-menos, mas sim um corpo que pode assinalar a fonte de um novo discurso”. Verseja Gilka: “ Eu sinto que nasci para o pecado,/ se é pecado na Terra amar o Amor:/ anseios me atravessam, lado a lado,/ numa ternura que não posso expor”.
Vale a pena citar um outro tipo de luta das mulheres utilizando a palavra poética: luta mais árdua, luta vã, mas tentativa válida no texto sofrido de Anna Akhmatova (1889 / 1966), lírica tensa e ampla, expressando a amargura da mãe que teme pelo destino do filho e da pátria num momento histórico difícil na então União Soviética. Também Marina Tzvetaeva (1892 / 1941), de vida e destino trágicos, continua a nostalgia e a dor do romantismo que expressa a busca da pátria e do companheiro através da magia verbal e de certa “impostação de voz populista”.
A poesia escrita por mulheres, vista pelo crítico Wilson Martins, marca a distância percorrida pelo feminismo literário, pois a leitura simultânea de uma poeta atual e de uma outra deixa evidente o caminho intelectual, emocional e social efetuado pelo feminismo literário nos últimos 80 anos. O ponto negativo reside na redução da poesia a lugares-comuns e ladainhas obsessivas, desmonetizando a temática do desejo, tanto mais que, para Wilson Martins, ao tratamento literário dado por um Gilka Machado, por exemplo e para ficarmos com uma poeta da qual já falamos, sucede um tratamento filosófico, descritivo e referencial, de resto, um tratamento antipoético.
A responsabilidade de tudo isso fica por conta das tentações do sucesso de escândalo e, assim, Gilka chega a mudar para “Cio” o título do belo soneto que se intitulava “Noturnos”, na edição original de seu Cristais Partidos.
O crítico paranaense mostra com segurança como a temática sofreu um desgaste graças aos sobrelanços inevitáveis da imitação que causou a condenação na medida em que o feminismo literário passou a ocupar o espaço do homem, usando o palavrão, a emancipação sexual e a obrigação do trabalho fora de casa.
Não há como fugir dessa realidade que reflete o extremo alcançado pela nova mulher. O preço pago por tal geração foi alto. Ana Cristina César deixou isso claro na sua poesia. Ela escreveu e pagou o valor: “ Pergunto aqui, meus senhores/ Quem é a loura donzela? Que se chama Ana Cristina? E que se diz ser alguém? É um fenômeno mor/ ou um lapso sutil? “.
Passados os lapsos, enganos, exageros, bravatas e, menos a Lilith do folclore assírico-babilônico, fantasma diabólico, para ser mais um gênero próprio e diferenciado, a mulher que escreve hoje luta com palavras na sempre “luta mais vã”, processando uma das maiores utopias da literatura que é, como ressaltou Laforgue, a conversão do autor ou autora, em personagem de si mesmo.