terça-feira, 24 de junho de 2008

ANJO LÍRICO DOS PAMPAS


(sobre a lírica de Mario Quintana)


A morte é a libertação total:
a morte é quando a gente pode, afinal,
estar deitado de sapatos
Mario Quintana

Gerana Damulakis

Foi Augusto Meyer quem disse que “a verdadeira história de um escritor principia na hora da morte”. Desde que Mario Quintana morreu aparecem mais e mais quintanólogos que chegam, a exemplo do que fizeram Meyer e Fausto Cunha, para mostrar o valor do lirismo do anjo dos pampas.
Ele estreou em livro com 37 anos, portanto, como se diz, foi uma estréia tardia. Não faltava editor. Érico Veríssimo, então secretário da Editora Globo, cobrava o livro com insistência. Mas é apenas a publicação que pode ser chamada de tardia porque a obra já estava pronta. O próprio Mario conta que os críticos dividem seus livros em três fases: a simbolista (do primeiro livro. A Rua dos Cataventos, até Sapato Florido); a realista (até O Aprendiz de Feiticeiro); a surrealista.
No entanto, não houve essa evolução. Em todos os livros há poemas da época em que A Rua dos Cataventos foi publicado. Quando os críticos disseram que finalmente Quintana havia sido conquistado pelas formas mais avançadas de poesia, ele respondeu que já havia chegado antes. O que ocorreu foi uma ordenação lógica, e não cronológica, dos poemas.
Ninguém melhor do que o poeta para explicar qual era a sua intenção: “Reuni os sonetos com seus companheiros de lirismo um tanto boêmio, as canções com suas irmãs de dança, os quartetos filosofando uns com os outros, porém num riso mal contido, os poemas em prosa proseando amigavelmente sobre isto e aquilo, os poemas oníricos com suas perigosas magias de aprendizes de feiticeiro”.
Se fases indicam coisas sucessivas, elas não aconteceram. A poesia de Quintana traz sempre suas características principais: o humanismo do seu conteúdo e simplicidade (enganosa simplicidade) de sua forma.
É preciso não ser apressado para não concluir erradamente rotulando Quintana de “poeta fácil”; na verdade, essa facilidade imediata é uma ilusão, uma aparência, porque não há soluções fáceis, ele sabe ser simples recorrendo, muitas vezes, à linguagem popular através de um trabalho artesanal com as sutilezas e recursos poéticos. Mario dizia que jamais esperava que o santo da inspiração baixasse, antes puxava-o pelo pé, e isso dá trabalho: trabalho poético.
E como é melódica a poesia de Quintana! Certa vez, Fausto Cunha perguntou ao poeta qual era o seu compositor favorito, porque, crítico atento, já havia associado esta poesia à música. Mario respondeu: “Mahler, Na música de Mahler, como na minha poesia, há uma inquietação terrível, aqueles motivos que nunca chegam a uma solução”.
Sobre suas influências, ele confessava abertamente a admiração por Antonio Nobre e Guilaume Apolinaire, mas advertia que os poetas que a gente estima têm um significado muito grande, porque não se dá, propriamente, influência, mais sim confluência; a gente só gosta de quem se parece com a gente.
Quintana levou uma mágoa ao morrer em 5 de maio de 1993: a de não ter entrado para a Academia Brasileira de Letras. Entretanto, foi sempre muito festejado. Introduzido na vida literária por Cecília Meireles quando, em 1927, enviou poemas que a poeta publicou no suplemento literário do Diário de Notícias, Mario Quintana teve aceitação imediata. Em 1966, Manuel Bandeira, em sessão da Academia Brasileira de Letras, fez uma saudação a Quintana, com um poema que se incorporou definitivamente à biografia do poeta do Rio Grande do Sul. As duas primeiras estrofes já evidenciam a admiração de Bandeira:

Meu Quintana, os teus cantares
não são, Quintana, cantares:
são, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

O título de Príncipe dos Poetas Brasileiros, em 1989, foi pouco para Quintana. Poeta presente na maioria das antologias nacionais e estrangeiras, também gravou vários discos de poemas, arrebatou muitos prêmios literários, foi muito louvado. Carlos Drumond de Andrade dizia que a lírica de Quintana “é uma tradução para o simples, de muitos mistérios”. Também tradutor, Mario deixou sua marca desde o primeiro trabalho para a Editora Globo, de Giovanni Papini, Palavras e Sangue, depois, como integrante da equipe de tradutores da mesma Globo, verteu para a língua portuguesa, obras de Proust, Joseph Conrad, Voltaire, Balzac, Virginia Woolf, Maupassant, e tantos outros.
Trabalhou na imprensa, no Estado do Rio Grande e no Correio do Povo. Mario Quintana - o Mario é assim mesmo: sem acento - nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul, em 30 de julho de 1906. Mario morreu em Porto Alegre, aos 87 anos. Ele disse: “Não gosto que me adjetivem, eu sou um substantivo”. Portanto, vamos ler Mario, o Mario Quintana.
A escolha vai para o soneto "Da vez primeira em que me assassinaram", cuja estrofe inicial traz os versos antológicos: "Da vez primeira em que me assassinaram/ Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.../ Depois, de cada vez que me mataram/ Foram levando qualquer coisa minha..."
É o entendimento do que é comum a todos que está presente no conteúdo lírico verdadeiro, daí a perenidade do poeta, deste poeta imortalizado pelos leitores.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

ENJAULADA COM FEBRE DE AMAR




(sobre a angústia de amar na poesia de Florbela Espanca)




Gerana Damulakis

O poeta geralmente sofre da síndrome de ser vário. Walt Whitman vociferou: "Sou vasto. Contenho multidões". Fernando Pessoa inventou os heterônimos para multiplicar-se. E Mário de Sá-Carneiro chegou a dizer: "Morro à míngua, de excesso" e, sendo tantos "já não me sou". Enquanto o nosso Mário de Andrade proclamou ser trezentos, trezentos e cinqüenta, mas precisamente. Há qualquer coisa de Iago (em Otelo, de Shakespeare): "Não sou o que sou". Florbela Espanca completa: "E neste sonho eu já nem sei quem sou...".

A poeta portuguesa não escapou a essa tendência de sentir sua personalidade multifacetada. Fez-se princesa, castelã, sóror e, cada uma - como diz José Régio em estudo crítico - "morta, ressurgirá em todas as mulheres beijadas pelo homem que a amou". Como nos contos de fada, Florbela traz a concepção de viver encantada. Por tal, Jorge de Sena atenta que a poeta se transforma em seres de outros reinos, e crê que só terá esse encanto quebrado com a vinda da morte. A poesia de Florbela Espanca, como um diário, registra os estados de espírito, os seus vários: da ansiedade à depressão, do delírio da paixão à exaltação ilimitada. Daí ser terna ou voluptuosa, daí doar-se e se sacrificar ou apiedar-se com imensa comiseração de si mesma: "Tantas almas a rir dentro da minha!".

Tudo está escrito em linguagem desinibida, de fácil acesso. Primeiramente, expressando-se pela forma de Antero, principalmente no que tange à opção pelo soneto. De qualquer forma, seu modus faciendi é inerente a ela própria enquanto mulher, revelando uma sensualidade sem hipocrisia. Algo nos lembra que se assemelhe a este aspecto de Florbela, certamente as Cartas de Amor de Sóror Mariana Alcoforado. Na literatura brasileira, Gilka Machado (1893-1980), nascida um ano antes que Florbela, fala com igual sensualismo em seus versos impregnados de desejo e volúpia.

Retornando ao ponto de partida, a variedade de seres em Florbela justifica-se por este misto, esta mescla de emoções que a sensualidade encerra: insatisfação - o amor sempre quer mais -; exaltação - sensação de plenitude ao ser tomada pelo amor que julga ser total, mas logo mostra sua pequenez; "O amor dum homem? - Terra tão pisada,/ Gota de chuva ao vento baloiçada.../ Um homem? - Quando eu sonho o amor dum Deus?...". Para tanto, ela deve se transformar mais uma vez e, aqui, Florbela almeja ser aquele que o mundo cristão venera como idealização da mulher "(...) Onde couber/ O mal da vida dentro dos meus braços./ Dos meus divinos braços de Mulher!". Conseqüentemente, a insatisfação prevalece, pois que não há amor capaz de render a poeta. Ela segue com sede deste amor: "Grito o teu nome numa sede estranha,/ Como se fosse, Amor, toda a frescura/ Das cristalinas águas da montanha!".

A poeta não alcança a saciação: "Sede de beijos, amargor de fel,/ Estonteante fome, áspera e cruel,/ Que nada existe que mitigue e a farte!". Sem preconceitos, essa angústia por tamanha vontade de amar está liberta de amarras, justamente para mostrar os conflitos da alma feminina e sua volubilidade: "Eu quero amar, amar perdidamente!/ Amar só por amar: Aqui... além.../ Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente.../ Amar! Amar! E não amar ninguém!".

Ousada e sincera, Espanca afirma: "Quem disser que se pode amar alguém/ Durante a vida inteira é porque mente!". E declara: "Eu não sou de ninguém!...". Sendo tantas, ela é única com estes versos tão explícitos da condição humana frente ao amor e suas vicissitudes, que o transforma em vários sentimentos. Enfim, as transformações dos estados de alma fazem do poeta aquele que expressa a variedade, o dinamismo da vida. Quem define bem este ponto é o Prêmio Nobel de Literatura de 1981, Elias Canetti, em A consciência das palavras (Companhia das Letras, 1990), abordando o ofício do poeta: "O mais importante é que ele (o poeta) seja o guardião das metamorfoses". Não tendo como escapar, a história e a imediatividade da vida de um poeta estão inseridas em suas metamorfoses. E se o poeta em questão é poeta do amor e sua superfluidade, a imagem é como a revelação exuberante no ápice da escrita desse erotismo que, acima de todo o universo dos sentidos, mescla carne e espírito na voragem das mudanças ou transformações. Georges Bataille, em O Erotismo (L&PM, 1987), diz que o "interdito existe para ser violado": proposição cumprida por Florbela, que revela a multiplicidade do ser mulher em várias vozes. E a dela é das que o tempo não mata; na verdade, desperta, anima para dar-lhe mais vida a cada nova leitura.

A foto da capa do meu O rio e a ponte, do qual retirei este texto, é de Edward Hopper. Foto da estátua de Florbela Espanca em Évora, Portugal, retirada do Flickr, assinada por moitas61.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O RIO E A PONTE


Gerana Damulakis



Ao dar a este meu livro o título O rio e a ponte -À margem de leituras escolhidas, editado pelo Selo Letras da Bahia, eu procurei metaforizar a relação entre a leitura e a percepção da mesma leitura, buscando, com obstinação, a despretensão, e, com isso, atingir o leitor que é capaz de admirar e encontrar prazer no ato de ler um pequeno ensaio e, quem sabe, através deste, ir procurar um prazer maior dando um mergulho; ou seja, busquei instigar aqueles que são sensíveis à literatura.

Excetuando o texto sobre José Saramago, que saiu na revista do Gabinete Português de Leitura, Quinto Império, os demais textos reunidos foram escritos para o suplemento Cultural do jornal A TARDE, cujo editor naquela altura, Florisvaldo Mattos, foi o principal responsável pela existência destes escritos, dados seu estímulo e sua confiança na minha capacidade de expressão frente ao grande público do maior jornal do Estado da Bahia e do nordeste do país.

Como o público do jornal e da revista é seguramente maior que o do livro, lamenta-se o pouco espaço destinado aos assuntos literários na imprensa escrita. Lembrando o grande ensaísta José Paulo Paes, influência confessa no tocante ao meu caminhar pelos bosques da leitura, transcrevo seu pensamento com respeito ao modo de encarar a crítica: "Por ter de enfeudar-se cada vez mais na universidade, a crítica, capitis diminutio, passa a ser uma atividade setorial, ela que nascera vocacionada para o urbi et orbi".

A miscelânea que acaba por conter um denominador comum, que é o objetivo de suscitar curiosidade sobre livros e autores, justifica-se por ser uma reunião de textos escritos ao longo de alguns anos sem o propósito de compor um livro, mas que se mostrou viável graças ao objetivo supracitado.

Creio que sempre haverá os que desejam perseguir o prazer do texto sobre a obra para, como pensava T.S.Eliot, redobrar o dito prazer.



Esta é a nota liminar do meu livro O rio e a ponte, que terá alguns dos textos postados aqui no blog.

terça-feira, 17 de junho de 2008

AS QUATRO FOLHAS DO TREVO


Gláucia Lemos

Descobri uma touceira de trevos em um canteiro. Há muito tempo não encontrava um pé de trevo para exercitar minha busca à felicidade.
Agachada, demorei-me mexendo nas hastes, frágeis, que mãos sem cuidado não podem afastar. Caçava um que tivesse as quatro folhas do talismã. Não havia nenhum. Essa incontida busca à felicidade... Estamos sempre a persegui-la, sem sequer sabermos onde, em qual objeto, em que ser, em que ação, em que pessoa daremos com ela. E até nos confortamos com seus símbolos.
Fugitiva e escorregadia, ela nos escapa a cada momento, a cada tentativa. Ou somos nós que, na ansiedade por possuí-la, e não desconfiando sequer da sua forma própria, do seu impreciso conteúdo, ficamos a bater a cabeça, a gastar os sapatos e a ralar a alma, a nos animar com as miragens pelas quais ela nos ilude. É ela que nos ilude, ou somos nós que nos envolvemos prazerosamente nas ilusões que nós próprios criamos na pressa de tê-la? Ela está sempre apenas onde a pomos / e nunca a pomos onde nós estamos. Assim pensava Bilac (ou Vicente de Carvalho? Minha memória me trai.)
Mas nós não queremos a felicidade que manipulamos, que movemos de um a outro lado, que podemos pôr em algum lugar. Sonhamos a utopia de uma felicidade que lá um dia apareça de asas abertas, enormes, todas em plumas cor de ouro – ou brancas também servem - e nos envolva dizendo: Cheguei! Sou a tua felicidade! E ela nos entregue - enrolada para presente, ou desenrolada mesmo - uma pessoa que nos ame definitivamente – nada disso de infinito enquanto dure, ame mesmo no duro definitivamente, sendo sob medida para os nossos braços como quer a canção, mas não só para os nossos braços, também sob medida para as nossas emoções, que não ronque de noite, não tenha mau-humor, não seja arrogante, nem sofra de gastrite nervosa, e venha envolta em uma nuvem – que pode ser leve – de paciência para a TPM e o atávico consumismo feminino. E sobretudo que, de vez em quando se lembre de que nós, mulheres, existimos, e nos sorria. Queremos uma felicidade que nos traga aquele emprego cujo chefe seja generoso e bem-educado, ou de preferência sejamos o chefe de nós mesmos, pois sabemos ser suficientemente responsáveis, e nosso salário cubra não só as nossas necessidades, mas também os nossos sonhos. Queremos que ela nos traga filhos, ah! como prescindir dos filhos? Filhos que nunca adoeçam, que nos amem e reconheçam que fazemos tudo para que estejam bem, e também entendam que pais são humanos e erram. Filhos que, acima de tudo, se sintam muito felizes.
Não nos conformamos com a felicidade minguada que possa caber nas nossas inexpressivas mãos, para que tenhamos o arbítrio de manejá-las. Essa é sempre pouca para nós. Felicidade que se preza e que nós merecemos há que ser monumental e alegórica. Porque tudo, enquanto sonhamos, é monumental e alegórico, temos a psicose do grandioso para podermos sofrer a inacessibilidade a nossos sonhos.
E assim vamos nós, até que um dia, entramos naquele restaurante pequeno e aconchegante, no qual costumamos almoçar quando estamos na praia, e somos recebidos com o abraço do dono, na sua sincera simplicidade, e o sorriso de quarenta e quatro dentes feitos de coco, daquele cozinheiro que é mestre e doutor no mais delicioso ensopado de mariscos, e nos sentamos ao lado de um jardim de graxas, escutando o silêncio de uma rua tranqüila, nos entregando aos beijos de uma brisa levíssima como um adejo de beija-flor, a alma em paz mais que sempre, fechamos os olhos, e então nos descobrimos pensando: isto, este momento, é felicidade.
É verdade que depois passa. Saímos do estado de divindade e voltamos à guerrilha da cidade grande, retomamos as defesas para não sermos engolidos pela competição, pelo banditismo, não sermos pisados pela inveja, pela intriga, pela falsidade, pela fome de destruição dos nossos semelhantes tão dessemelhantes. E cá estamos outra vez mexendo nas touceiras à procura de um trevo que tenha brotado com as quatro folhas do talismã.
No entanto, enquanto isso, quem sabe, acontece o beijo de um filho, a palavra de um médico confirmando a saúde, a presença de alguém inaugural adentrando os portais da nossa vida, o prêmio que se estava disputando, o encontro com um amigo de quem se tinha esquecido há tanto tempo, e você, e eu, voltamos a pensar: isto, este momento, é felicidade!




Gláucia Lemos é autora de mais 20 títulos. Esta crônica vai compondo um livro que nasceu aqui neste blog. Foto de Daniel Freire, retirada do Flickr.

domingo, 15 de junho de 2008

MOVIMENTO METAFÍSICO


Carlos Vilarinho


Uma, duas, três
Mil almas que eu tenha
Em dez, vinte ou trinta vidas...

Em um ou dois sóis
Brilhando ou refletindo
Mil constelações.

Deles eu vejo outro eu
Fora de mim.
Sem que eu mesmo
Veja algumas sombras...

Mais estão, em eus distantes.
Assim díspares e dissonantes.
Em terras e oceanos
D'eus em instantes?

Quantos milhares de mim há?
Que nunca formam outros
Em vão.
Só em translação.



Carlos Vilarinho é ficionista, mas também está atendendo ao chamado da poesia. Foto de "obuscadorcosmico" retirada do Flickr.

JUNHO


Gláucia Lemos


Deixa-me partir a teu encontro
ferir a fronte no frio de junho
a te levar a cicatriz mais funda

do lenho que em meu ombro verga o dorso
e dói-me em dor de pele
em sangue e fogo.

Calvário que não chega.
Dá-me teu ombro,
nele inflamada a chaga
dessa cruz
no meu ombro levada.

Deixa-me partir
para que te tenha.
Faze-me o fim nos mesmos cravos teus
e a minha dor, em ti,
fira mais funda.

Se é o que tens que fazer
faze-o depressa.
Que junho já agoniza em frio e sangue.




Gláucia Lemos é ficcionista premiada, mas também é poeta e por isto topou participar desta maratona de poesia. Foto de luisbess, retirada do Flickr.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

SONÂMBULA



Luís Antonio Cajazeira Ramos


A Gerana Damulakis


A vida passava, o amor não chegava.
Aguardava (a esperança a guardava)
o que não acontecia, quem não vinha.

Desenhava a felicidade na fumaça das horas,
debruçada sobre o parapeito dos sonhos,
vendo a todos transeuntes do deserto,
sob a sacada das emoções perdidas.

Improvável Penélope, tecia ilusões de partida
para confins imaginários sob o lençol diáfano,
manchado do sangue virgem dos seus desejos,
satisfeitos na solidão de núpcias de nuvem.

A vida passava, a dor não chegava
ao pesar da vigília, a que o engano negava
acordar os galos e deitar os lampiões...
E beladormecia na eternidade em que se perdera.

E não se sabe que bruxa, que fada,
que fado a vida reservara a seu destino
de Cinderela das vertigens.




Este poema de Cajazeira está em Mais que sempre (Editora 7Letras, 2007), acho que fui a primeira a opinar sobre ele, daí a dedicatória. Na foto, Cajazeira e eu em algum lançamento de livro, ambos estávamos olhando para o autor enquanto este autofotografava.