quinta-feira, 8 de maio de 2008

MAIS UM LIVRO DO MESTRE DO CONTO CONTEMPORÂNEO





Gerana Damulakis










Foi-se o tempo em que se comprava o livro desejado nas livrarias. É tempo de compras pela internet. Eu mesma sou assídua compradora da livrariacultura.com.br., ou da cosacnaify.com.br. Mas vou indicar a compra do livro que cito abaixo diretamente pela imagoeditora.com.br. Trata-se do mais recente livro de contos de Aramis Ribeiro Costa. Se no seu primeiro livro de contos, A nota de Rosália (Editora Marfim, 1989), predominava a situação cotidiana que retirava o indíduo de sua rotina para colocá-lo frente ao acaso, no seu segundo livro, A assinatura perdida (Iluminuras, 1996), o insólito aparecia dentro de uma plausível ironia que desestabilizava o momento, sem esquecer de mirar também circunstâncias dramáticas, elas próprias independentes do traçado previsível pelo personagem, o qual não aguardava a mão do fado. Isto tudo se adensou em O mar que a noite esconde (Iluminuras, 1999), pois que o acaso já antes apontado vai se mesclando com um quê de espefacto diante de surpresas mais distantes ainda da previsibilidade. Faz-se necessário aqui apontar alguns exemplos. Se de A nota de Rosália retiro o conto "Praia" para ilustrar o acaso interferindo na vida cotidiana, haja vista um ocorrido banal ser suficiente para estragar o clima prazeroso de uma família numa manhã divertida na praia, vejo-me conduzida a retirar de A assinatura perdida, o conto mesmo que dá título a tal volume para mostrar a forma irônica como a mente pode nos trair a qualquer instante. Já no volume O mar que a noite esconde está o conto "A rosa de Natália", para mim magistral exemplo do comportamento humano, da incapacidade de lidarmos com as forças internas que nos colocam diante de surpresas criadas pelos desejos, pela pungência desses desejos, pela urgência em quebrar regras para sentir a vida, pela necessidade até de criar o drama pessoal. Não fica por aí a caminhada: O fogo dos infernos (Iluminuras, 2002), classificado como reunião de novelas, traz textos com elaboração e carga dramáticas mais complexas, desde logo graças ao texto estruturado para o gênero, constituindo uma leitura de peso dentro do universo do autor. Por esta via tenho que citar também a novela Episódio em Curicica (Selo Letras da Bahia, 2001) e o romance Uma varanda para o jardim (Editora Marfim, 1993). Para ficar na contística, vale lembrar que Baú dos inventados (Imago, 2003) é uma reunião de contos que o autor colheu dos livros anteriores e que Os bandidos (Imago, 2005) é um marco, uma plataforma quase, visando confirmar o autor como um contista de seu tempo, inteiramente de olhos abertos para os problemas do hoje, do aqui e da maneira como se está vivendo este aqui e este agora. Chegamos a Reportagem urbana (imago, 2008): sete contos fortes, sete vezes o momento crucial diante de nós. Sete é um número que diz muito: os sete dias da criação, os sete anos que Jacob serviu Raquel, as sete portas de Tebas, os sete pecados capitais, os sete muros que cercam a cidade Celeste, as sete obras da misericórdia,, os sete dons do Espírito, os sete andares do Céu, os sete planetas e os sete metais, as sete maravilhas da Terra, as sete estrelas do grupo das Plêiades, os sete braços dos sete candelabros empunhados pelos sete anjos que rodeiam o trono divino e que soarão as sete trombetas do Dia do Juízo ( lista de Almeida Faria, autor de O conquistador). De cada conto, um interessante confronto, grandioso e impactante. E mais não digo, apenas registrarei aqui o meu conto preferido deste livro: "A interminável noite de Percival". Leia o livro, opine aqui no blog, escolha o seu conto preferido.

O MAIS RECENTE LIVRO DE CONTOS DE ARAMIS


Aramis Ribeiro Costa é um dos nomes mais representativos da literatura baiana contemporânea. Com uma dezena de livros em edição nacional, sua ficção vem contemplando o conto, a novela e o romance, com predominância do conto. Após OS BANDIDOS, pela Imago Editora, conjunto de narrativas curtas em que se evidencia a violência urbana, particularmente a violência das cidades grandes, na qual todas as medidas vêm sendo ultrapassadas, uma violência que agride e esmaga o indivíduo em todos os sentidos e que parece não ter jeito, Aramis apresenta REPORTAGEM URBANA. Trata-se de um novo conjunto de contos que também recriam ficcionalmente a condição humana no contexto da realidade das grandes urbes, onde os obstáculos, os perigos e as decepções se sucedem, violentando e destruindo o indivíduo.

domingo, 4 de maio de 2008

CONVERSA PUXA CONVERSA



Gláucia Lemos



Arrumo a mesa, guardo livros que estavam empilhados. Amasso papéis inúteis, cupons de compras, rascunhos vencidos. Sento-me finalmente para começar a trabalhar. Puxo a mesa portátil para mais perto. Caneta na mão, meus olhos tropeçam nos CDs que comprei há uma semana e não escutei nenhum deles. Estive envolvida pelas coisas pequenas que levam as horas quase em arrastão. Eu os esquecera. Agora os reencontro e Benito de Paula logo em cima, pisca levemente para mim.
Cantor dos anos 60, talvez. Sempre gostei de ouvi-lo. Não tem nada especial. Canta o que todo mundo cantava naquela época, independente dos Beatles, os mesmos sambas de refrão, lentos, e eu, fissurada em Louis Armstrong de quem comprava tudo o que podia, apaixonada por jazz, parava para ouvi-lo. Por quê? Não tem explicação, como não têm explicação tantas outras coisas que preferimos. No entanto, nunca adquiri uma gravação de Benito de Paula. Com minha mania de cantarolar baixinho, cantarolava inúmeras vezes “em retalhos de cetim, eu dormi o ano inteiro, e ela jurou desfilar pra mim...” Semana passada comprei uns CDs e, entre eles, o meu primeiro de Benito. Vou escutá-lo. Deixo a caneta e coloco o som. Ele começa: “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com minha dor”. Eu ouço música popular analisando a letra, e não resisto a este momento: quem disse que música popular não tem poesia? E lá vai Benito: “Não precisa me perdoar, basta me compreender e me deixar ficar.” Pois é, queiram ou não, muito samba antigo diz umas coisas que alguma vez a gente quis dizer e a covardia não deixou. Mais adiante: “Você me olha desse jeito, meus direitos e defeitos querem se modificar (...) mas se não for amor, não diga nada por favor, não apague esse sonho. “ Quantas esperanças, quantos propósitos já desabrocharam ou ainda, a partir de um certo olhar, às vezes apenas vago ou eventual. Quanto da nossa vida vem expresso na inspiração de um compositor que, sem saber, nos emprestou o seu momento para o prolongamento do nosso sentimentalismo adolescente, seja qual for o nosso patamar etário. E lá se vai Benito...
Conversa puxa conversa, dia desses assisti, no programa “Saia justa”, às apresentadoras se expressando sobre o verso mais bonito do cancioneiro brasileiro. Vastíssimo o nosso cancioneiro, e rico. Naturalmente esqueçamos o contemporâneo axé, por motivos óbvios. Tratando-se de composições legítimas de eternos como Pixinguinha, Ari Barroso, Cartola, Sérgio Bitencourt, Paulo César Pinheiro, Noel Rosa, e que tais, convenhamos que fica difícil eleger a maior entre as maiores. Sem me recordar dos respectivos autores, só por exemplo:
“Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”; “mas a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão”; “simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti”; “minha voz na voz do vento indo em busca do teu vulto”; “a escura fumaça que sobe apagando as estrelas”.
Neste momento, antes que me recorde de outros versos, alguém inspirado, lá embaixo, abre as janelas do seu carro, e, a todo volume, um CD atualíssimo, gravado por algum dos geniais xandis deste Brasil, está atirando aos quatro ventos desta manhã amena, esta jóia musical: “Abaixadinho, abaixadinho, abaixadinho, abaixadinho...”
Estamos vendo, não se trata de patamar etário, sim de um oportuno paralelo. E Benito nem precisa ser Beethoven.
Volto ao som, Benito de Paula já escreveu minha crônica de hoje. Repito o CD, vale a pena. “Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor, se na sua vida eu fui espinho, espinho não machuca a flor.”



Gláucia Lemos é autora de vários romances premiados. No momento, prepara um livro de crônicas.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

OS SEGREDOS DAS ESTRADAS



Gláucia Lemos




Sempre que vou ao Vale do Capão faço a caminhada dos Gatos. Não pensem que se trata de caminhar em companhia de gatos, os felinos, tampouco na companhia de moços encantadores, sarados, aqueles de sorrisos fabricados para propaganda de dentifrícios. Nada disso, o que até seria agradável. Nem gatos nem cães são encontradiços nessa caminhada. Embora uma vez um cãozinho, com cara de desamparo, estivesse parado em uma ponte e nos acompanhado por todo o percurso, até que, chegados a uma cerca, enveredasse por ela, como se finalmente tivesse encontrado seu rumo, e sequer nos agradeceu a companhia. Mas o episódio foi uma eventualidade. De ordinário, nem gatos nem cãezinhos desamparados.
O fato é que, no Capão, muitos locais têm nomes de famílias que os habitaram nos primeiros tempos em que a região foi explorada. Possivelmente seriam senhores de garimpos, no que a região era pródiga. Não tenho nenhum registro histórico em que fundamente minha suposição de que seriam senhores de garimpos. A verdade é que existem locais com nomes de famílias que lá habitaram, sabe-se lá há quantos séculos, como os Brancos, e os Gatos.
Tudo isso para falar que faço os Gatos todas as vezes, o que significa fazer todo o percurso do local chamado Gatos, em saudável e suarenta caminhada. Em uma dessas vezes, entre os amigos que iam no grupo, havia uma garotinha de uns dez anos, muito esperta e falante, que ficou me observando enquanto eu fotografava as estradas que se ramificavam a partir da principal por onde íamos, sempre que alguma me interessava. Não se contendo mais, falou: Ela está fotografando as estradas... Achando estranho que ao invés de fotografar as pessoas, estivesse fazendo fotos de chãos. Outras pessoas hão de ter pensado o mesmo. Não pensariam, se se detivessem no que me detenho quando vejo, em lugares primitivos, o serpentear de um caminho por entre alas de vegetação espessa, uma estradinha que, às vezes, parece não ter fim e que talvez se vá perder na serra que lá adiante se avista. Um caminho que algum dia, sei lá quando, foi apenas uma trilha rasgada por pés que pretenderam encurtar uma jornada, talvez alguém em fuga, um criminoso, um vingador, um perseguido, um infiel, que buscasse confundir o seu perseguidor e se atirasse entre galhos no mato fechado, na certeza de não deixar impressas na vegetação as pegadas delatoras de sua passagem, e aí começasse uma vereda.
Alguém um dia iniciou a trilha da qual nasceu a estrada que agora se oferece ao viajante, aberta como uma fruta madura a qualquer fome, franca, lisa no chão sem arestas, senão as da folhagem cinzenta que o vento joga dos galhos, onde secaram até o fim do seu tempo de verdor. Senão arestas minúsculas das areias que, em grãos, se espalharam arrastadas pelos ventos, e fizeram a forração crespa dos caminhos. Que pés endurecidos e calosos de caminhadas, pisaram em primeiro passo, os galhos derrubados para abertura das trilhas que ali crestaram por ação da soleima ou da geada, e, ressequidos, viraram pó e depois se desfizeram e se tornaram nada, justificando, no sacrifício de sua seiva, a abertura de um atalho. Por ele um garimpeiro alcançaria mais rápido o seu rumo. Chegaria mais cedo à grota na qual sua bateia perseguia a gema redentora da labuta da esperança. Ou mais rapidamente, quando, no início da noite turva e gelada de neblina, alcançaria a choupana na qual repousaria para recuperar as energias, talvez ou certamente onde o esperavam os braços mestiços e o corpo amoroso e aquecido daquela que seria todo o seu refúgio.
Ah! Quem sabe os segredos das estradas? Dos pés de ida ou de retorno, dos passos de fuga ou de regresso, quem viu pegadas, quem contou as histórias, quem conheceu os donos daqueles pés?
Ao aprendiz de fotógrafo, ladrão de imagens, que se permite violar as estradas para trazê-las impressas no egoísmo do seu prazer, cabe somente imaginar enredos, ter o consolo de colher as sombras do arvoredo banhado de luz, que as projeta no claro-escuro da areia, enquanto seu espírito se perde nas interrogações que jamais terão respostas.




Gláucia Lemos é ficcionista, poeta e cronista, com mais de 20 títulos publicados. Este texto é mais um para o livro que vem sendo construído neste blog. A foto é do Vale do Capão, por jahponeis, retirada do Flickr.

domingo, 20 de abril de 2008

A PAINEIRA


Gláucia Lemos


No Campo Grande, em um ângulo que confina com a Avenida Sete, cresceu de semente tangida pelo vento, ou foi plantada em hora de inspiração, uma paineira. Não é uma paineira, é um colosso, uma obra monumental da natureza. Sempre que passava por ali, nos meus tempos de Escola de Belas Artes, me punha ao pé do tronco, rugoso e formidável, cuja circunferência denunciava séculos de existência, e olhava para o alto a contemplar a fronde, a graça da imensa galharia espalhada em folhas e floração rósea frutificada em paina, larga, imensa e majestosa no seu domínio do espaço. Não sei se ainda lá está, mas desejo que sim.
Sempre pensei em quantas coisas, ao longo dos séculos, seus ouvidos – se ela os tivesse – teriam escutado. Confidências e inconfidências, contratos e conluios de fugas e de vinganças criminosas, ternas palavras de idílios proibidos, traições e vidas negociadas. À sua sombra, quando menos alta a fronde e menos grosso o tronco, quanto forasteiro sedento, adentrando a cidade, teria parado, para do albornoz empoeirado sacar o cantil e matar a sede. À sua sombra quanto escravo teria estacionado seu tabuleiro de peixes, seu balaio de frutas, para rápido repouso das pernas nodosas da sempre jornada no ganho das patacas que apressariam a compra da alforria.
Seus olhos – se acaso os tivesse – a quantos fiéis teriam assistido, sob os véus nas cabeças contritas, os chapéus nas mãos, seguindo charolas e andores de imagens nas numerosas procissões, quantas liteiras passando a conduzir sinhazinhas, mal escondidas por entre as sanefas das janelas, a furtar com o olhar disfarçado os olhares do cavalheiro postado sob a paineira, na hora exata de vê-la passar.
Quantas vezes terá visto transitarem os condenados vestidos nas alvas, a caminho do sacrifício, em lúgubre acompanhamento de padres e carrascos, até a forca armada na praça da Piedade, seguidos do ímpio cortejo de curiosos. Quanta vida pulsante a seu redor e quanta morte inútil, quanto gesto amoroso, quanto sinal disfarçado, quanto crime inclemente, quanto discurso vazio, quanta intriga, quanto carnaval inconseqüente, quanto sonho, quanta dor, quanta história a paineira teria para contar.
Houve um tempo em que, tomada por esses pensamentos, até pensei em escrever um livro que seria uma conversa com a paineira que me contaria tais segredos, e eu teria uma história muito rica. A idéia ficou, a inspiração não aconteceu, porém.
Às vezes me pergunto se as árvores não terão, como os insetos, o seu sistema de comunicação. Se no farfalhar das folhas não conversarão com suas semelhantes, um pouco que seja, das coisas que acontecem, dos fatos que presenciam, dos flagrantes da história, dos costumes dos homens. Se elas se guardam com suas memórias – se as têm — que se irão fragmentar no dia em que, abatidas, se tornarem tábuas, virarem toros, se transformarem em papéis. Talvez papéis que venham a virar livros, nos quais a posteridade aprenda coisas escritas pela humanidade, muito diferentes do que eles já trazem na memória remota das suas próprias folhas. Nunca terei esta resposta porque ela vive o absurdo da minha fantasia. Mas tenho quase certeza de que um livro em branco não está de todo vazio. Nós é que não sabemos ler o que ele guarda.



Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. Este texto marca o início da transformação de uma idéia em realidade: reunir as crônicas publicadas neste blog em um livro. A capa, seguramente, deverá ter uma paineira. Foto de Gustavo 737, do Flickr.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

SONETO PERIPATÉTICO




Luís Antonio Cajazeira Ramos


Se a solidão adensa com seus frios
humores o silêncio de geleiras,
a esperança derrete como guizos
de festa o gelo em cores de aquarelas.

E se a esperança se contorce em risos,
como a graça incontida de donzelas,
a solidão imposta-se de brios,
como um asco escolástico de freiras.

Essas inseparáveis inimigas
giram em roda efêmera de intrigas...
E a gente atesta, no avançar das pernas,

que a solidão esperançosa, tanto
quanto a esperança solitária, entanto,
são nada, nada mais além de eternas.



Luís Antonio Cajazeira Ramos é autor de Mais que sempre (7Letras, 2007) entre outros títulos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

OS PORTÕES DE SARAMAGO



Gláucia Lemos


Todo mundo já sabe que sou Saramagólatra incurável. Quanto mais o conheço, mais o quero conhecer. É minha bebida, meu cigarro, meu time de futebol, já que não bebo, não fumo e não me interesso por bola, concentro na palavra de Saramago aquela fixação dos que a têm naqueles vícios.
Estou lendo agora A bagagem do viajante, crônicas, editado pela Cia das Letras. Tão encantador cronista quanto o admirável romancista de O Evangelho segundo Jesus Cristo, e de Memorial do convento. Uma página após outra, delicio-me. Como sempre tendemos a ressaltar alguns textos, poderiam ser alguns outros, mas elejo Os portões que dão para onde? Uma crônica, um momento emotivo que quero dividir com outras pessoas, porque não é justo guardar tamanho modelo da melhor literatura, no egoísmo de um só espírito. Depois de ler Saramago, fica um sentimento indefinível. Quem sabe... Só Beleza.
Não vou transcrever todo o texto, há que se respeitar espaço, mas detenho-me nos três últimos parágrafos, respeitando a grafia original que em alguns detalhes é diferente da nossa ortografia, enquanto convido os que me lêem a este instante de reverência.
É o caso dos portões. Em viagem, quando atravessamos os campos de automóvel, não é raro vermos afastarem-se uns portões enigmáticos em terras meio abandonadas ou já de todo baldias. Ali o caminho esconde-se entre a erva, os arbustos loucos e os detritos vegetais que o vento arrasta. Não sabemos sequer se os batentes abrem para cá ou para lá, e muitas vezes os portões não se continuam em muros ou arames, e tudo isso tem um ar misterioso de terra assombrada. Mas pior ainda é se os portões desapareceram e deles ficaram apenas os dois pilares gémeos, virados um para o outro, como quem pergunta se já não há mais nada a esperar.
“Não me acuse o leitor de obscurantista. Tenho uma confiança danada no futuro e é para ele que as minhas mãos se estendem. Mas o passado está cheio de vozes que não se calam e ao lado da minha sombra há uma multidão infinita de quantos a justificam. Por isso os portões velhos me inquietam, por isso os pilares abandonados me intimidam. Quando vou atravessar o espaço que eles guardam, não sei que força rápida me retém. Penso naquelas pessoas que vivas ali passaram e é como se a atmosfera rangesse com a respiração delas, como se o arrastar dos suspiros e das fadigas fosse morrer sobre a soleira apagada. Penso nisso tudo e um grande sentimento de humildade sobe dentro de mim. E, nem sei bem porquê, uma responsabilidade que me esmaga.
“Se o leitor não acredita, faça a experiência. Tem aí pilares carcomidos, de gonzos roídos de ferrugem, cobertos de liquens. Agora passe entre eles. Não sentiu que os seus ombros roçaram outros ombros? Não reparou que uns dedos invisíveis lhe apertaram os seus? Não viu esse longo mar de rostos que enche a terra de humanidade? E o silêncio? E o silêncio para onde os portões se abrem?

E depois de tanta emoção, fica no coração o silêncio respeitoso pelo autor.


Gláucia Lemos é autora de mais de 20 títulos, mas aqui e agora ela é a fã incondicional de Saramago. Assim como eu.