domingo, 20 de abril de 2008

A PAINEIRA


Gláucia Lemos


No Campo Grande, em um ângulo que confina com a Avenida Sete, cresceu de semente tangida pelo vento, ou foi plantada em hora de inspiração, uma paineira. Não é uma paineira, é um colosso, uma obra monumental da natureza. Sempre que passava por ali, nos meus tempos de Escola de Belas Artes, me punha ao pé do tronco, rugoso e formidável, cuja circunferência denunciava séculos de existência, e olhava para o alto a contemplar a fronde, a graça da imensa galharia espalhada em folhas e floração rósea frutificada em paina, larga, imensa e majestosa no seu domínio do espaço. Não sei se ainda lá está, mas desejo que sim.
Sempre pensei em quantas coisas, ao longo dos séculos, seus ouvidos – se ela os tivesse – teriam escutado. Confidências e inconfidências, contratos e conluios de fugas e de vinganças criminosas, ternas palavras de idílios proibidos, traições e vidas negociadas. À sua sombra, quando menos alta a fronde e menos grosso o tronco, quanto forasteiro sedento, adentrando a cidade, teria parado, para do albornoz empoeirado sacar o cantil e matar a sede. À sua sombra quanto escravo teria estacionado seu tabuleiro de peixes, seu balaio de frutas, para rápido repouso das pernas nodosas da sempre jornada no ganho das patacas que apressariam a compra da alforria.
Seus olhos – se acaso os tivesse – a quantos fiéis teriam assistido, sob os véus nas cabeças contritas, os chapéus nas mãos, seguindo charolas e andores de imagens nas numerosas procissões, quantas liteiras passando a conduzir sinhazinhas, mal escondidas por entre as sanefas das janelas, a furtar com o olhar disfarçado os olhares do cavalheiro postado sob a paineira, na hora exata de vê-la passar.
Quantas vezes terá visto transitarem os condenados vestidos nas alvas, a caminho do sacrifício, em lúgubre acompanhamento de padres e carrascos, até a forca armada na praça da Piedade, seguidos do ímpio cortejo de curiosos. Quanta vida pulsante a seu redor e quanta morte inútil, quanto gesto amoroso, quanto sinal disfarçado, quanto crime inclemente, quanto discurso vazio, quanta intriga, quanto carnaval inconseqüente, quanto sonho, quanta dor, quanta história a paineira teria para contar.
Houve um tempo em que, tomada por esses pensamentos, até pensei em escrever um livro que seria uma conversa com a paineira que me contaria tais segredos, e eu teria uma história muito rica. A idéia ficou, a inspiração não aconteceu, porém.
Às vezes me pergunto se as árvores não terão, como os insetos, o seu sistema de comunicação. Se no farfalhar das folhas não conversarão com suas semelhantes, um pouco que seja, das coisas que acontecem, dos fatos que presenciam, dos flagrantes da história, dos costumes dos homens. Se elas se guardam com suas memórias – se as têm — que se irão fragmentar no dia em que, abatidas, se tornarem tábuas, virarem toros, se transformarem em papéis. Talvez papéis que venham a virar livros, nos quais a posteridade aprenda coisas escritas pela humanidade, muito diferentes do que eles já trazem na memória remota das suas próprias folhas. Nunca terei esta resposta porque ela vive o absurdo da minha fantasia. Mas tenho quase certeza de que um livro em branco não está de todo vazio. Nós é que não sabemos ler o que ele guarda.



Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. Este texto marca o início da transformação de uma idéia em realidade: reunir as crônicas publicadas neste blog em um livro. A capa, seguramente, deverá ter uma paineira. Foto de Gustavo 737, do Flickr.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

SONETO PERIPATÉTICO




Luís Antonio Cajazeira Ramos


Se a solidão adensa com seus frios
humores o silêncio de geleiras,
a esperança derrete como guizos
de festa o gelo em cores de aquarelas.

E se a esperança se contorce em risos,
como a graça incontida de donzelas,
a solidão imposta-se de brios,
como um asco escolástico de freiras.

Essas inseparáveis inimigas
giram em roda efêmera de intrigas...
E a gente atesta, no avançar das pernas,

que a solidão esperançosa, tanto
quanto a esperança solitária, entanto,
são nada, nada mais além de eternas.



Luís Antonio Cajazeira Ramos é autor de Mais que sempre (7Letras, 2007) entre outros títulos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

OS PORTÕES DE SARAMAGO



Gláucia Lemos


Todo mundo já sabe que sou Saramagólatra incurável. Quanto mais o conheço, mais o quero conhecer. É minha bebida, meu cigarro, meu time de futebol, já que não bebo, não fumo e não me interesso por bola, concentro na palavra de Saramago aquela fixação dos que a têm naqueles vícios.
Estou lendo agora A bagagem do viajante, crônicas, editado pela Cia das Letras. Tão encantador cronista quanto o admirável romancista de O Evangelho segundo Jesus Cristo, e de Memorial do convento. Uma página após outra, delicio-me. Como sempre tendemos a ressaltar alguns textos, poderiam ser alguns outros, mas elejo Os portões que dão para onde? Uma crônica, um momento emotivo que quero dividir com outras pessoas, porque não é justo guardar tamanho modelo da melhor literatura, no egoísmo de um só espírito. Depois de ler Saramago, fica um sentimento indefinível. Quem sabe... Só Beleza.
Não vou transcrever todo o texto, há que se respeitar espaço, mas detenho-me nos três últimos parágrafos, respeitando a grafia original que em alguns detalhes é diferente da nossa ortografia, enquanto convido os que me lêem a este instante de reverência.
“É o caso dos portões. Em viagem, quando atravessamos os campos de automóvel, não é raro vermos afastarem-se uns portões enigmáticos em terras meio abandonadas ou já de todo baldias. Ali o caminho esconde-se entre a erva, os arbustos loucos e os detritos vegetais que o vento arrasta. Não sabemos sequer se os batentes abrem para cá ou para lá, e muitas vezes os portões não se continuam em muros ou arames, e tudo isso tem um ar misterioso de terra assombrada. Mas pior ainda é se os portões desapareceram e deles ficaram apenas os dois pilares gémeos, virados um para o outro, como quem pergunta se já não há mais nada a esperar.
“Não me acuse o leitor de obscurantista. Tenho uma confiança danada no futuro e é para ele que as minhas mãos se estendem. Mas o passado está cheio de vozes que não se calam e ao lado da minha sombra há uma multidão infinita de quantos a justificam. Por isso os portões velhos me inquietam, por isso os pilares abandonados me intimidam. Quando vou atravessar o espaço que eles guardam, não sei que força rápida me retém. Penso naquelas pessoas que vivas ali passaram e é como se a atmosfera rangesse com a respiração delas, como se o arrastar dos suspiros e das fadigas fosse morrer sobre a soleira apagada. Penso nisso tudo e um grande sentimento de humildade sobe dentro de mim. E, nem sei bem porquê, uma responsabilidade que me esmaga.
“Se o leitor não acredita, faça a experiência. Tem aí pilares carcomidos, de gonzos roídos de ferrugem, cobertos de liquens. Agora passe entre eles. Não sentiu que os seus ombros roçaram outros ombros? Não reparou que uns dedos invisíveis lhe apertaram os seus? Não viu esse longo mar de rostos que enche a terra de humanidade? E o silêncio? E o silêncio para onde os portões se abrem?
”
E depois de tanta emoção, fica no coração o silêncio respeitoso pelo autor.


Gláucia Lemos é autora de mais de 20 títulos, mas aqui e agora ela é a fã incondicional de Saramago. Assim como eu.

terça-feira, 8 de abril de 2008

A FLORESTA

Gerana Damulakis


Quando a ânsia surge
e a alma derrete feito gelo,
chegam juntos mundos de medos,
de fraquezas,
de incertezas,
de perguntas.
Quando a espera já não se aguenta,
se olha o tempo, passando sem passar,
se deseja sem esperanças,
se cria relógios imaginários,
então nada resolve
para amenizar, ou para fingir
que tudo acabou.



De Guardador de mitos (Edição do Autor, 1993).

UMA OBSERVAÇÃO

Gerana Damulakis


As nuvens cobriram o azul do céu,
a plena tarde ficou parecendo um
começo de noite.
Cairá uma bela tempestade.
O barulho das gotas grossas de chuva
abafará o som do tráfego,
diminuirá o tom estridente da sua voz,
irá enternecer o sentimento do mundo.
Virá uma tristeza pura
e muda.



De Guardador de mitos (Edição do autor, 1993).

POEMA DO MÊS

VIAGEM

Ana Cecília de Sousa Bastos


Ela registrou seus sonhos no caderno que lhe dei
de presente.
Ela arrumou na mala pedaços de sua alma.
Suas veias abertas sangram em despedida.
Ela diz adeus para lugar nenhum e parte,
sem quandos nem ondes.
Fantasmas melancólicos dormem em sua cama
solitária.

A lágrima sobre a mesa.



Ana Cecília de Sousa Bastos é autora de A Impossível Transcrição - De tudo fica a poesia (Salvador, 2007).

AUTOMN'S LEAVES & GAIVOTAS



Gláucia Lemos


A senhora grisalha recostou a cabeça na almofada do espaldar e se entregou à contemplação da dança das gaivotas. Uma coreografia contínua, sem jamais se repetir. Sempre amara as gaivotas. Nas excursões costumeiras eram elas o seu espetáculo preferido. O marido não saira naquela manhã. Andava indisposto. Seria um mal-estar passageiro, era melhor que ficasse lendo no camarote. Ele não gostava de excursionar, acompanhava-a para ser gentil, preferia uma rede na varanda com um livro policial diante dos olhos. No mar, qualquer motivo servia para permanecer lendo, recolhido, não deveria aborrecê-lo. Ficaria em companhia das gaivotas. Era gostoso o silêncio do convés. Só o ruído das ondas e agora a música de algum rádio, a pouco volume, iniciando os compassos de Automn`s leaves. Fazia tempos não escutava aquela melodia. Lembrava uma excursão, há quantos anos? Trinta? Era solteira ainda. Dançava nas festinhas a bordo. O rosto iluminou-se. As ruguinhas dos cantos dos olhos como que desapareceram, a pele como que se aveludou novamente. A brisa agitou-lhe os fios grisalhos, desfazendo o penteado simples, de cabelos aparados.
Dançara Automn`s leaves noite adentro e depois fora para o convés com o rapaz, aproveitar a lua cheia. Era um rapaz moreno de olhos azuis, tão azuis! Namoraram durante toda a excursão e, encantados, olhavam juntos as gaivotas. Onde andaria agora aquele moço, tão docemente recordado trinta anos depois?
Aquela senhora, parecia já tê-la visto em algum lugar. O sorriso. Era o sorriso, era o jeito de postar-se no convés olhando as gaivotas. Lembrava alguém. Seria possível? Os cabelos grisalhos curtinhos... Ela possuía uma bela cabeleira castanha caída sobre os ombros. Bobagem, seria a sugestão da manhã amena, do vôo das gaivotas, daquela música, no ar. Aquela música... Não, não parecia exatamente com ela, apenas fazia-o lembrá-la. Estava ficando um sentimental com o passar dos anos. Claro. Boas lembranças não precisam ser esquecidas. Para que as vivemos senão para podermos recordá--las? Era uma moça alta, esbelta, aquela parece um pouco menor, e os olhos, os dela eram maiores. Mas o sorriso e o jeito de postar-se no convés. Coincidência. Apenas coincidência.
- Bom dia, senhora. Gosta de olhar as gaivotas?
- São lindas.
- São mesmo. Também perco horas acompanhando seus passeios pelo céu.
- Eu acho que ganho horas olhando para elas. Ganho também em recordações enquanto as contemplo.
- Como eu.
Os olhos azuis e os olhos castanhos encontraram-se e riram ao mesmo tempo demoradamente, tão demoradamente.
- O barco está atracando. Foi um prazer conhecê-la, senhora. Recomende-me a seu marido.
- Também tive prazer em conhecê-lo senhor.
O senhor moreno avançou pelo cais, lentamente. Nos olhos azuis luzia um sorriso de jovem. A senhora grisalha aconchegou o cachecol ao pescoço do marido, apoiou-se em seu braço e começou a caminhar com ele. Sorria, um sorriso de trinta anos atrás.






Gláucia Lemos é ficcionista e poeta. Esta crônica foi publicada na coluna Ultraleve, de A TARDE, há dez anos. A foto das gaivotas é de Matheusgf, retirada do Flickr.