
quarta-feira, 2 de junho de 2010
MARIA

sexta-feira, 28 de maio de 2010
A SEDUÇÃO

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.
Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,
uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.
Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;
pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;
pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,
os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,
exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.
Foto de João Cabral de Melo Neto. Gostaria de saber quem fez esta foto.
João Renato comentou: "A foto é do Bob Wolfenson. Tá no site dele".
terça-feira, 25 de maio de 2010
SE SERÃO MAIS FELIZES?

Gerana Damulakis
Praticamente todo o livro de José Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo (Companhia das Letras, 1991), serve como fonte de citações, diálogos formidáveis e êxtases literários. Já contei que tenho um belo caderno repleto de trechos de cada romance de Saramago; cada trecho com sua dada página e título do livro em questão.
Hoje, lembrei-me da cena de Jesus, em conversa com Deus. Jesus advogando a nossa causa: os anseios, os amores, as dores, as penas e, enfim, os sofrimentos e os desejos humanos - mais precisamente, a nossa almejada felicidade.
Fala claro, interrompeu Jesus. Não é possível, disse Deus, as palavras dos homens são como sombras, e as sombras nunca saberiam explicar a luz, entre elas e a luz está e interpõe-se o corpo opaco que as faz nascer. Perguntei-te pelo futuro. É do futuro que estou a falar. O que quero que me digas é como viverão os homens que depois de mim vierem. Referes-te aos que te seguirem. Sim, se serão mais felizes. Mais felizes, o que se chama felizes, não direi, mas terão mais esperança duma felicidade lá no céu onde eu eternamente vivo (SARAMAGO, 1991, p. 379).
domingo, 23 de maio de 2010
MUITAS PESSOAS

Não gosto de ler biografias. Meu fascínio é pela prosa de ficção, pela poesia - a ficção do sentimento, segundo a definição do escritor Aramis Ribeiro Costa - e pelo ensaio literário escrito por prosadores e poetas, tais como Virginia Woolf, W.H. Auden, Italo Calvino, Milan Kundera, Mario Vargas Llosa...
Colhi a frase de Fitzgerald, dada minha total concordância.
Nunca se escreveu uma boa biografia de um bom romancista. Se é um bom romancista, são demasiadas pessoas de uma vez.
Francis Scott Fitzgerald (1896 - 1940)
sábado, 22 de maio de 2010
SEM VOCÊ

AUSÊNCIA: Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado - quisquer que sejam a causa e a duração - e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.
Roland Barthes in Fragmentos de um discurso amoroso (Francisco Alves Editora, 1991).
Sinto sua ausência hoje e enquanto viver sentirei, porque você é sinônimo de amor, do meu amor maior. Hoje você faria aniversário. Faria, não faz mais. Dentro de mim, todavia, você existe com todo potencial de amor que sempre despertou. Como uma criança aprende o que é o amor? Eu aprendi cedo com cada troca de olhar, com minhas latas de pêssego trazidas logo numa caixa grande repleta, para que a criança que gostava de pêssegos não deixasse de tê-los momento algum. Prestar atenção à satisfação do outro, olhar para ela falando com as meninas dos olhos (eu era sua menina dos olhos, você disse), e isso tudo é amor, o primeiro e o único que atravessa a vida sem altos e baixos. Firme e forte na presença e na ausência de hoje, um 22 de maio sem você, meu pai.
GD
Ilustração: Rosa Meditativa, de Salvador Dalí.
A MULHER DOS SONHOS
CONTOS DE SEXTA-FEIRA

Recebi ontem, no Encontro Literário da Academia de Letras da Bahia, o meu exemplar de Contos de sexta-feira (Assembleia Legislativa do Estado da bahia - Selo Primeira Edição, 2010), do escritor e acadêmico Carlos Ribeiro, cujo prefácio assino com muita honra e prazer.
Retirei do seu site CR Jornalismo & Literatura (http://www.carlosribeiroescritor.com.br/) o seguinte texto:
Conforme ressalta Gerana Damulakis, o livro traz um forte acento da memória, que rege a maioria dos contos; além da presença marcante da cidade de Salvador, especialmente do bairro de Itapuã, onde o autor viveu da infância até o início da sua fase adulta. Este aspecto é reforçado por Suzana Varjão: “Quase todo grande autor possui suas recorrências – de lugar, de tempo, de tema... (...) No Carlos Ribeiro de Contos de sexta-feira, algumas das mais evidentes permanências são melancólicos finais de tarde, os anos 60, ruas e casarios da cidade do Salvador”. E acrescenta: “Os espaços primordiais de suas reflexões são ‘entrelugares’; zonas limítrofes – e indefinidas – entre os mundos material e espiritual; ficções e realidades; terceiras margens, por onde transitam espantos, silêncios, perdas, saudades, memórias, solidões”. Selo Primeira Edição / Assembléia Legislativa da Bahia, 2010, 186 páginas.
