quarta-feira, 2 de junho de 2010

MARIA


Soube faz menos de uma hora (acho - estou atordoada) que Maria Sampaio se foi. Embora já sabendo que ela não estava bem, nunca estamos preparados para a notícia. Rodei pelos blogs amigos, todos já estão com as postagens que prestam homenagem ao ser humano que ela foi, com aquela capacidade enorme de reunir pessoas.
Não lembro quando comecei a sentir que fazia parte de uma blogosfera determinada, essa blogosfera com integrantes que são baianos, que podem marcar encontros, que podem se tocar, mas que todos os dias trocam palavras num mundo virtual. Há exceções: Chorik, por exemplo, faz parte dessa blogosfera, mas mora em Americana, São Paulo, só que, durante o encontro de dezembro, falamos muito dele, fizemos como se ele estivesse presente. Maria ali, presença central. Ninguém precisou dizer que tudo acontecia em torno dela; contudo, acontecia.
Pensei em lembrar, nesse instante, da fotógrafa (e citar seus livros com fotos maravilhosas), pensei em lembrar a escritora (e citar seus livros também, com a prosa madura dos romances, com a ironia e o humor dos contos), mas não quero ser leitora. Quero lembrar Maria sentada no restaurante, conversando, rindo, aglutinando.
Quero escrever que foi muito bom ter conhecido Maria Sampaio no mundo virtual e no mundo real. Saudade, muita.

Foto de Maria Sampaio feita por Adenor Gondim.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A SEDUÇÃO


Gerana Damulakis

Fiz uma pequena reforma na minha biblioteca e, na hora de recolocar os quadros nas paredes, o homem trocou a disposição dos dois que ficam acima do computador, bastando que eu erga os meus olhos. Diretamente acima ficava Clarice Lispector e, do seu lado, João Cabral de Melo Neto. Agora, ergo os olhos e vejo imediatamente o poeta. A foto é exatamente a desta postagem, só que grande, com vidro, e emoldurada. É uma foto que me diz tanto. Bom, daí me ocorreu a lembrança do poema "A mulher e a casa", que levanta os mistérios da sedução da mulher, ao comparar ambas, mulher e casa. Vale atentar a sensualidade dos versos finais, a última estrofe.

A MULHER E A CASA
--------------João Cabral de Melo Neto


Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.


Foto de João Cabral de Melo Neto. Gostaria de saber quem fez esta foto.
João Renato comentou: "A foto é do Bob Wolfenson. Tá no site dele".

terça-feira, 25 de maio de 2010

SE SERÃO MAIS FELIZES?



Gerana Damulakis

Praticamente todo o livro de José Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo (Companhia das Letras, 1991), serve como fonte de citações, diálogos formidáveis e êxtases literários. Já contei que tenho um belo caderno repleto de trechos de cada romance de Saramago; cada trecho com sua dada página e título do livro em questão.

Hoje, lembrei-me da cena de Jesus, em conversa com Deus. Jesus advogando a nossa causa: os anseios, os amores, as dores, as penas e, enfim, os sofrimentos e os desejos humanos - mais precisamente, a nossa almejada felicidade.

Fala claro, interrompeu Jesus. Não é possível, disse Deus, as palavras dos homens são como sombras, e as sombras nunca saberiam explicar a luz, entre elas e a luz está e interpõe-se o corpo opaco que as faz nascer. Perguntei-te pelo futuro. É do futuro que estou a falar. O que quero que me digas é como viverão os homens que depois de mim vierem. Referes-te aos que te seguirem. Sim, se serão mais felizes. Mais felizes, o que se chama felizes, não direi, mas terão mais esperança duma felicidade lá no céu onde eu eternamente vivo (SARAMAGO, 1991, p. 379).

domingo, 23 de maio de 2010

MUITAS PESSOAS



Não gosto de ler biografias. Meu fascínio é pela prosa de ficção, pela poesia - a ficção do sentimento, segundo a definição do escritor Aramis Ribeiro Costa - e pelo ensaio literário escrito por prosadores e poetas, tais como Virginia Woolf, W.H. Auden, Italo Calvino, Milan Kundera, Mario Vargas Llosa...

Colhi a frase de Fitzgerald, dada minha total concordância.

Nunca se escreveu uma boa biografia de um bom romancista. Se é um bom romancista, são demasiadas pessoas de uma vez.
Francis Scott Fitzgerald (1896 - 1940)

sábado, 22 de maio de 2010

SEM VOCÊ



AUSÊNCIA: Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado - quisquer que sejam a causa e a duração - e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.
Roland Barthes in Fragmentos de um discurso amoroso (Francisco Alves Editora, 1991).

Sinto sua ausência hoje e enquanto viver sentirei, porque você é sinônimo de amor, do meu amor maior. Hoje você faria aniversário. Faria, não faz mais. Dentro de mim, todavia, você existe com todo potencial de amor que sempre despertou. Como uma criança aprende o que é o amor? Eu aprendi cedo com cada troca de olhar, com minhas latas de pêssego trazidas logo numa caixa grande repleta, para que a criança que gostava de pêssegos não deixasse de tê-los momento algum. Prestar atenção à satisfação do outro, olhar para ela falando com as meninas dos olhos (eu era sua menina dos olhos, você disse), e isso tudo é amor, o primeiro e o único que atravessa a vida sem altos e baixos. Firme e forte na presença e na ausência de hoje, um 22 de maio sem você, meu pai.
GD

Ilustração: Rosa Meditativa, de Salvador Dalí.

A MULHER DOS SONHOS


Recebi ontem também o meu exemplar de A mulher dos sonhos & outras histórias de humor (Via Litterarum, 2010), do escritor e acadêmico Aleilton Fonseca, cujo prefácio assino igualmente com muita honra e prazer. O livro será lançado em junho.

CONTOS DE SEXTA-FEIRA



Recebi ontem, no Encontro Literário da Academia de Letras da Bahia, o meu exemplar de Contos de sexta-feira (Assembleia Legislativa do Estado da bahia - Selo Primeira Edição, 2010), do escritor e acadêmico Carlos Ribeiro, cujo prefácio assino com muita honra e prazer.

Retirei do seu site CR Jornalismo & Literatura (http://www.carlosribeiroescritor.com.br/) o seguinte texto:

Conforme ressalta Gerana Damulakis, o livro traz um forte acento da memória, que rege a maioria dos contos; além da presença marcante da cidade de Salvador, especialmente do bairro de Itapuã, onde o autor viveu da infância até o início da sua fase adulta. Este aspecto é reforçado por Suzana Varjão: “Quase todo grande autor possui suas recorrências – de lugar, de tempo, de tema... (...) No Carlos Ribeiro de Contos de sexta-feira, algumas das mais evidentes permanências são melancólicos finais de tarde, os anos 60, ruas e casarios da cidade do Salvador”. E acrescenta: “Os espaços primordiais de suas reflexões são ‘entrelugares’; zonas limítrofes – e indefinidas – entre os mundos material e espiritual; ficções e realidades; terceiras margens, por onde transitam espantos, silêncios, perdas, saudades, memórias, solidões”. Selo Primeira Edição / Assembléia Legislativa da Bahia, 2010, 186 páginas.