sexta-feira, 23 de abril de 2010

ILUSÕES DA VIDA


Gerana Damulakis

Os poemas do romantismo brasileiro não costumam me envolver, mas seria algo típico de juízos apressados generalizar e rapidamente engessar opiniões e colocar rótulos. Não costumam me envolver, pois que seus versos são derramados em demasia, contudo e ainda assim não me conformo e encontro valores: nada é apenas isto, ou apenas aquilo. O poema "Ilusões da vida", de Francisco Otaviano (1825-1889) vale ser decorado, citado e declamado. E vale ser lembrado, até para nosso uso cotidiano. Sem romantismo.

ILUSÕES DA VIDA
----------Francisco Otaviano

Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.



Ilustração: Detail from The Dreaming Youths - Sleeping Girl, Oskar Kokoschka.

sábado, 17 de abril de 2010

"SEREIA LOUCA QUE DEIXOU O MAR"

Gerana Damulakis

Tenho um amigo, escritor como sempre, que foi morar nos EUA e não manteve contato durante os últimos anos. Esta semana recebi um e-mail dele, só que usando apenas um dos seus dois nomes (ele usava ambos, é um nome composto) e o seu último sobrenome (quando usava, no passado, o outro sobrenome). Estranhei. Respondi o e-mail pedindo uma prova, algo que me garantisse que se tratava dele mesmo. Ele escreveu apenas: "sereia louca que deixou o mar". Pronto, estava provado que era ele mesmo, pois o que escreveu foi um dos versos que mais amo (e ele recordou este fato) de Mário de Sá-Carneiro. O verso pertence ao poema "Estátua Falsa", cujo movimento pendular se traduz em melodia poética de primeira.

ESTÁTUA FALSA

-------------------Mário de Sá-Carneiro

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...



Ilustração: mais uma beleza da arte de Rafal Olbinski.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"DO I DARE/ DISTURB THE UNIVERSE?"



Gerana Damulakis

Virginia Woolf escreve em Um teto todo seu (Nova Fronteira, 1985) sobre as reações diante de uma prosa, ou de um poema, e exemplifica com um momento de êxtase, ou seja, com um momento de reconhecimento. Lemos e dizemos: "Mas isso é o que sempre senti e soube e desejei!", uma exclamação que condiz com o texto escrito ao modo de uma confissão.

Nem eu sei o que quero com tal lembrança. Encontrar linhas que me encontrem. Vontade de colher trigo, de ler poesia? Vontade de "rodar a baiana"?

Vou correr o risco

de perturbar o universo?

Num só minuto há tempo

Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.

Pois já as conheço todas bem, todas -

Sei as noites, as tardes, as manhãs,

Às colheres de café andei medindo a minha vida;

Sei que se esvaem as vozes em breve agonia

Abafadas na música de um quarto mais além.

Como havia eu de ousar, assim?

Trecho do longo poema de T. S. Eliot, "A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock", tradução de João Almeida Flor para a edição de Assírio e Alvim, 1985.

Ilustração: Colhendo Trigo, de Papas Stéphanos.

domingo, 11 de abril de 2010

OS POEMAS FORA DAS GAVETAS

Gerana Damulakis

A escritora Gláucia Lemos comemorou os 30 anos de sua literatura. A festa foi linda. E gostosa, tudo saborosíssimo, um jantar digno dos deuses do Olimpo. Além de sua família tão cheia de amor, seus amigos de várias esferas da vida e seus amigos escritores. Como lembrança da noite, ela ofereceu um exemplar para cada convidado do seu 34º título, Trilha de Ausências, trazendo poemas (alguns foram publicados aqui no Leitora ao longo desses 3 anos de existência do blog). Gláucia é romancista premiada, contista, cronista e autora de uma gama de títulos de literatura infantil. A poesia vem de longa data, mas apenas agora saiu das gavetas e ganhou o livro.

AS GAVETAS

--------------Gláucia Lemos

Deixa que se conservem as gavetas

doidas e embaraçadas

como endoidecem em pequenez as minhas horas.

Papéis como asas caídas

de mariposas tontas,

molestadas de luz.

As gavetas precisam parecer

fragmentos esparsos de recordações

limpas ou sujas.

Como pragas misturadas a orações,

ou aleluias e remorsos revelados nos diários.

Precisam desbotar em pó e ácaros

tantos cartões e endereços,

passaportes para a maldição do esquecimento.



Não se devem arrumar as gavetas,

ajustar contas antigas, retificar agendas.

Para que se embebedar no caldeirão da bruxa?

Para que costurar velhos farrapos?

Deixa que se assentem no fundo

os pós dos infortúnios disfarçados em rímel e batom.

Deixa que transbordem nas gavetas os sobejos guardados

que podem envenenar pelas lembranças

e até podem doer.



Ilustração: Calendar of Yesterday's Wishes, de Rafal Olbinski, 2008.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A POESIA IRADA DE GOMES FERREIRA (1900-1985): UMA VISÃO PROFUNDA DA REALIDADE



XL

---------------José Gomes Ferreira

Homens: na noite do desânimo
levanto a minha voz
para pregar o ódio.
Um ódio total e violento
a todos os narcóticos
que adormecem a realidade
com neblinas de música.

Ódio às lágrimas mal choradas diante dos poentes,
à alegria das crianças mortas que teimam em rir nos olhos dos velhos,
às noites de insônia por causa de uma mulher,
às flores que iluminam os mortos de alma,
ao álcool da arte-pura-para-esquecer,
aos versos por dentro das palavras,
aos versos com túneis acesos por dentro das palavras,
aos pássaros a cantarem os perfumes das árvores secas,
às valsas com voos de tule
- e até ao Sol
que diminui o mundo
em indiferença de continuar.

Ódio ao mar a modelar deuses
nos nossos corpos feios de tanto se julgarem belos.

Ódio à primavera
- essa mulher voadora
que entra pelas janelas
com asas azuis
para que a nossa dor
pareça preguiça de existir.

Ódio às serenatas que o luar faz do céu à terra,
às pétalas nos cabelos dos fantasmas ao vento,
às mãos-dadas nas sendas brancas dos idílios,
à pele de frio doce dos amantes,
aos colos das mães a embalarem futuro,
às crianças com céus do tamanho dos olhos,
às cartas de paixão a prometerem suicídios (para beijos mais fundos),
às insinuações de paraíso nas vozes de pedir esmola,
às escadas de corda nos olhos das noivas das trapeiras,
às danças a perfumarem de sexo a derrota,
às ninfas disfarçadas em canteiros de jardins,
e aos recantos foscos
onde escondemos a Verdade
em galerias de evasão
- só para que os nossos olhos continuem límpidos
a ignorarem todos os negrumes
com escadas até ao centro da terra.

Ódio ao disfarce, às máscaras, ao "falemos noutra coisa",
aos desvios, às fontes dos claustros, ao "vamos logo ao cinema",
aos problemas de xadrez, aos dramas de ciúme, às infantas do fogo das lareiras,
e aos que não têm a coragem
de estacar, pálidos,
com unhas na carne
a olhar de frente,
sem arrancar os olhos,
os caminhos dos mortos sagrados
até aos horizontes onde os homens se ofuscam das manhãs virgens.

Ódio a todas as fugas, a todos os véus,
a todas as aceitações, a todas as morfinas,
a todas as mãos ocas das prostitutas,
a todas as mulheres nuas em coxins de afagos,
para nos obrigarem a esquecer...

Mas eu não quero esquecer, ouviram?
Não quero esquecer!

Quero lembrar-me sempre, sempre e sempre
deste minuto de abismo,
para transmiti-lo de alma em alma,
de treva em treva,
de corvo em corvo,
de escarpa em escarpa,
de esqueleto em esqueleto,
de forca em forca,
até ao Ranger do Grande Dia
para a Salvação do Mundo
sem anjos
nem demônios
- mas só homens e Terra.

Ilustração: Campo de Trigo com Corvos (1890), de Vincent van Gogh.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A MARCA HUMANA


Gerana Damulakis

O cinema não me seduz. Sou uma pessoa limitada e assumida. Minha paixão é a literatura e admiro as artes plásticas com certo fervor. Mas, hoje, revi um filme que havia assistido em 2003: Revelações, com Nicole Kidman e Anthony Hopkins, adaptado do romance A marca humana (The Human Stain), do grande escritor norte-americano Philip Roth. Geralmente é assim, se o filme me pega é porque vem da literatura. No filme, Nicole Kidman interpreta Faunia Farley. Quando ela conta para Coleman Silk (Anthony Hopkins) os tantos empregos nos quais trabalha, faz uma parada e finaliza com a frase: "Action is the enemy of thought". A frase grudou em mim: "A ação é inimiga do pensamento". A personagem não se permitia pensar, trabalhava incessantemente, precisava da ação para impedir que os pensamentos chegassem.

A marca humana faz parte da trilogia de Philip Roth, iniciada por Pastoral Americana e Casei com um comunista (ambos publicados também pela Companhia das Letras).

Nós deixamos um marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma - não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A que está lá antes do seu sinal. Mesmo sem nenhum sinal ela está lá. A marca é tão intrínseca que não precisa de sinal. A marca que precede a desobediência, que abrange a desobediência e confunde qualquer explicação e qualquer entendimento. Por isso toda essa purificação é uma piada. E uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura. Porque essa busca da purificação não passa de mais impureza.


Philip Roth
in A marca humana (Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto, 2002).

terça-feira, 6 de abril de 2010

AI DE TI, RIO!

Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.
Rubem Braga


Ilustração: Great Wave, de Katsushika Hokusai.