
sexta-feira, 23 de abril de 2010
ILUSÕES DA VIDA

sábado, 17 de abril de 2010
"SEREIA LOUCA QUE DEIXOU O MAR"
Gerana Damulakisquarta-feira, 14 de abril de 2010
"DO I DARE/ DISTURB THE UNIVERSE?"

Gerana Damulakis
Virginia Woolf escreve em Um teto todo seu (Nova Fronteira, 1985) sobre as reações diante de uma prosa, ou de um poema, e exemplifica com um momento de êxtase, ou seja, com um momento de reconhecimento. Lemos e dizemos: "Mas isso é o que sempre senti e soube e desejei!", uma exclamação que condiz com o texto escrito ao modo de uma confissão.
Nem eu sei o que quero com tal lembrança. Encontrar linhas que me encontrem. Vontade de colher trigo, de ler poesia? Vontade de "rodar a baiana"?
Vou correr o risco
de perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.
Pois já as conheço todas bem, todas -
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que se esvaem as vozes em breve agonia
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?
Trecho do longo poema de T. S. Eliot, "A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock", tradução de João Almeida Flor para a edição de Assírio e Alvim, 1985.
Ilustração: Colhendo Trigo, de Papas Stéphanos.
domingo, 11 de abril de 2010
OS POEMAS FORA DAS GAVETAS
Gerana DamulakisA escritora Gláucia Lemos comemorou os 30 anos de sua literatura. A festa foi linda. E gostosa, tudo saborosíssimo, um jantar digno dos deuses do Olimpo. Além de sua família tão cheia de amor, seus amigos de várias esferas da vida e seus amigos escritores. Como lembrança da noite, ela ofereceu um exemplar para cada convidado do seu 34º título, Trilha de Ausências, trazendo poemas (alguns foram publicados aqui no Leitora ao longo desses 3 anos de existência do blog). Gláucia é romancista premiada, contista, cronista e autora de uma gama de títulos de literatura infantil. A poesia vem de longa data, mas apenas agora saiu das gavetas e ganhou o livro.
AS GAVETAS
--------------Gláucia Lemos
Deixa que se conservem as gavetas
doidas e embaraçadas
como endoidecem em pequenez as minhas horas.
Papéis como asas caídas
de mariposas tontas,
molestadas de luz.
As gavetas precisam parecer
fragmentos esparsos de recordações
limpas ou sujas.
Como pragas misturadas a orações,
ou aleluias e remorsos revelados nos diários.
Precisam desbotar em pó e ácaros
tantos cartões e endereços,
passaportes para a maldição do esquecimento.
Não se devem arrumar as gavetas,
ajustar contas antigas, retificar agendas.
Para que se embebedar no caldeirão da bruxa?
Para que costurar velhos farrapos?
Deixa que se assentem no fundo
os pós dos infortúnios disfarçados em rímel e batom.
Deixa que transbordem nas gavetas os sobejos guardados
que podem envenenar pelas lembranças
e até podem doer.
Ilustração: Calendar of Yesterday's Wishes, de Rafal Olbinski, 2008.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
A POESIA IRADA DE GOMES FERREIRA (1900-1985): UMA VISÃO PROFUNDA DA REALIDADE

XL
---------------José Gomes Ferreira
Homens: na noite do desânimo
levanto a minha voz
para pregar o ódio.
Um ódio total e violento
a todos os narcóticos
que adormecem a realidade
com neblinas de música.
Ódio às lágrimas mal choradas diante dos poentes,
à alegria das crianças mortas que teimam em rir nos olhos dos velhos,
às noites de insônia por causa de uma mulher,
às flores que iluminam os mortos de alma,
ao álcool da arte-pura-para-esquecer,
aos versos por dentro das palavras,
aos versos com túneis acesos por dentro das palavras,
aos pássaros a cantarem os perfumes das árvores secas,
às valsas com voos de tule
- e até ao Sol
que diminui o mundo
em indiferença de continuar.
Ódio ao mar a modelar deuses
nos nossos corpos feios de tanto se julgarem belos.
Ódio à primavera
- essa mulher voadora
que entra pelas janelas
com asas azuis
para que a nossa dor
pareça preguiça de existir.
Ódio às serenatas que o luar faz do céu à terra,
às pétalas nos cabelos dos fantasmas ao vento,
às mãos-dadas nas sendas brancas dos idílios,
à pele de frio doce dos amantes,
aos colos das mães a embalarem futuro,
às crianças com céus do tamanho dos olhos,
às cartas de paixão a prometerem suicídios (para beijos mais fundos),
às insinuações de paraíso nas vozes de pedir esmola,
às escadas de corda nos olhos das noivas das trapeiras,
às danças a perfumarem de sexo a derrota,
às ninfas disfarçadas em canteiros de jardins,
e aos recantos foscos
onde escondemos a Verdade
em galerias de evasão
- só para que os nossos olhos continuem límpidos
a ignorarem todos os negrumes
com escadas até ao centro da terra.
Ódio ao disfarce, às máscaras, ao "falemos noutra coisa",
aos desvios, às fontes dos claustros, ao "vamos logo ao cinema",
aos problemas de xadrez, aos dramas de ciúme, às infantas do fogo das lareiras,
e aos que não têm a coragem
de estacar, pálidos,
com unhas na carne
a olhar de frente,
sem arrancar os olhos,
os caminhos dos mortos sagrados
até aos horizontes onde os homens se ofuscam das manhãs virgens.
Ódio a todas as fugas, a todos os véus,
a todas as aceitações, a todas as morfinas,
a todas as mãos ocas das prostitutas,
a todas as mulheres nuas em coxins de afagos,
para nos obrigarem a esquecer...
Mas eu não quero esquecer, ouviram?
Não quero esquecer!
Quero lembrar-me sempre, sempre e sempre
deste minuto de abismo,
para transmiti-lo de alma em alma,
de treva em treva,
de corvo em corvo,
de escarpa em escarpa,
de esqueleto em esqueleto,
de forca em forca,
até ao Ranger do Grande Dia
para a Salvação do Mundo
sem anjos
nem demônios
- mas só homens e Terra.
Ilustração: Campo de Trigo com Corvos (1890), de Vincent van Gogh.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
A MARCA HUMANA

Philip Roth
