quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A NOITE ESTRELADA



Gerana Damulakis

Imagino que ocorra o mesmo com os poetas e com os amantes da poesia: basta olhar uma noite estrelada e os versos de Bilac chegam naturalmente. Tantas vezes me atrapalho com alguma palavra, mas não deixo de lembrar este poema que atravessa os anos, dito nas noites estreladas. Talvez seja o exemplo mais conhecido da poesia de Olavo Bilac (1868-1918), talvez nem seja seu poema maior, mas é aquele que traz um verso, ou alguns versos, memoráveis, amiúde citados, quando olhamos as estrelas.

VIA LÁCTEA

-------------Olavo Bilac

-------XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...



E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.



Direis agora! "Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?"



E eu vos direi: "Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas".



Ilustração:
A Noite Estrelada
Vincent van Gogh, 1889
óleo em tela
73,7 × 92,1 cm
Museu de Arte Moderna de Nova York

VIVA A POESIA VIVA


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MARIA SAMPAIO E PALOMA AMADO


As amigas de infância Paloma Amado e Maria Sampaio lançarão os livros Tio Tomás, primeiro infantil de Paloma , e Continhos para Cão Dormir II, sequência do último livro de Maria Sampaio. Os livros continuam a Coleção Cartas Bahianas, da P55, sucesso editorial do ano passado em Salvador.
Para reservar seus exemplares e seguir a divulgação em torno do lançamento, basta ir ao blog:
Lançamento dos livros: 9 de março, uma terça feira, a partir das 17 horas e até o último cliente, na livraria Tom do Saber, no Rio Vermelho.
Maria e Paloma, Salvador, 1965. Foto: Zélia Gattai

CONTOS DE VILARINHO

Gerana Damulakis

O escritor Carlos Vilarinho é meu afilhado literário. Isto porque seu primeiro livro foi aprovado por mim para edição na Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Secretaria de Cultura e Turismo. O volume de contos As Sete faces de Severina Caolha & Outras Histórias saiu em 2005. Ali, apontei no prefácio como o escritor alia o fato e a angústia cotidianos nas suas narrativas. Sei que posso esperar mais ainda da segunda reunião de contos de Vilarinho.
Lançamento de O Velho - 18 contos cotidianos e fantásticos: na livraria LDM, dia 6 de março, pela manhã, a partir das 10 horas.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A MALETA DO MEU PAI

(...)

Mas a minha história tem uma simetria que naquele dia me lembrou imediatamente outra coisa, e me provocou um sentimento de culpa ainda mais profundo. Vinte e três anos antes do dia em que meu pai me deixou sua maleta, e quatro anos depois que decidi, aos 23 anos, me tornar romancista e, abandonando todo o resto, me recolhi, acabei o meu primeiro romance, Cevdet Bey e Filhos; com as mãos trêmulas, entreguei ao meu pai os originais datilografados do livro ainda inédito, para que ele pudesse lê-lo e me dizer o que achava. E não só porque eu confiasse no seu gosto e no seu intelcto: a sua opinião era muito importante para mim porque ele, diferentemente da minha mãe, nunca se opusera ao meu desejo de me tornar escritor. Àquela altura, meu pai não estava conosco, estava muito distante. Esperei pacientemente pela sua volta. Quando ele chegou, duas semanas mais tarde, corri para abrir a porta. Ele não disse nada, mas na hora me abraçou de um modo que me fez entender que tinha gostado muito. Por algum tempo, mergulhamos no tipo de silêncio desconcertado que tantas vezes acompanha momentos de grande emoção. E então, depois que se acalmou e começou a falar, meu pai recorreu a uma linguagem rebuscada e exagerada para manifestar a sua confiança em mim e no meu primeiro romance: disse que um dia eu ainda iria ganhar o prêmio que estou aqui para receber com tanta felicidade.

Orhan Pamuk in A maleta do meu pai - discurso da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura de 2006 (Companhia das Letras, 2007), tradução Sérgio Flaksman.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

UMA NOITE E UMA CARTA DE AMOR



Cidade do México, 12 de setembro de 1939.

Minha noite é como um grande coração batendo. São três e meia da madrugada. Minha noite é sem lua. Minha noite tem olhos grandes que olham fixamente uma luz cinzenta filtrar-se pelas janelas. Minha noite chora e o travesseiro fica úmido e frio. Minha noite é longa, muito longa, e parece estender-se a um fim incerto. Minha noite me precipita na ausência sua.

(...)

São quatro e meia da madrugada.

Minha noite me esgota. Ela sabe muito bem que você me faz falta e toda a escuridão não basta para esconder essa evidência. Essa evidência brilha como uma lâmina no escuro. Minha noite quer ter asas para voar até onde você está, envolvê-lo no seu sono e trazê-lo até onde estou. (...)

Minha noite pergunta a si mesma se meu dia não se parece com minha noite. (...)

Minha noite quer que você repouse no meu ombro e que eu repouse no seu. Minha noite quer ser voyeur do seu gozo e do meu, ver você e me ver estremecer de prazer. Minha noite quer ver nossos olhares e ter nossos olhares cheios de desejo. Minha noite é longa, muito longa.(...)

Você me faz tanta falta, tanta. E suas palavras. E sua cor.

Logo o dia vai raiar.

De Frida Kahlo a Diego Rivera em Cartas do Coração - Uma antologia do amor (Rocco, 1999), organização de Elisabeth Orsini.

Ilustração: Diego y yo, de Frida Kahlo, 1949.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

UMA BELA CANÇÃO

Gerana Damulakis

Lembro bastante da sensação causada pela leitura do poema "Uma faca só lâmina ou Serventia das idéias fixas", de João Cabral de Melo Neto: um atordoamento, questões sobre a poesia (ela é isso, então é isso?), a estupefação diante da riqueza daquela edificação. Sim, todos sabem, o poeta era um engenheiro, construía poesia. Mas é uma simples canção que tenho vontade de ler agora.

CANÇÃO
-------João Cabral de Melo Neto

Sob meus pés nasciam águas
que eu aprendia a navegar,
onde um perfil eu via
ao céu se abandonar,
e um grito de criança
imóvel no luar.

Sob meus pés nasciam águas
onde um navio ia boiar,
onde mãos de máquina
me saíam a procurar,
deitado numa rua,
perdido num lugar.

in Pedra do Sono

Foto: estátua de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), confeccionada pelo artista plástico Demétrio Albuquerque.
O Circuito da Poesia, em Recife, Pernambuco, é constituído pelas estátuas de:
João Cabral de Melo Neto, na Rua da Aurora (foto acima); Manuel Bandeira, também na Aurora; Clarice Lispector, Praça Maciel Pinheiro; Mauro Mota, na Praça do Sebo; Chico Science, no memorial do artista (Rua da Moeda); Solano Trindade, no Pátio de São Pedro; Ascenso Ferreira, no Cais da Alfândega; e Luiz Gonzaga, na Estação Central do Metrô.