terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MARIA SAMPAIO E PALOMA AMADO


As amigas de infância Paloma Amado e Maria Sampaio lançarão os livros Tio Tomás, primeiro infantil de Paloma , e Continhos para Cão Dormir II, sequência do último livro de Maria Sampaio. Os livros continuam a Coleção Cartas Bahianas, da P55, sucesso editorial do ano passado em Salvador.
Para reservar seus exemplares e seguir a divulgação em torno do lançamento, basta ir ao blog:
Lançamento dos livros: 9 de março, uma terça feira, a partir das 17 horas e até o último cliente, na livraria Tom do Saber, no Rio Vermelho.
Maria e Paloma, Salvador, 1965. Foto: Zélia Gattai

CONTOS DE VILARINHO

Gerana Damulakis

O escritor Carlos Vilarinho é meu afilhado literário. Isto porque seu primeiro livro foi aprovado por mim para edição na Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Secretaria de Cultura e Turismo. O volume de contos As Sete faces de Severina Caolha & Outras Histórias saiu em 2005. Ali, apontei no prefácio como o escritor alia o fato e a angústia cotidianos nas suas narrativas. Sei que posso esperar mais ainda da segunda reunião de contos de Vilarinho.
Lançamento de O Velho - 18 contos cotidianos e fantásticos: na livraria LDM, dia 6 de março, pela manhã, a partir das 10 horas.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A MALETA DO MEU PAI

(...)

Mas a minha história tem uma simetria que naquele dia me lembrou imediatamente outra coisa, e me provocou um sentimento de culpa ainda mais profundo. Vinte e três anos antes do dia em que meu pai me deixou sua maleta, e quatro anos depois que decidi, aos 23 anos, me tornar romancista e, abandonando todo o resto, me recolhi, acabei o meu primeiro romance, Cevdet Bey e Filhos; com as mãos trêmulas, entreguei ao meu pai os originais datilografados do livro ainda inédito, para que ele pudesse lê-lo e me dizer o que achava. E não só porque eu confiasse no seu gosto e no seu intelcto: a sua opinião era muito importante para mim porque ele, diferentemente da minha mãe, nunca se opusera ao meu desejo de me tornar escritor. Àquela altura, meu pai não estava conosco, estava muito distante. Esperei pacientemente pela sua volta. Quando ele chegou, duas semanas mais tarde, corri para abrir a porta. Ele não disse nada, mas na hora me abraçou de um modo que me fez entender que tinha gostado muito. Por algum tempo, mergulhamos no tipo de silêncio desconcertado que tantas vezes acompanha momentos de grande emoção. E então, depois que se acalmou e começou a falar, meu pai recorreu a uma linguagem rebuscada e exagerada para manifestar a sua confiança em mim e no meu primeiro romance: disse que um dia eu ainda iria ganhar o prêmio que estou aqui para receber com tanta felicidade.

Orhan Pamuk in A maleta do meu pai - discurso da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura de 2006 (Companhia das Letras, 2007), tradução Sérgio Flaksman.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

UMA NOITE E UMA CARTA DE AMOR



Cidade do México, 12 de setembro de 1939.

Minha noite é como um grande coração batendo. São três e meia da madrugada. Minha noite é sem lua. Minha noite tem olhos grandes que olham fixamente uma luz cinzenta filtrar-se pelas janelas. Minha noite chora e o travesseiro fica úmido e frio. Minha noite é longa, muito longa, e parece estender-se a um fim incerto. Minha noite me precipita na ausência sua.

(...)

São quatro e meia da madrugada.

Minha noite me esgota. Ela sabe muito bem que você me faz falta e toda a escuridão não basta para esconder essa evidência. Essa evidência brilha como uma lâmina no escuro. Minha noite quer ter asas para voar até onde você está, envolvê-lo no seu sono e trazê-lo até onde estou. (...)

Minha noite pergunta a si mesma se meu dia não se parece com minha noite. (...)

Minha noite quer que você repouse no meu ombro e que eu repouse no seu. Minha noite quer ser voyeur do seu gozo e do meu, ver você e me ver estremecer de prazer. Minha noite quer ver nossos olhares e ter nossos olhares cheios de desejo. Minha noite é longa, muito longa.(...)

Você me faz tanta falta, tanta. E suas palavras. E sua cor.

Logo o dia vai raiar.

De Frida Kahlo a Diego Rivera em Cartas do Coração - Uma antologia do amor (Rocco, 1999), organização de Elisabeth Orsini.

Ilustração: Diego y yo, de Frida Kahlo, 1949.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

UMA BELA CANÇÃO

Gerana Damulakis

Lembro bastante da sensação causada pela leitura do poema "Uma faca só lâmina ou Serventia das idéias fixas", de João Cabral de Melo Neto: um atordoamento, questões sobre a poesia (ela é isso, então é isso?), a estupefação diante da riqueza daquela edificação. Sim, todos sabem, o poeta era um engenheiro, construía poesia. Mas é uma simples canção que tenho vontade de ler agora.

CANÇÃO
-------João Cabral de Melo Neto

Sob meus pés nasciam águas
que eu aprendia a navegar,
onde um perfil eu via
ao céu se abandonar,
e um grito de criança
imóvel no luar.

Sob meus pés nasciam águas
onde um navio ia boiar,
onde mãos de máquina
me saíam a procurar,
deitado numa rua,
perdido num lugar.

in Pedra do Sono

Foto: estátua de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), confeccionada pelo artista plástico Demétrio Albuquerque.
O Circuito da Poesia, em Recife, Pernambuco, é constituído pelas estátuas de:
João Cabral de Melo Neto, na Rua da Aurora (foto acima); Manuel Bandeira, também na Aurora; Clarice Lispector, Praça Maciel Pinheiro; Mauro Mota, na Praça do Sebo; Chico Science, no memorial do artista (Rua da Moeda); Solano Trindade, no Pátio de São Pedro; Ascenso Ferreira, no Cais da Alfândega; e Luiz Gonzaga, na Estação Central do Metrô.

A GRIPE "REBOLATION"

Marcelo Torres

A música mais tocada nas rádios, nas casas, nos carros e nos trios elétricos de Salvador é uma obra de arte chamada Rebolation (baianamente cantada como o “reboleichon”), que é de um grupo de pagode de nome bastante sugestivo - Parangolé.

E não é só na Bahia que o Rebolation do Parangolé está bombando, é em todo o Brasil. Essa pérola musical, obra-prima da novíssima poesia baiana já soma nada menos que 1,5 milhão de buscas no Google - Google que hoje é a palavra da salvação.

Para você ver que o rebolation não é pouca coisa, a imagem dessa dancinha no Youtube já foi acessada 586 mil vezes. Já a procura pela letra no Google é um pouco menor, apenas 81 mil pessoas quiseram conhecê-la.

[Se você acha que é mentira, entre no Google, escreva o termo “rebolation” e veja lá; vão aparecer números de acessos à música, à letra, ao dowload, aos vídeos, ao passa a passo da dança etc, veja lá.]

Alguém disse (parece que foi Nizan Guanaes, sempre ele), que a música baiana não é feita para a cabeça, mas sim para o quadril; não é para pensar, é para dançar. Ou seja, é para você esquecer a letra. E dançar, quebrar, requebrar. Rebolar.

Porque é de lei: todo ano tem que ter uma dança nova na Bahia. Já tivemos o fricote e o deboche, quando Luiz Caldas cantava “Olha a nega do cabelo duro, que não gosta de pentear, quando passa na Baixo do Tubo...”

Depois veio Sarajane cantando “Tá ficando apertadinha, meu amor, abra a rodinha, por favor, abra a rodinha”. Aí surgiu outro sucesso que dizia “Eu vou enfiar uva no céu da sua boca, e aí chupa toda, chupa toda, chupa toda”.

Outra obra-prima, um verdadeiro clássico da música e da dança na Bahia, dizia assim: “Desce mais, desce devagarinho, desce mais, desce mais um pouquinho... E vai ralando na boquinha da garrafa”.

Depois vieram a dança do tchan, o requebra, a volta no gueto, o arrocha, a dança da tartaruga, a dança da manivela, o vixe, mainha, o berimbau eletrizado, o levantou poeira, até chegar o “todo enfiado”, que é a dança do fio dental.

Voltando ao sucesso do Parangolé, ela só tem praticamente duas frases. Uma diz “O Rebolation é bom, bom, bom”, e repete várias vezes. A outra é “O Rebolation, tion, tion/ O Rebolation, tion, tion”, ou seja, “o reboleichon-chon, o reboleichon-chon”.

Enquanto o Ministério da Saúde só pede para o folião usar camisinha, a gripe do Rebolation derruba o Brasil. Matéria publicada neste domingo de carnaval (15/02), no Portal Terra, informa que até garçons de hotéis no Rio de Janeiro estão cantarolando esse hit do axé.

Acredite se quiser, o Rebolation fez a cabeça até do governador de São Paulo, o presidenciável José Serra, e da sua oponente, a ministra Dilma Rousseff. Embora não saibam dançar, eles já botaram o bloco na rua, e já não perdem nem aniversário de boneca, quanto mais carnaval.

Dilma e Serra estavam em camarotes vizinhos em Salvador. Ao passar pela frente dos camarotes, a cantora Ivete Sangalo brincou com os dois presidenciáveis. Do alto do seu trio, ela falou para Serra: “Tá com olhinhos de sono... Toma aí um energético”.

Mais adiante, parodiou uma música para dar uma bajuladinha na ministra. A música é Dalila e um dos versos diz “Vai buscar Dalila, vai buscar Dalila ligeiro”. Pois não é que Ivete cantou “Vai buscar Dilminha/ Vai buscar Dilminha ligeiro”?

Pois é, Serra e Dilma já começaram a rebolar atrás de voto. No São João, certamente estarão no rebolation junino em Caruaru e Campina Grande, comendo buchada de bode, montando em jegue e pegando criança pobre no colo.

Eles deram sorte por pegarem a onda do rebolation. Mas já imaginou se eles fossem candidatos no ano da “boquinha da garrafa”? E se o ano fosse o da dança da rodinha? Já pensou a dança do “todo enfiado”, hein? Como diz o outro, “quéta, minino”.

Em ano de eleição, Serra e Dilma deram as caras no carnaval da Bahia, terra de Jorge Amado e sua Teresa Batista, a rainha do rebolado. E até outubro o Brasil vai ser esse rebolation do Parangolé. O povo que dance. Ou que rebole. “O reboleichon-chon, o reboleichon-chon, o reboleichon-chon”.

Marcelo Torres, jornalista, cronista, baiano, mora em Brasília; email http://br.mc523.mail.yahoo.com/mc/compose?to=marcelocronista@gmail.com e blog http://marcelotorres.zip.net/; caso repasse, não altere o texto e mantenha os dados do autor.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

DEPOIS DA CHUVA


Gerana Damulakis


Acabei a leitura do livro de poemas de Georgio Rios, Depois da chuva (futurArte, 2009), o qual, seguramente, coloca o poeta com um lugar garantido nas letras baianas. As "orelhas" estão assinadas por Gustavo Rios, autor do ótimo O amor é uma coisa feia (7Letras, 2007), coletânea de contos que comentei aqui no Leitora. Gustavo acertadamente realça: "O cara que escreveu esse livro está em formação. Inacabado e sugestivo. Como toda boa literatura deve ser. Lírico, sutil, com domínio da tal técnica, que serve para se fazer entender: poeta, portanto. Para dar o recado pro mundo que dorme..."
É fato que há uma estrada pela frente para Georgio Rios percorrer, mas, sem dúvida, ele a percorrerá porque já está caminhando e carregando a bagagem necessária. Seus pés estão bem plantados no chão e, do sentido do dia a dia que se vai vivendo, ele retira a poesia do cotidiano. Pode um vento passar e o poeta sentir esse vento e fazê-lo poema, mas na totalidade é da reflexão do que ocorreu, do que está ocorrendo, que Georgio cria seus versos.
Um bom exemplo:


PONTE
--------Georgio Rios

Sobre a velha ponte
fiz passar meus medos.

Em fila,
os tangi para o outro lado.

Um breve aceno,
uma despedida.

Pela outra
rua,
meus novos medos
chegavam...

E eu não abri a porta...