quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A GRIPE "REBOLATION"

Marcelo Torres

A música mais tocada nas rádios, nas casas, nos carros e nos trios elétricos de Salvador é uma obra de arte chamada Rebolation (baianamente cantada como o “reboleichon”), que é de um grupo de pagode de nome bastante sugestivo - Parangolé.

E não é só na Bahia que o Rebolation do Parangolé está bombando, é em todo o Brasil. Essa pérola musical, obra-prima da novíssima poesia baiana já soma nada menos que 1,5 milhão de buscas no Google - Google que hoje é a palavra da salvação.

Para você ver que o rebolation não é pouca coisa, a imagem dessa dancinha no Youtube já foi acessada 586 mil vezes. Já a procura pela letra no Google é um pouco menor, apenas 81 mil pessoas quiseram conhecê-la.

[Se você acha que é mentira, entre no Google, escreva o termo “rebolation” e veja lá; vão aparecer números de acessos à música, à letra, ao dowload, aos vídeos, ao passa a passo da dança etc, veja lá.]

Alguém disse (parece que foi Nizan Guanaes, sempre ele), que a música baiana não é feita para a cabeça, mas sim para o quadril; não é para pensar, é para dançar. Ou seja, é para você esquecer a letra. E dançar, quebrar, requebrar. Rebolar.

Porque é de lei: todo ano tem que ter uma dança nova na Bahia. Já tivemos o fricote e o deboche, quando Luiz Caldas cantava “Olha a nega do cabelo duro, que não gosta de pentear, quando passa na Baixo do Tubo...”

Depois veio Sarajane cantando “Tá ficando apertadinha, meu amor, abra a rodinha, por favor, abra a rodinha”. Aí surgiu outro sucesso que dizia “Eu vou enfiar uva no céu da sua boca, e aí chupa toda, chupa toda, chupa toda”.

Outra obra-prima, um verdadeiro clássico da música e da dança na Bahia, dizia assim: “Desce mais, desce devagarinho, desce mais, desce mais um pouquinho... E vai ralando na boquinha da garrafa”.

Depois vieram a dança do tchan, o requebra, a volta no gueto, o arrocha, a dança da tartaruga, a dança da manivela, o vixe, mainha, o berimbau eletrizado, o levantou poeira, até chegar o “todo enfiado”, que é a dança do fio dental.

Voltando ao sucesso do Parangolé, ela só tem praticamente duas frases. Uma diz “O Rebolation é bom, bom, bom”, e repete várias vezes. A outra é “O Rebolation, tion, tion/ O Rebolation, tion, tion”, ou seja, “o reboleichon-chon, o reboleichon-chon”.

Enquanto o Ministério da Saúde só pede para o folião usar camisinha, a gripe do Rebolation derruba o Brasil. Matéria publicada neste domingo de carnaval (15/02), no Portal Terra, informa que até garçons de hotéis no Rio de Janeiro estão cantarolando esse hit do axé.

Acredite se quiser, o Rebolation fez a cabeça até do governador de São Paulo, o presidenciável José Serra, e da sua oponente, a ministra Dilma Rousseff. Embora não saibam dançar, eles já botaram o bloco na rua, e já não perdem nem aniversário de boneca, quanto mais carnaval.

Dilma e Serra estavam em camarotes vizinhos em Salvador. Ao passar pela frente dos camarotes, a cantora Ivete Sangalo brincou com os dois presidenciáveis. Do alto do seu trio, ela falou para Serra: “Tá com olhinhos de sono... Toma aí um energético”.

Mais adiante, parodiou uma música para dar uma bajuladinha na ministra. A música é Dalila e um dos versos diz “Vai buscar Dalila, vai buscar Dalila ligeiro”. Pois não é que Ivete cantou “Vai buscar Dilminha/ Vai buscar Dilminha ligeiro”?

Pois é, Serra e Dilma já começaram a rebolar atrás de voto. No São João, certamente estarão no rebolation junino em Caruaru e Campina Grande, comendo buchada de bode, montando em jegue e pegando criança pobre no colo.

Eles deram sorte por pegarem a onda do rebolation. Mas já imaginou se eles fossem candidatos no ano da “boquinha da garrafa”? E se o ano fosse o da dança da rodinha? Já pensou a dança do “todo enfiado”, hein? Como diz o outro, “quéta, minino”.

Em ano de eleição, Serra e Dilma deram as caras no carnaval da Bahia, terra de Jorge Amado e sua Teresa Batista, a rainha do rebolado. E até outubro o Brasil vai ser esse rebolation do Parangolé. O povo que dance. Ou que rebole. “O reboleichon-chon, o reboleichon-chon, o reboleichon-chon”.

Marcelo Torres, jornalista, cronista, baiano, mora em Brasília; email http://br.mc523.mail.yahoo.com/mc/compose?to=marcelocronista@gmail.com e blog http://marcelotorres.zip.net/; caso repasse, não altere o texto e mantenha os dados do autor.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

DEPOIS DA CHUVA


Gerana Damulakis


Acabei a leitura do livro de poemas de Georgio Rios, Depois da chuva (futurArte, 2009), o qual, seguramente, coloca o poeta com um lugar garantido nas letras baianas. As "orelhas" estão assinadas por Gustavo Rios, autor do ótimo O amor é uma coisa feia (7Letras, 2007), coletânea de contos que comentei aqui no Leitora. Gustavo acertadamente realça: "O cara que escreveu esse livro está em formação. Inacabado e sugestivo. Como toda boa literatura deve ser. Lírico, sutil, com domínio da tal técnica, que serve para se fazer entender: poeta, portanto. Para dar o recado pro mundo que dorme..."
É fato que há uma estrada pela frente para Georgio Rios percorrer, mas, sem dúvida, ele a percorrerá porque já está caminhando e carregando a bagagem necessária. Seus pés estão bem plantados no chão e, do sentido do dia a dia que se vai vivendo, ele retira a poesia do cotidiano. Pode um vento passar e o poeta sentir esse vento e fazê-lo poema, mas na totalidade é da reflexão do que ocorreu, do que está ocorrendo, que Georgio cria seus versos.
Um bom exemplo:


PONTE
--------Georgio Rios

Sobre a velha ponte
fiz passar meus medos.

Em fila,
os tangi para o outro lado.

Um breve aceno,
uma despedida.

Pela outra
rua,
meus novos medos
chegavam...

E eu não abri a porta...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

UMA VIAGEM MUITO LONGA




Aramis Ribeiro Costa


--Era uma viagem de ônibus.
--Num banco, um rapaz de óculos escuros e camiseta ouvia um som muito alto. Uma música estridente num ritmo frenético. O rapaz parecia muito satisfeito, e parecia gostar muito daquela música, pois, mal ela acabava, tornava a ouvi-la. Aliás, cantarolava a música e acompanhava o ritmo com movimentos de corpo e tamborilar de dedos sobre a perna.
--Ao lado, um senhor viajava após ter perdido toda a noite no trabalho. Gostaria de relaxar um pouco, gostaria de fechar um pouco os olhos mesmo no sacudir do ônibus. Gostaria de um pouco de silêncio. E gostaria de mandar o rapaz parar a música, ou mesmo de atirar aquele pequeno e incomodativo aparelho de som pela janela do ônibus.
--Para o senhor cansado a viagem foi muito longa.


Ilustração: Salvador Dalí, Soft Watch at the Moment of First Explosion (1954)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O POEMA SEGUNDO OS POETAS



Gerana Damulakis

O metapoema me fascinou muito no passado, principalmente pelo uso de metáforas para discorrer sobre o fazer poético. Foi com a poesia de João Cabral de Melo Neto que comecei a atentar para os metapoemas dos outros autores.
Já escrevi aqui, em várias oportunidades (sou recorrente), sobre a lição encerrada no poema “Art Poétique”, de Paul Verlaine, com o deslumbrante verso (ele próprio bastante musical): “De La musique avant toute chose”, cuja tradução de Augusto de Campos é: “Antes de tudo, a música”. É um poema que ensina e é um poema que encanta. Sua última estrofe diz:


Que teu verso seja a aventura
Esparsa ao árdego ar da manhã
Que enchem de aroma o timo e a hortelã...
E todo o resto é literatura.

A razão de uma introdução que se iniciou com Cabral e foi para Verlaine era, na verdade, ficar centrada no fazer poético. Drummond tem um poema que enumera todos os temas com os quais não se deve fazer poesia e, ironicamente, o próprio poeta utilizou tais temas e fez poesia; não, ele fez grande poesia. Entre tantos poemas sobre poemas, sobre versos, há um outro, também de Carlos Drummond de Andrade, que não me deixa neste momento; trata-se de “Poesia”:

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Cheguei ao ponto. De Drummond para Leminski, ambos os poetas fizeram uma legião de seguidores, estas linhas vão para Ignacio Vázquez, do blog Lisarda Baila Cumbia (http://lisarda.blogspot.com/), a quem prometi uma postagem com poema de Paulo Leminski:

-----um bom poema
leva anos
-----cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
-----seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
-----sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
-----três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
-----uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

in La vie en close (Brasiliense, 1992).

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

EM CERTOS INSTANTES

GD

A revista mexicana, Plural, fundada por Octavio Paz, trouxe, em 1989, um poema intitulado “Instantes”, o qual teria sido escrito por Jorge Luis Borges no ano de sua morte. Segundo Alberto Manguel - ensaísta brilhante, nascido em Buenos Aires, mas atualmente cidadão canadense -, no capítulo “Falsificações”, de seu livro À mesa com o Chapeleiro Maluco – Ensaios sobre corvos e escrivaninhas (Companhia das Letras, 2009), o poema estava precedido por um “meloso comentário” de Mauricio Ciechanower, o qual apontava na obra um poder de síntese magistral. Pois bem, para Manguel, o poema é uma meditação idiota e sentimentaloide.
Três anos depois, ainda segundo o ensaísta supracitado, foi publicada uma nova tradução dos versos, no Queen’s Quarterly: “Moments”, traduzido por Alastair Reed, já experimentado na arte de traduzir o grande escritor argentino.
Em 1999, o crítico Francisco Peregil (sigo com Manguel) revelou ao jornal El País, de Madrid: “O verdadeiro autor do apócrifo é uma desconhecida poeta norte-americana chamada Nadine Stair, que o publicou em 1978, oito anos antes da morte de Borges em Genebra, aos 86 anos”.
O texto continuou a aparecer e ganhou o mundo. Prosa poética melosa? Talvez, assim se parece em certos instantes. Mas o primeiro verso é... um sonho.


INSTANTES
----------Nadine Stair


Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade,
bem poucas pessoas levariam a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria
mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria
mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas
reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveram sensata e produtivamente
cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar atrás, trataria de ter
somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida: só de momentos;
não perca o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um paraquedas.
Se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo
da primavera a continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.


Ilustração: I'd pick more daisies...(after Nadine Stair), 2006. Oil and Acrylic on Canvas 90cm x 120cm. Caroline Evans Paintings.www.carolineevanspaintings.com/.../1219347.jpg

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A BELEZA E A VERDADE



Gerana Damulakis

Nunca lhe apareci de branco (Rocco, 1998), de Judith Farr, foi um livro que me trouxe imenso prazer de leitura. Lembrei-me dele porque estava tentando recordar certos versos de Emily Dickinson, mais especificamente aqueles que travam uma conversa entre a beleza e a verdade. Estive debatendo sobre a beleza, eis o ponto de partida. A beleza, essa pseudo-virtude, efêmera e, primeiramente, relativa. Tão relativa quanto a verdade.
Voltando ao livro da poeta Judith Farr, trata-se de uma recriação de algumas das cartas que Emily Dickinson supostamente teria escrito a suas amigas íntimas, além de cartas recebidas de amigos e da família. Saímos da leitura com a sensação de termos conhecido um tanto de uma das maiores poetas americanas do século XIX.


Morri pela beleza e mal estava
Ao túmulo ajustado
Alguém veio habitar a sepultura ao lado.
(Defendera a verdade.)

Baixinho perguntou: “Por que morreste?”
“Pela beleza”, respondi.
“E eu pela verdade. São ambas uma só.
Somos irmãos”, me disse.

E assim como parentes que à noite se encontram
Entre os jazigos conversamos.
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu nossos nomes.

Tradução de Idelma Ribeiro de Faria para Poemas - Emily Dickinson (Editora Hucitec, 1991).

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

MINICONTO


ENIGMA

Aramis Ribeiro Costa

— Confesse! — ela exigiu. — Você me traiu!
— Não — ele respondeu, muito sério. — Eu nunca traí você. Mas, se tivesse traído, não diria.

Ilustração: Os Amantes, de René Magritte, 1928.