sábado, 19 de dezembro de 2009

LIVROS 2009: MAN BOOKER PRIZE



Gerana Damulakis

O Man Booker Prize existe desde 1969, sendo considerado um dos mais prestigiados prêmios para obra de ficção publicada no ano. O escritor deve ser do Reino Unido, da República da Irlanda ou dos países da Commonwealth.

Hilary Mantel é a escritora britânica vencedora do Man Booker Prize 2009 com o romance histórico Wolf Hall. O romance se passa em 1520 e conta a história de Thomas Cromwell, conselheiro do rei Henrique VIII da Inglaterra.

Pela Record, há os seguintes títulos de Mantel: Mudança de Clima (1997), Oito meses na rua Gaza (1999), Experimento amoroso (1999), O gigante O’brien (2001), A sombra da guilhotina (2009).

Os outros finalistas foram:

The Children’s Book, A.S. Byatt
Summertime, J.M. Coetzee
The Quickening Maze, Adam Fould
Wolf Hall, Hilary Mantel
The Glass Room, Simon Mawer
The Little Stranger, Sarah Waters

Não se pode nem se deve opinar sem ter lido, mas sempre torceria por J. M. Coetzee, dada sua maestria em vários títulos e haja vista a obra prima Desonra.
Esperei bastante para comentar este prêmio porque gostaria de ter lido o romance, todavia aguardamos a tradução.

Ilustração retirada do Google, não consegui encontrar os créditos; caso contrário, aqui certamente estariam.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

LIVROS DE 2009: ESTREIA EM DESTAQUE

Gerana Damulakis


Nilson Pedro tem um blog, o Blag, http://nilsonpedro.wordpress.com/, onde coloca seus poemas. Os leitores que acompanham sua produção pediam um livro que reunisse aqueles versos envolventes.
Pela Coleção Cartas Bahianas, da P55 Edições, saiu o Caixa Preta, trazendo 50 poemas do blog.
Considero, na minha humilde opinião de leitora, a melhor estreia em poesia do ano de 2009. A poesia de Nilson Pedro sabe conjugar o verso cerebral na dose saudável, assim como sabe fazer jorrar o lirismo com mão atenta, ambas as tendências mescladas e dosadas com tal equilíbrio como se fosse um químico das palavras a preparar uma solução de dada concentração.
Não se pode fazer uma leitura: no Blag, ao ler um poema novo lá postado, há o ímpeto de escrever logo um comentário, mas imediatamente surge a necessidade da releitura. Sabemos que ele diz mais do que se absorveu de primeira.
Há um jogo mental bem mensurado, como já foi apontado, contudo há uma escolha de palavras que, quando não são “poéticas”, na poesia de Nilson Pedro passam a ser. Sua sintaxe é pessoal e toda ela é significativa, daí a pungência alcançada. É difícil conferir uma forma explícita que traduza completamente as sensações causadas por uma leitura: o melhor, sempre, é ler.

MORTE
Nilson Pedro

A morte, intransponível, no entanto nos visita.
E dizemos deus, e dizemos tempo,
e dizemos nada.
E nada não é coisa que se diga, se ela existe.

A morte, incontrastável, entretanto nos
-------------------------------------[conforma.
E ganhamos deus, e ganhamos tempo,
e ganhamos nada. E nada não podemos obter,
se ela é plena.

ALEIVOSIA
Nilson Pedro

Cuidado com tudo isso
que não te espera,
que tudo isso que não
te espera nada mas é
que teu fado: e eis que
vem vindo algo mais
que à noite não se vê, não se
distingue na floresta
das visagens, das insônias,
dos meandros deste ser
que se desvela.
Cuidado sobretudo com
as palavras que deixaram
de existir.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

RESUMO

Gerana Damulakis

As melhores crônicas de todos os nossos cronistas, sem exceção, resultaram da famosa “falta de assunto”. Isto se deu, seja por parte do grande Rubem Braga, ou do nosso igualmente grande Adroaldo Ribeiro Costa, seja por parte de qualquer outro da legião de escritores que fizeram da crônica - que nasceu num veículo efêmero, como o jornal ou a revista - um gênero brasileiro por excelência, com moldes muito próprios.

Não é sobre a crônica que quero escrever, mas sobre a falta de assunto. Na falta de assunto uma coisa puxa a outra. E o que surgirá disso aqui? Olho para a parede desta minha biblioteca e os olhos param num quadro com um poema. Só um irmão muito querido para fazer um projeto gráfico, reproduzir o poema dividindo em 5 estrofes que o poema não tem, colocar cada estrofe dentro de uma cor (e todas as cores são as preferidas da pessoa que escreveu), jogar cada uma para um lado, mandar imprimir, colocar moldura.

Tudo caminhava para uma crônica e deu em poesia de superfície. E defasada porque a autora tem, atualmente, livros publicados e, inclusive, este poema está no livro desprezado, o único de poemas O Guardador de Mitos - os demais são ensaios e/ou organização de antologias. Que seja. Ah, e já plantei uma árvore.

RESUMO

Não cheguei na lua.
Andei apenas pelas ruas
molhadas, cheias de buracos
que transbordam de pedras.
Não plantei uma árvore,
nem colhi frutos,
mas não arranquei rosas.
Não escrevi um livro.
apenas passei páginas,
lisas e lidas.
Não conquistei meu chão,
meu corpo é pequeno,
grande minha solidão,
e apenas consigo
abrir meu coração no tímido pedaço
do meu espaço;
Semeio de paz o meu redor,
tento criar ilusões para
a difícil realidade da vida.


A foto foi tirada por Gerácimos Damulakis, meu pai, já colocada aqui em outra ocasião, num dos seus arroubos de fotógrafo artístico: em preto e branco para enfatizar o raio de luz sobre nós dois, meu irmão e eu.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ANGÚSTIA: UNIVERSALISMO CONVERGENTE

Gerana Damulakis

O menino é o pai do homem
E eu hei de atar meus dias,
cada qual, com elos da piedade
natural.
--------William Wordsworth


Um momento forte une dois contos de mestres desta arte. Trata-se de “Angústia”, de Tchekhov, e “Bicuíba: uma biografia”, conto de Hélio Pólvora, incluído no livro O Grito da Perdiz (Difel, 1983). A aproximação entre as duas prosas pretende não apenas localizar e pôr em foco a situação que os une, mas trazer algo mais sólido e pertinaz ao tempo: o próprio texto que encerra o pensamento.

São dois contistas de procedências tão diversas — um pertence ao cabedal portentoso da literatura russa, o outro faz parte da não menos poderosa (para nós, pelo menos) literatura grapiúna, cuja existência é fato, separada e distinta no seu pathos em relação ao restante da arte literária baiana —, procedências diferentes, como eu dizia, a ponto de levar nossa convergência entre ambos para um grau maior, governado pelo que se costuma chamar de temática universalizante.

“Coisa esquisita: a morte se enganar de porta” — palavras do pobre cocheiro, cujo filho morrera. É assim em “Angústia”, de Tchekhov: embora entorpecido pela dor, o cocheiro se via obrigado a trabalhar servindo a uma freguesia alheia a seu pesar, incapaz até de escutar sua história; por fim, o cocheiro acaba desabafando com o próprio cavalo, enquanto este mastigava o feno, também alheio. Os episódios, ou melhor, as tentativas de desabafo e atenção por parte do cocheiro não passam de um reforço à dor verdadeira, que é a perda do filho, porque o conto tem no seu conteúdo esta emoção maior e nada mais interessa. Interessa apenas o erro da morte, o engano da batida na porta. O cocheiro diz que o filho deveria substituí-lo agora que está velho; o cocheiro quer a ordem natural das coisas. A partir do momento em que a ordem natural não se dá, o que se dá é o mais trágico acontecimento da existência, a maior perda: a tortura que a alma não aceita.

Em “Bicuíba” o objetivo é semelhante dentro de suas técnicas narrativas: a opressão com o paradigma temporal invertido da existência. O apelido Bicuíba, do personagem de Pólvora, é explicado apenas no final, esclarecendo ser uma árvore de pau nobre, semelhante aos cedros e jacarandás. “Você caiu como cai a árvore lascada pelo raio” — constatação da morte de Bicuíba. E o pai escuta o filho mais velho dizer: “José era boa pessoa”, e fecha a cara em sinal de amuo, olha para os filhos e netos, e acrescenta, “julga-se no dever” de acrescentar: “E trabalhador. Muito trabalhador. Saía de madrugada, às vezes passava a noite fora. Sim, senhor, ele cavava a vida”. Para o pai, a morte do filho “foi um choque, (...), um baque no peito”. Terminam dormindo juntos, pai e filho, lado a lado, “por coincidência na fila de gavetas anônimas”.

É tão “normal” que o pai morra primeiro que o filho, que Hélio não relata a morte de Bicuíba; ele narra primeiramente a morte do pai, embora fique claro que Bicuíba morreu antes do velho. O conto de Pólvora, consistente e denso, deseja a vastidão de uma vida, ao tempo em que interroga sua validade e remete o leitor ao final, ainda buscando o enigma mais entranhado que a arte pode revelar. Nessa fusão de culturas e mesmo nessa mescla de vidas e cotidianos comuns, conciliados num pesadelo perseverado de perdas, o propósito é exceder a mortalidade e sorver a morte na vida, converter o efêmero e o transitório em intemporal.

À guisa de complemento: o paralelo se deu entre os personagens, o cocheiro tchekhoviano e o pai do grapiúna Bicuíba, deixando divisar a mesma angústia, a da descrença diante do espetáculo da vida — e da morte, com sua fina ironia.


Tu, que és filho do Gozo,
Grita em volta de mim, deixa-me
ouvir teus gritos.
---------------William Wordsworth


Texto retirado, mas com cortes para adaptar ao blog, de O Rio e a Ponte — À Margem de Leituras Escolhidas. Damulakis, Gerana. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, Fundação Cultural, EGBA, 1999. (Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, 48)

Ilustração: O sinal da angústia (1932), de Salvador Dali.

LISBOA NOS HABITA

Gerana Damulakis

A revista Serrote nº 2, uma publicação do Instituto Moreira Salles, traz ,entre outras jóias, um texto do livro El viento ligero em Parma, de Enrique Vila-Matas. O texto está intiulado “Já estivemos em Lisboa, sem jamais ter estado”. É um belo texto e traz uma sensação compreendida por mim e, creio agora, por muitos que em Lisboa já estiveram.
Ele diz: “Você caminha pela primeira vez pelas ruas de Lisboa e, tal como ocorrera ao poeta Valente, sente a cada esquina a lembrança difusa de já tê-la dobrado. Quando? Não sabemos. Mas já estivemos aqui antes de ter vindo”. A tradução é de Cide Piquet e o texto está ilustrado com cartões-postais antigos de Lisboa, exemplares da coleção do Instituto Moreira Salles.
Quis registrar isto aqui porque também senti, na primeira vez que estive em Lisboa, que já conhecia tudo aquilo. Pensei que a razão fosse o fato de ser baiana de Salvador, uma cidade que herdou muito de Portugal; depois pensei que, embora muito mais próxima do meu lado grego haja vista a minha família paterna ter vindo da Grécia - portanto sem geração intermediária - o meu tanto de Portugal não está tão longe, já que meu avô materno era português: seria a força da ancestralidade.
Constato, com Vila-Matas: aquela impressão de então não foi apenas minha. E fiquei feliz. Que maravilha uma cidade passar para as pessoas uma sensação de conhecimento, de intimidade e, inclusive, se nos aprofundarmos, de pertencimento, pois reconhecemos o que nos habita.
Sobre este escritor espanhol, cujo estilo é fascinante, lembro que o blog O bem, o mal e a coluna do meio (http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com/) tem uma excelente postagem, em 25 de novembro deste ano, que trata de Enrique Vila-Matas: o texto é “Uma pequena história do Não”, quando Dade Amorim escreve sobre o livro Bartleby e companhia, um dos mais aplaudidos títulos de Vila-Matas.
De saída, fica a minha intenção de escrever mais demoradamente sobre os livros do autor do igualmente aplaudido O mal de Montano. Temos traduzidos pela Cosac Naify cinco títulos. Voltarei a eles, a ele.

sábado, 12 de dezembro de 2009

DEZEMBRO: CLARICE E MANOEL













Gerana Damulakis

Nos anos 80, Millôr Fernandes começou a mostrar ao público, em suas colunas nas revistas Veja e Isto é e no Jornal do Brasil, a poesia de Manoel de Barros. Outros fizeram o mesmo: Fausto Wolff, Antônio Houaiss, entre eles. Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o reconhecimento dos poemas que a Civilização Brasileira publicou, em quase a sua totalidade, sob o título de Gramática expositiva do chão, em 1990. Daí em diante Manoel de Barros seguiu encantando.

Com pelo menos 30 livros publicados, desde 1937, e muito aclamado pela crítica, vencedor de, no mínimo, 10 prêmios literários, certamente o autor da Gramática... entrou na história da poesia nacional ocupando um lugar semelhante ao que ocupa Clarice Lispector na prosa brasileira, seja pelo que há de comum entre os dois escritores, nas suas lutas com as palavras para que digam além do que elas podem, seja pela proposta movida por uma intensa insatisfação quanto à ordem natural das coisas.

Atentando para frases do tipo: “Eu escrevo com o corpo/ Poesia não é para compreender, mas para incorporar”, em Arranjos para assobio, ou para a pequena estrofe: “Caracol é uma casa que se anda/ E a lesma é um ser que se reside”, do Retrato..., tem-se, de saída, a originalidade pela qual o vate do Pantanal seduziu seus aficionados. Os temas são a infância, a natureza e o Pantanal, registrados no universo verbal que lhes confere sentidos diversos, sentidos oníricos, por vezes fantásticos.

Repito: o que fez Clarice Lispector (10 de dezembro de1920 - 9 de dezembro de1977) com palavra na prosa parece ser o que faz Manoel de Barros (19 de dezembro de 1916- ) com a poesia. Estilo feito de invenções e de achados, substantivos são adjetivados, adjetivos e verbos são substantivados, violenta-se a regência verbal e neologismos ornamentam os versos, ou melhor, as frases. Como saber qual dos dois escritores disse:

Ri de novo, em leves murmúrios como os da água
e estupefato como uma parede branca ao luar.

Ambas são frases de Clarice Lispector.

É preciso ir mais adiante um pouco para constatar o paralelo:

O silêncio piscava nos vaga-lumes (...) os vaga-lumes abriam pontos lívidos na penumbra.

Mais uma vez, Clarice Lispector. Estou certa de que houve quem pensasse que esta última frase era de Manoel.

Agora estas frases:
Os silêncios me praticam (...) Sou livre para o desfrute das aves (...) Quero cristianizar as águas, e mais estas: Só não desejo cair em sensatez./ Não quero a boa razão das coisas./ Quero o feitiço das palavras. De Manoel de Barros, do Retrato do artista quando coisa (Record, 1998).

O estilo de achados - flagrantes poéticos e iluminações - acaba comovendo mais ainda quando presente no gênero que lhe fica melhor, que é a poesia. Primeiramente é encantador, mas o risco é o de que possa descair em verbalismo, do que, vale ressaltar, Lispector livrou-se justamente devido ao gênero por ela praticado.

Uma outra pedra de toque da poesia de Manoel é o efeito da frase. Muitos, os que torcem o nariz para sua obra, rotulam-no de mero “frasista”. Pode-se dizer e classificar o poeta de vários modos, até de ecologista da palavra, mas é certo que ele chegou num momento do século passado que parecia totalmente sem perspectivas de algo diferente daquele “grafismo”, já tão longa e fartamente em moda, e deslumbrou.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

TRADIÇÃO E CRIAÇÃO

Gerana Damulakis


Às 11h30 da manhã do dia 28 de março de 1941, Virginia Woolf foi vista pela última vez por um empregado de uma fazenda próxima ao seu refúgio no campo, Monk’s House, em Rodmell, condado de Sussex, relativamente perto de Londres. Ela usava um sobretudo e uma bengala. Perto do rio Ouse, ela largou a bengala, encheu os bolsos do sobretudo com pedras e entrou no rio. Seu corpo só foi encontrado três semanas depois, por cinco adolescentes que passeavam de bicicleta na outra margem. Ela deixou cartas dizendo que não suportava mais, sabia que estava enlouquecendo.
O livro As Horas (Companhia das Letras, 1999), de Michael Cunningham, foi levado ao cinema e teve Nicole Kidman como Virginia Woolf: estava incrível, a imagem ficou retida. É Nicole Kidman quem vejo entrando naquele rio com o sobretudo cheio de pedras.
Virginia Woolf deixou romances, contos, ensaios. O ensaio Um teto todo seu (Nova Fronteira, 1985) é quase um manual para as escritoras. Contudo e ainda sob a leitura dos textos ensaísticos de Fuentes, é do seu romance mais aplaudido, As ondas (Nova Fronteira, 1980, tradução magistral de Lya Luft), que também pinço a frase da escritora Virginia Woolf, uma romancista com total consciência do ofício, dizendo que não há criação sem uma tradição na qual se nutra, assim como a tradição é mantida pela recente criação que a aviventa.

Não posso mover-me sem desalojar o peso dos séculos.
Virginia Woolf