sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
SEXTA-FEIRA: MYRIAM FRAGA NOS ENCONTROS LITERÁRIOS DA ALB

HELENA
-------------Myriam Fraga
Ele estava parado
À entrada da sala.
Olhos postos no chão,
Os pés unidos,
E a seda da túnica
Flutuando
Sobre o torso flexível.
Das sandálias de couro
Alongavam-se as pernas
Como mastros de um navio.
Tanta beleza, meu Deus!
Em mim cavou-se o abismo.
Recuaram, como onda na praia,
Os artifícios
Que ainda me mantinham,
E o precipício
Atraiu-me com um som
Claro de sinos.
Deixei para trás o lar,
O marido e os filhos,
A chama da lareira
Mudou-se em pedra fria.
Mas a deusa foi cruel.
Cada beijo de amor
Transformava-se em crime,
Por cada instante de paixão
Cobrava-se o dízimo.
Tróia foi apenas um sonho.
Resta a sombra do cavalo,
Como uma estátua,
Na praça.
Restam ruínas, destroços...
A morte no meu leito
E o vingador à porta.
in Poesia Reunida (Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, 2008).
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
SEXTA-FEIRA: ILDÁSIO TAVARES NOS ENCONTROS LITERÁRIOS DA ALB
RÉSTIA DE LUZ----------------------Ildásio Tavares
Para Gerana
Ainda ontem, entrei sem querer
naquela
pensão barata (mas limpa e asseada)
onde nos encontrávamos felizes nos
finais de tarde. Entrei sem querer,
eu juro. Procurava uma peça de carro
numa daquelas lojas perto da estação
e quando dei por mim, estava bem na porta.
Resistir, quem havia de?
Na penumbra furtiva do corredor,
o coração descarrilou até o quarto
17 que me aguardava calado como uma
verdade eterna. Tudo igual. A cama
imaculadamente branca; um criado mudo;
duas cadeiras de palhinha puídas; e a
bacia de louça cor de rosa em que te lavavas depois,
ocultando teu gesto,constrangida,
para não te banalizares – tua aura de
deusa profanada por uma intimidade prosaica.
Quanta vez este teu recato ante a promiscuidade
me excitou, te enlacei por detrás
e te trouxe de volta ao vendaval da cama!
Tu sempre resistias. Você é louco, menino? Ele chega
cedo do trabalho. Olhe aquela réstia de luz na persiana
que engatinha sorrateira a caminho da noite. Mas
resistias um resistir indeciso, querendo mesmo te
entregar, e desta vez com mais volúpia.
É um amor bem mais amor esse amor
que me fazes depois, tu murmuraste
um dia, abaixando os olhos, com esse
teu jeito envergonhado e tímido de
tudo fazer e nada comentar. Foi num desses dias em que
sentimos a terra tremer embaixo de nós e até pensamos
que era o trem. La estava a réstia de luz que engatinhava
pela persiana, prestes a engendrar a noite.
Não sei se foi ele, se fui eu ou que foi.
Ninguém entende a lógica das mulheres.
Faz bastante tempo que nos vimos.
Foi no meio da rua, por acaso. Tu nem
quiseste sentar para tomar alguma coisa, conversar.
Era um final de tarde. Tinhas pressa.
O que a gente tem pra conversar,
conversa aqui mesmo, rapaz, diga.
Eu tentei reviver em minhas trôpegas palavras
nossos momentos de esplendor, cerzir retalhos do passado
como uma colcha de delírio.
Tu ouviste calada e no final
disseste. Acabou, menino, passou, esqueça.
Com um sorriso didático e nada teu.
Com um ar preocupado, consultaste
teu relógio e foste embora, sem um adeus,
pisando nas nuvens num passo curto
e ligeiro. Eu via uma pessoa mas era outra
pessoa. No quarto imóvel da
pensão barata, a réstia de luz desenhava
preguiçosamente as horas diminutas do
final da tarde, recorrente indiferença
de todos os dias. Sinete azul da eternidade.
Este poema está no livro 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (Ildásio Tavares - Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2006). O poeta dedicou-me o poema porque eu ouvi todas as modificações que ele fez ( e foram muitas) por vezes até altas madrugadas, quando ele telefonava por conta de uma nova solução. Valeu a pena, ganhei, em papel, todas as versões que o poema teve ao longo de sua feitura. E, assim, ele a mim foi dedicado.
Ildásio Tavares é graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia, fez o Mestrado na Southern Illinois University, o Doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro e o Pós-Doutorado na Universidade de Lisboa.
COM A PALAVRA O ESCRITOR NA ALB
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
O TEMPO É A SOMBRA...
Gerana DamulakisNo dia 7 de abril deste ano, fiz uma postagem intitulada “Persistência do espírito grego”, para trazer o primeiro prêmio Nobel atribuído a um escritor de língua grega, ocorrido em 1963: Giórgos Seféris (1900-1971). Para encerrar, momentaneamente, com a poesia escrita pelos gregos, deixo a referência a Seféris e passo diretamente ao segundo prêmio Nobel para a literatura neogrega, em 1979: Odisséas Elýtis (1911-1996).
O TEMPO É A SOMBRA CÉLERE DOS PÁSSAROS
Odisséas Elýtis
O tempo é a sombra célere dos pássaros
Meus olhos escancarados em meio às suas imagens
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce, doce peripécia
A Vida.
--------------in Orientações
Tradução de José Paulo Paes
Foto: Odisséas Elýtis
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