quinta-feira, 20 de agosto de 2009

TOME ASSENTO, TATIANE GONÇALVES



Gerana Damulakis

Tatiane de Oliveira Gonçalves não precisa de apresentação. Ela já vem do volume aplaudido, As borboletas são assim, quando a mestra Maria da Conceição Paranhos, assinando as "orelhas", deixou evidente os méritos da contista. Na ocasião, fiz a resenha do livro de contos de Tatiane para a coluna Olho Crítico, no jornal Tribuna.

Em Das Coisas Invisíveis, peço para Tatiane tomar assento, firmando seu lugar nas nossas letras. Não percam! Já li e assino sobre meu prazer na leitura.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

ENCONTROS LITERÁRIOS NA ALB


"Encontros literários na ALB” é uma atividade do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia, sob a coordenação do poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos. Trata-se de bate-papos com escritores, com leitura e discussão de textos previamente selecionados, objetivando a aproximação do público leitor com autores baianos, no oferecimento de uma visão panorâmica de nossa literatura atual.

Os encontros serão realizados no auditório da ALB, de setembro de 2009 a dezembro de 2011, na primeira sexta-feira de cada mês, das 17h às 19h, alternando poesia e ficção, sempre com dois escritores convidados. Haverá ainda dois leitores indicados com antecedência, que irão comentar os textos apresentados, formular perguntas aos dois autores e, assim, iniciar o debate, com a participação ativa do público presente.

Estão programados quatro Encontros para 2009:

– em 4 de setembro, Hélio Pólvora e Mayrant Gallo (ficção), comentários de Antônia Herrera e Gerana Damulakis;

– em 2 de outubro, Ruy Espinheira Filho e Maria Lúcia Martins (poesia), comentários de Lígia Teles e Valdomiro Santana;

– em 6 de novembro, Luís Henrique Dias Tavares e Adelice Souza (ficção), comentários de Cássia Lopes e João Eurico Matta;

– em 4 de dezembro, Myriam Fraga e Ildásio Tavares, (poesia), comentários de Evelina Hoisel e Gustavo Felicíssimo.

domingo, 16 de agosto de 2009

MORANGO E CHOCOLATE NA CHUVA

Eliana Mara Chiossi

Então, da janela eu vejo na pele que chove, outra vez. Pingos caíram no quarto. A chuva veio sem avisos e a última janela aberta convidou a chuva para dentro. Molhou a cortina, molhou o papel sobre a cama. O papel sobre a cama atestava um óbito. E o corpo que segurava o papel olhava sem crer. Uma vida inteira resumida naqueles dados exatos. Véspera de acertos burocráticos, que não aguardariam dor nem alegria acomodadas. Até sentir saudade cansava. A vontade de chorar era irritante. Algo que passava do limite. A cada movimento prático, uma evocação. Arrependimento, conversas insuficientes, tantos beijos sonegados. No mapa da história desse amor, eu via agora as inúmeras vezes em que poderia ter diminuído o tom de voz. As inúmeras vezes em que eu poderia ter soltado. Todos os momentos que eu deveria ter acolhido. Vistos em perspectiva, os momentos de ódio, de impaciência, restavam exagerados, desmedidos. Para voltar ao velório, decidi tomar outro milésimo banho. Outra roupa preta, um sapato confortável, grampos no cabelo e um agasalho. Eu sentia um frio desmesurado. Parece que só dentro de mim fazia frio.
Tudo preparado para o Natal. Aquela correria típica não iria atrapalhar os planos de reunir a família. Ele me pediu o carro. Ia buscar um amigo. Estava agitado, há dias. Pela primeira vez, em dez anos, ele iria estar com o pai e a mãe juntos novamente. Foi a luta dele pela reconciliação que nos trouxe de volta ao lar. Então, o Natal seria uma festa verdadeira. O frango desossado estava quente e eu decorava o prato com pedaços de frutas e legumes cortados artisticamente. O interfone tocou e antes de atender tive que limpar a mão cheia de gordura. A cozinha exalava aromas diversos. Eu, inspirada, ouvia um blues e tomava vinho tinto. Que ia regando alguns pratos de carne. André ia passar na casa de Paulo e eles pegariam a torta encomendada com uma semana de antecedência. A torta de morango e chocolate. Algumas pessoas já arrumavam a mesa, ajeitavam os arranjos da árvore. Eu e ele ainda desajustados, trocávamos carinhos disfarçados. O filho havia trazido de volta nosso bem mais precioso. Era uma reaproximação desejada. Tudo agora parecia possível de ser refeito. Móveis novos, lençol novo, a camisola do dia guardada sob o travesseiro. Não sei dizer como tudo começou a desmoronar. Quando percebi, estava alucinada, descendo as escadas. Não havia tempo para esperar o elevador. Acho que estava descalça, acho que era dezembro, talvez eu estivesse com bobs na cabeça, não sei ao certo se cheguei sozinha. Sei que tive um pensamento de louca: que pena, uma torta tão bonita. A torta estava espatifada numa moita, coisas que a gente não entende quando vê um acidente de carro. A cabeça de André pendia e seus cabelos longos se moviam, porque de repente, naquela noite de Natal, o vento chegou trazendo uma chuva e más nóticias.

Ilustração: capa do livro de Eliana Mara Chiossi, Fábulas Delicadas (Escrituras, 2009).

sábado, 15 de agosto de 2009

TODA MANEIRA DE AMOR VALE AMAR

Gláucia Lemos

Paixão... Amor... Amizade... Esse post recém publicado por Gerana, me fez refletir e concluir que toda expressão de sentimento que nos impele à aproximação com o outro, agradavelmente, deve conter um componente amoroso. Seja paixão, amizade, afeto, atração, admiração, em maior ou menor grau implicam em aprovação, que, por sua vez, transitória ou duradoura, intensa ou leve, acaba sendo uma forma de amar.
Não estou incluindo o desejo sexual, o impulso fisiológico que leva à busca da satisfação para uma necessidade natural, instintiva que, por um bonito artifício da natureza, nos impele a procurar justamente as pessoas pelas quais estejamos em estado de aprovação, seja por questão estética, por encantamento, por afeto anterior, por admiração,etc. Então, à necessidade dessa satisfação chamamos amor, o que se torna preciso para que não nos relacionemos intimamente obedecendo ao mero instinto, o que nos reduziria ao comportamento dos animais da escala inferior. Envolta em poesia, a manifestação da libido se torna gentil, linda e enternecedora.
Devo pedir licença aos psicólogos por estar invadindo um terreno no qual não tenho qualquer direito. O que estou dizendo aprendi com eles próprios, concordando por reflexão e atestando por observação.
À parte aquela manifestação amorosa, quero me referir ao amor sentimental, aquele que nos inclina a buscar a companhia de determinadas pessoas e não de outras. É esse amor que acredito estar fragmentado na amizade, na admiração e até na paixão como obsessão que escraviza e leva a extremos. E que alguns afirmam não ser amor, por associarem amor restritamente à finalidade sexual.
Sempre me demoro refletindo em torno dos casos com os quais nos defrontamos todos os dias, ao longo da vida, considerando a variedade de uniões que, no entanto, se me afiguram –e são realmente- outras formas de amar, ou de configurar o amor que a essas pessoas convém. Aqui cabe a pergunta: toda maneira de amor vale a pena? Os conservadores do alto dos seus preconceitos afirmam que não.
Eu não me meto a defender nada de nada. Só observo, reflito e estabeleço a minha opinião.
Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, casal dos mais famosos, foi ligado durante a vida inteira, morando em apartamentos separados embora próximos, cada um livre para os namoros que lhe aprouvesse, e estavam felizes. Mais perto de nós, porque brasileiros, Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli, sob o mesmo teto, vivem um casamento aberto, semelhante ao do casal antes citado. Casais homossexuais masculinos e femininos, todos conhecem às dezenas,cada vez mais frequentes dado o avanço com que a sociedade se conscientizou do respeito pelas diferenças na natureza humana. A imprensa badalou enquanto pode a cláusula do casamento de Jacqueline Kennedy Onassis com o armador grego, pela qual o casal, habitando o mesmo espaço, dormiria em quartos separados e não teria nenhum contato íntimo. Quem não conhece casais que habitam cada qual seu próprio teto, mas mantém o dever de fidelidade recíproca e estão muito felizes? E outros que se amam e se entendem às maravilhas, vivenciando um amor apenas sentimental e respeitando a fidelidade dos casais mais completos?
Embora o mais comum ainda seja a tradicional união, isto é: heterossexual, ambos sob o mesmo teto, ambos comprometidos com fidelidade, é inevitável que aqueles outros aos quais ligeiramente acabo de referir, aí estejam, tendo encontrado sua fórmula de felicidade, aquela que satisfaz, ou a seus interesses, ou a suas conveniências, ou a suas necessidades mais íntimas, e não seriam felizes se tivessem que se enquadrar em um outro formato de vida.
Todos somos diferentes entre nós, ainda que participantes de uma mesma espécie da criação. Ninguém é xerox do próximo, física ou psicologicamente. Quando se encontram duas pessoas que afinam dentro de um novo esquema satisfatório para ambos, acredito que encontraram o mapa da mina, e aposto sinceramente que vivem o sentimento amoroso profundo sem o qual a vida deixa de ter sentido. Não há o certo, não há o errado; há o diferente, há o novo, há a fórmula que cada casal encontra para ser feliz. A partir de que não estejam prejudicando nem a si mesmos nem a outrem, e vivam suas escolhas com dignidade, toda maneira de amor vale a pena, toda maneira de amor vale amar.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

PAIXÃO É..., AMOR É..., AMIZADE É...

Gerana Damulakis

A paixão nasce assim, coisa de um instante e, nasceu. É um sentimento arrebatador, que embriaga, que cega. Não é o amor que é cego. Cega é a paixão, estado alucinante, mas, convenhamos, uma delícia. Ainda bem que acaba em tempo, para não enlouquecer o sujeito apaixonado, mas pode se transformar, melhor ainda.
Amor é transformação de algo que existia anteriormente, seja admiração, seja confiança, seja respeito, seja mesmo paixão.
Amizade é o único sentimento que se constrói. Sendo sentimento em permanente construção, são as vivências dos bons e dos maus momentos que conferem o alicerce seguro da amizade, pois que é composição feita tijolo após tijolo. Não há quem obrigue o outro a sentir amizade por quaisquer meios. Sentimento especial, o mais desinteressado e o mais difícil. Uma pedra fora do lugar e fica um edifício feio.
Sem pensar muito, deixando fluir o gosto sem interferência do conhecimento, o romance que retrata a paixão com mais intensidade é Servidão Humana, de Somerset Maugham. O que retrata o amor na sua maior constância ao longo da vida é O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez. E, por fim, a amizade tão bem retratada em Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas.

10 ANOS SEM HERBERTO SALES

Gerana Damulakis

Em 13 de agosto de 1999 morreu Herberto Sales. Autor de um clássico da literatura brasileira do século XX, o romance Cascalho, Herberto deixou uma obra aplaudida. Dos contos, tantos são antológicos, no sentido que a palavra grega encerra, inesquecíveis. Dos romances, mais de uma dezena, destacam-se o já citado Cascalho, Einstein, O Minigênio, Os Pareceres do Tempo. Ainda: três volumes de memórias, vários de literatura infantil, um volume de literatura infanto-juvenil e um de viagem.
Conheci Herberto Sales na Academia de Letras da Bahia. Ele contou casos engraçados, inclusive um deles ficou na minha memória: ele estava com pneumonia, muito febril e certo de que não passava daquela noite; acendeu, então, uma vela e, com o restante do quarto na escuridão, ficou mirando a vela com olhos pregados, esperando com certo deleite ela - a morte - chegar, assim que a vela apagasse, mas ela não apareceu. Ruy Espinheira Filho seguramente lembrará deste episódio narrado naquele fim de tarde.
Meu texto preferido, escrito por Herberto, é o conto “O Automóvel”. Em texto para palestra na ALB, que depois passou a integrar o volume da Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 44, de novembro de 2000, o acadêmico Aramis Ribeiro Costa atenta para uma curiosidade: Maupassant condenava o recurso do acaso na ficção, dizia que não se deve deixar cair uma telha na cabeça de um personagem central. Escreve Aramis: “Herberto, neste 'O Automóvel', ousando contrariar o mestre francês, deixa caírem duas telhas seguidas na cabeça do personagem”.
Realmente o Herberto contista preza na ficção curta o prazer de contar, acima das receitas já confirmadas ou não. Para encontrar o contista Herberto Sales, e dobrar este prazer, vale ler e adentrar tal universo com Ângela Vilma e seu ensaio A Tessitura Humana da Palavra — Herberto Sales, contista. Este volume, que tem o Selo Editorial Letras da Bahia, foi aprovado por Hélio Pólvora, quando fazíamos parte da comissão editorial da FUNCEB, daí que posso testemunhar como todos nós, responsáveis pelas aprovações da Coleção, ficamos encantados com o desenvolvimento do texto ensaístico. Originalmente foi a dissertação de mestrado de Ângela Vilma, mas em livro o que ela apresenta, com sua linguagem sensível para escrever sobre a arte literária, é um texto que suscita imediatamente a vontade de ler e reler Herberto Sales. Ainda agora, reli os capítulos preferidos por Hélio. Conversamos, Aramis e eu, sobre como Ângela Vilma compara os contos “Teoria do Medalhão”, de Machado de Assis e “Teoria do Executivo”, de Herberto Sales. Garanto, o leitor fica tão envolvido, busca os dois contos, e procura compartilhar este prazer acompanhado do livro da ensaísta.
É isso, Herberto, um dia a vela apaga e ela chega mesmo, precisa nos levar. Para alguns, como você, ela não chega completamente (como queria Bandeira naquele poema em que pede para morrer completamente sem sequer deixar um nome). Está escrito na história da literatura brasileira o nome do baiano, imortal da Academia Brasileira de Letras, Herberto Sales.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

PARABÉNS E ALEGRIA PARA LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS


Gerana Damulakis

Luís Antonio Cajazeira Ramos faz aniversário. Amigo,depois poeta. Assim o vejo. E não adianta ele desejar que seja diferente, que a poesia seja maior que a amizade. Ele é teimoso, que cara teimoso, mas foi sua teimosia que me tirou de casa no ano passado, quando inventou uma tal reunião mensal com um grupo pequeno, só para trocar ideias sobre literatura e fazer leituras em voz alta. Era junho, levei um tempão para sair de casa porque, desde a morte de meu pai, apenas Aramis conseguia que eu desse umas saídas rápidas, porém não mais Academia de Letras, não mais eventos literários, nada com muitas pessoas. O teimoso do Luís insistiu e insistiu. Era junho, ano passado, levei um tempão escolhendo a roupa, quase uma noiva. No meio do caminho, o celular tocou, era o teimoso perguntando a razão do meu atraso. Estou chegando, calma! Eu, meio eufórica, tinha conseguido sair. Melhorei muito de lá para cá. As reuniões todo mês. Graças a Luís, o teimoso.
Mas não gosto de Luís só por conta do episódio: o episódio é ilustrativo. Conheço-o de outros carnavais, há mais de dez anos. Ele escreveu para mim, no exemplar do livro Mais que sempre: “Gerana, a primeira pessoa a reagir com palavra escrita sobre minha palavra escrita. Isto é muito, é sempre, é mais que sempre”. Fiquei tão contente. Ele é teimoso, já escrevi várias vezes, está em tempo de outros indicativos: ele é justo, ele é amigo verdadeiro, não gasta sentimentos à toa. É, lembrei bem, ele é muito justo: sua característica maior.
Seja de Fiat breu, passando por Como se, depois Temporal temporal e Mais que sempre, de Luís Antonio Cajazeira Ramos poderia escolher vários sonetos, mas hoje é dia 12 de agosto, Luís nasceu porque dadas pessoas, lá atrás no tempo, se amaram. A escolha está feita.

AO AMOR
Luís Antonio Cajazeira Ramos

Meus bisavós maternos namoravam
de mãos dadas até já bem velhinhos.
Quando jovens juraram que se amavam,
e a vida nunca mais os viu sozinhos.

Vovó Iaiá e Pai Lulu gostavam
um do outro, tanto, que ninguém sabia,
depois de tanto tempo, se adoravam,
com tanta devoção, Jesus, Maria.

Ele, falante, um bom gourmet, um porto.
Ela, risonha, um bom crochê, conforto.
Ambos, um poema simples, claro e denso.

Não conheci nenhum dos dois. Que pena.
E mesmo assim a vida vale a pena.
Trago em meu sangue seu amor imenso.