sexta-feira, 31 de julho de 2009

TODA FLORBELA

Gerana Damulakis


Florbela Espanca recortava as críticas sobre seus versos. Imagino qual linha desses pareceres, colocados em extremos opostos, deve ter feito aflorar um sorriso no rosto da poeta portuguesa: “versos imprimidos de toda a ternura, todo o sentimento de uma alma de mulher”, “verdadeiro mimo”, ou, por outro lado, “escrava de Harém”, “lábios literariamente manchados”, “um livro mau, um livro desmoralizador”. Vacilando entre a moral e o preconceito e a beleza própria do poema, a poesia de Florbela teve um “frio acolhimento” durante sua vida. Constatamos a história, “a relação mecanicista vida e obra”, que se desenrolou em torno da poeta; tudo muito bem contado, com a base sólida da pesquisa séria de Maria Lúcia Dal Farra em Poemas de Florbela Espanca (Martins Fontes Editora). Esta é uma edição preparada e acompanhada de um estudo introdutório para colocar o leitor de hoje frente às circunstâncias nada favoráveis que estavam sempre ao lado daquela alma “irmã gêmea da minha”, no dizer de Fernando Pessoa.
Maria Lúcia Dal Farra apresenta o resultado de um labor rigoroso, onde salienta a incompreensão recebida por Florbela em vida. A crítica não entendeu a poeta, porque, excetuando Américo Durão e Botto de Carvalho, um parecer como o de Thereza Leitão de Barros, para citar um exemplo, só vai ser modificado depois do suicídio de Espanca.
Debruçada sobre os papéis pessoais que constam do espólio de Florbela, na Biblioteca Nacional de Lisboa, Dal Farra desvendou, estabeleceu e confirmou, via reconstituição, todas as vicissitudes da mulher e da poeta, daquela vida enfim guiada pela angústia existencial.
Já no seu livro Florbela Espanca, Trocando Olhares (Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda), Maria Lúcia trabalha em cima dos 88 poemas do primeiro manuscrito da poeta e segue os projetos poéticos do ponto de vista literário e histórico. Mas é neste livro de agora, mirando Guido Battelli, que a autora traz uma faceta curiosa do que ocorreu após a morte de Florbela. O professor italiano Guido Battelli, por ocasião visitante na Universidade de Coimbra, se ofereceu para editar as últimas produções de Espanca. A Battelli a poeta portuguesa confiou os originais em 1930 e, logo, em dezembro do mesmo ano, põe em prática o suicídio. Dal Farra vem contar como se deu o boom editorial obtido pelo livro de poemas Charneca em Flor, com Florbela então morta: a imprensa de Portugual, acreditando no conhecimento íntimo que Battelli desfrutou com Florbela, tece a aderência da biografia com a obra para explicar inclusive as razões da morte por opção. O professor terá que responder por tal mais tarde, no entanto, no momento imediato à edição de Charneca em Flor, tiragens sucessivas foram esgotadas, o que entusiasmou Battelli a publicar tudo o que encontrou de Florbela. Juvenília reúne os poemas esparsos da mocidade da poetisa; os dois livros de poesia anteriores a Charneca têm reedição; Charneca em Flor ganha uma seção intitulada Reliquiae; e mais, As Máscaras do Destino traz os contos inéditos, além da publicação da correspondência de Florbela com Júlia Alves e com o próprio Battelli, e estupendo é o fato de que tudo isso aconteceu num único ano, o de 1931, alicerçado na ficção criada por Battelli que chegou a manipular trechos de cartas, datas, interferiu nos originais, portanto, ultrajes finalmente elaborados para concorrer com sensacionalismo. O que estarrece é a aceitação pública da mentira por praticamente 40 anos, pois apenas em 1979, ao valer-se do espólio para escrever Florbela Espanca, a vida e a obra, Augustina Bessa-Luís esclarece devidamente a enganação. Atente-se que também no plano político Florbela foi declarada inimiga do Estado Novo. Parece incrível como a intimidade pôde ser ficcionalizada e ser sustentada até que José Régio, Jorge de Sena e Vitorino Nemésio se dedicaram à causa política e aos poemas, quase como uma frente de libertação para trazer a verdadeira Florbela e a poeta que deve ser lida pelo que deixou em texto sem vínculos com sua vida particular.
Escândalo ou fascinação pelo escândalo, com ou sem história de atribulações novelescamente ligada a uma sucessão de três casamentos, a perdas familiares dolorosas, a incompreensão pelo preconceito, o que fica é a voz poética feminina mais autêntica, desatrelada dos filtros morais.
No livro organizado por Maria Lúcia Dal Farra, todas as obras em verso de Florbela Espanca comparecem em ordem cronológica, assim como uma “Esparsa Seleta”, antologia de peças dispersas. Criterioso e curioso, o livro acrescenta mais valor ao que já se conhece da poeta de sonetos tão pungentes como um desespero de amor.


OBRA CITADA: Espanca, Florbela: Poemas. Introdução, organização e notas de Maria Lúcia Dal Farra, Martins Fontes, São Paulo, 338 pp., 1996.
"Toda Florbela" faz parte de O rio e a ponte - À margem de leituras escolhidas.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

ONTEM NA ALB

Gerana Damulakis

Ontem, na Academia de Letras da Bahia, a Fundação Pedro Calmon seguiu com suas palestras mensais. Desta feita, o escritor e acadêmico Aramis Ribeiro Costa falou sobre o mar na literatura baiana, desde os primórdios, passando pela poesia de Castro Alves, até chegar aos prosadores Vasconcelos Maia e Jorge Amado e aportando no Mar de Azov de Hélio Pólvora.
Na palestra seguinte, Jacques Salah, autor do belíssimo A Bahia de Jorge Amado, falou sobre Xavier Marques, recordando a visão crítica de David Salles, ao tempo em que, nas suas lembranças, ele trouxe o nome de Antônio Barros. Momentos preciosos para os amantes da literatura.
O parente direto de Xavier Marques, Celso Xavier Marques, tocou músicas inspiradas na obra de seu avô como, por exemplo, Jana e Joel.
Foto: Anderson Sotero

terça-feira, 28 de julho de 2009

CHUVA E NÃO

Gerana Damulakis


Reencontrei o poeta Sidney Wanderley nos comentários às postagens do blog de Janaína Amado: http://acreditandonotruque.blogspot.com/

Nas "orelhas" do volume de poemas Desde Sempre, de Sidney Wanderley, exclamei a surpresa por encontrar um poeta como ele. Era o ano 2000. Ressaltei o poema "Contra Berkeley" para exemplificar a característica da poesia de Sidney: aquela coisa do sentir-se vários, sentir-se tantos. Na penúltima estrofe, os versos dizem: "Custa-me tanto: o não ser tudo,/ o não ser todos/ e, entretanto, saber-me tantos,/ e mais que tudo, saber-me um/ - o singular criador dum mundo/ que gira e fulge alheio a mim".

Recebo agora o livro Chuva e Não, de 2009, e ficou evidente a capacidade do poeta para sintonizar, no que contempla, o que confere a essas coisas a existência e o sopro essencial.

LIÇÃO DA ÁGUA
Sidney Wanderley

Evaporar-se,
condensar-se,
precipitar-se:

não só a água,
o amor também,
só que em ordem
um tanto diversa:

precipitar-se,
condensar-se,
evaporar-se.


Tenho vontade de colocar vários exemplos: "Gavetas" ("-Pois as gavetas que por certo eu perseguia,/ repletas de memórias, e de poesia,/ era em mim que se fechavam e se abriam."), "O Borges que escolhi", "Um beijo"...; o livro é... poesia!

Obrigada, Sidney.

domingo, 26 de julho de 2009

O NÚMERO 7 É MUITO IMPORTANTE

Gerana Damulakis

para aeronauta

Já fiz uma postagem usando o mesmo trecho que reproduzo abaixo do romance O conquistador, de Almeida Faria.

(...) cuja soma dá o número sete, sinal da felicidade e dos destinos raros. Não em vão se invocam os sete dias da criação, os sete anos que Jacob serviu Raquel, os sete pecados mortais, as sete portas de Tebas, os sete muros que cercam a Cidade Celeste, as sete obras de misericórdia,, os sete andares do céu, os sete dons do Espírito, as sete maravilhas dessa terra, os sete planetas e os sete metais que se lhe referem, as sete estrelas do grupo das Plêiades, os sete braços dos sete candelabros empunhados pelos sete anjos que rodeiam o trono divino e que soarão as sete trombetas no Dia do Juízo.

Este romance breve de Almeida Faria é um deleite, saiu pela Rocco em 1993. O nosso Lêdo Ivo diz nas "orelhas": "Toda aventura humana é a promessa de um naufrágio". Definindo extraordinariamente a aventura de O conquistador, o poeta Lêdo Ivo escreveu um texto tão admirável quanto o romance. Acrescento que a aventura aqui é sinônimo também de uma diluição do personagem; aliás isto foi apontado. O que, de resto, resulta no mesmo. Vale embarcar com Almeida Faria: ressalto que "a sabedoria das superstições" dão um toque extra. Leitura de primeira.

sábado, 25 de julho de 2009

"SOU TEMPLO PRESTES A RUIR SEM DEUS"

Gerana Damulakis


Na primeira data de troca de presentes da história de nossas vidas, Aramis e eu demos a mesma coisa um ao outro: a obra completa de Mário de Sá-Carneiro, da Editora Nova Aguilar. Uma coincidência inesquecível! Eu já possuía, em dois volumes, um de poesia, outro de prosa, Mário de Sá-Carneiro, pela Círculo de Leitores, de Portugal. Mas, gosto de ter duas vezes ou mais os livros preciosos de poesia, até já contei quantos Manuel Bandeira eu tenho. Criatura recorrente!
Acabei de ler Suicídios Exemplares, livro de contos de Enrique Vila-Matas, escritor espanhol que vem me encantando cada vez mais. No final, ele colocou um trecho da carta de Mário de Sá-Carneiro para Fernando Pessoa, de 31 -03-1916:
Mas não façamos literatura. Pelo mesmo correio (ou amanhã) registradamente enviarei o meu caderno de versos que você guardará e de que você pode dispor para todos os fins como se fosse seu (...) Adeus. Se não conseguir arranjar amanhã a estricnina em dose suficiente deito-me para debaixo do “metro”... Não se zangue comigo.
Lembrei-me do ritmo pendular do soneto “Estátua Falsa”, de Sá-Carneiro. Há um mundo formado neste poema, um mundo que vai aos “céus” e diretamente vai ao “mar”, sobe e desce. E a leitura do verso: “nada me aloira já, nada me aterra”, essa leitura vai criando um pêndulo imaginário. Cada verso é extremamente rico: constrói um eu inseguro, sem valor, portanto falso, que impregna até a tristeza. As metáforas funcionam para moldar o mundo criado como ele é mesmo e, não como uma relação com outro. O penúltimo verso não tem como qualificar, creio que é exatamente como cada um de nós pode se sentir alguma vez diante da vida, se perdemos a pessoa que era um ser maior, como na perda do pai: “sou templo prestes a ruir sem deus”.
ESTÁTUA FALSA
Mário de Sá-Carneiro

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

in Dispersão

quinta-feira, 23 de julho de 2009

MEU BISAVÔ ERA PADRE!


Gerana Damulakis

Calma! É verdade, mas a frase assim, fora do contexto, fica por conta da jornalista frustrada que há em mim, em busca de títulos que seduzam o leitor. Amo esta foto, causadora do título da postagem. Meu bisavô Gerácimos (mesmo nome de meu pai) era padre católico ortodoxo grego e estes padres podem casar. O rapaz ao lado dele era meu avô Jorge (Georgios, Yorgos, mesmo nome de meu irmão). Também na foto: minha bisavó Sophia (sabedoria, em grego) e a irmã de meu avô, Fotini.
Quantos Gerácimos e Jorge! Lembram do filme Casamento Grego, quando o pai da moça vai apresentar os parentes para os futuros sogros dela, todos os homens respondem na mesma hora, pois todos se chamam Niko? Assim também é na minha família. Há quem diga que estes gregos não têm muita imaginação para nomes. E eu respondo que, no entanto, escreveram tudo, tudo está nas tragédias e comédias gregas.
A razão da foto aqui no blog: na Academia de Letras da Bahia, conversando com o acadêmico Dom Emanuel d'Able do Amaral, arquiabade do Mosteiro de São Bento, não consegui tirar os olhos da cruz que ele traz no peito, dada a beleza, e ele me contou sobre a trama da cruz, seu desenho celta. Por conta disso, lembrei-me da cruz de uns 30 centímetros que ficava na cabeceira de meu avô, era uma cruz ortodoxa grega, também belíssima. Apesar de ser a depositária das coisas da família (ninguém imagina quanta coisa eu tenho de tanta gente, dos Costa - lado materno, e dos Damulakis - lado paterno), a cruz, que tanto apreciei na infância e na adolescência, ficou com a irmã de meu pai. Não consegui tirar isso da cabeça. Já procurei uma cruz semelhante no mercadolivre, não encontrei. Sinto-me como uma criança mimada: “Quero uma cruz ortodoxa como a de meu avô, como a da religião da qual meu bisavô foi um padre!”.
No fundo, sei que o importante é ter a cruz na minha lembrança e no meu coração. Contudo, gosto de símbolos e, na verdade, estou com saudades de tudo que a visão daquela cruz me trazia.