Gerana DamulakisA questão ressurgirá com a Atualização do Conto Baiano: a questão relacionada ao lugar de nascimento. Haverá outras questões por conta das ausências na nova reunião. O tal viés pessoal traz uma lembrança cara e carrega uma certeza. É a certeza que faz com que eu fique firme no meu critério sobre a necessidade de ter nascido na Bahia para constar da antologia regional.
A lembrança cara: meu avô viveu décadas no Brasil – em Angra dos Reis (RJ), em Santos (SP), em Torres (RS) e em Salvador (BA). Falava português muito bem, porém, jamais conseguiu dizer o “ão”. Até já contei aqui o quanto eu era uma netinha chata, ficava mandando ele dizer “João”, e ele só dizia “Jon”, assim como “pon”, o que seria "pão" etc. Adorava a Bahia, a cor do mar de Salvador (também já contei aqui), não tinha o que dizer dos brasileiros que não fosse elogio. Na hora da morte – ele morreu em casa, com a família ao redor – foi falando e morrendo, falando e morrendo... todo o tempo em grego, como se nunca houvesse conhecido o português.
A certeza: não adianta, a pessoa nasce e morre pertencendo a determinado lugar. O blá-blá-blá de que não pertenço a isso aqui, nasci no lugar errado e variantes (que não eram o caso de meu avô em relação à Grécia) são infantilidades. Os problemas estão dentro, seguirão com a pessoa na mudança de lugar, sem dúvida. O inferno são os outros (de Sartre) é uma bela frase, só que o inferno não são aqueles que estão em certo lugar; o inferno somos nós mesmos, o que trazemos dentro.
Jorge Amado morou na França, morou no Rio de Janeiro. Jorge Amado é um romancista francês? Jorge Amado é um romancista carioca? Ele entrou para a história da literatura como romancista baiano, qualquer questionamento seria ridículo.



