sábado, 27 de junho de 2009

TRECHO DE "CRIME OCULTO"


Carlos Vilarinho


Naquele dia eu estava aborrecido. A mulher tinha cobrado mais atenção de minha parte, como se eu tivesse que procurá-la para amar novamente. Ora, foram trinta e cinco anos juntos, tivemos duas filhas já criadas e casadas. Cada uma com seu macho, eles que cuidassem delas de agora em diante. A mulher rezava ao deitar, rezava para pegar no sono, rezava para acordar, rezava para levantar... Diabo de tanta reza! Já não agüentava mais, então lhe perguntei o que ela fazia de fato na igreja se gastava toda a reza dentro de casa. Ela pensou que eu estivesse ciumando, ora, veja! Sorriu e dissimulou sensualidade pífia.

- “Ridícula!”

Aquilo me aporrinhou tanto que saí de casa tremendo de desgosto e nauseabundo. Além de ter tomado duas cápsulas de Rivotril. Louco de dispepsia, ouvi o grito da mulher ao sair.

“Estás sob a influência de Satanás, velho.”

E mais, em tom bíblico:

“Antes da ruína, vem o orgulho... Antes da queda vem a presunção”.

Assim cheguei à rua principal de Brotas, ofegante e enojado pelo aborrecimento causado por Regina Astrid que um dia foi uma bela mulher e levou-me para o altar. A moça com olhar de cio passou por mim e não pôs as vistas em mim como de costume...


Carlos Vilarinho é autor do volume de contos As Sete Faces de Severina Caolha & Outras Histórias, do Selo Editorial Letras da Bahia (SCT, FUNCEB, 2005).
Foto: "Satanás", por Erredé, reirada do Flickr.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

APENAS ALGUMAS PALAVRAS

Gerana Damulakis

Conversando com Aeronauta, eu disse que é fácil perceber um talento verdadeiro na leitura de um texto; às vezes, basta um detalhe, como uma palavra bem colocada – este exemplo foi dado enquanto eu falava da literatura que ela escreve, claramente produto de uma pessoa que tem talento.

Uma coisa puxa a outra. Em se tratando de uma palavra que chama a atenção, por coincidência li um artigo de Roberto Pompeu de Toledo na Veja, de 17 de junho de 2009, intitulado “Palavras no Muro”. Ele mostra como, na frase de um grafiteiro, “O amor é importante, pombas”, a palavra “pombas”, aposta à oração principal, é o que faz que um pensamento banal adquira vísceras. Mas este não é o exemplo que mais me tocou. A observação de Toledo, sobre a diferença que uma palavra pode fazer, fica mais interessante quando ele cita os dois versos do poema de Jorge Luis Borges, La Luna: “Según se sabe, esta mudable vida/ Puede, entre tantas cosas, ser muy bella”. No caso, são três palavras: “entre tantas cosas”. O “entre tantas coisas” abre “o leque de feições que pode assumir a vida”.

Já se disse que o poema “Instantes” (ou “Momentos”, dependendo da tradução) não é de Jorge Luis Borges. É a mais famosa não-autoria. Goulart Gomes sabe contar essa história, disse que o poema foi atribuído a Nadine Stair, mas também não é dela. Manuel Anastácio também já escreveu sobre isto no blog Da Condição Humana. Seja de quem seja, o poema pertence ao meu baú de preferências. Estive lembrando seus versos em conversa com Ana Bárbara Sousa. E junto tudo para concluir. A diferença que faz uma palavra, ou algumas palavras, faz toda a diferença; sinta: “se eu pudesse viver novamente”, nada a acrescentar? Agora, como está no poema: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida”. Cuidado, este verso ficará alojado na sua memória e, naqueles momentos, nos quais chega uma vontade louca de começar tudo de novo, ele aparecerá sempre. Ah, se eu pudesse viver novamente a minha vida...

Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O SENTIDO

Gerana Damulakis


Esta foto é da capa de um dos tantos títulos do poeta Luís Augusto Cassas. Não sei o número exato de livros já publicados, perguntarei ao poeta. Creio que tenho quase todos porque nossa amizade já vem de longa data e nossa troca de livros, poemas, conversas, idem.



O poema que segue abaixo foi lido por ele, por telefone, para mim. Pedi que me enviasse e agora compartilho. Nós, seus leitores, aguardaremos a poesia reunida que já urge ser publicada. Por enquanto, O Sentido.




O SENTIDO

Luís Augusto Cassas


qual o sentido

de se estar vivo:

viver os cinco sentidos?

acender a luz do espírito?

reedificar o paraíso?

tornar-se do todo amigo?

ser lírio ou narciso?


por que quando o sentido

a face vem mostrar

esconde-se o não-sentido

para o sem-sentido brilhar?


o sentido

é paisagem que aí está?

o não-sentido

é passagem que se abrirá?

o sem-sentido

é viagem sem lugar?


ad-finitum

é o universo:

misterium

tremendum

mas do precipício

seremos salvos

quando a essência

reencontrar o princípio


por enquanto da vida

só captamos os ruídos

mas o verdadeiro sentido

será definitivo

quando o que clama

desde jerusalém

irromper-nos à alma

com o seu amém

domingo, 21 de junho de 2009

O CONTO SERÁ SEMPRE O CONTO

Gerana Damulakis

A dinâmica da vida na era da tecnologia, com avanços dia a dia, já quer contaminar os conceitos na literatura. Talvez os conceitos precisem dessa contaminação. Apenas os conceitos, apenas as novas definições, apenas momentos, tudo apenas passageiro.

O conto ganha novas formas de se dizer que é conto. Dá até saudade daquela frase já tão batida de que conto é tudo aquilo que o autor chamar de conto. Atualmente ficou pior, a frase de outrora é uma frase inocente. Ficou pior, mas é passageiro. Passível de ser aceito mas, sabemos, não perdurará. Tudo na base do "agora é assim, agora já não é mais daquele jeito" é, na verdade, um instrumento facilitador para os menos hábeis.

O conto será sempre o conto: o grande conto, o texto que pega o leitor de jeito, não importa se a epifania ou a peripécia que surpreende. Como estou aqui escrevendo sobre o conto que será sempre O Conto, segue o final de um dos grandes contos do escritor Hélio Pólvora.

"Para onde vou? Perdi a minha última certeza. Sei apenas que é preciso remar. Devo estar no meio do rio, o medo vem de novo e me sufoca o peito. Ignoro qual a margem certa, não sei mais como voltar nem aonde ir. Estou remando para a noite definitiva ou para o lívido alvorecer?"

"Do Outro Lado do Rio" in Contos da Noite Fechada (Editus, 2004).

sábado, 20 de junho de 2009

"NOSSO" FERNANDO PESSOA

Gerana Damulakis


Tenho certas singularidades que nem eu mesma entendo, mas quem não as tem? Neste momento estou perplexa por ter comprado mais um livro com os poemas de Fernando Pessoa. Olho para o lugar onde estão volumes e mais volumes com a obra de Fernando Pessoa, a obra completa acompanhada de vários outros livros: edições da Cultrix, da Nova Fronteira, da Companhia das Letras, da Alfaguara, da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, da Editorial Estampa. Não tenho sequer a desculpa de que gosto de comparar traduções; quais traduções? São poemas de Fernando Pessoa! E acontece o mesmo em relação a Manuel Bandeira (deste, a quantidade de livros é imbatível!) e a João Cabral de Melo Neto.
Será que posso apontar o estudo introdutório como a causa da necessidade de ter um livro contendo os mesmos poemas que já estão na minha biblioteca? Parece que é plausível.
Não resisti a Fernando Pessoa – O Poeta Fingidor, da Editora Globo, incluindo o DVD dos 120 anos do nascimento do poeta (série da Globo News). Gostei muito das palavras de Claufe Rodrigues na apresentação intitulada “Fernando Pessoa, um poeta brasileiro?”. Ele mostra a nossa intimidade com Pessoa, como nós consideramos o poeta português, ao lado de Drummond, Vinicius, Bandeira, como nosso e diz: "(...) e o gosto mútuo pelo gerúndio não será a única explicação para esse caso de amor". Depois vem um texto de Carlos Felipe Moisés, “O poeta dos heterônimos”: outro prazer. É, acho que posso dizer que compro esses livros porque gosto tanto do ensaio crítico, do parecer da leitura, quanto dos poemas: gosto, enfim, da literatura sobre a literatura. Um outro olhar, agora para o lugar, na biblioteca, que guarda livros de ensaios críticos, vem confirmar a conclusão. Cada qual com suas idiossincrasias.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

BAIANO, ASSOCIAÇÃO, YACHT


Ildásio Tavares

Quando eu era menino, só existiam três clubes no mundo, Baiano, Associação e Yacht. Cada clube com sua turma, cada turma com seu jeito, as classes médias e altas da Bahia distribuíam-se nestas entidades como a forma mais sofisticada de lazer; a forma mais qualificada de divertimento, desde as tradicionais festas, carnaval, S. João, réveillon; aos esportes praticados com empenho e eficiência – o tênis, o basquete e o vôlei, na Associação e no Bahiano; a natação e o iatismo no Yacht.
Qualquer pessoa que se prezasse tinha que ser sócio dos três. Principalmente porque o ameno carnaval da Bahia se perfazia com os três. O carnaval começava com o corso da Associação no sábado, uma interminável carreata de carros sem capota e de jeeps, polvilhadas de belíssimas donzelas esparramadas por cima dos carros e dos paralamas devidamente lambuzados de cola e entupidos de confete, no ar uma revoada constante de serpentinas e o cheiro provocante dos lança-perfumes. Ah, o carnaval acabou com o fim do confete, pedacinho colorido de saudade, com o desaparecimento da serpentina; com a proibição do lança-perfume. Começava aí outra coisa.
Apesar de baixo, eu tinha mão certa no basquete e estava quase para ser sócio-atleta do Bahiano quando houve um endurecimento nos estatutos. Tinha sócio-atleta demais. Entrei para sócio mesmo aos 18 anos, frequentador mais das festas, bingos, e continuando no basquete com Patinho, (Roberto Lisboa), Marcelo Lisboa que tinha torcida própria – as meninas torciam por ele não pelo time, Deoclides Barreto de Araujo, Bob, Carlito Kruschewsky, Sheldon e seu irmão Leslie e mais as feras do 2° quadro: Fernando Lyra, Aron Kremer, Mimito.
O Bahiano de Tênis era um mundo: o aristocrático. No S. João,as donzelas ocultas por milhares de anáguas rodopiavam no salão circular nos braços ardentes de seus pretendentes, que ali mesmo começavam um périplo de paquera, namoro, noivado, casamento. Para o bem de todos e felicidade geral da nação. Mais tarde entrei para a Associação, atraído pela imensa piscina em cuja inauguração meu amigo Chiquinho Amaral mergulhou do terceiro trampolim e João Gilberto fez o show pelas mãos de seu amigo Coqueijo.
De todos, o mais encantador, o Yacht. Verdadeiro cartão postal engastado na montanha. Típico paraíso do bem viver baiano que pode desfrutar, desde a sinuca, ao iatismo, ao simples velejar, largar o pano e sair em busca do espelho azul da Baía de Todos os Santos ...O Yacht constitui-se numa zona de paz e de relaxamento encravada no coração da vida urbana, por sua localização privilegiada e perfeita integração no ambiente. Assentado com elegância e perfeição arquitetônica sobre o mar, o Yacht é na verdade um imenso veleiro que ancorou na baía e que lá ficou para júbilo de seus marinheiros. Detalhe a parte: o seu bondinho que nos traz do alto da montanha, integrando-se ao passado...
Que estamos fazendo de nossa tradição, minha gente? Acabaram com o Bahiano. A Associaçao resiste. Por Senhor do Bonfim, não toquem no Yacht, que é um patrimônio do mundo.