
sábado, 27 de junho de 2009
TRECHO DE "CRIME OCULTO"

quinta-feira, 25 de junho de 2009
quarta-feira, 24 de junho de 2009
APENAS ALGUMAS PALAVRAS
Gerana DamulakisUma coisa puxa a outra. Em se tratando de uma palavra que chama a atenção, por coincidência li um artigo de Roberto Pompeu de Toledo na Veja, de 17 de junho de 2009, intitulado “Palavras no Muro”. Ele mostra como, na frase de um grafiteiro, “O amor é importante, pombas”, a palavra “pombas”, aposta à oração principal, é o que faz que um pensamento banal adquira vísceras. Mas este não é o exemplo que mais me tocou. A observação de Toledo, sobre a diferença que uma palavra pode fazer, fica mais interessante quando ele cita os dois versos do poema de Jorge Luis Borges, La Luna: “Según se sabe, esta mudable vida/ Puede, entre tantas cosas, ser muy bella”. No caso, são três palavras: “entre tantas cosas”. O “entre tantas coisas” abre “o leque de feições que pode assumir a vida”.
Já se disse que o poema “Instantes” (ou “Momentos”, dependendo da tradução) não é de Jorge Luis Borges. É a mais famosa não-autoria. Goulart Gomes sabe contar essa história, disse que o poema foi atribuído a Nadine Stair, mas também não é dela. Manuel Anastácio também já escreveu sobre isto no blog Da Condição Humana. Seja de quem seja, o poema pertence ao meu baú de preferências. Estive lembrando seus versos em conversa com Ana Bárbara Sousa. E junto tudo para concluir. A diferença que faz uma palavra, ou algumas palavras, faz toda a diferença; sinta: “se eu pudesse viver novamente”, nada a acrescentar? Agora, como está no poema: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida”. Cuidado, este verso ficará alojado na sua memória e, naqueles momentos, nos quais chega uma vontade louca de começar tudo de novo, ele aparecerá sempre. Ah, se eu pudesse viver novamente a minha vida...
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
Se eu pudesse voltar a viver,
terça-feira, 23 de junho de 2009
O SENTIDO
Gerana DamulakisEsta foto é da capa de um dos tantos títulos do poeta Luís Augusto Cassas. Não sei o número exato de livros já publicados, perguntarei ao poeta. Creio que tenho quase todos porque nossa amizade já vem de longa data e nossa troca de livros, poemas, conversas, idem.
O poema que segue abaixo foi lido por ele, por telefone, para mim. Pedi que me enviasse e agora compartilho. Nós, seus leitores, aguardaremos a poesia reunida que já urge ser publicada. Por enquanto, O Sentido.
Luís Augusto Cassas
qual o sentido
de se estar vivo:
viver os cinco sentidos?
acender a luz do espírito?
reedificar o paraíso?
tornar-se do todo amigo?
ser lírio ou narciso?
por que quando o sentido
a face vem mostrar
esconde-se o não-sentido
para o sem-sentido brilhar?
o sentido
é paisagem que aí está?
o não-sentido
é passagem que se abrirá?
o sem-sentido
é viagem sem lugar?
ad-finitum
é o universo:
misterium
tremendum
mas do precipício
seremos salvos
quando a essência
reencontrar o princípio
por enquanto da vida
só captamos os ruídos
mas o verdadeiro sentido
será definitivo
quando o que clama
desde jerusalém
irromper-nos à alma
com o seu amém
domingo, 21 de junho de 2009
O CONTO SERÁ SEMPRE O CONTO
Gerana DamulakisA dinâmica da vida na era da tecnologia, com avanços dia a dia, já quer contaminar os conceitos na literatura. Talvez os conceitos precisem dessa contaminação. Apenas os conceitos, apenas as novas definições, apenas momentos, tudo apenas passageiro.
O conto ganha novas formas de se dizer que é conto. Dá até saudade daquela frase já tão batida de que conto é tudo aquilo que o autor chamar de conto. Atualmente ficou pior, a frase de outrora é uma frase inocente. Ficou pior, mas é passageiro. Passível de ser aceito mas, sabemos, não perdurará. Tudo na base do "agora é assim, agora já não é mais daquele jeito" é, na verdade, um instrumento facilitador para os menos hábeis.
O conto será sempre o conto: o grande conto, o texto que pega o leitor de jeito, não importa se a epifania ou a peripécia que surpreende. Como estou aqui escrevendo sobre o conto que será sempre O Conto, segue o final de um dos grandes contos do escritor Hélio Pólvora.
"Para onde vou? Perdi a minha última certeza. Sei apenas que é preciso remar. Devo estar no meio do rio, o medo vem de novo e me sufoca o peito. Ignoro qual a margem certa, não sei mais como voltar nem aonde ir. Estou remando para a noite definitiva ou para o lívido alvorecer?"
"Do Outro Lado do Rio" in Contos da Noite Fechada (Editus, 2004).
sábado, 20 de junho de 2009
"NOSSO" FERNANDO PESSOA
Gerana DamulakisSerá que posso apontar o estudo introdutório como a causa da necessidade de ter um livro contendo os mesmos poemas que já estão na minha biblioteca? Parece que é plausível.
Não resisti a Fernando Pessoa – O Poeta Fingidor, da Editora Globo, incluindo o DVD dos 120 anos do nascimento do poeta (série da Globo News). Gostei muito das palavras de Claufe Rodrigues na apresentação intitulada “Fernando Pessoa, um poeta brasileiro?”. Ele mostra a nossa intimidade com Pessoa, como nós consideramos o poeta português, ao lado de Drummond, Vinicius, Bandeira, como nosso e diz: "(...) e o gosto mútuo pelo gerúndio não será a única explicação para esse caso de amor". Depois vem um texto de Carlos Felipe Moisés, “O poeta dos heterônimos”: outro prazer. É, acho que posso dizer que compro esses livros porque gosto tanto do ensaio crítico, do parecer da leitura, quanto dos poemas: gosto, enfim, da literatura sobre a literatura. Um outro olhar, agora para o lugar, na biblioteca, que guarda livros de ensaios críticos, vem confirmar a conclusão. Cada qual com suas idiossincrasias.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
BAIANO, ASSOCIAÇÃO, YACHT

Quando eu era menino, só existiam três clubes no mundo, Baiano, Associação e Yacht. Cada clube com sua turma, cada turma com seu jeito, as classes médias e altas da Bahia distribuíam-se nestas entidades como a forma mais sofisticada de lazer; a forma mais qualificada de divertimento, desde as tradicionais festas, carnaval, S. João, réveillon; aos esportes praticados com empenho e eficiência – o tênis, o basquete e o vôlei, na Associação e no Bahiano; a natação e o iatismo no Yacht.
Qualquer pessoa que se prezasse tinha que ser sócio dos três. Principalmente porque o ameno carnaval da Bahia se perfazia com os três. O carnaval começava com o corso da Associação no sábado, uma interminável carreata de carros sem capota e de jeeps, polvilhadas de belíssimas donzelas esparramadas por cima dos carros e dos paralamas devidamente lambuzados de cola e entupidos de confete, no ar uma revoada constante de serpentinas e o cheiro provocante dos lança-perfumes. Ah, o carnaval acabou com o fim do confete, pedacinho colorido de saudade, com o desaparecimento da serpentina; com a proibição do lança-perfume. Começava aí outra coisa.
Apesar de baixo, eu tinha mão certa no basquete e estava quase para ser sócio-atleta do Bahiano quando houve um endurecimento nos estatutos. Tinha sócio-atleta demais. Entrei para sócio mesmo aos 18 anos, frequentador mais das festas, bingos, e continuando no basquete com Patinho, (Roberto Lisboa), Marcelo Lisboa que tinha torcida própria – as meninas torciam por ele não pelo time, Deoclides Barreto de Araujo, Bob, Carlito Kruschewsky, Sheldon e seu irmão Leslie e mais as feras do 2° quadro: Fernando Lyra, Aron Kremer, Mimito.
O Bahiano de Tênis era um mundo: o aristocrático. No S. João,as donzelas ocultas por milhares de anáguas rodopiavam no salão circular nos braços ardentes de seus pretendentes, que ali mesmo começavam um périplo de paquera, namoro, noivado, casamento. Para o bem de todos e felicidade geral da nação. Mais tarde entrei para a Associação, atraído pela imensa piscina em cuja inauguração meu amigo Chiquinho Amaral mergulhou do terceiro trampolim e João Gilberto fez o show pelas mãos de seu amigo Coqueijo.
De todos, o mais encantador, o Yacht. Verdadeiro cartão postal engastado na montanha. Típico paraíso do bem viver baiano que pode desfrutar, desde a sinuca, ao iatismo, ao simples velejar, largar o pano e sair em busca do espelho azul da Baía de Todos os Santos ...O Yacht constitui-se numa zona de paz e de relaxamento encravada no coração da vida urbana, por sua localização privilegiada e perfeita integração no ambiente. Assentado com elegância e perfeição arquitetônica sobre o mar, o Yacht é na verdade um imenso veleiro que ancorou na baía e que lá ficou para júbilo de seus marinheiros. Detalhe a parte: o seu bondinho que nos traz do alto da montanha, integrando-se ao passado...
Que estamos fazendo de nossa tradição, minha gente? Acabaram com o Bahiano. A Associaçao resiste. Por Senhor do Bonfim, não toquem no Yacht, que é um patrimônio do mundo.