domingo, 17 de maio de 2009

CONVITE


Livro conta a história do “Camarada Engenheiro”
- Comunista histórico, Luiz Contreiras foi preso e torturado devido às suas idéias.
A trajetória de vida e a militância política do engenheiro Luiz Fernando Contreiras de Almeida, no Partido Comunista do Brasil, é o tema do livro Contreiras, Camarada Engenheiro – uma história de luta e coerência, que o jornalista e escritor Elieser Cesar, lança, no próximo dia 22, às 18h, no Centro Cultural da Câmara de Vereadores, na Praça Municipal em Salvador. Depois de uma novela (O azar do goleiro, já na quarta edição), dois livros de contos (O escolhido das sombras e outras histórias), uma coletânea de poesia (Os cadernos de Fernando Infante) e um livro de ensaio ( O romance dos excluídos – Terra e política em Euclides Neto, fruto de sua tese de mestrado), Elieser Cesar, detentor de vários prêmios de reportagem, traz, agora, um livro-reportagem. “Trata-se, acima de tudo, de uma grande reportagem no estilo perfil, escrita com as técnicas do chamado jornalismo literário”, ressalta Elieser Cesar.
Elieser Cesar conta que o livro, publicado pela Editora Caros Amigos, nasceu de uma encomenda da família de Luiz Contreiras, para homenagear seus 85 anos de idade. “Como jornalista, percebi que a trajetória de Contreiras tinha como pano de fundo as lutas populares da Bahia, sobretudo o enfrentamento ao golpe militar de 1964, que teve no engenheiro e em sua mulher, a ex-deputada estadual Amabília Almeida, opositores de primeira hora. Esse ingrediente foi um motivo a mais para escrever a história de um homem que acreditou no comunismo, mas que viveu tempo suficiente para reciclar suas idéias, sem jamais abandonar os ideais de justiça social”, dizo autor.
“Luiz Contreiras sempre foi um homem movido a paixões. Se como engenheiro ajudou a abrir estradas, construir pontes e prédios, como comunista convicto foi, além de tudo, um construtor de utopias, essa matéria impalpável que tem a mesma volatilidade dos sonhos. Viu ruir o projeto do socialismo democrático, solapado pelo socialismo real, com a centralização burocrática do poder estatal e o Estado policialesco, sobretudo na antiga União Soviética e nos Estados satélites do Leste Europeu. Testemunhou a queda do Muro de Berlim e a extinção da URSS. Porém, jamais abdicou da crença no socialismo democrático e nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade,
tributários da Revolução Francesa”, diz o escritor, na introdução do livro.
“Contreiras, Camarada engenheiro” traz também depoimentos de companheiros de luta de Luiz Contreiras, como o ex-deputado federal Fernando Sant’Anna, decano dos comunistas baianos, o ex-prefeito de Salvador, Virgildásio de Sena, o empresário João Falcão, a esposa, Amabília Almeida, e amigos de outra geração, como o deputado federal Emiliano José, o cientista político Paulo Fábio Dantas e os advogados Dida Santiago e George Gurgel, dentre outras personalidades.


Trecho:
“Quem são mesmo esses homens barbudos, cabeludos e sujos, com cara de maus, que chegam como donos da cidade, do destino, da vida e da morte das pessoas simples? Forasteiros de passagem? Bandidos perigosos? Vão logo embora, sem deixar rastro ou saudades, como os ciganos? Que querem esses estranhos, na cidadezinha pacata? Dinheiro? Judiar dos pobres e dos bichos? Levar toda a comida e o rebanho? Tocar fogo nas casas? Pior se resolverem raptar as mulheres, deixando os homens sem esposas, os pais sem filhas e os filhos sem mãe... Não podem ser de paz, se chegam fortemente armados e prontos para a guerra.
Muitos pensamentos ruins confundiram a cabeça dos moradores do lugar (pouco mais de 800), quando, depois de palmilhar centenas de municípios brasileiros, enfrentando as forças legalistas, os jagunços dos coronéis e as volantes sertanejas, os homens da Coluna Prestes, sedentos e esfomeados, entraram na pequena Rio de Contas, na Chapada Diamantina”.
Elieser Cesar

quinta-feira, 14 de maio de 2009

UM POEMA DE MYRIAM FRAGA

Gerana Damulakis

Estive na Academia de Letras da Bahia e em conversa do tipo uma coisa puxa outra com a poeta Myriam Fraga, acabei falando de meu pai (como sempre!) e lembramos quando nós duas fomos para o Rio de Janeiro na ocasião de alguma Bienal do Livro. Meu pai e meu irmão me levaram ao aeroporto e nós quatro conversamos até o momento em que Myriam e eu embarcamos. Mas ela lembrou também que sempre encontrava com meu pai e minha mãe na Perini, nos sábados pela manhã. Tempos idos, findos, enfim. Myriam é como eu, tem muito de Electra dentro da alma. Os psicólogos diriam que somos “edipianas”, mas só entendo de literatura e é Electra quem personifica o amor da filha pelo pai.
Basta uma amostra tal como a fala de Electra diante das suas “nobres amigas” (o coro), que vieram minorar suas dores, na tragédia de Sófocles, intitulada Electra: “Não tem um mínimo de sentimento/ quem consegue esquecer por um instante/ a morte trágica de um pai amado”.
A Electra trata do retorno de Orestes (irmão de Electra) a Micenas para vingar a morte do pai. O tema da Electra foi tratado também por Ésquilo, nas Coéforas, e por Eurípedes. Para adiante, longe da idade heróica da Grécia, Eugene O’Neil e também Ezra Pound retomaram o assunto. Da Elektra do dramaturgo Von Hoffmannsthal, Richard Strauss extraiu uma ópera.
Voltando para Myriam e para o que ela me disse. Disse-me que a dor da perda não passa, fica um vazio roendo aqui dentro. Revelou que seu poema “Março” foi construído por conta dessa dor. Logo que cheguei, o que fiz? Quem me conhece, nem precisa pensar: peguei o livro de Myriam e li “Março”, agora sabedora do que detonou o poema. Só que olhando o índice do livro Poesia Reunida descobri que na parte referente aos inéditos há um poema intitulado “Meu pai”. Li. Chorei, reli. No dia seguinte, fui achar de ler para Aramis Ribeiro Costa em voz alta (claro!). Quase não cheguei ao fim, embarguei a voz, me arrepiei, lágrimas saltaram. Os olhos de Aramis marejaram. Contei tudo isto para a própria Myriam, porque fui outra vez à Academia (estou voltando..., por sinal, foi ótimo, li um poema de Antonio Brasileiro que adoro, “Das coisas memoráveis”, o qual até já foi postado aqui meses atrás).
Mas, antes de contar mais, quero colocar as estrofes finais de “Meu pai”, de Myriam Fraga:

Penso em meu pai e, num sonho, novamente,
Como num filme antigo, me vejo a seu lado,
Como se não houvesse entre nós esse espaço,
Esse rio que separa o tempo em duas partes,
Como se não houvesse esse hiato, como se...

Eternidade, talvez, seja a palavra exata.

In Poesia reunida (Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, 2008).

Como Myriam é tão emotiva quanto eu, logo depois de ouvir minha historinha, ela também se emocionou e, como poeta, expressou o quanto é importante quando alguém sente tão profundamente o que ela escreve. Eu disse: “Myriam, obrigada pela emoção que seu poema me proporcionou”. Ela virou-se para Edivaldo M. Boaventura e falou algo como: “Quando acontece uma coisa assim, a gente sente o quanto a arte vale a pena”.
Myriam: se um poema é capaz disso, é porque todavia há solução para este mundo que anda parecendo tão insensível. Vale a pena!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

AS APARÊNCIAS ENGANAM

Gerana Damulakis

As aparências enganam, dizem e banalizam por muito dizerem, mas não acreditam realmente. É verdade, porém. Assim foi que gostei imensamente do artigo de Roberto Pompeu de Toledo na revista Veja, de 06 de maio de 2009, com o título “Três modelos sexuais”, quando ele aborda as figuras de Fernando Lugo, ex-bispo, atualmente presidente do Paraguai e pai de três filhos (até hoje, amanhã pode ser que mais filhos tenham aparecido), Jacob Zuma, novo presidente da África do Sul, ímpar em tantos aspectos e, finalmente, Susan Boyle, “o charme do sexo zero”. Para Toledo, todos “ofereceram ao público evidências de que, por trás das aparências de uma pessoa, pode pulsar uma outra, surpreendente, espetacular”.
Fiquei pensando em Marilyn Monroe e no modo como fixaram rótulos para ela. Os filmes nos quais atuou, sempre como loira burra, fútil, interesseira, com um cérebro igual a uma casca de noz, contribuíram para uma imagem tão errada que, ao fim e ao cabo, ela mesma não suportou ser vista unicamente daquele jeito. Entretanto, ela pensava, e como pensava. Há colocações interessantes deixadas pela loira platinada e gostosona. Ela era uma leitora (adorava Walt Whitman e as Folhas de Relva), e ela era, segundo a própria, assim como uma construção, um edifício já erguido, onde faltavam as fundações.
O assunto me toca porque senti muitas vezes juízos errados sobre certas coisas. Imagine uma criatura que andava pela faculdade (Federal!) em cima de saltos altíssimos. A maioria me achava, de pronto, uma esnobe. Por que jamais alguém pensou: “Ela deve ter complexo por medir apenas um metro e sessenta e dois”? Depois, conhecendo de perto, invariavelmente me diziam como estavam enganados, que de metida eu nada tinha. Sigo em cima dos saltos e, juro, é só porque tenho 1,62 m. Uma bobagem minha e quem quiser que pense o que quiser!
Erros de avaliação são comuns e temos que ir aprendendo a conviver com eles. Melhor seria, no entanto, aprendermos o lugar-comum da expressão nos moldes colocados por Toledo, ou seja, vamos procurar evidências, “evidências de que, por trás das aparências de uma pessoa, pode pulsar uma outra, surpreendente, espetacular”. Enfim, vamos olhar e ver. Há tanta surpresa!

"Marilyn Monroe reading Leaves of Grass, de Walt Whitman": retirado do blog O silêncio dos livros.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A LEITORA


Gerana Damulakis


Os livros tomam conta de mim. Disto não são capazes o cinema, a música, certos assuntos... Ao acabar um livro, há sempre uma sensação, independente de ter levantando ou não a minha admiração pelo estilo, pela linguagem, pela originalidade do tema, pela peripécia bem urdida. É da sensação que persiste que quero escrever. Ela independente do final do texto – geralmente, o final importa tão pouco, é o que menos deixa resquícios na memória. Vou formando as minhas imagens, diretora que sou da minha leitura – a leitora, a que completa o texto. Quantas vezes pouso o livro e vou beber água (sou viciada em água, H2O mesmo) e sinto que a atmosfera do livro me acompanha. Isto é chamado de teoria do efeito. Wolfgang Iser discorre em O ato da leitura (Editora 34, 1996) a teoria do efeito estético. Tal efeito requer do leitor atividades imaginativas e perceptivas, diz ele (são as imagens criadas). O que é tratado é o efeito e não a recepção. Veja que interessante: o texto, o leitor e sua interação – desta relação dialética o efeito estético deve ser analisado. Iser: “Uma teoria do efeito está ancorada no texto – uma teoria da recepção está ancorada nos juízos históricos dos leitores”.
Como eu sou prolixa! Queria dizer da sensação arrebatadora de um livro que acabei de ler faz pouco tempo: Aqui nos encontramos, de John Berger. Narrativa que engana, começando de uma forma simples para logo jogar o leitor numa vertiginosa andança sem tempo. Basta esta frase da mãe do narrador: “Os mortos não ficam onde estão enterrados”. Depois de tudo, pensei que, escrevendo aqui, ficaria mais claro o que estou sentindo. Não adiantou e, caso eu não pare agora, temo que farei uma resenha do livro e não uma busca para definir a sensação.
Sairei do livro em questão. A literatura é uma grande escapatória, sempre digo. Quem tem, no ato da leitura, este imenso prazer, não sente solidão, consegue viajar sem sair do lugar (frase que já é um lugar-comum), mas, principalmente, sente a vida em dobro. Porque ele, o livro, nos toma, cresce e oferece a oportunidade de sentimentos diversos, tão distintos da experiência que se está tendo no cotidiano.
E para encerrar porque hoje não estou boa de texto, por conta disso, peço ajuda. Que diga bem, então, o grande Guimarães Rosa sobre o assunto: “Às vezes, quase sempre, um livro é maior que a gente”, in Grande sertão: veredas.


Tela de Edward Hopper [ Compartment C, Car 193], 1938. Retirei do maravilhoso blog: www.osilenciodoslivros.blogspot.com/

sexta-feira, 8 de maio de 2009

PEQUENA TEORIA DO CONTO


Ildásio Tavares
Para minha filha contista

Certa feita, perguntaram a Mário de Andrade, ó que é um conto? Mário respondeu: “Conto é tudo aquilo que chamamos de conto.”
Na certa, um dos corifeus do movimento porralouca da Sampa Desvairada queria pontificar sobre o primado da liberdade de criação, contra tudo que pudesse significar regra, norma, gramática, academicismo. Muito antes do surgimento da arte conceitual. O poetão modernoso de Andrade estava criando o conto conceitual. Mas não é assim. O buraco é bem mais embaixo.
O conto, concebido de maneira informal, é um gênero antiquíssimo.
Nas sociedades mais primitivas de coletores e caçadores, os homens reuniam-se à roda da fogueira para desfilar narrativas necessariamente curtas, porque muitos queriam narrar e todos tinham que ter vez. Na África, os griots saíam debulhando peripécias pelas aldeias. Na Grécia antiga, os aedos, os rapsodos, cantavam e contavam, como mais tarde os trovadores medievais. Eram narrativas curtas, conceito básico do conto, que, nesta forma concisa, objetiva e intensa começa a ser caracterizado com mais frequência a partir das Mil e uma Noites, rosário de histórias interminável em que Scherazade salva-se da degola a que eram condenadas as mulheres anteriores do sultão mantendo aceso o interesse do marido com suas primorosas narrativas.
Mas, afinal de contas, que diabo é um conto? Antes de tudo, um gênero que, se no passado tomou a forma de poema narrativo, passa a partir do Decamerão de Bocaccio e dos Canterbury Tales de Chaucer a fixar-se como prosa e se consolida em toda sua inteireza a partir de Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant, criadores do conto ocidental clássico. Estes dois autores, principalmente, é que definem a fronteira entre um conto e uma história bem contada. Esta última limita-se a narrar um fato, um acontecimento sem nenhum compromisso além do espaço denotativo. Conta, reproduz, discorre e pronto. Já o conto cria um micro-cosmo de plurisignificações em que o menos importante é o plot, o enredo, a peripécia. O que interessa são as implicações humanas e a composição daquilo que chamarei a alma do texto. Importa não o quê contar, mas como contar , porque e para que.
Um conto é algo mais do que sua simples linguagem. De início se define estruturalmente como uma narrativa com princípio, meio e fim, conduzindo a uma surpresa no final . O hábil contista iludiria o leitor para pegá-lo com as calças na mão no fim. Nesse respeito, o escritor americano O. Henry é inimitável. Sua habilidade de tapear o leitor para surpreendê-lo no final é magnífica. A kick in the end . Mas este truque começa a se vulgarizar.
O conto moderno despreza princípio, meio e fim; despreza a pirueta da surpresa; mergulha na paisagem interior do personagem, cujo perfil psicológico supera a peripécia. Um conto passa a ser um flash, um instante de vida, um pulsar do personagem e o tempo interior prevalece sobre o cronológico. Não há mais a necessidade de fotografar exteriores mas de radiografar as personalidades.
A peripécia vira um personagem. O conto é um retrato da alma.

Foto: capa da reunião de contos O amor é um pássaro selvagem (Imago, 2000), de Ildásio Tavares.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O ENSAIO DA VIÚVA

Flamarion Silva

O marido morreu, graças a Deus. Fazia anos que ela estava só, tinha-o ao seu lado, é verdade, mas, acredite, jura por Deus, a separação de corpos vinha já há mais de dez anos. Muito tempo de seca, de calores insuportáveis, de ansiedade; vontade de sair correndo, de passear por algum lugar lindo que nunca conheceu; ir à praia... afogar-se... Por muito tempo suportou este estado e o marido, que, agora, louvado seja Deus, está junto do Pai, ou, então, jogado lá no último círculo. O cara era mau. Imagine você que, por diversas vezes, espalhou aos quatro ventos que havia... ah, feito coisas imorais com ela, coisas que se faz mas não se diz, um cretino!
Conheceu Januário no enterro. Não foi nada premeditado, ele chegou e disse que sentia muito. O Osvaldo era boa pessoa, e que bom amigo! disse com os olhos colados na boca de Dora. Todos da mesma laia, amigos de copo, ela pensou. Mas foi o hálito dele. Foi o hálito cheirando a cravo, bafejado na cara dela, o que a excitou. Nossa, mas deu um calor! Começou a passar mal. Deve ser por causa do Osvaldo, coitadinha, lamentou a irmã do peste morto. Mal sabia a cunhada que estava ali, em sua frente, o verdadeiro homem da vida de Dora.
Mas não pense que foi tudo assim tão rápido. Não foi não. Primeiro ele foi visitá-la, uma semana depois. Nesse meio tempo ela descobriu telefone; endereço; nome de mãe, ainda viva; o pai, morto faz tempo; se o signo dele, escorpião, combinava com o dela, libra; se era casado... repare como deu pulos de alegria, separado, se-pa-ra-do. Ai, graças a Deus, o vento sopra a meu favor, disse ela aspirando fundo. E, quando menos esperava, adivinhe quem bate à porta?
— Aqui mora Doralice dos S. de Jesus?
— Sim, sou eu.
O rapazinho que trazia as flores marcou um xis no livro e mandou assinar. No meio das flores um cartão.
“Dora, a vida é como estas flores: alegre e colorida, mas precisamos aproveitá-la enquanto houver viço, cor e perfume, pois um dia a vida, assim como as flores, murchará. Você tem viço, você tem cor, você tem perfume. Carpe diem! PS: meu telefone é 3324-..., me ligue. Do amigo de todas as horas, Januário.”
No mesmo dia falou com Januário pelo telefone. Mas, confessa, tremeu. Parecia uma mocinha na expectativa do primeiro beijo. Bem, é compreensível, dez anos não são dez dias, desaprende-se. Que nada! pensou, encorajando-se, deve ser que nem andar de bicicleta: a gente nunca esquece.
— Alô!
— Alô! respondeu uma voz de mulher.
— É da casa do Januário?
— Sim.
— Ele está?
— Quem quer falar?
— Uma amiga.
— Não, senhora, ele não está. Quer deixar recado?
— Não, muito obrigada, e desligou rápido. Diabo! Se não está em casa para que pergunta quem é?
Manhã e tarde pensando no Januário. Pensando em ligar de novo; em quem seria a mulher no telefone; em esquecê-lo; em... liga de uma vez.
— Alô! do outro lado voz de homem.
— Alô! Por favor, começou com uma voz educada e sexy que sabia fazer, o Januário se encontra?
— Ele.
— Oi, Januário, aqui é Dora, Doralice.
— Dora? Doralice? Ah! Oi, Dora. Poxa, mas que alegria falar com você. E aí, gostou das...?
— Adorei! São lindas!
— Não tão lindas quanto você, mas...
— Ah, deixa disso, está sendo delicado... e...
— ... ! ? : ... ... .
— ? ; ; ; ... : .
Essas coisas que todo casal de namorados conversa. Nesse mesmo dia, de noite, ele foi a sua casa. Ela, preocupada com a vizinhança. O que não dirá esse povo... O marido, morto fresquinho e a viúva já pegando fogo na cama com outro. Poxa, mas que droga! Não queria contar assim, dizendo logo que foram pra cama, mas você, leitor/leitora, querido/querida, há de compreender a aflição de uma mulher que... pelo amor de Deus, mais de dez anos na seca. Não resistiu ao cheiro da loção de barba, o cheiro de homem, o aroma de cravo na boca. Como dizem as mocinhas de hoje: gamou. Será que é assim que ainda falam? Bem, o fato é que não agüentou e deu logo. Mas não foi assim tão fácil, foi não. Mulher desacostumada em ver homem nu; pior, em ficar nua diante de homem, preocupada com o corpo que já não era o de nenhuma mocinha... afligiu-se.
— Ah, deixa disso! Vamos, por que a vergonha? Seu corpo é lindo. Estou doido para ver, ele disse com cara de safado. Ela sonhava com um homem que tivesse essa cara! Que aperta os olhos assim... que tem bigodinho... a cara tremendamente cínica e... Clarke Gable! Clarke Gable! Aquele ator que ela acha lindo de E o Vento Levou. Januário por um momento foi o Clarke Gable da vida dela e ela a Scarlett O’Hara da dele.
— Hum, doido mesmo, isso sim é o que você é, disse bem perto da boca dele, a voz sumida, fraquinha, rouquinha, os braços no pescoço dele; ele já com as duas mãos na bunda dela. Quanta carne! ele disse. Isto é o que se pode chamar de abundância. Veja como é safado!
— A luz, apagar, ela disse, compulsivamente nervosa.
— Olhe só para você, ele reparou, está roendo as unhas.
— Vou apagar a luz.
Apagou.
Acenda a luz, disse ela depois de tudo. Com a luz acesa foi descobrindo, aos poucos, seu corpo de sob o lençol. Jura, jura por Deus, essa foi sua maior ousadia: mostrar o corpo nu para um homem, quase um estranho, na cabeça um amante, esta foi a maior ousadia de sua vida. E já não estava mais temerosa, ansiosa ou nervosa. Não, estava séria, compenetrada. Alguma coisa mudou nela depois que mostrou o corpo nu para Januário. E isso ficou bem claro quando ela disse:
— Me chame de coisa ruim, me xingue, me esculhambe.
— Quê?! Ora, Dora, mas que doideira é essa?
— Quero que me chame de uma coisa.
— De que, minha florzinha?
— Não, florzinha não. Quero que me chame de puta.
— Ah, Dora, deixa disso, vai, ele deu pra trás.
— Faz coisa errada comigo, Januário, faz, pediu com lágrimas nos olhos.
— Não vou fazer isso, Dora, respeito você e...
— Então vai embora! Vai embora! Sai daqui! ela mandou, gritando.
Com cara de quem não entendeu nada, ele saiu. Durante muito tempo Dora ficou na cama se cobrindo e se descobrindo, lentamente.
O retrato de Osvaldo ainda está na parede. Dora perde horas olhando para ele. Dá voltas silenciosas pela sala, quer que ele veja como ela está, se bonita no vestido preto.
— Quer que me dispa? pergunta ao marido morto no retrato.

— Quer que me dispa?

— Quer que me dispa?



Flamarion Silva é autor dos contos de O rato do capitão, da Coleção Selo Letras da Bahia, 2006. Foto de Flamarion no dia do lançamento de seu livro. Peguei a foto no blog Da Arte dos Demônios.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A FALTA DE ASSUNTO


Gerana Damulakis


Muitas crônicas das boas começam comentando a total falta de assunto. Grande parte dos cronistas fizeram assim, desde Rubem Braga, ou Adroaldo Ribeiro Costa, até os cronistas mais atuais, como se, por este desabafo, a falta ficasse espantada ao ser comentada e, puf!, deixasse espaço para o texto fluir.

Quando eu não tenho assunto - e não sendo Braga, não sendo Adroaldo - é porque estou com medo. Fiz do meu passado uma eternidade e do meu futuro um medo enorme, disse-me um amigo. Creio que depois de uma perda, todo mundo fica assim. Não, não fica. E também não me interessa fazer uma comparação com outras pessoas. Não muda a estupidez do medo. Queria ser menos esnobe em se tratando de literatura (mas é a minha única vaidade, permita-me alguma, por Deus: eu, que diante de e vivendo entre escritores, me deparo com cada ego incrivelmente robusto) e, repito, às vezes (raramente mesmo, culpa do medo) penso que gostaria de ser mais maleável e gostaria de comprar um livro de Flávio Gikovate: quem sabe ele escreveu ali, naquele sobre a felicidade, alguma receita para espantar o demônio do medo. Não consigo perder tempo assim com tais leituras. Ele é tão inteligente, será que não sabe que receitas de felicidade não existem? Será que estou enganada e ele não passa receitas, tão somente tenta mostrar como se pode chegar devagar, de mansinho, e aplicar o golpe final na criatura do medo?

Quanta bobagem. Avisei que sou leitora. Vou ler uma escritora como Willa Cather, recomendada por Truman Capote no seu Música para camaleões (foi um livro encantador, porque além do estilo de Capote, que me arrebata, ele conta histórias, tais como a que leva à Wila Cather). Ah, vou contar um pouco: Capote estava perto de completar 19 anos, quando saiu de uma biblioteca, onde também estava uma mulher. Ambos encontraram-se fora, junto ao meio-fio. Começaram a conversar e ele disse que queria ser escritor e estava trabalhando num romance. Ela quis saber quais eram os escritores americanos que ele gostava. Como todo jovem, ele foi descartando como se dono da verdade fosse: "Não Hemingway (...) Nem Thomas Wolfe (...) Faulkner, às vezes (...) Fitzgerald, às vezes: O diamante do tamanho do Ritz, Suave é a noite. E gosto muito de Wila Cather. Já leu My mortal enemy?
Sem nenhuma expressão especial, ela disse: Na verdade, fui eu que escrevi".

Daí continua deliciosamente. Ponto altíssimo: a visão do escritor que conclui sobre a existência de uma diferença, "uma diferença entre escrever muito bem e a verdadeira arte; sutil, mas devastadora".

Foto: capa de Música para camaleões, Companhia das Letras, 2006.