terça-feira, 5 de maio de 2009
SONETO DE MAIO
Aramis Ribeiro Costa
Trazes as chuvas - maio - impiedosas
Como as lágrimas duras que trouxeste
Em ontem que a lembrança o crepe veste
Chuvas de noites ermas, tormentosas.
Tuas noites - espinhos sem as rosas
Noites partidas - dor maior que deste
Pranto que foi, ficou, e ainda reste
Das tuas noites mortas e chuvosas.
Mortas, mortais, imorredouras noites
As tuas - que magoam como açoites
Insidiosas noites como as urzes!
Enquanto atiras chuvas fortes, ventos
Na convulsão cruel dos elementos
Avivas - maio - em mim as tuas cruzes!
De Espelho Partido - Sonetos Escolhidos.
sábado, 2 de maio de 2009
sexta-feira, 1 de maio de 2009
CHUVA
Hélio PólvoraEsta chuva estava pra cair há muito tempo, me disse Edmo, que recebia no rosto as ferroadas dos primeiros pingos. Olhei: os campos cinzentos, crestados por um sol de meses, abriam agora os regos, as valas, os poros, ofereciam as intumescências e depressões ao contato germinador. Você viu as nuvens ?, me perguntou Edmo, olhos fixos na estrada. E ele mesmo lembrou que nuvens negras, pesadas e gordas, se amontoavam há três quinzenas; se despencassem agora, teríamos a enchente após a seca.
AO VENCEDOR, AS BATATAS
Gerana DamulakisNa sua coluna de 22 de abril da revista Veja, Diogo Mainardi lembrava Quincas Borba e seu cachorro Quincas Borba. Tudo porque Barack Obama deu o nome Bo para seu cachorro (iniciais de seu nome, claro está!). Porém, o mais importante que encontrei no texto de DM foi a colocação que ele fez a respeito da "implacabilidade do pensamento de Machado de Assis", que “está claramente refletida na trama do romance Quincas Borba, em que os bandoleiros conseguem pilhar todas as batatas e os tontos morrem na miséria”.
Devo admitir que é inquestionável tal juízo de valor no que toca a Machado. Diogo diz que o autor trata o personagem Quincas Borba como um demente, embora a filosofia criada por Borba, o Humanitismo, pareça “condensar e caricaturar as idéias do próprio Machado de Assis, com aquele seu realismo reacionário, com aquela sua crueza fatalista, com aquele seu conformismo desiludido, com aquele seu azedume zombeteiro”. Não chegarei a reproduzir a coluna, mas confesso que preciso me conter para não fazer isto porque sinto falta do Diogo Mainardi dos tempos das resenhas literárias, seja por suas sacadas, seja pela irreverência que, também ali, ele colocava. Voltando ao romance do Bruxo do Cosme Velho: o trecho que atesta o “caráter benéfico da guerra” terá que ser inevitavelmente reproduzido. Nunca é muito reler o mestre da literatura brasileira; afinal, Machado é Machado.
O famoso trecho, então. Quincas: “Supões tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas... Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.
O grande ensaísta Roberto Schwarz, intitulou um dos seus livros, Ao vencedor as batatas. Na verdade, a metade, como ele diz, de um estudo sobre Machado de Assis. Título perfeito (a leitura, imperdível). Trago tudo isto aqui para concluir o quanto da literatura está na linguagem do cotidiano, como: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”, de Augusto dos Anjos, verso usado para expressar o espanto com a atitude de alguém que já nos acarinhou um dia; “E agora, José?”, de Carlos Drummond de Andrade, diante da falta de opção, após a estupefação; “ Vou-me embora p’ra Pasárgada”, de Manuel Bandeira, quando queremos deixar tudo e partir para bem longe; “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, de Fernando Pessoa e outros tantos exemplos.
Finalizo com versos de Drummond que invariavelmente digo: “Como viver o mundo/ Em termos de esperança?/ E que palavra é essa/ Que a vida não alcança?”. Competindo sempre nos meus pensamentos, finalizo também com os versos de Bandeira: “A vida que poderia ter sido e que não foi”, ou “ Este anseio infinito e vão/ De possuir o que me possui”. Não sei de qual dos dois poetas guardo mais versos, fazendo ecos dentro de mim. Quem ganha? “Ao vencedor, as batatas”.
www.usp.br
quarta-feira, 29 de abril de 2009
DE COMO ME APAIXONO POR VIAS ESTRANHAS

Eu insistia, quase como uma mania, em dizer que não tenho memória porque meu pai me ensinou a não decorar. Explico: meu pai me ensinava matemática e física e me ensinou de modo a chegar até as fórmulas por dedução lógica, não por decoreba. Assim, Trabalho é igual a Força vezes o Deslocamento (distância). Imagine o trabalho para arrastar uma mala: você coloca força para deslocar a mala (tirá-la da inércia, certo?) e multiplica pela distância que ela será deslocada, óbvio. Foi desta forma que me apaixonei (reparem, hoje estou muito apaixonada!) pela física, pela matemática, pela química. Ao longo de todos os anos, havia a literatura (sempre houve), que mexia com “o lado esquerdo do meu peito”. Lia os clássicos, devorava os contemporâneos, a biblioteca da minha casa era enorme, tinha o tio jornalista e escritor, o gosto próprio pela coisa toda, eu escrevia muito (quantos poemas!)...; no entanto, na hora do vestibular, eu não poderia decepcionar meu amor maior, meu deus na terra e, pronto: área 1 na cabeça, a criatura que era o máximo nas exatas no Colégio Marista, simplesmente entrou em Química, na Universidade Federal da Bahia. E continuou sem decorar. Irmão Aquiles, na época era o diretor, me chamou e vaticinou que eu iria errar de profissão porque eu escrevia no jornal do Marista, era elogiada nas redações, coisas assim. Minha mãe conta que Viana Moog leu um poema meu (uma criança) e disse que eu seria uma grande poeta. Este, sim, errou feio!
Entregue, enfim, ao mundo da literatura, não sem antes ainda fazer uma pós em Química, comecei a admirar quem sabe decorar poesia ou prosa ou ambas. E, hoje, com tanta estrada no mundo da literatura e minha única vaidade, que é o excesso de leitura e conhecimento disso a ponto de realmente saber identificar o texto verdadeiramente literário - hoje, repito, filha sem pai vivo, quase sinto que estou traindo meu deus, meu amor maior, porque decoro facilmente os versos, as estrofes, o começo de alguns romances. Todavia sei resolver qualquer problema de matemática sem precisar de papel e lápis, viu pai?
Foto -para os amantes da química:), de coy:], retirada do Flickr.
terça-feira, 28 de abril de 2009
A TRILOGIA BRASIL DE ANTÔNIO TORRES

No total são 30 anos, de Essa terra até Pelo fundo da agulha, de Totonhim menino e rapaz, que deixa o Junco baiano — hoje Sátiro Dias — rumo a São Paulo, até o bancário aposentado Antão Filho, ou seja, o idoso Totonhim. Tantas foram as tragédias: a ida do irmão Nelo em busca do sul maravilha e sua volta de malas vazias e seu suicídio como redenção pelo pecado de não ter vencido; a loucura da mãe com a perda do filho; a solidão do pai; a viagem de Totonhim, também para fazer uma vida fora do sertão; o retorno de Totonhim, apenas como uma visita, mas que faz o pai temer mais um suicídio; a constatação da velhice da mãe que, apesar da vida sofrida e de uma insanidade temporária, ainda é capaz de enfiar a linha pelo buraco de uma agulha. Mas Totonhim não é Nelo, não há sina registrada e, então, vem o retorno que se dá como quem passa a vida a limpo: em São Paulo, deitado, o aposentado vai relembrando. Separado da mulher e dos filhos, conta com uma vida inteira que, enfim, pode receber um ponto final.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
NOTÍCIAS DA BLOGOSFERA

No blog Blag, Nilson Pedro escreveu um excelente texto: "O curioso caso de Susan Boyle". Imperdível!
Diogo Borges participou de uma roda de poesia bem interessante no Rio e enviou e-mail: "obviamente, falei alguns sonetos de Sosígenes Costa e - acredite - o poema "O Dourado Papiro" na íntegra! Todos ficaram encantados e eu admirado em descobrir que absolutamente ninguém conhecia o poeta". Ele, Diogo, está tratando de mudar isso, divulgando o poeta grego da Bahia.
Para ter uma sensação boa de leveza: o 1º vídeo que o poeta Manuel Anastácio, do blog Da Condição Humana, coloca no Youtube: "Flocos de algodão dos choupos de Guimarães", para mostrar "fragmento de primavera" em Portugal. Basta clicar.
http://www.youtube.com/watch?v=4g0DMz3g-QY
Foto de Susan Boyle, retirada do Flickr, de Bert Kommerij.
