segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON


Gerana Damulakis


O filme O curioso caso de Benjamin Button, baseado no conto de F. Scott Fitzgerald, tão falado devido ao Oscar, me levou a retirar o trecho abaixo, já do final do conto, para destacar aqui a pungência da narrativa genial que tanto me fascina.


Quando sentia fome, chorava - nada mais. Apenas respirava através dos dias e das noites e, sobre ele, havia suaves murmúrios e ruídos que mal ouvia, e odores levemente diferentes, e luz e treva.

F. Scott Fitzgerald, "O curioso caso de Benjamin Button" in Seis contos da era do jazz e outras histórias, tradução de Brenno Silveira para a José Olympio Editora.


Mais não digo, pois qualquer palavra tira o tanto de surpreendente que é este conto. Não vale adiantar a história, vale estimular a leitura. Visite o site: http://www.benjaminbutton.com.br

MEU MINICONTO PREFERIDO

Gerana Damulakis

Eu aprendi a gostar dos minicontos depois de torcer o nariz para eles durante algum tempo. Mas, eclética em se tratando de literatura, e não afeita aos radicalismos e ao espírito de manada que embotam as pessoas, fui observar melhor o que se pretende com o miniconto. Leitora, encontro nos minicontos uma necessidade maior ainda de usar a minha imaginação para preencher as lacunas de um texto tão conciso. E aí está o meu miniconto preferido. É incrível toda a história que posso criar atrás de tão poucas palavras.

Vende-se: sapatos de bebê, sem uso.

Ernest Hemingway

sábado, 21 de fevereiro de 2009

FESTAS PAPA-LARES

Luiz Britto

As festas populares, na Bahia, pelo seu gigantismo e absurdo, acabaram passando de festas populares para festas papa-lares. Importunam moradores, desrespeitam direitos constituídos, invadem propriedades, criam transtornos variados, tornam privadas as áreas públicas, tornam-se exemplos insuportáveis de poluição sonora e ambiental — e isso para gáudio de alguns, lucros astronômicos de uns poucos, e a ganância da Prefeitura, sempre falida e sempre pronta pra novos saques. Ao invés de se portar como o fiel da balança, um elemento confiável e regulador, justo, soberano, guardião da lei e da ordem, dos direitos dos seus súditos, mostra-se na sua face mais adversa e cruel. A de criadora e fomentadora de males, a permitir um verdadeiro exército de invasão, a ocupação maciça e atrabiliária de boa parte da cidade, com prejuízos e aborrecimentos para os mais fracos e indefesos.
De pequenas e limitadas festas de pescadores, ingênuas devoções populares, manifestações razoáveis de regozijo carnavalesco, chegamos aos mastodontes dos tempos atuais. Ainda há pouco tempo nada menos que 70 trios elétricos faziam fila para participar da Festa do Bonfim — ou seja, infernizar uma imensa área populacional em volta da igreja, doa a quem doer. E isso foi se repetindo na Pituba, Rio Vermelho, Itapoan. Todas as antigas e ingênuas devoções populares, católicas ou do candomblé, ganharam um vulto grotesco de festa profana, exploradas pela mídia, pelas agências de turismo, hotéis, distribuidoras de cerveja, donos de trios elétricos, bandas, chancelas oficiais, demagogia dos políticos & quejandos.
Nenhuma festa popular, porém, ganhou o gigantismo do Carnaval. Nunca os lucros foram maiores, e também nunca foi maior o incômodo a terceiros. Nem todo mundo é rico, tem casa de campo, parentes no interior, residências de veraneio. Nem todo mundo quer sair ou pode sair do seu canto. E, no entanto, tem que aturar — se mora na Barra — nada menos que 7 dias de folia, zoada, transtorno. Se há alguém doente, não há como sair de casa. Não há como uma ambulância chegar a certas ruas. A zoada ensurdecedora, de imensos Boeings levantando vôo, desses trios elétricos, está aí, a dois passos de sua casa, a dois passos do Hospital Espanhol.
Antes, já houve uns exames mentirosos, umas multinhas ridículas para os infratores, uma tentativa canhestra de se regular a altura do som dos trios elétricos. Depois, isso caiu por terra. O dinheiro, a ganância, sempre falam mais alto. Nossa Prefeitura nanica acabou desistindo do seu papel ridículo, deixou a água rolar. Seja o que Deus quiser. A velha lei da Bahia: os incomodados que se mudem. Quem não agüentar, fuja, vá pra longe.
Os passeios estão tomados, as ruas, avenidas, hotéis cheios, vem gente do interior, de todas as periferias, navios e aviões estão chegando, despejando mais e mais carnavalescos. A excitação vai ser grande. Segundo os cânones da Bahia, festa é sinônimo de zoada. Se não há zoada, bastante zoada, a maior zoada possível e imaginável, não há alegria e nem felicidade. E, então, tome zoada e tome bagunça — o nosso lema eterno, a “ordem e progresso” de nossa bandeira particular, a bandeira que rege esse pequeno burgo. Salvador ou, melhor, a Barra.
Mas, quem quer sambar, sambe — mas quem não quer? Não teria direito a uma indenização, por ser forçado a abandonar seu lar, contratar seguranças e caseiros? Isso não se pensa. E aí está o outro lado, e perverso, da moeda.
A irresponsabilidade civil da Prefeitura, dos que se locupletam com o esbulho dos direitos alheios, direitos sagrados de bem-estar, conforto e segurança, vilipendiados nesses 7 dias de guerra civil não-declarada, que é o Carnaval da Bahia.
Quem duvidar, venha assistir.


Demais crônicas de Luiz Britto no arquivo Crônicas do site http://www.bahiapress.com.br/

A BOMBA


Flamarion Silva


Raimundo Reis, pescador natural de Barcelos do Sul, tinha 34 anos, dois filhos que moravam com a mãe, um pai velho, Sr. Pissica, e, principalmente, tinha a mania de soltar bomba. Eu disse bomba, não bombinha de São João. Bomba, bombona de matar peixe.
Todos sabiam ser crime esse ato, mas nem por isso deixavam de executá-lo. Dentre os pescadores que se destacavam, posso citar Sr. Arivaldo, João do Velho, Senor, que tinha fama de bom mergulhador, Zé do Campo, e Manuel de Fulô. Este, uma vez, foi escarrerado manguezal adentro pelos agentes da Capita­nia dos Portos. Não se emendou. A pesca com bomba era excitante e fácil. E lá estava Manuel de Fulô de novo catando os peixes da superfície. Olhava em to­das as direções para ver se vinha alguém da Marinha e, bum, mergulhava. Lá se ia ele buscar os peixes que não boiavam.
***
Eu tinha nove anos e era doido por refrigerante. Claro, era tão raro tomar que até mesmo quente sorvia-o de bom gosto, e lenta­ment­e, para prolongar o prazer. Ali era raro coisas ge­ladas. Eis porque: primeiro, os moradores não tinham condições de comprar geladeira; segundo, a eletricidade ligava-se às seis horas e desligava-se às dez. Isto é mentira, se bem me recordo desligava-se sempre antes. Uma vez, somente uma vez, exceto nas festas de ano, a luz ficou acesa até de manhãzinha. E isto foi quando seu Caju mor­reu. Seu Caju era o Juiz de Paz; terceiro, pelo já exposto acima, percebe-se que a eletricidade era ge­rada por um motor que alimentava, mal, as trezentas e poucas lâm­padas, contando as dos postes (naquele tempo, ainda de madeira) e as das casas. Assim, se se ligasse uma geladeira, a luz baixava na hora. Mas, sem grande esforço de memória, posso dizer quem tinha geladeira naquele tempo em Barcelos do Sul: seu Caju, o Juiz de Paz, que já morreu nessa história, a sua era a gás e funcionava; meu pai, o Sr. Jocelyn Policarpo da Silva, apelidado Celi, a sua era à eletricidade, e não funcionava; e seu Vavá, dono de um armazém colado à venda de meu pai, na Praça da Matriz, em frente à Igreja. A sua era a gás e trabalhava bem.
Era na Praça da Matriz que eu estava. Tinha algumas moedas e ia tomar um refrige­rante quando, lá em cima, no fim da rua, descendo para a praça, al­gumas pessoas aglomeradas em torno de um homem traziam-no nos braços, em cadeirinha.
Chegaram mais perto.
– Meu Deus! O que terá sido isso? perguntei-me.
– Foi a bomba, alguém respondeu.
– O quê!? Bomba!?
– Onde foi? Como foi? Por que foi? Ele não soltou logo, foi?
Ali estava Raimundo Reis, sentado, parara um pouco de tremer. Eu via com olhos curiosos de menino. Coto­cos, sim, o que eram seus braços agora, só cotocos. Os nervos davam a impressão de que iam pingar, escorrer. No resto do corpo, muitas escoriações. O olho direito ficaria, como ficou, seria­mente danificado, mas os cotocos, meu Deus, jamais esquecerei. Por fim levaram Raimundo Reis para Camamu. De lá ele foi a Salvador. E eu fiquei ali, abobado, repetindo aquele quadro horrível: um ho­mem sentado, olhos esbugalhados e os cotocos com seus nervos pingando. Argh! Foi demais para mim, buliu-me todo por dentro. Mas, o que fazer? Quem procura acha. E, decidido, entrei no armazém de seu Vavá e pedi:
– Seu Vavá, me dê uma gasosa.
Ao que ele prontamente me atendeu. E, já esquecido de tudo, de Raimundo e do mundo, sorvia-a de bom gosto, e lentamente, só para prolongar o prazer.
Raimundo Reis, ironicamente, passou a ser visto por todos do lugar como homem de sorte, pois conseguiu se aposentar por invalidez. Hoje vive feliz com a nova esposa e com o “sigiloso” negócio de explosivos.



Flamarion Silva é autor do volume de contos O rato do capitão (Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA, 2006 - Coleção Selo Letras da Bahia). Foto "O Poder da Pesca", de joaobambu, retirada do Flickr.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

COORDENADAS


Flamarion Silva



... a professora de português me pediu que fizesse uma redação. Como se não bastasse inventar uma história, ela ainda por cima exigiu que a redação seguisse certas coordenadas. Fiquei desesperado. Ora, ela não sabe, mas sou péssimo em redação. Que jeito. Aqui estou, tentando escrever alguma coisa. Vamos lá.
Bem, já faz algum tempo que estou aqui sentado, mas cadê ideia? Pensei primeiro em escrever alguma coisa sobre minha gata. Não, a namorada não, refiro-me à Lolita, gata de pelo e tudo. Mas Lolita é uma gata tão desinteressante... o melhor que pude fazer foi derrubá-la do telhado. E olhe que o telhado da minha história era alto. A coitadinha morreu.
– Sai, sai prá lá, Lolita, sai. — Lolita roçando nas minhas pernas. Deve estar com fome.
Fui lá fora e coloquei comida; e coloquei água; e disse-lhe:
– Coma tudo, viu, senhorita Lolita. Cuidar de você agora não dá. Ou faço a redação ou tomo zero. E olhe que ainda não escrevi uma linha.
Ela pareceu entender e caiu de boca na ração. Pude enfim ter paz.
Agora é concentrar.
Já pegava uma ideia, quando Bruno, o meu irmão, perguntou-me:
– Tiago, o que você está fazendo?
– Pô! Assim não dá! Falei irritado. Se não me concentro, não crio, logo todo o esforço vai ser em vão.
– Calma! Calma! Não está mais aqui quem falou. Vou é ouvir som no quarto, porque aqui corro risco de vida, ele disse.
– Acho melhor mesmo. Vamos, saia, pois se ficar aqui não me responsabilizo pelos meus atos.
Bruno saiu e tentei lembrar-me a ideia que tive. Para minha decepção, a ideia escapulira. Voltei ao zero. Pensei, pensei, pensei e... ronc! ronc!
– Tiago. Tiago, meu filho, acorde.
– O quê? O quê? Nem um nem outro vão embora. Bruno e Lolita são chatos. Estudei, mas não aprendi. Ou descanso ou me canso, vocês decidem. Vou acordar, porque já é tarde.
– Calma, meu filho, calma. Você estava sonhando, minha mãe disse.
– Ih! Acabei dormindo, falei, ainda meio zonzo.
– E a redação de português, filhinho, você fez?
– Ih! Não fiz. A professora vai me matar! Mas ainda dá tempo, portanto vou fazer agora.
E fiz:
Vou contar uma história. Tudo começou quando...


Flamarion Silva é autor do volume de contos O rato do capitão (Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA, 2006 - Coleção Selo Letras da Bahia). Foto "Redação", por grapete, retirada do Flickr.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A META OU A SAIDA

Gláucia Lemos



Todos estamos tentando encontrar algum caminho. Entendemos que ele deve existir em algum ponto. Mesmo que tal caminho não exista, urge que acreditemos. Enquanto acreditarmos em uma possibilidade, essa possibilidade existirá.
Houve um dia em que saímos. Não havia destino determinado, não fomos consultados, não que me lembre. Só me recordo de me descobrir a caminho, sem indicação traçada. Era preciso seguir. Não me entregaram bússola, nem mapa. Qualquer indicação. Apenas: Vai! Alcança tua meta! — E qual o código? — Ser bom e honesto. —Não seria difícil.
É assim que partimos. Para onde? Por onde? Alcança tua meta... Mas que meta?
É assim que começamos. E começamos mais ou menos por imitação, imitando o que vemos. Escola, profissão, cumprimento de deveres. Regras entre o bem e o mal, o maniqueísmo imposto necessariamente em todas as questões. Amar, casar, reproduzir e assumir as responsabilidades consequentes. Um sistema a ser seguido ou a marginalidade. Cumprir, cumprir, cumprir.
Até que em dado momento, depois de todos os relógios cansados de girar, da exaustão de todos os momentos, do esgotamento de todas as pilhas da paciência e da coragem, começamos a perguntar se já não suamos todas as nossas camisas, se já não estragamos todas as solas dos nossos sapatos, se já não fomos bons em pelo menos 90% da jornada, e não fomos honestos em 100% dela. Honestos sim, em 100% dela, ainda quando duvidaram da nossa honestidade. Então olhamos para os lados e ainda não há setas nem placas indicativas. Para a frente olhamos todo o tempo e só logramos avistar a poeira que ainda nos esperava a ser vencida, sem certeza de para onde estarmos indo; sem companhia a suavizar e nos confortar a mão, porque a cada um cabe batalhar sua própria batalha. E a meta? O que é a meta? Onde ela está?
Inúmeras vezes nos equivocamos admitindo um objetivo e guerreando por ele, acreditando que nós próprios haveremos de eleger a nossa meta, embora não nos tenham avisado disso. No entanto, se o alcançamos, aturdidos percebemos que à nossa frente a estrada continua, a neblina acima de um chão árido e acidentado se nos oferece a rasgá-la, e prosseguir, prosseguir. Buscando o que nos cansamos de buscar sem sequer lhe ter o nome.
Chega o momento de cansaço. A bagagem que carregamos recheada dos nossos enganos, das nossas crenças e convicções, das nossas festas ressaqueadas do amargor das alegrias falsas, já ameaça ser mais pesada que a capacidade de vergar-se da nossa coluna vertebral. E prosseguir com a nenhuma certeza, absolutamente igual à nenhuma certeza que tínhamos quando partimos, quase nos convence de que viver talvez venha a ser uma pegadinha de muito mau-gosto , já que a estrada da procura se prolonga semelhante aos números das periódicas que resultavam de algumas operações que aprendemos nos nossos primeiros tempos de matemática.
Acabamos por nos perguntar: será que há mesmo um caminho a ser descoberto? uma saída que resulte na solução para tão prolongada jornada? Uma saída que esteja à espera de que a encontremos e possamos parar e respirar dizendo: valeu a pena. Testemunhamos que nossos impasses se multiplicam. Não há respostas, no entanto precisamos acreditar que em algum momento as saídas se mostrem porque apenas se conseguirmos uma faísca de fé em uma possibilidade, essa possibilidade existirá, mesmo que não seja maior que o brilho de uma faísca. E urge acreditar. Todos precisamos crer que uma vereda se abrirá diante dos nossos pés, se não porque a mereçamos, ainda que cumprido o código do bom e do honesto, se não porque a mereçamos por outros motivos ignorados por nós, ao menos por um capricho do acaso, por uma lei qualquer entre as muitas leis naturais que, na nossa pequenez, nos parecem injustas, há de haver uma saída para os impasses de cada um de nós.
Porque, então... Viver será só isso?



Gláucia Lemos é poeta, ficcionista e cronista. Seu mais recente romance é o premiado Bichos de Conchas (Scortecci, 2008).

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

REPORTAGEM URBANA, DE ARAMIS RIBEIRO COSTA

Manuel Anastácio



Recebi mais um Livro do Brasil, pela mão da Gerana e autografado pelo próprio autor, Aramis Ribeiro Costa. Assim que o fui levantar aos correios, veio-me a nostalgia dos natais que sempre desejei e nunca tive. A nostalgia de um enorme monte de presentes, todos eles paralelepipédicos, todos eles cheios de folhas impressas, todos eles amigos surdos, mas não mudos. Rasguei o envelope como se fosse o pouco ecológico papel de embrulho das nossas infantis fantasias de abundância e inspirei o primeiro contacto da capa negra, belissimamente composta por um rosto microreticulado em angústia, que se corta e esbate no negro, enquadrado por rectângulos que se cruzam e se ampliam num reticulado maior de uma paisagem urbana ou do que, em mancha esborratada pela humidade, se poderia considerar uma paisagem urbana. A capa é como o rótulo de uma garrafa de vinho. Demoro-me ainda na dedicatória manuscrita pelo autor e, depois, nas dedicatórias impressas. À mãe de Aramis, que jamais lerá o livro, às irmãs e sobrinhas (“a permanência dos meus”) e à Gerana (“a dor sem termo das nossas perdas”). A dedicatória é já em si um conto, pungentemente verdadeiro, à parte. Há dedicatórias assim. Lembro-me, claro, da última de Saramago dedicada a Pilar, mas há outras que mereceriam também um livro à parte, um “Livro das Dedicatórias” ao género borgiano das epígrafes também de Saramago. E, ainda antes de começar o dia de trabalho, devorei e bebi a morte que se espraia nas primeiras páginas, em “A Interminável Noite de Percival”: a ausência a justificar o excesso, a demora, o protelar do inevitável, o mimetismo nostálgico do luto que a tudo dá sentido exatamente porque nada mais tem sentido. Neste primeiro conto de um conjunto de sete, há um sopro de promessas que a vida comezinha não me permite seguir ininterruptamente. Tenho de trabalhar. A dedicatória de Aramis à mãe faz-me lembrar, subitamente, enquanto arranco o carro e contorno a rotunda em direcção à rua Gil Vicente e a manhã me molha o pára-brisas com os salpicos da fonte, num dos primeiros quadros escritos do meu filme preferido, “Young Mr Lincoln”: “If Nancy Hanks came back as a ghost, seeking news of what she loved most, she’d ask first: ‘Where’s my son? What’s happened to Abe? What’s he done?”. Todos nós já sentimos, em momentos de alguma glória pessoal, a falta daquela pessoa que, sabemos, mais que ninguém, partilharia connosco a alegria de um momento que, sendo sempre passageiro, para nós será eterno. E os momentos efémeros descritos por Aramis nestes contos são também momentos eternos porque se referem às perenes preocupações humanas e à forma intemporal como estas se manifestam. Os contos, ainda que encontrem na malha urbana de uma cidade brasileira o seu cenário, e ainda que a cidade seja, em si mesma e em termos conceptuais, uma personagem, têm como referência geradora a posição do indivíduo na História. O terceiro conto, “Lídia – Uma História de Heródoto” pega num standard, ao modo do desenvolvimento musical das peças de jazz, e insere a sua escrita no movimento eterno da recontagem do património narrativo da humanidade. O desejo, a honra, a vingança, são transpostos para uma certa irrealidade contemporânea, que se manifesta igualmente no conto Sete-Sete, onde o tema do inocente injustamente acusado parece novamente recriar nas letras o que, por exemplo, também já Hitchcock desenvolvera em “The Wrong Man”. Por esta altura, já a minha forma de ler começa a estabelecer entre a escrita de Aramis e a sétima arte uma ponte que se vai firmando de página para página. As personagens começam a mover-se em enquadramentos clássicos. Nada de câmaras que balançam acompanhando os movimentos imprevistos das personagens. Não. O título “Reportagem Urbana” bem poderia dar a ideia de que os relatos seguiriam o registo contemporâneo da escrita jornalística. Mas não. O conto “A Casa” é o sonho de qualquer realizador neorealista italiano. Foi a preto e branco que imaginei aquele que, para mim, é o mais belo dos sete contos deste livro. Um homem decide-se a enfrentar a dor do leito de morte para continuar a construção da casa que ficou a meio, interrompida pela notícia da doença terminal. A relação que se estabelece entre as duas personagens principais, pai e filho, lembra Vittorio de Sica. A cena final (e uso o termo “cena” de propósito), na varanda que enforma todo o desejo e que transforma o leito carunchoso da morte num patamar superior de vida enfim alcançado, é como que o trabalho alquímico de uma Grande Obra de amor. Amor que, ao contrário do que muita gente suspeita, é o grande tema do neorealismo – e este é, sem dúvida, um grande momento do neo-realismo extemporâneo. Mas há também neste processo, penoso, entre a morte inevitável e a evitável morte em vida, um profundo pensamento filosófico e arquitectónico de raízes existencialistas onde, paradoxalmente, a ideia de absurdo é apagada. A vida não é absurda se houver uma varanda onde morrermos em paz, especialmente, se essa varanda for por nós construída – e se a sua construção, mais que o objecto final, for a passagem do testemunho para as mãos daqueles que deixamos como herdeiros. Mas Aramis segue, com um sentido musical inato, para o próximo conto, “Segunda-Feira sem Data” onde toda a exaltante moral da unidade anterior se parece apagar num scherzo metafísico sobre a burocracia com que se apagam os nossos dias entre o reticulado (lembram-se da capa?) dos cubículos das repartições onde as nossas esperanças se diluem na esperança divina de uma promessa que a nós desce, qual pomba do Espírito Santo, na forma de uma SMS. O espectador, como é normal na audição de certas composições eruditas, pede uma pausa. Pouso o livro sobre o granito da lareira da casa dos meus sogros. O livro respira a cada espaço branco antes do andamento seguinte. Depois do jantar e do aroma minhoto do vinho verde tinto, leio, frente a uma canhota de carvalho em brasa, “O Aniversário de Normando”. Leio com a leve embriaguês de quem sabe que só a literatura que imita a música consegue subverter a realidade da miséria e da solidão num universal complexo de partilha. E, brutalmente, enquanto partilho os tira-gostos de batatas fritas e carne-de-sol que Gregório pagará, a contra-gosto, com o suor do rosto alheio, depara-se-me a revelação de que a Humanidade nada mais é que a Natureza disformemente alcoolizada. Finalmente, corre-me pelos dedos o conto que dará nome ao livro. Conto pautado pelas horas que passam no período simbólico de um dia, enquanto alguém espera, não por Godot, não pelo que a Vida lhe poderá trazer, mas pela mãe que enfim aparece, sob a forma de uma fatídica e desesperada coda final que se repete, minimalista. A mãe de todas as conclusões.

Quando fecho o livro, é altura de ir para casa. E apercebo-me de que, no fundo de cada estória, há a casa. A casa onde se cai e se foge às responsabilidades para que nos chamam, a casa que nos negam, a casa que nos é oferecida pela tentação, a casa por nós conquistada em luta com a morte, a casa onde, enfim, resolveremos a nossa vida, a casa para onde seguimos cansados, a casa para onde nunca voltaremos e para a qual não sabemos o caminho. E mesmo a personagem do sapateiro Heródoto, o contador de histórias, aparece como alguém de morada incógnita. Como só poderá ser cada cubículo em que a cidade se divide. Cubículos de uma irrealidade reticulada onde, por vezes, se entreabrem portas para a intimidade exposta de quem neles poderia viver.



Manuel Anastácio é poeta e assina o blog Da Condição Humana, com entrada pelos meus favoritos, ou clicando em http://literaturas.blogs.sapo.pt/.