segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

AH, DRUMMOND!


Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Última estrofe do "Poema de sete faces", de Carlos Drummond de Andrade, em Alguma poesia.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

6 COISAS QUE POUCOS SABEM SOBRE GLÁUCIA E SOBRE GERANA


Quando Renata Belmonte e, depois, Kátia Borges, colocaram em seus respectivos blogues as 6 coisas que poucas pessoas sabem sobre elas, Gláucia e eu nos sentimos motivadas a fazer o mesmo. Só para divertir.



Seis coisas que não sabem sobre mim
Gláucia Lemos


Gerana me sugeriu entrar na roda das seis coisas que os outros não sabem sobre nós, e combinamos também revelar as nossas . As minhas são muito mais que 6, mas obedeço ao padrão.

1 - Embora não pareça, sou extremamente tímida, a ponto de sentir vergonha quando me aplaudem.
2 – Não acredito na verdade do amor no casamento. A convivência faz revelações . Permanece a aparência.
3 – Tenho tanto medo de sofrer, que assumi um sistema interno de defesa. Quando algo de mal me acontece, apelo para a bipolaridade procurando na outra face da moeda o que possa encontrar de bom para me compensar. Tudo tem duas faces.
4 – Não gosto de dar ordens, e não aceito recebê-las.
5 - Sou supersticiosa, tenho medo da vibração das palavras, há algumas que não pronuncio nem permito que sejam ditas na nossa casa.
6 – Detesto palavrão, homem que cheira a cigarro, gente que sabe tudo, sarapatel e todo tipo de barulho.



6 COISAS QUE POUCOS SABEM SOBRE MIM

Gerana Damulakis

É meio difícil encontrar algo que não saibam, mas vamos lá:
1- Sou hipocondríaca ao extremo, ao extremo mesmo. Quero resolver o que não existe antes que exista e se é que irá existir. Pode?
2- Não acredito em casamento feliz. O casamento tem tempo de validade, passado este tempo há 2 caminhos: ou se fica naquilo por mil motivos dignos de pena, tais como conformismo, dependência financeira, baixa auto-estima etc, ou se parte para a vida. Basta analisar como as pessoas dizem que ainda não se casaram porque estão aproveitando a vida; portanto, casar é deixar de aproveitar a vida. É a mesmice, é a chatice, é o fim de qualquer paixão. O que vale é um relacionamento honesto, sem os personagens "esposa" e "maridão".
3- Rezo com fervor todos os dias.
4- Gostaria de ser escritora de auto-ajuda, mas para tanto seria preciso nunca ter lido uma linha de literatura by Tchekhov, Proust, Kafka, Saramago e afins.
5- Embora magra, sou chocólatra.
6- Tenho o maior orgulho (que orgulho besta!) de não comer carne e não beber álcool.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O LADO DURO DA VIDA: SOBRE O LIVRO UNS & OUTROS

Gerana Damulakis

Conheci a prosa de David nos blogs, acho que no Canto dos contos. Minha atenção se prendeu no conto “Suicida”, extremamente original, uma idéia de primeira. Pedi autorização e postei o conto no meu blog. Mostrei para Aramis Ribeiro Costa, ficcionista experimentado, que também gostou muitíssimo. Daí para frente, venho seguindo sua produção e posso dizer que já tenho formada minha impressão — sim, é uma crítica impressionista — a respeito da ficção de David Nóbrega.
Seu ritmo é um predicado importante: geralmente veloz, o texto avança rumo ao resultado sem concessões outras, porque importa mesmo é contar a história. O que o autor colhe disto é a certeza de que seu leitor não deixará a narrativa até que ela tenha sido concluída. E se conclui: o conto de David tem começo, meio e fim, tem compromisso com o enredo e seu desfecho. Outra certeza seria a satisfação da curiosidade, já que nada fica em suspenso; melhor dizendo, o nó ficcional é moldado, toma a forma no clímax e se desfaz ainda no texto.
O que o autor conta ao longo das suas vinte e tantas histórias curtas do volume está de mãos dadas com o lado mais duro da vida. A sensação é a de que nada se lhe escapa, seja a doença, seja a solidão física e/ou anímica, seja a miséria. O episódio detonador da narração está em plena concordância com a tragédia, não começa com tudo perfeito ao redor e, de repente, surge o acaso destruindo a calmaria. Não. Na contística de David entra-se de chofre na “tragicidade” — palavra cara a Adonias Filho — com seus personagens e suas situações adversas.
Ao fim e ao cabo, estamos lendo atualmente a própria realidade monstruosa que nos cerca, que nos atinge, que vivenciamos: violência, falta de relacionamentos estáveis, solidão, doença. A literatura não está distante da vida mesma, está reproduzindo-a porque, estupefata, se alinhou completamente com os dissabores, com o lado duro da inexorável condição humana.
Entre estes contos, destaco ainda “Casual” e “Cruzamento”, Em “Casual”, que plasma justamente a superficialidade dos relacionamentos, encontro um ponto muito alto da coletânea. Em “Cruzamento”, confirmo a observação aguçada, na verdade, emblemática do contista. Destaco-os como contos antológicos, assim como “Suicida”. O que vale dizer que a reunião dos contos foi muito bem lograda, haja vista a existência de tantos exemplos antológicos em um volume — em grego, antológico é inesquecível.
Em suma, o que temos são histórias que contam, e contam com estilo firme, com a mão de quem sabe conduzir sua narrativa do começo ao fim sem tropeços e, ainda, que gera um envolvimento total durante a leitura: não é pouco, portanto, o que aguarda os leitores.

Salvador, 4 de novembro de 2008
Este texto está na quarta capa do livro de David Nóbrega. Para adquirir Uns & Outros, acesse o blog: http://scriptusest.blogspot.com/

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

UNS & OUTROS


Gerana Damulakis


Tive a honra de assinar o texto da quarta capa do livro de contos de David Nóbrega, Uns & Outros (Virtualbooks Editora, 2008), da Coleção Moderna Literatura Brasileira (vol. 12). Sucesso para a obra e seu autor!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O LIVRO NEGRO


"Nada é tão espantoso quanto a vida!" (...) "Exceto a literatura"

Orhan Pamuk

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

31 DE JANEIRO: PARABÉNS PARA ARAMIS


Quando foi publicado o primeiro livro de contos de Aramis Ribeiro Costa, A nota de Rosália, eu não conhecia o escritor. Por ocasião do segundo volume de contos, A assinatura perdida, ganhei a seguinte dedicatória: "Para Gerana - vestida de amor e poesia". No seguinte, O mar que a noite esconde, está: "Para Gerana - mais este mar navegado". Em O fogo dos infernos: "Para Gerana - e nossas histórias unidas". Em O baú dos inventados: "Para Gerana - que caminha ao meu lado os velhos e os novos passos". Os bandidos traz: "Para Gerana - a permanência do amor". No seu mais recente livro de contos, Reportagem urbana, lemos: "Para Gerana - e a dor sem termo das nossas perdas". Ao ler esta dedicatória, que me fez chorar muito, entendi que a dor em comum (para mim, a perda de meu pai e, para ele, a perda da mãe) havia mergulhado nós dois numa outra fase da vida. E todavia estamos vivendo-a. Meu pai dizia que a vida é cheia de fases, o importante é saber conviver com elas. Continuamos aprendendo a conviver com a "dor sem termo das nossas perdas". O conto abaixo é inédito e, mais uma vez, me fez chorar porque reflete o sentimento de solidão, na figura do barco, provocado pela morte de quem amamos.
Aramis, mais um aniversário seu e não sei o que escrever a não ser isto, usando a rima mais comum da nossa língua: seguimos juntos nesta dor. Com amor.



UM BARCO NO MAR
Aramis Ribeiro Costa


De repente, tudo lhe pareceu negro e sem saída. A amargura caía pesada sobre sua alma, e eram toneladas de amargura, que não podiam ser removidas com a simples vontade. Então, olhou o mar à distância, do alto do seu apartamento, no décimo primeiro andar, e compreendeu que precisava navegar sem destino por aquelas águas que se perdiam no horizonte, enfrentar as ondas, as correntes marítimas, o vento, quem sabe a tempestade, a noite, o frio, a fome. Compreendeu que precisava navegar sem saber se voltava, sem saber se encontrava outro porto, deixando simplesmente que o mar o levasse por mares insuspeitados, ou que o tragasse no mais profundo das suas águas.
Sim, tudo era negro e tudo era sem saída, como são todas as crises enquanto não passam, como são todas as amarguras enquanto não se desfazem, como são todas as inseguranças que envenenam a alma enquanto as soluções não chegam. Aquele mar azul que avistava do alto e à distância parecia o horizonte buscado, ou então o fim abrupto e trágico da circunstância intensamente sofrida. Precisava navegar com as velas abertas para o vento mais forte, deixar que a quilha da embarcação rompesse as correntes contrárias, as ondas, o tumulto das águas, como alguém que tenta caminhar em sentido contrário à multidão, acotovelando-se, sofrendo empurrões, ouvindo protestos, mas persistindo na caminhada.
De súbito, do alto do seu apartamento, percebeu, na faixa azul que ia de uma ponta a outra na extensão que a sua vista alcançava, um veleiro rompendo vagarosamente as águas. Naquela distância parecia um barco de proporções reduzidas, mas era difícil dizer. A proa erguia-se e abaixava-se, para logo erguer-se e tornar a abaixar-se, como se fosse ao fundo e voltasse, como se naufragasse e submergisse, desaparecendo por instantes e logo voltando a compor a paisagem. Não havia outro barco em toda a imensa faixa azul e líquida que era vista do alto e à distância, aquela faixa azul que emendava, na linha curva do horizonte, com a amplidão de azul mais suave e sem ondas do espaço infinito, azul sobre azul, tom sobre tom.
Então, ele entrou naquele barco, postou-se diante da roda do leme, segurou-a com mão firme, assumiu o comando da embarcação solitária e perdida no mar imenso. Diante dos seus olhos fixos as ondas agigantaram-se, enfureceram-se, bateram com violência no casco, como se quisessem rompê-lo, atiçaram água e sal no estreito convés, seus pés de marinheiro encharcaram-se, foram sete pragas, uma cada dia. A proa erguia-se e abaixava-se, para logo erguer-se e tornar a abaixar-se, agora em movimentos insuportavelmente bruscos, que pareciam irreversíveis para, logo em seguida, pela continuidade, parecerem intermináveis. Na popa, a esteira alvíssima de espumas.
Daquele barco ele via-se à distância, lá no alto do seu apartamento no décimo primeiro andar, e com ele toda a sua imensa amargura, sua circunstância negra e sem saída, sua prisão de ansiedade. Segurando o leme com firmeza, as velas pandas, côncavas ao sopro do vento mais forte, ele apenas quis vencer aquele espaço imenso e difícil, seguir para compor outra paisagem mais adiante, renovada, sem correntes contrárias, sem ondas contrárias, sem ventos contrários, uma paisagem onde não precisasse submergir para depois reaparecer. Compreendeu que o final dos tempos, sempre anunciado e jamais acontecido, ocorre a cada momento para cada um que mergulha irreversivelmente nas águas fundas e escuras. Compreendeu que as águas fundas e escuras estavam permanentemente a um passo do convés, sempre a um passo, à frente, aos lados, à retaguarda do pequeno barco, bastando apenas o salto para o mergulho. Compreendeu que o desespero é uma tempestade que é preciso vencer.
Naqueles breves instantes, no comando do barco, enfrentou a tempestade, a noite, o frio, a fome, desviou-se de um inesperado e perigoso rochedo, mergulhou nas águas profundas e escuras de onde nem sempre se volta, mas subiu ao leme no terceiro dia porque era preciso levar aquele barco, singrar aquele mar desconhecido e revolto, mas que de repente se abria em azul. Finalmente, venceu o espaço.
Do ângulo da sua janela, no alto do décimo primeiro andar, já não podia ver a pequena embarcação que seguia vagarosamente, singrando e rompendo as águas, as correntes, as ondas contrárias, com suas velas brancas enfunadas, com sua esteira alvíssima de espumas após. Então, fechou a janela e foi compor outra paisagem.


Nota: do livro A moça acompanhada, pequenos contos e crônicas.

31 DE JANEIRO: PARABÉNS PARA CYRO DE MATTOS


Cyro de Mattos é um dos escritores mais premiados da Bahia. Excelente contista, também poeta, ensaíata, organizador de antologias, enfim, uma pessoa voltada para a literatura de tal forma que acaba nos incentivando. Ele me estimula a produzir, é amigo, ouvinte e tem toda a minha admiração. Feliz aniversário!


PARÁBOLA
Cyro de Mattos

Prometeu soltar os pássaros,
Não extrair a lágrima da árvore,
Repartir os frutos com os outros,
Deixar a água limpa,
Não envenenar o céu.

No último gesto
Pensou que era morto
E viveu.


Acima, um poema de “Ecológico”, de Cyro de Mattos. E, a seguir, um de seus contos antológicos.


OS RECUADOS
Cyro de Mattos

- Seu nome?
- Diacuí.
- Casada?
- Sem homem.
- Idade?
- Sei não.
- Vive de quê?
- Vender pente, espelhinho e outras coisas miúdas.
- Quantos filhos?
- Oito com Dianuri.
- Os outros vivem com você?
- Estão por aí espalhados pelo mundo.
- Quando foi que comprou o querosene?
- Pela tarde. Tinha ido comprar um pouco de sal e café na barraca de Pedro Mineiro.
Foi aí que eu vi a lata de querosene lá no canto e me lembrei de Dianuri.
- Você não sabia que o fogo podia pegar rápido nos barracos vizinhos? - o delegado pergunta, observando que a feira ia virar cinza em pouco tempo, se o povo todo não chega depressa com as latas cheias d’água.
- Só queria botar fogo nele.
Sensação de mal-estar percorre os cantos da sala pequena.
Murmúrios saem das pessoas que se apertam na porta, janela e do lado de fora.
O delegado recua um pouco na cadeira.
Passa o lenço na testa.
- Quem dava dinheiro pra ele beber?
- O povo daqui mesmo da feira.
- Você não sabia que ele era seu filho?
Uma careta desenha-se no rosto da mulherzinha, puxa os olhos e se forma de maneira sofrida.
- Eu não agüentava mais. Ele só chegava em casa bêbado. Parecia um bicho. Não tinha dia que não fosse achar ele dormindo na sarjeta.
Pára novamente, faz um esforço e continua.
- Tinha vez que ele batia com a cabeça na porta, falava pra ele mesmo: bicho feio, bicho imundo, bicho besta, camacã que não presta pra viver na cidade.
“Lugar de índio é no meio da sua gente, lá no mato”, repetia, soluçando.
A mulherzinha pára mais uma vez, aperta as mãos pequenas, respira fundo. Toma fôlego.
- Ele era meu filho... mas na hora, seu delegado, só fiquei pedindo que o fogo queimasse logo ele de uma vez.
O delegado manda que o soldado leve a mulherzinha para o cubículo nos fundos da delegacia, que serve como cela.
Opiniões desencontradas saem agora da pequena multidão no lado de fora. Vozes confusas comentam sobre a confissão que Diacuí havia acabado de fazer ao delegado. No meio da multidão, um homem velho nada diz sobre a confissão da mulherzinha.
Permaneceu calado durante todo o interrogatório em que Diacuí havia sido submetida. Sua expressão de rancor é a de quem acabou de provar o lado amargo da vida ligado ao amor em toda a sua extensão. Ele mora num barraco vizinho ao de Diacuí.
Conhece a dor que a mulherzinha carregava no peito, drama que vinha sendo sustentado por ela em ombros tão pequenos. Ela via o filho bêbado todos os dias e nada podia fazer para afastá-lo da vida infeliz que levava. Pobre diabo que andava pelas ruas da cidade sem rumo, falando bobagens pela boca que nunca parava.
O mormaço do dia envolve a sala vazia nesse instante.
Luz do céu vidra a manhã lá fora, reverbera sobre as coisas na feira.
A mulherzinha transpira tremores misturados com cinzas. Há suspiros fundos, profundos, no cubículo quase sem luz. Minutos passam num ritmo que fere quando ela começa a lembrar o que tinha de ser. Até que chega essa brisa para envolvê-la com ondas ligeiras, trazendo certo alívio no peito que não pára de gemer. A brisa permanece no rosto sob a pele enrugada, em carícia de lenço. Nos olhinhos de sagüi, que piscam nervosos. Vermelhos e úmidos.