quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PARABÉNS PARA FLAMARION SILVA


Flamarion Silva faz aniversário no dia 29 de janeiro (no mesmo dia que alguém, que conheço muito, também nasceu). Sua estreia, ao publicar O Rato do capitão (Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA - Selo Letras da Bahia, 2006), foi a de um escritor pronto. Os contos do volume não são os de um escritor em processo, são contos elaborados por quem sabe como alcançar uma história bem lograda. Confirmo sempre o seu talento. Sem dúvida.
Além do escritor, a pessoa de Flamarion é, como escrevemos aqui, D+; portanto, para o escritor baiano, para o marido de Graça, para o pai dedicado dos seus filhinhos, para o meu amigo: Feliz aniversário!



MARIA

Flamarion Silva

Para Gerana Damulakis

“Se a alma e o coração sujos estão,
dê ao corpo água e sabão.
Se o lado de fora limpo está,
no lado de dentro fica a impressão
.”

Remontam o caminho de volta os talhos da tiririca, que iam, de um e outro lados, penitenciando-me docemente. Também dos matos, as suas galhas, largadas num debruço, e o sol, no desmaio da tarde, caíam sobre mim.
Ia ao Apicum, onde me aguardava Maria.
Decerto por estas trilhas imaginais sons: os pés chapechapeando a água e a lama; sururus em suas cantigas estaladas; piados longe; chiados; aqui, mais perto, neste canto da memória, o desejo a sofregar: Maria antecipada, Maria distante, Maria nunca mais.
“De pirraça”, disse ela bem à frente, no caminhar da história. “De pirraça e por pura maldade me manda a mãe lavar o sujo da roupa.”
“Maria!”, chamei, a que só olhasse para trás.
Virou-se. Viu-me e sorriu-se toda. Dengosa. Porém, o tempo também aí já é outro, mais tarde, depois de tanto antes nos termos tentado na ignorância sabida do caso. Foi o acaso que nos levou, outras desvariadas vezes, pelas mesmas várzeas do caminho.
No Apicum, Maria acocorada. Da bacia as roupas ia tirando. Os pés n’água. Abeirado a ela, puxei conversa, pois Maria, agora, tão calada, aguava a roupa, concentrada.
Puxei um fio:
“E é de maldade que Dona Esterzinha te manda lavar essa roupa, e sempre a esta hora alta, Maria?”
Respondeu, sem dizer palavra, que sim. E esfregava o vestido com sabão e ódio. Porém dele e dela a nódoa não se soltava.
“Tanta raiva tenho dela!”
“Tem raiva dela não, Maria. É tua mãe.”
“Antes-de-ontem me mandou cortar uma gamela de maturi... Olha só o magoado das mãos.”
“Maciazinha”, disse mentiroso, tocando de leve os talhos da mão.
Maria se recolheu diante do afago, como se fosse moça prometida transgredindo contrato.
“O pai me fez um agrado: me deu um corte de pano. Disse:”
‘É para fazer um vestido para a festa de ano; Nossa Senhora das Candeias merece.’
“O pai é bom. Ele me deu a fazenda e saiu para a pescaria. A mãe, afastada, na fonte, quando voltou e viu o tecido aberto na cama, disse:”
‘Tem dois vestidos do ano passado, Maria.’
‘Mas são desde o ano retrasado, minha mãe; tão ruços’, “disse suplicante.”
‘Este é meu, Maria, só meu’, “e saía feita dona do corte que me dera o pai.”
‘Conto pro pai’, “afrontei”
“A mãe virou-se, já com a bofetada guardada na mão. Chamou-me de atrevida. Juntos, ao pai se faz doce. Mas a mãe tem um fel no coração, amorzinho... Desde então me castiga...”
Maria se lavava no enxaguar da roupa. E esta foi a última vez que a vi animada. Deu-me seu amor por último e estas palavras, que nunca se me saíram:
“Quero morrer... quero morrer...”
Pensei morria por mim, ensandecida pelo fogo do nosso amor. Qual nada! Intenção escrita no pensamento, arma engatilhada.
E foi, que no outro dia, no mesmo marcado encontro, lá fui eu fazer companhia a Maria. Porém Maria não havia mais. Nem pios nem chios. Tudo silencioso, como se aguarda um momento a hora de um outro ver.
“Onde Maria? Terá ela lavado toda a roupa suja e se foi?” intriguei-me.
Mais adiante, num passado marcado, mais lá no fundo do Apicum, onde eram as águas mais profundas e menos confiáveis, eu a vi.
“Maria!”

Fazia-se tarde. O escuro descendo do céu assombrava tudo. Por certo eu não via direito. O corpo dela, assim meio de viés, preso pelos cabelos nas galhas, abandonado no mangue, como se lhe puxasse pelos cabelos a mãe, num último castigo.
“O mal se corta é pela raiz”, diziam os pais duros de antigamente.
Maria ficou em mim, como fica na boca o travo de fruta devez. E nunca me saiu o gosto dela, este grudado na memória e na pele, com toda sua natureza, toda ela no meu eu, este travo que não me sai. Maria.

Foto "Mangue" (Porto Seguro, Bahia), de Paula Marina, retirada do Flickr.

MORMENTE A DOR

Gerana Damulakis


Mágoa, que dor
— lugar onde cheguei,
espaço onde pisei.

No entanto,
gastando quilômetros
de lágrimas,
noctâmbulo oito
horas,
transpondo seus muros
árabes, muralhas
chinesas, paredões
castristas

tal contido estava,
parecendo perdido,
acorrentado, rumo
à saída certa,
única e onipotente
da morte.

Transpondo a estrada
do pranto,
sim transpus, lavando
as águas nas águas
da fonte;

renasci aqui, em pé,
de pé no monte
das minhas palavras.


Do livro Guardador de mitos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O RIO


Gláucia Lemos




Ali, a dez metros ele passava. Com água barrenta. Ficava espiando pela vigia. Havia uma cruzeta de ferro para que não pudesse passar uma pessoa. Atrás da cruzeta havia também uma tela de arame grosso. Para evitar a passagem de mão portadora de carinho ou de mensagem. Muito menos passassem beijos ou simplesmente palavras. Mas podia passar pensamento. Lembranças podiam passar.

Brincava à margem do rio. Corria e se banhava em suas águas turvas do barro do leito e da lama vermelha que arrastava à passagem. Pescava camarões e enlodava os pés. Amava o rio. Um pedaço muito grande do seu mundo restrito. O rio era toda a sua alegria, o que de melhor tinha na vida, onde o pouco era tudo.
Um dia as águas barrentas levaram seu pai. Manhã nunca esquecida daquela infância. O corpo raquítico escorregando na pedra limosa, a cabeça chocando-se com a pedra maior, o grito de susto, Depois o corpo caindo para a viagem das águas. As bocas aflitas dos irmãos clamando por ele. O rio e suas águas barrentas arrastando o corpo do homem desmaiado, impotente. Até que sumiu correndo mais que as pernas dos filhos. O pai tornou-se alguém encantado que foi morar para sempre no mistério das águas.
Bem ali. A vinte metros da parede. Os olhos passando pela vigia da cruzeta e da tela de arame grosso.

De noite os grilos cantando nas touceiras. O ruído das águas correndo. Os braços vigorosos de João enlaçando seu corpo. A boca de João nos seus olhos, no seu rosto, em sua boca, em seu pescoço. As mãos grandes de João nos seus braços, nos seios, nas costas, em toda a sua pele. O corpo de João, poderoso. Depois da impossível recusa, a entrega. Os grilos cricrilando em volta. O escuro quase completo. O silêncio quase palpável. O cheiro da resina do mato misturando-se ao cheiro meio doce, meio licoroso, do pescoço de João. E a cumplicidade do rio. O ruído ininterrupto tão constante, conseguindo fazer parte dos rumores do dia e também dos silêncios da noite. Sempre indo, sempre indo, não voltava nunca? Não trazia a hora do amor na noite escondida.

O ventre começando a crescer. Logo todo mundo iria perceber. João, cadê você? O filho que a gente fez naquela noite à beira do rio, você nem quer saber que estou gerando? Ninguém dava notícia de João.
- João foi embora para a capital e nunca perguntou por mim nem pelo filho que ele botou no meu ventre. O que vou fazer com um filho sem pai? Todo mundo vai me chamar de puta. Esse vai ser o meu nome, nessa vila tão pequena. Todo homem da vila vai querer deitar comigo, mas nenhum vai querer ser meu namorado. João, porque você foi embora de repente? Que é que você fez da minha vida?

Chá de folha disso, chá de folha daquilo, a dor nos rins, uma contração, uma náusea. Outra contração... Nasceu meu filho, meu Deus, valei-me! Nasceu? Não, não nasceu, morreu meu filho. Senhor, eu matei meu filho... Eu queria ter meu filho. Ia ser um homem. Pequeno, esbranquiçado, parecendo de cera. Uma cabeça enorme para o projeto do corpo, com a tripa do umbigo compridona. João, esse boneco de cera ia ser o nosso filho. Ia ser bonito como tu. Ia ter essas costas morenas que tu tens, João, mas não seria enganador que nem foste comigo. Eu não ia deixar ele crescer cruel como foste comigo. Eu ia ensinar a ele a ser amoroso como eu sou. Ainda não tinha cabelos, nem unhas, nem dedos divididos, o meu pobre filho. Era um projeto. Agora, o que vou fazer com ele? Onde vou jogar o resto do que seria o meu filho?
As águas barrentas foram levando pela correnteza o corpinho malformado, misturado a folhas podres, a peixes miúdos e a fezes de animais. O filho nas águas vermelhas, o rio levando para onde? Para o nunca mais. Até que sumiu. Tinha sido um momento tão bonito, João. Mas só ficou um filho morto.

O rio matou o pai e sepultou o filho. Sempre ele desde que ela nascera, desde antes de todas as vidas que existiam por ali, o rio acompanhava tudo.

Tempo depois João voltou. Doutor. Casado com moça da capital. E com o filho bonito da outra, que nasceu completo porque não foi feito à beira do rio.
- O mesmo rio que levou meu pai, o mesmo rio que levou meu filho, João, ainda vai levar o teu filho também. Vai levar, João, Juro que vai.

Agora ali, a vinte metros da vigia ainda estava ele acompanhando sua vida. Não sabia mais do tempo em que o amara. Agora odiava as suas águas com o ódio mudo que se vota às indiferentes testemunhas das nossas dores maiores. Dele não conseguia desligar-se. Tinha que ficar espiando, espiando suas águas correrem sempre, sem jamais se cansar, como num maldito masoquismo. Tinha que passar bem ali, a vinte metros da sua cela, ligado a ela como o cordão umbilical de um feto. Perseguindo-a. Repassava todos os dias passo a passo a sua vida
Pela cruzeta de ferro e pela tela de arame grosso da vigia não podia passar ninguém, mas o rio era mais forte. O rio podia passar. Trazia seu pai, seu filho, e o filho da outra para dentro da cela, todos os dias, trazendo com eles sua dor e sua culpa. E também todas as noites quando despertava com o barulho das águas acordando o silêncio para acordá-la também. O rio não dormia e não a deixava dormir.
Lá ia levando o corpo do pai desmaiado, afogado. O meu filho mal-formado matado às escondidas, e o corpo completo, robusto, do filho da outra, que a vingança, em uma noite qualquer, deu de presente ao rio para levar também. Esse rio só fala de coisas amargas.
Rio assassino... Rio cúmplice...
- Um dia ainda mato este rio.



Gláucia Lemos é ficcionista, poeta e cronista, autora de 33 títulos.
Foto "Rio São Francisco, Bahia", por Ararinha, retirada do Flickr.

domingo, 25 de janeiro de 2009

PARABÉNS PARA ILDÁSIO TAVARES



25 de janeiro: aniversário do escritor Ildásio Tavares. Brilhante em todas as áreas em que atua, Ildásio é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. E é singular: não teme, fala o que acha com argumentações seguras e pertinentes. Ildásio não é uma pessoa morna; ou se gosta, ou se não gosta, quando dele se trata. Eu gosto bastante. E admiro seu talento, sua inteligência e seu jeito franco de ser. Para ele desejo saúde e felicidades mil.



SONETO DE ENCONTRO
Ildásio Tavares

Achei o decassílabo, o que resta
é achar o poema. O mais difícil
é mergulhar no esconso precipício
das palavras. Entrar pela floresta

dos símbolos. Poesia é uma festa
de esforço, de trabalho e sacrifício,
edificar de sons um edifício,
observar o universo em uma fresta...

Dizia o outro que é literatura
o resto. É muito mais que o sentimento:
tudo que não se diz, mais do que o dito.

É ver brotar do estrume a flor mais pura;
captar a eternidade do momento;
ter na palma da mão o infinito.



Ildásio Tavares fez Letras na UFBA, Mestrado na Southern Illinois University, Doutorado na UFRJ, Pós-Doutorado na Universidade de Lisboa. É poeta, ficcionista, cronista, tradutor, compositor, especialista em Ernest Hemingway e em Camões. Um de seus títulos mais recentes é O Domador de Mulheres, da Imago Editora, 2003.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

CÂMARA BAHIANA DO LIVRO

Em tempos de crise, guerra e reforma nada mais natural do que enfrentar desafios. Assim fui convidado para compor, liderar presidindo uma entidade singular e essencial para o desenvolvimento da cultura e do conhecimento. A Câmara Bahiana do Livro. Aceitei depois de saber quem trabalharia comigo. Como vice-presidente, o quadrinhista Antonio Cedraz, já consagrado e reconhecidamente um grande artista baiano, criador da Turma do Xaxado. Os autores Aurélio Schommer, Maria do Carmo Salomão, Valdeck de Jesus, além de a forte parceria com a SEGlivros-distribuidora, todos esses formando a nova diretoria atuante.
Em reuniões decidimos trabalhar para que a Câmara Bahiana do Livro não fique de fora dos principais eventos literários. As Bienais: da Bahia (já praticamente fechada a participação) e a do Rio de Janeiro em setembro. Em parceria privada e particular deveremos organizar quatro feiras de livros por aqui. Duas na capital e duas no interior até o final do ano. Pegando carona nas feiras de livros surgiu inusitadamente a idéia de levar às prefeituras do estado títulos de autores baianos para negociação e adoção pelos governos municipais. A SEG-livros se encarregará de fazer a ponte entre prefeituras e autores cabendo para cada um, no caso de venda, a seguinte porcentagem: 20% para o distribuidor (SEG-livros), 30% Câmara Bahiana do Livro e 50% para o autor. Projeto já em ação, é só o autor baiano procurar a Câmara Bahiana do Livro ou mandar mensagem para os seguintes endereços cbal@terra.com.br ou c.vilarinho@yahoo.com.br .
Enfim gostaria de convidar o autor a participar. A Câmara é onde você terá vez e voz. Somos democráticos, queremos a presença do autor nas assembleias e nas reuniões de diretoria também. Venha associe-se.

Carlos Vilarinho
Presidente da Câmara Bahiana do Livro

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

SEGUNDA CANÇÃO ÚLTIMA

Manuel Anastácio


Sobre os arbóreos tramos
Que para nossa abóbada escolhemos,
Enquanto apenas em nós vivemos,
Passou a aragem dos teus gestos entre os ramos.
Sacudiste a seiva que escorria de cada galho
E, tremendo, chovi em pétalas sobre o teu rosto.

Passa o verão, seca o orvalho,
E logo vem a estação do mosto
Destilar, no cobre fosco do alambique,
Alheios fantasmas de vapor entre o calor que morre.
Lá fora, a água escorre.
O musgo medra.
O vendaval procria.
Chegados aos átomos,
Pragmáticos,
Os sábios matemáticos consagram-se à poesia.

A cristal geometria do crisol
Solidifica a demora, e o sol,
Noutra abóbada, noutro lar, noutros tramos,
Sobre outro olhar, onde não estamos,
Apenas orvalhará primaveras noutro, agora, ausente
rosto,
Indiferentemente renovado, no seu quase eterno posto.

Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/)
com entrada pelos meus "Favoritos".
Foto de Levistrauss, retirada do Flickr.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O DRAGÃO DA BICICLETA


Gláucia Lemos


Para Caio Fernandes


O heroi chegou à escola e correu a procurar o maior amigo. Tinha o sorriso mais radiante dos seus 8 anos. Já tirei as rodinhas da bicicleta, estou andando sem as rodinhas, e não cai nem uma vez!
Era uma das suas primeiras vitórias sobre um desafio. Daí em diante estava pronto para tirar as rodinhas de todas as bicicletas da sua existência. Era um forte!
Penso que a vida não é mais que uma sucessão de desafios que se nos impõem. Um após outro, desde que começamos a viver, somos desafiados diante de tudo. Ainda na vida intrauterina, inconscientemente temos o desafio de chegar a termo, e vir à luz. E a partir daí as circunstâncias nos colocam, a todo momento, questões a serem vencidas pelo nosso esforço, nossa capacidade, nossa competência, nosso bom senso, nossa habilidade. Conseguir firmarmos de pé e caminhar, aprender um vocabulário que nos permita comunicação, depois de nos mostrarmos capazes de articular palavras, mediante um esforço que ninguém nos poderá ensinar, e por conta só do nosso pequenino cérebro. E venham mais desafios, aprender a ler, fazer contas, passar de ano, os primeiros encantamentos amorosos, a ansiedade das paixões adolescentes... Quanto mais fortes, maior a inibição diante do objeto que a inspira. Que desafio formidável o romper da timidez, claudicar na inexperiência, e falar dos nossos sentimentos!
Então nos tornamos adultos carregando nos ombros uma certa bagagem que mistura os afagos dos êxitos aos calos dos fracassos, porque, embora não tenhamos ainda consciência disso, estamos arrastando tudo desde um passado que então, para nós, já é mais ou menos distante. E ficamos adultos para nos defrontarmos com novas questões: a concorrência em todos os âmbitos da sociedade, na qual tudo acaba configurado em desafio, por menores que sejam os obstáculos. O emprego, a profissão, a família, a vida amorosa, as implicações financeiras, a educação dos filhos, o contexto social no qual estejamos inseridos. Tudo isso depois de, lá bem atrás, nos termos iniciado na conquista do difícil equilíbrio em cima de um selim, para nossa locomoção sobre duas rodas pouquíssimo calibradas, que, a seu tempo, tinha peso de pódio de fórmula 1. O que vale ressaltar, porque sabemos ser esta uma das grandes conquistas da infância no nosso primeiro decênio.
Devo confessar que, nesta bravata, me defrontei com o maior desafio de toda a minha existência. Aquele que se impôs à minha carência de habilidade, e nunca fui capaz de vencer. Ainda bem para minha cabeça, que tirei de letra outras situações com maior ou menor dificuldade, e, a algumas coisas que, a outras pessoas, poderiam afigurar-se mais penosas, fui empurrada pelas circunstâncias e pude garantir suficiente fortaleza. Não me considero frustrada sob nenhum ponto de vista. Todavia fui vencida pelo monstro da bicicleta.
No caminhar destas reflexões, estou pensando se uma certa covardia que me é inerente, uma acentuada indecisão na hora de olhar de frente algumas das bicicletas que a vida tem me apresentado, não poderão ser filhas da minha antiga inabilidade diante daquele desafio que, ao me por em brios, ganhou de longe, pra mim.
Aquele garoto pode ter fortalecido sua perseverança e sua autoconfiança quando foi capaz de se libertar das rodinhas. Quem sabe se não teria crescido inseguro e tímido, se, como eu, nunca houvesse logrado vencer o dragão da sua bicicleta?


Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. A foto "Uma pausa" é de introspective, retirada do Flickr.