terça-feira, 20 de janeiro de 2009

CÂMARA BAHIANA DO LIVRO

Em tempos de crise, guerra e reforma nada mais natural do que enfrentar desafios. Assim fui convidado para compor, liderar presidindo uma entidade singular e essencial para o desenvolvimento da cultura e do conhecimento. A Câmara Bahiana do Livro. Aceitei depois de saber quem trabalharia comigo. Como vice-presidente, o quadrinhista Antonio Cedraz, já consagrado e reconhecidamente um grande artista baiano, criador da Turma do Xaxado. Os autores Aurélio Schommer, Maria do Carmo Salomão, Valdeck de Jesus, além de a forte parceria com a SEGlivros-distribuidora, todos esses formando a nova diretoria atuante.
Em reuniões decidimos trabalhar para que a Câmara Bahiana do Livro não fique de fora dos principais eventos literários. As Bienais: da Bahia (já praticamente fechada a participação) e a do Rio de Janeiro em setembro. Em parceria privada e particular deveremos organizar quatro feiras de livros por aqui. Duas na capital e duas no interior até o final do ano. Pegando carona nas feiras de livros surgiu inusitadamente a idéia de levar às prefeituras do estado títulos de autores baianos para negociação e adoção pelos governos municipais. A SEG-livros se encarregará de fazer a ponte entre prefeituras e autores cabendo para cada um, no caso de venda, a seguinte porcentagem: 20% para o distribuidor (SEG-livros), 30% Câmara Bahiana do Livro e 50% para o autor. Projeto já em ação, é só o autor baiano procurar a Câmara Bahiana do Livro ou mandar mensagem para os seguintes endereços cbal@terra.com.br ou c.vilarinho@yahoo.com.br .
Enfim gostaria de convidar o autor a participar. A Câmara é onde você terá vez e voz. Somos democráticos, queremos a presença do autor nas assembleias e nas reuniões de diretoria também. Venha associe-se.

Carlos Vilarinho
Presidente da Câmara Bahiana do Livro

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

SEGUNDA CANÇÃO ÚLTIMA

Manuel Anastácio


Sobre os arbóreos tramos
Que para nossa abóbada escolhemos,
Enquanto apenas em nós vivemos,
Passou a aragem dos teus gestos entre os ramos.
Sacudiste a seiva que escorria de cada galho
E, tremendo, chovi em pétalas sobre o teu rosto.

Passa o verão, seca o orvalho,
E logo vem a estação do mosto
Destilar, no cobre fosco do alambique,
Alheios fantasmas de vapor entre o calor que morre.
Lá fora, a água escorre.
O musgo medra.
O vendaval procria.
Chegados aos átomos,
Pragmáticos,
Os sábios matemáticos consagram-se à poesia.

A cristal geometria do crisol
Solidifica a demora, e o sol,
Noutra abóbada, noutro lar, noutros tramos,
Sobre outro olhar, onde não estamos,
Apenas orvalhará primaveras noutro, agora, ausente
rosto,
Indiferentemente renovado, no seu quase eterno posto.

Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/)
com entrada pelos meus "Favoritos".
Foto de Levistrauss, retirada do Flickr.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O DRAGÃO DA BICICLETA


Gláucia Lemos


Para Caio Fernandes


O heroi chegou à escola e correu a procurar o maior amigo. Tinha o sorriso mais radiante dos seus 8 anos. Já tirei as rodinhas da bicicleta, estou andando sem as rodinhas, e não cai nem uma vez!
Era uma das suas primeiras vitórias sobre um desafio. Daí em diante estava pronto para tirar as rodinhas de todas as bicicletas da sua existência. Era um forte!
Penso que a vida não é mais que uma sucessão de desafios que se nos impõem. Um após outro, desde que começamos a viver, somos desafiados diante de tudo. Ainda na vida intrauterina, inconscientemente temos o desafio de chegar a termo, e vir à luz. E a partir daí as circunstâncias nos colocam, a todo momento, questões a serem vencidas pelo nosso esforço, nossa capacidade, nossa competência, nosso bom senso, nossa habilidade. Conseguir firmarmos de pé e caminhar, aprender um vocabulário que nos permita comunicação, depois de nos mostrarmos capazes de articular palavras, mediante um esforço que ninguém nos poderá ensinar, e por conta só do nosso pequenino cérebro. E venham mais desafios, aprender a ler, fazer contas, passar de ano, os primeiros encantamentos amorosos, a ansiedade das paixões adolescentes... Quanto mais fortes, maior a inibição diante do objeto que a inspira. Que desafio formidável o romper da timidez, claudicar na inexperiência, e falar dos nossos sentimentos!
Então nos tornamos adultos carregando nos ombros uma certa bagagem que mistura os afagos dos êxitos aos calos dos fracassos, porque, embora não tenhamos ainda consciência disso, estamos arrastando tudo desde um passado que então, para nós, já é mais ou menos distante. E ficamos adultos para nos defrontarmos com novas questões: a concorrência em todos os âmbitos da sociedade, na qual tudo acaba configurado em desafio, por menores que sejam os obstáculos. O emprego, a profissão, a família, a vida amorosa, as implicações financeiras, a educação dos filhos, o contexto social no qual estejamos inseridos. Tudo isso depois de, lá bem atrás, nos termos iniciado na conquista do difícil equilíbrio em cima de um selim, para nossa locomoção sobre duas rodas pouquíssimo calibradas, que, a seu tempo, tinha peso de pódio de fórmula 1. O que vale ressaltar, porque sabemos ser esta uma das grandes conquistas da infância no nosso primeiro decênio.
Devo confessar que, nesta bravata, me defrontei com o maior desafio de toda a minha existência. Aquele que se impôs à minha carência de habilidade, e nunca fui capaz de vencer. Ainda bem para minha cabeça, que tirei de letra outras situações com maior ou menor dificuldade, e, a algumas coisas que, a outras pessoas, poderiam afigurar-se mais penosas, fui empurrada pelas circunstâncias e pude garantir suficiente fortaleza. Não me considero frustrada sob nenhum ponto de vista. Todavia fui vencida pelo monstro da bicicleta.
No caminhar destas reflexões, estou pensando se uma certa covardia que me é inerente, uma acentuada indecisão na hora de olhar de frente algumas das bicicletas que a vida tem me apresentado, não poderão ser filhas da minha antiga inabilidade diante daquele desafio que, ao me por em brios, ganhou de longe, pra mim.
Aquele garoto pode ter fortalecido sua perseverança e sua autoconfiança quando foi capaz de se libertar das rodinhas. Quem sabe se não teria crescido inseguro e tímido, se, como eu, nunca houvesse logrado vencer o dragão da sua bicicleta?


Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. A foto "Uma pausa" é de introspective, retirada do Flickr.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

PARABÉNS PARA ORDEP SERRA

Gerana Damulakis


Fui com Aramis para a reunião dos três escritores que avaliaram o Concurso Nacional de Contos da Academia de Letras da Bahia/Braskem. Da comissão fizeram parte os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa, Aleilton Fonseca e o queridíssimo Antônio Torres, autor da Trilogia Brasil, nome dado por mim em resenha sobre os romances Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, todos publicados pela Record. Como a doutora em Letras, Rosana Patrício, também compareceu, acompanhando sua cara metade (Aleilton, claro), nós duas ficamos conversando (não trocamos uma palavra sobre literatura, por mais incrível que possa parecer) naquele sofá da sala principal da Academia enquanto os três falavam sobre os originais. Logo ouvimos que chegaram rapidamente ao vencedor. Torres veio do Rio de Janeiro já decidido com o primeiro lugar para o original Sete Portas, o que coincidiu com Aramis. Já Aleilton tinha Sete Portas e um outro título como seus preferidos, mas imediatamente decidiu-se também pelo original que entusiasmou a todos os três. Antônio Torres confessou que se emocionou bastante com a leitura de um dos contos - trata-se do conto intitulado "Cachoeira, a outra".
Voltando aos instantes anteriores ao final da reunião, estávamos Rosana e eu conversando e conversando (parece até aquele verso de T. S. Eliot, em "A canção de amor de J. Alfred Prufrock": "No saguão as mulheres vêm e vão") e, então, o presidente da Academia de Letras da Bahia, Edivaldo Boaventura, chegou, para, desta feita, ouvirmos Aramis dizer: "Sabem que é o autor?". Tinham aberto o envelope que revelava o verdadeiro nome do escritor, até ali conhecido apenas pelo pseudônimo: "O autor é Ordep Serra, antropólogo, autor de mais de uma dezena de livros em sua área, mas inédito em ficção". Ligaram para comunicar o prêmio, falaram com Ordep. Posso dizer que os três estavam tão contentes. Foi uma bonita reunião, a unanimidade é sempre encantadora, é uma comunhão (koinonia, ou seja, o que se tem em comum, o que se partilha, se ainda lembro algo do grego): mérito do escritor premiado.


SONETO DEMODÉ


Gláucia Lemos



Sangro este amor tardio que celebro.
Este bocado meu que conquistaste.
Que se rendeu sem pejos, sem disfarce,
metades de verdade e de incerteza,

que faz vigília nos murais do medo,
que da agonia faz o seu recado,
que não se basta do provar seu cardo,
e te diz tanto, sem saber dizer-se.

Por tanto ser, se consagrou nos lábios
da tua fome, e me prostrou cativa.
Na minha sede sonda o teu sobejo.

Não me tires a dor, se ele me causa.
Que se hei de ser feliz na paz vazia,
dá-me a infelicidade do teu beijo.



Gláucia Lemos é autora de 33 títulos, sendo o mais recente Bichos de conchas (Scortecci, 2008).

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

REFLEXOS


Fernanda Quinderé

Diante do espelho
- Lâmina cruel do tempo
Procuro tua alma
Deflorando-me
Tua sinalização ereta
Orvalhando-me
Tua boca sagrada
Construindo-me
Lentamente
Nas argamassas do desejo
És totalidade da ausência
És destino que não nos quis
És pouco do muito que restou
Na solidão feita de azul
No rio verde em que te fiz
Homem
Em que te vi pássaro
Transformando-se em estrela



Do livro Cordilheira do fogo (Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2008).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

NÓS, OS AQUARIANOS



Gerana Damulakis

O mês de janeiro já começou com o aniversário da poeta Kátia Borges, mas ela todavia fica no signo de capricórnio. Janeiro adentro teremos muitos aniversários, inclusive o meu (buá!). Os aquarianos são: Ildásio Tavares, prosador, ensaísta, poeta de mão cheia e pessoa certa do meu afeto; Flamarion Silva, contista, cada vez mais sabedor do valor da linguagem nas histórias que conta, meu afilhado literário e companheiro de aniversário (no nosso 29 de janeiro); Cyro de Mattos, poeta, contista, premiado tantas vezes pelo seu inegável valor. E dia 31 de janeiro, o romancista, contista e poeta Aramis Ribeiro Costa, este que mora no meu coração (aquário com aquário, dá para imaginar o quanto já sonhamos juntos).



Foto "Signo de Aquário", de nightcrawler6, retirada do Flickr.