terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ONDE SE CALOU UM AGRADECIMENTO



Gláucia Lemos



Recebi um presente que não agradeci e que, conquanto honrada pelo ofertante, jamais agradecerei.
Anos passados, tantos que mais parecem beirar os séculos, A Tarde Cultural era “risonha e franca” aos autores da terra. Entre eles, esta escriba, com notável freqüência, comunicava em suas páginas, pesquisas e estudos no formato de ensaios de arte. Não sabia que, entre seus leitores, um poeta, tradutor de vários idiomas, crítico de arte respeitável e respeitado, estava fielmente tomando conhecimento do seu trabalho, dispensando-lhe atenção.
Em uma ocasião, conversando com amiga comum, quis ele saber quem era a autora dos ensaios e pediu para conhecê-la. Ficamos de fazer-lhe uma visita, já que ele tinha dificuldade de locomoção. No entanto, apesar da boa intenção, essa visita jamais se concretizou, por motivos os mais diversos.
Ocorreu que no ano de 2001 aquele senhor, que outro não era que não o conhecido e festejado poeta e crítico, Wilson Rocha, publicou o livro Artes plásticas em questão e me fez chegar às mãos, por intermédio da referida amiga, um exemplar autografado elogiosamente. Tive o prazer de desvelar-me em apuro para escrever a resenha e encaminhá-la para A Tarde Cultural, pois era um tempo bom, em que a prata da casa publicava com freqüência naquele caderno. Obviamente a resenha foi lida pelo resenhado que, gentil, autografou seu livro de poesias mais recente Poesia Reunida e endereçou-o ao jornal para que esta autora o recebesse. A amiga comum mudara de cidade, e ele não tinha meu endereço nem telefone. Atirou no escuro.
Mas o tempo passou. Eu não esperava qualquer agradecimento, muito menos alguma manifestação do autor do livro. Estava feliz e satisfeita pela oportunidade de ser apreciada por ele, agora em relação a suas próprias idéias. Sabendo, como sabia, que minha assinatura em um artigo sempre merecera sua atenção. Ele era, com certeza, o meu mais ilustre leitor.
Wilson morreu em um desses últimos anos. Não cheguei a vê-lo, ele não me conheceu, como demonstrara desejo, por admiração - não por mim, mas pelo meu trabalho publicado.
Neste início de 2009, chega-me às mãos, como um presente de ano novo, o exemplar de Poesia Reunida, autografado com um agradecido abraço e as lembranças amigas. Datado de 3 de março de 2003. Beirando os 6 anos de ter sido escrita esta dedicatória chega finalmente a seu destino.
Doi-me não ter podido corresponder à sua possível expectativa de que certamente eu lhe dissesse Recebi seu livro de poemas, muito obrigada. Não se deixa de dizer muito obrigado a um amigo que nos doa uma parte de si. Não se pode deixá-lo esperando uma palavra que se devia dizer. Eu não disse. Estou devendo isso a mim mesma.
Assim são as circunstâncias.

É da autoria de Wilson Rocha, o poema seguinte, retirado de Poesia Reunida.


EXTENDE MANUM TUAM SUPER MARE
A Maria Inês Maldonado

Busca os mistérios mais sutis, esses
de que se formam as coisas mais simples
- o sortilégio do azul, por exemplo,
que é a infância das sombras,
e a tristeza do amor
feito de solidões.
Olha profundamente a beleza fugitiva
a forma vã, a pequenez da criatura
- essa impressentida extensão.
Guarda cada momento que é a vida passando
- esse mover-se em distâncias.
Escuta no teu e em cada coração
o fluir da eternidade destilando
a densidade dos tempos.
Contempla a majestade do infinito.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

PRIMEIRA CANÇÃO ÚLTIMA

Manuel Anastácio


Guardo o desejo
De te guardar,
Como te fazes lembrar no resplendor das cinzas
Sobre o espelho esquecimento do terror das águas,
Na memória dos mortos que nos limitam a respiração
A um frio arrepio de esperança
Disfarçado de canção.
Esquecido será já o teu sorriso sob o escuro musgo do
paraíso,
E continuaremos a sonhar com árvores, crepúsculos,
Com o teu cheiro a tangerina,
E com o arco abaunilhado dos teus olhos
No negro inconformado de um reflexo de quitina.
Como um milagre de inverno rescenderás
A rosas e a pão quente
E verás em mim
Aquele que o abraço da terra vence,
Ao, somente, respirar.
Abraçar-me-ás em terno silêncio, sem que mais pense,
E poderei, por fim, em ti ,descansar.



Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/). Foto "Cataratas do Iguaçu", Paraná, Brasil, de Ricardo Kuehn, retirada do Flickr.

sábado, 3 de janeiro de 2009

VAMOS ESQUECER O TREMA, CERTOS ACENTOS, O HÍFEN EM MUITOS CASOS



Não esqueçam: desde 1º de janeiro de 2009 entrou em vigor o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

A maior parte dos jornais, a exemplo da "Folha de São Paulo" e do "O Estado de São Paulo", dois dos principais jornais do Brasil, adotaram desde o dia primeiro de janeiro as novas regras da reforma ortográfica da língua portuguesa.

Foto de menina.da.LUA, retirada do Flickr.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ESPAÇO UNIBANCO DE CINEMA GLAUBER ROCHA



Espaço Glauber – o Ouro

Ildásio Tavares

Sair de minha choupana em Itapuã onde durmo ao embalo da música das ondas que Debussy tentou captar a vida inteira; sair do meu sossego atlântico, ainda mais de noite, só mesmo por alguma coisa muito sedutora ou muito do meu afeto. Desta vez, eu ainda tive o incentivo de uma musa inspiradora, uma amiga fiel que veio me pegar em casa e, na volta, me deixou no Iguatemi na cara de um táxi. E desta vez o estímulo foi duplo – sedução e afeto.Tratava-se da revitalização do antigo Cinema Guarany, rebatizado de Glauber Rocha e agora devolvido ao público baiano em grande estilo. A inauguração oferecia, de quebra, um clássico, O Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade, obra prima de nosso genial cineasta.
Este belíssimo filme ganhou, lá fora, o título de Antônio das Mortes para facilitar o público, mas para descaracterizar um aspecto da proposta do mais brasileiro dos cineastas de fazer um cordel cinematográfico, referencializado no título original. Gláuber usa, inclusive, a linguagem do cordel nos diálogos e a parodia no mis-en-scène. A película não podia ser mais nordestina, uma perfeita alegoria das relações de dominação no sertão, flagrando, de forma magistral, a catarse de Antônio das Mortes que desperta de seu letargo de matador de cangaceiros=sertanejos e parte para combater o verdadeiro mal configurado no latifúndio e nos seus coronéis - passa de dragão para santo, ao lado de Mário Gusmão feito S. Jorge. no final.
É digno do primeiro mundo, o espaço Glauber Rocha. Vi algo semelhante em Roma, um espaço multiuso onde assisti a um fabuloso concerto sinfônico. O espaço, não pretende ser uma mera casa de espetáculos. Possui variada vocação cultural – uma livraria, uma galeria, um restaurante quatro salas de projeção finamente equipadas, poltronas das mais confortáveis e com uma técnica de projeção que une o mais bem resolvido da imagem ao mais bem requintado dos sons, o que pude constatar na exibição do filme de Glauber cuja cópia, por sinal, rivaliza com o original em qualidade.
Lembro-me de que vi o filme original no Cine Capri, com Aloysio de Oliveira que aqui estava na produção do filme Capitães de Areia, (obra de Jorge Amado) de Hall Bartlett, diretor de um filme de sucesso na época, Fernão Capelo Gaivota, (Jonathan Seagull). Aloysio fora aos Estados Unidos com o Bando da Lua, acompanhando Carmem Miranda, e trabalhara com Walt Disney. O tempo todo, ele reclamou de defeitos técnicos do filme, na montagem, inclusive. Vendo o filme agora, na verdade não descobri nenhum. Acho que foi pura birra do meu amigo Aloysio que cobrava o filme fosse hollywoodiano, a última coisa que Glauber gostaria para um filme que fez com as vísceras do nordeste de fora.
Espero,que as autoridades prestigiem o esforço criativo que brindou a Bahia com este espaço. À frente da Fundação Gregório de Mattos um poeta da maior expressão, terá o desafio de rechear a praça; de Criar e recriar e de acrescentar mais ouro a este ouro que nos deram.

SPECTOR

Gerana Damulakis

O poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos leu a postagem que Kátia Borges colocou no seu blog, Madame K (http://mmeka.wordpress.com/), no dia 29 de dezembro. Trata-se de um texto de Clarice Lispector com considerações em torno de "se eu fosse eu". Não foi preciso mais: Luís escreveu o soneto seguinte. Desfrutem verso a verso, leiam e releiam.


SPECTOR

Luís Antonio Cajazeira Ramos

Clarice, “se eu fosse eu” não faz sentido.
É como se eu pudesse ser alguém.
Pois nem ser eu sei ser, quanto mais quem
houvesse além de si haver havido.

Melhor deixar aquém o ser contido
e se deixar além de todo além.
Há muito que essa vida não faz bem
a quem vive pensando ou comovido.

Melhor não ser Clarice nem ser eu,
Clarice, nem ser eu a te dizer
o que é melhor – a ti, que já morreu

em mim o que queria conhecer
o que sentia, o que queria meu
um jeito, no sem jeito de viver.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

PAISAGEM: A PONTE ESTAIADA OCTÁVIO FRIAS DE OLIVEIRA


Gerana Damulakis


A definição do Aurélio para o vocábulo ‘paisagem’ é: espaço de terreno que se abrange num lance de vista. O Rio de Janeiro é o campeão em matéria de paisagens belas, paisagens dignas de cartões postais. Tem o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, a própria Copacabana, para ficarmos nos pontos turísticos imediatamente lembrados, porque há outras belíssimas paisagens. A minha cidade vem em seguida: o Farol da Barra, o Porto da Barra, o Elevador Lacerda, uma quantidade enorme de praias, o Farol de Itapuã, para ficarmos também apenas nos lugares mais evidentes. Já a cidade de São Paulo não tem nada que nos faça querer olhar de novo. Claro está que tudo vem do meu ponto de vista, não há pretensão de plasmar verdades absolutas. Voltemos a São Paulo: o Viaduto do Chá ou a vista do restaurante Terraço Itália seriam suficientes para extasiar o olhar? Não acho, embora não esqueça as maravilhosas horas que passei no Terraço Itália em certa noite regada com paixão, por ocasião de uma Bienal do Livro de São Paulo: o manto de luzes que recobre a cidade vista lá das alturas do restaurante, a música brega apropriada para os enamorados, a boa comida e, no meu caso, a companhia do meu amor; foi inesquecível, sempre digo a Aramis o quanto adorei aquela noite já quase no final do século XX. Mas, neste dezembro, retornei a São Paulo carregando a minha tristeza, o peso da perda de meu pai, peso este que não me deixa e traz sombra ao meu olhar; contudo, eu fui com disposição suficiente para, deslocada daqui, abrir meu estado de ânimo para a música de Madonna e acabei me encantando com a vista do meu quarto de hotel no Morumbi: o novo cartão postal de São Paulo, a Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, inaugurada no dia 10 de maio deste ano. Achei, num lance de vista, um espaço tão belamente ocupado, me alegrei tanto ao admirar a arquitetura e a grandiosidade da ponte, que aí está a foto tirada do hotel. De noite ela estava iluminada para o Natal, cheia de estrelas, mas as fotos não estão tão boas. Posso dizer agora que a minha paisagem preferida em São Paulo é a visão da Ponte Estaiada.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

LIVRARIA CULTURA

Gerana Damulakis

Na postagem de 30 de novembro último, intitulada “Livraria Cultura”, José Saramago, em seu blog O Caderno de Saramago (http://caderno.josesaramago.org/page/17/), escreveu:
“A última imagem que levamos do Brasil é a de uma bonita livraria, uma catedral de livros, moderna, eficaz, bela. É a Livraria Cultura, está no Conjunto Nacional. É uma livraria para comprar livros, claro, mas também para desfrutar do espectáculo impressionante de tantos títulos organizados de uma forma tão atractiva, como se não fosse um armazém, como se de uma obra de arte se tratasse. A Livraria Cultura é uma obra de arte.
O meu editor, Luis Schwarcz, da Companhia das Letras, sabia que me ia emocionar este portento, por isso me levou. Também me tocou bastante a livraria da Companhia, ver estantes luminosas com obras de fundo, os clássicos de sempre expostos como outros fazem com as novidades. E todos juntos oferecidos ao leitor, que tem o difícil mas interessante dilema de não saber que escolher.”
No dia seguinte, parece que o encantamento ainda tomava conta das lembranças do autor de A viagem do elefante, haja vista o retorno ao mesmo tema: “Ontem deixei aqui algumas frases admirativas sobre as magníficas instalações da Livraria Cultura, em São Paulo. Ao assunto volto, em primeiro lugar para reiterar como justiça devida, a impressão de deslumbramento que ali experimentámos, Pilar e eu...”
A livraria Cultura é realmente uma obra de arte, como definiu meu autor de cabeceira. E ali estive por conta do entusiasmo dele. Na foto, como comentei com Kátia Borges, pareço, metaforicamente, é óbvio, uma criança visitando uma doceria ou uma loja de brinquedos, dado o sorriso de um canto ao outro. Para quem ama os livros, a Cultura é um templo.
Notinha: não estranhem tanta roupa em pleno dezembro, lembrem que havia uma frente fria no sudeste do país na semana dos shows de Madonna e, afora a desculpa verdadeira, lembrem que eu sou da Bahia, terra do sol e da alegria.