terça-feira, 16 de dezembro de 2008

INFINITUDE

Gláucia Lemos


Se me vieres, pouco te pedirei.
Não alteres teus horários
para ajustares aos meus.
Se o fizeres
te amarei com alegria.

Não desafies semáforos
para me veres mais cedo.
Se o fizeres,
a cada dia morrerei de susto,
e te amarei com remorso.

Não me jures amor eterno
para pintares sorrisos em minha face.
Se o fizeres,
pensarei na impermanência dos destinos
e te amarei sem certezas.

Não te peço que respeites meus ciúmes
para me veres tranqüila.
Ah, se o fazes...
Com quanta gratidão eu te amarei!

Só te peço que se um dia me vieres
rasgues de mim todas as solidões.

E me serás da terra, todo o bem,
e todo o mal serás.
E a tua completude
eu amarei sem qualificativos,
com esse amor absoluto de mulher.


Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. Sua vasta obra está atualmente com 33 títulos publicados.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A ÚLTIMA CEIA

Flamarion Silva

Olho minha mulher sentada à mesa. É Natal. Ceamos. Posso olhá-la à vontade, até certo ponto. Cronometro na cabeça o limite do meu olhar. Às vezes, propositalmente, ultrapasso essa barreira cronológica, só para ouvir seus xingamentos, só para sentir no meu coração apaixonado todo o ódio que ela nutre por mim. Ela bate na mesa com sua mão firme, que antes, isto bem antes, me acarinhava. Agora bate. Mas não me fere. Cada vez que a provoco é para que saiamos da inércia em que nossa vida se enfiou. Grita comigo. Minha linda mulherzinha esbraveja comigo e um pouco da comida da sua boca salta e bate no meu rosto, na minha boca. Abaixo a cabeça.
– Homem submisso. Fracote. Molambo – sei que ela diz essas coisas de mim. Mas o que ela nem ninguém percebem é que, ao me abaixar, submisso, o meu amor se nutre um pouco da vida dela. A língua, lenta, lambe o lábio e recolhe o alimento triturado, amassado, salivado pela sua boca.
***
– Quer mais frango? – ela perguntou outro dia. Quando? Olhe como o tempo é engraçado! Faz tanto tempo. Já se passaram tantos Natais.
– Quer mais frango? Vamos, queira, vou servir.
– Posso pegar uma coxa? – pergunto.
– Animal. Animal. Não pode ver comida. Tudo para se amostrar. Quando vê gente fica assim – ela diz, nervosa, e, sem modos e sem paciência, enfia com raiva um garfo enorme na coxa do frango, na maior coxa, na mais gorda coxa, e atira-a dentro do meu prato, respingando óleo na minha roupa branca de festa, manchando-a. Não reclamo, não lhe digo nada.
– Porco. Animal. Não pode ver comida.
***
Sorrio. Não repare, ela sempre foi assim estourada. Veja como me ama: agora mesmo acabou de derramar no meu prato um pouco de carne que sobrou. Ninguém quis.
– Como “ninguém.” Então há mais alguém além de mim e ela?
Nossa! Como a mesa está cheia! Filhos, genros, noras. E netinhos tão lindos!
– Vem cá para o vô, vem.
– Vô não – responde o menino, emburrado – Vô não – e me chuta a canela ferida, e dói, e sinto que sangra, mas não digo nada, ninguém pode perceber, estragaria o momento, não seria higiênico.
O sangue, misturado ao pus da ferida, gruda na calça. É uma ferida antiga que não sara. Já pensou, mostrasse o magoado sangrando e aí mesmo é que ela, com razão, me chamaria de porco.
Sorrio.
– Ah, zanguei – faço uma cara engraçada, de condoído, para o meu netinho.
– Macaco feio – ele me chama.
Todos sorriem. Veja como foi engraçado e como todos se acabam no riso.
– Posso pegar outra coxa? – pergunto.
– Não! Já vou tirar a mesa – e rápida raspa a tigela, os pratos, toda a comida da mesa.
No corredorzinho, indo à cozinha, olho seu corpo de moça, cinturinha delgada, nádegas volumosas, os cabelos compridos... Aspiro o rastro de alfazema que ela deixa.
– Pare de farejar a comida – ela diz, virando-se para mim, gritando, quase soltando, saltando a dentadura da boca, quase caindo de tonta.
***
– Calma, minha mãe. Calma – ouço a voz dela, num outro canto – E o senhor, meu pai, pare de aborrecer minha mãe.
– Ora, minha filha, não fiz nada – respondo, agora percebendo minha filha já de pé, segurando a mãe para não deixá-la cair. Tão parecidas!
Num outro canto, ouço cochichos, sibilos, cicios.
– Internar.
– Onde? Como?
– Mas quem vai querer o traste?
– Agüentemos mais um pouco. Logo emborca, embarca mesmo.
– Vaso ruim não quebra, minha filha – diz alguém com voz cínica, bêbada e esganiçada.
– Não fale assim dele. É meu pai.
Viro-me para ele, o cretino do meu genro e...
– Imbecil! Imbecil! Imbecil!
E três batidas firmes na mesa.
Minha voz saiu clara, mas todos insistem em dizer que, de tão bêbado, nem consigo falar. Deve ser o maldito bolo crescendo na minha boca que me obstrui a voz. E, agora, todos me condenam e chegam ao consenso de que é melhor internar.
– E rápido. Amanhã mesmo. Amanhã mesmo, logo cedo.
Cochichos. Sibilos. Cicios.
***
Daqui a pouco a festa acaba e todos vão embora. Festa de que mesmo? Ah, Natal.
– É tarde. Vocês dormem aqui. Arranja-se lugar.
– Eu tenho pena. Não passa de um doente.
– Então, interna-se. Não há outro remédio.
– Durmam no meu quarto, que é grande. Já está dormindo. Bebeu demais...
– Quê? A festa já acabou? – pergunto-me – Para aonde foram todos? E este silêncio... O maldito relógio. Não consigo ver as horas. A catarata anuviou tudo.
– Meu bem. Meu bem – digo alto, isto algum dia. Dúvidas. Pensamentos. Fantasmas que me assustam – Xô! Xô! Quê? Internar? Levanto-me. Upa, upa, quase caio. Internar? Ora, mas quem eles pensam que são? Separar, separar assim, cruelmente, duas vidas que Deus... E o que Deus uniu, o homem não separe. É um mandamento. Um mandamento. Um... Para sempre juntos, para sempre.
***

Dirijo-me ao quarto dela. O meu fica um pouco mais lá no fundo do corredor. Casa grande... Faz anos que nos separamos. Mas estamos juntos. Repare bem: juntos. É um paradoxo, eu sei, mas o teto ainda é o mesmo. Habitamos o mesmo espaço, partilhamos tantas coisas de anos: o cheiro dela, a voz, o andar, antes lépido e fagueiro, hoje arrastado. É esse som. É esse cheiro de alfazema. Os gritos e os desarranjos. E foi principalmente o ronco que, tantas noites, passo a passo pelo corredor, levou-me ao quarto dela, e lá, quietinho, no escuro, ouvia-o com prazer. De certa forma, esses pequenos detalhes preenchem minha vida, sem os quais não vivo. A faca. E o que Deus uniu, o homem não separe.
A porta aberta.
– Venha, venha por aqui. Escuro, mas o tato já sabe o caminho. Cuidado, o pé da cama. Aqui. Aqui, um momento, paremos. Ouça:
– Ronc! Ronc! Ronc!
– É o ronco dela. Aqui os pés. Aqui a barriga. Aqui a cabeça. E aqui, mais embaixo, o coração.
Ergo a cabeça e as mãos para o céu escuro do quarto e desço de vez, uma, duas, três vezes.
– Meu amor! Meu amor! Meu amor!
***
O escuro do quarto não me deixa ver o corpo. Sinto-o.
O corpo meio curvado, feito criança no útero. Sangue. Criança no útero, abortada. A boca travou.
– Não, não faça birra. Birra é uma palavra do meu tempo, quer dizer “teimosia.”
Os lábios ainda mornos, viçosos e carnudos... Ainda como antes. Sinto-os com os meus. O gosto de sangue na boca. Beijo de sangue...
– Ela apagou – digo por fim, com a certeza de quem desperta de um sonho tenebroso. Acendo a luz e vejo dois corpos na cama. No mesmo instante, minha mulher abre a porta do quarto, olha a cama e vê o corpo ensangüentado. Leva as mãos à boca e arregala os olhos. Um grito de pavor ecoa por toda a casa.

Flamarion Silva é autor de O Rato do Capitão (Secretaria da Cultura e Turismo/ EGBA, Coleção Selo Letras da Bahia, 2006).

MARIA DE CADA PORTO




Gláucia Lemos


Foi sob a impressão do filme A ostra e o vento de Walter Lima Filho, que fui à procura do romance homônimo que lhe dera origem, e encontrei seu autor, Moacir C. Lopes, nas prateleiras de uma estante virtual. À minha disposição lá estava o elenco de romances escritos por ele. Ao que parece, a maioria com temática praieira, reveladora de uma preferência bastante sintonizada com a minha.
O autor começou marinheiro, evoluindo no sentido cultural, chegou a tradutor e professor de Literatura.
Sou dos leitores que, conquistados por um autor, não se satisfazem com pouco, vão à cata de sua produção, até o limite que lhe seja imposto. Assim fui atraída por Maria de cada porto, romance com o qual Moacir Lopes inaugurou sua trajetória literária. Ele o escreveu para matar o tédio, durante as viagens de marinheiro, nas horas de descanso, e narrou justamente a vida dos homens do mar, no período da Segunda Guerra Mundial.
O livro tem início com a explosão do navio Bahia, no qual o protagonista, Delmiro, estava servindo. A narrativa, em primeira pessoa, evolui marcada pelos dias em que permaneceu, com vários companheiros, em uma das balsas que ficaram à deriva, todas ocupadas pelos sobreviventes do barco atingido, quase amontoados a ponto de ficarem com pernas e flancos submersos, dado o pequeno número de balsas com que contavam.
O desenvolvimento é bem balanceado. Temos o sofrimento dos náufragos, ao sol e ao sereno, sedentos e famintos, desesperançados de qualquer socorro, sem mínima condição de comunicação com a base ou com outros navios, assistindo a morte de companheiros vencidos por todas as carências, ao enlouquecimento de alguns, e ao suicídio de outros, farejados todos pelos tubarões ao redor das balsas, ou feridos por inevitáveis contatos com as águas-vivas trazidas pelas correntes marítimas. Dia após dia de desespero e noites de atormentadas vigílias. No interregno da narrativa dessas horas, conhecemos as recordações de passagens referentes à vida normal da marujada, fazendo o contraponto pitoresco. Os amores de ocasião ou de sentimento deixados nos portos, as festas e divertimentos improvisados, as brigas, as perseguições e a camaradagem, tudo é exposto com a verdade das diferentes personalidades dos protagonistas. Moacir Lopes é um excelente narrador dos fatos – reais ou fictícios, tornando leve a evolução da história, inteiramente despreocupado de retórica. Interessa-lhe o cunho de verdade dado às ocorrências, a definição do perfil de cada personagem, quase todos identificados por alcunhas bastante criativas, dando-nos, muitas vezes, a impressão de estarmos diante de pessoas vivas agindo e interagindo conforme os fatos.
A Maria de cada porto vem a ser todas as Marias, Dolores, Ninas e Detinhas que os amavam realmente ou só por um dia; que os esperavam em cada porto, ou simplesmente se deitavam com os marujos para lhes proporcionar o carinho ausente durante a longa solidão das travessias. Temos nesse livro um documento, ou um relato vivo, ainda que configurado em estrutura de romance, talvez atos e fatos nascidos da imaginação com raízes na experiência cotidiana de quem experimentou de perto e na pele, as agruras da vida no mar durante uma guerra. Isso com a consciência da absoluta insegurança, e a certeza de que cada olhar ao horizonte, cada passo na rampa de acesso ao barco, cada retorno aos postos após a breve licença em cada porto, cada noite ilusória nos braços de qualquer Maria, poderiam ser os últimos de cada um.

Gláucia Lemos lançou recentemente o seu 33º título, o romance Bichos de Conchas (Scortecci, 2008).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

INTROSPECTO

Gláucia Lemos


Gosto de viver comigo mesma,
sou minha amiga.
Quando uma saudade bate o ponto
sou paciente para me assistir
à inútil chuva dos meus olhos.
Lavar o rosto depois,
passar batom,
e ir ao cinema.

Não me incomodo de olhar o reflexo
de um sorriso gasto.
De sentir raiva
por não sentir raiva
de andar sorrindo para a solidão.

Talvez não saiba amar.
Mas é tão feia a noite
quando descubro
que ando gostando de viver comigo mesma.


Gláucia Lemos é poeta, cronista e ficcionista, autora de 33 títulos publicados. A foto traz a capa de seu mais recente romance, intitulado Bichos de Conchas (Scortecci, 2008).

domingo, 7 de dezembro de 2008

O MAGISTRAL CONTO DE NATAL


Gerana Damulakis


Se entrarmos nas histórias que envolvem um homem e uma mulher numa noite de Natal chega imediatamente a lembrança de O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, com seu magistral conto “O Presente dos Magos”, aproveitando o Natal e a arte de dar presentes inventada pelos magos para narrar uma prova de amor, o amor com generosidade, o menos ambivalente dos amores, talvez o sábio, o mago amor.
Temos um casal pobre: cada um deseja intensamente presentear o parceiro. Eles têm dois únicos tesouros: ele, um relógio de ouro, que pertencera ao avô, mas que levava preso num cordão de couro gasto, fazendo-o sentir vergonha ao consultá-lo: ela, portadora de uma vasta cabeleira, como uma cascata caindo-lhe pelas costas. Sem que um soubesse da angústia do outro para resolver o problema de como obter dinheiro e comprar um presente, acabam demonstrando a mesma intensidade de amor (ou a mesma maneira de senti-lo).
Ele vende o relógio e compra um jogo de pentes de tartaruga legítima, pentes orlados de pedraria, para os cabelos da amada. Ela vende o cabelo, que é cortado tão rente a ponto de conferir-lhe a aparência de um meninote, e adquire um bela corrente de platina digna do relógio do marido. É o conto magistral, sem outros comentários.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

DEZEMBROS



Aramis Ribeiro Costa


A mente lerda, entorpecida, arrasta
Em lentidão o tempo, idéias, membros
A tarde é morna e a própria vida é gasta
Na lassidão completa dos dezembros.

Nas esperanças dos janeiros basta
A vida que desbasta dos novembros
E a tarde se acomoda, lenta e vasta
Na tessitura lorpa dos dezembros.

O mormaço conjuga clima e fados
E em planos inconclusos e adiados
A tarde dezembral planeja e lembra.

São tempos vesperais que sinos plangem
Enquanto idéias poucos ventos tangem
E a mente, mole, sem querer, dezembra.

Aramis Ribeiro Costa é ficcionista e poeta. "Dezembros" está no livro Espelho Partido (FUNCEB, 1996).

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

OS DIFERENTES GOSTOS DO DOMINGO


Maíra Correia



Certas coisas cheiravam a certezas e tinham gosto de domingo, naquele tempo em que domingo ainda era feliz, naqueles dias que domingo significava respirar tão fundo e balançar na rede. Dias de acordar às 5 horas da manhã e ir até a mangueira, com aqueles olhinhos curiosos e uma caneca com açúcar e canela em mãos, maravilhada com a descoberta de que o leite não vinha em saquinhos.

Dias de jabuticaba no pé, vaga-lumes, visitas às plantações de café, passeios de camionete, cavalos selados, alface fresco na horta… Assim foi minha infância, grande parte dela passada em companhia do meu avô, por aqueles pastos, por aquele pomar com jabuticabas e mangas… e por mais urbana que eu seja, são aqueles dias de caçada de vaga-lumes, de andar de trator, de abrir porteiras e passear por entre os pastos, que ficaram na memória como as mais doces recordações do meu avô.

É o cheiro de pé de pitanga que sinto todo domingo e por mais que aquela primeira cadeira do lado esquerdo da mesa esteja vazia, são as mesmas histórias que ecoam pela minha mente quando olho pra ela.

Era sempre assim, ele sentava com uma latinha de cerveja com água tônica ou uma taça de vinho e repetia aquela história de como subiu naquele navio aos 16 anos e de repente estava no Brasil. As risadas ainda podem ser ouvidas ao fundo, quando ele narrava o inconcebível episódio do frango assado que ele esqueceu na mala. A história das três namoradas antes da vovó, o namoro com a vovó no cinema, as balinhas para distrair os cunhados, o casamento em Aparecida, naquele tempo onde não existiam estradas e os carros andavam só a 30 km por hora. O sorriso de canto de lábio e as histórias das caçadas de tatu, de espingardas e de laxantes em garrafas de café… Ah! As histórias com gosto de domingo!

As plantações, as idas até a máquina de arroz, as brincadeiras na palha, olhar admirada todo aquele maquinário que te fazia se sentir uma formiguinha, ficar toda orgulhosa no colo do seu avô, enquanto ele te ensinava como o arroz da palha, de repente, está dentro de um saco e voltar para casa senhora de si, carregando aquele primeiro pacote de arroz que você empacotou, como quem carrega o pote de ouro do fim do arco-íris.

Férias tinham gosto de bolo de milho e pamonha, naquelas tardes em que seu avô chegava com as espigas que tinha apanhado antes da colheita de verdade… e lá estava sua avó na beira do fogão, ensinando as mil coisas que você poderia fazer com o milho, quando, na verdade, você a olhava arteira, imaginando se não poderia roubar um ou outro milho para dar para os cavalos.

Domingo tinha um som peculiar… som de bolero, som de músicas antigas, som de Mercedita tocada na vitrola. Domingo tinha som de vovô… sentado naquele mesmo sofá, tentando entender as particularidades do controle remoto, aquele aparato semi-alienígena. Você sentava no tapete e ria, explicando como ligar. Depois ele veio a se tornar o expert dos controles remotos e descobriu as maravilhas da tevê a cabo e vocês passavam o dia vendo aqueles programas portugueses, onde você não entendia nenhuma das piadas e ele ria e falava daqueles “alfacinhas de Algarve”.

Os dias de shopping tinham gosto de reclamações, onde ele, impaciente, implorava para sua avó comprar logo o que tinha que comprar, mesmo quando ele não ia junto para as compras, ele reclamava quando demoravam… e esperava, sentado naquela poltrona em frente a porta de entrada, só para dizer : “caipiras que são assim, não podem ficar na cidade grande que já se deslumbram”.

Vovô adorava comprar carros, sua maior diversão era escolher camionetes, negociava por meses antes de comprar de fato. Adorava gado, cavalos, leilões e plantações. Vovô adorava dar bezerros de presente… e vovô adorava domingos.

E foi em uma terça que prometemos estar no final de semana naquele hospital, e foi em uma terça que minha mãe disse que ele tinha que melhorar porque no final de semana o levaríamos para casa. E foi em uma terça que ele sorriu e brincou pela última vez e foi em uma terça que ele balbuciou umas poucas palavras, as últimas palavras ditas. Mas esperou o domingo… aquele domingo que prometemos ir ao hospital para levá-lo pra casa e foi em um domingo que o cheiro de pitanga deu lugar ao cheiro mórbido das flores, e foi em um domingo que as gargalhadas deram lugar aos olhos inchados e ao choro. E foi em um domingo que cumprimos nossa promessa, e foi em um domingo que o levamos pra casa, mas não do jeito que queríamos, mas foi em um domingo… assim que chegamos no hospital, porque os domingos eram os nossos domingos… porque minha mãe tinha dito e prometido que meu irmão estaria lá… naquele domingo… e que o levaria pra casa… foi em um domingo.. o último domingo.



Maíra Correia é paulista e publica seus contos no blog http://www.vidaemposts.wordpress.com/
Foto "Santo Domingo sunset", de pericles 1492, retirada do Flickr.