sábado, 13 de setembro de 2008

UM POEMA DE LAU SIQUEIRA


razão
nenhuma


o que escrevo
é apenas parte
do que sinto

a outra parte
finjo que minto
e acredito


Lau Siqueira tem 4 livros de poemas: O Comício das Veias (Ed. Idéia-PB, 1993), O Guardador de Sorrisos (Ed. Trema-PB, 1998), Sem Meias Palavras (Ed. Idéia-PB, 2002) e Texto Sentido (Bagaço-PE, 2007).

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

SIM, AMEMOS A VIDA


Gláucia Lemos

O silêncio sempre me disse coisas. Esta frase não é minha, é de Marcela, a personagem do romance A Metade da Maçã. Mas a mim também o silêncio diz coisas, não só diz, às vezes também pergunta. Hoje ele me perguntou por que fazemos tanta questão de viver? Por que todos (ou a maioria) olhamos a morte com horror, como se não fosse ela a verdadeira finalidade da vida de todos nós. É para ela que caminhamos, desde o primeiro instante do nascimento. Ao longo das vivências, passamos por experiências agradáveis e desagradáveis, mas apenas passamos, não permanecemos nelas, não são nosso ponto de chegada. Elas vão ficando para trás e nós prosseguimos porque teremos que ir a outro destino inevitável. Por que vivemos se teremos que morrer, é a pergunta cuja resposta a nossa vã filosofia não consegue alcançar, e as diversas conclusões a que chegam as religiões não sei se satisfazem plenamente tantas inquirições que pairam em torno dela. O fato é que com a morte e só com ela é que se encerra a repetição de experiências vividas e superadas. No entanto teimamos em olhar para ela com olhos oblíquos, por cima do ombro, e a encará-la como a um fato que só acontecerá a outrem, não a nós nem àqueles aos quais mais amamos.
Na adolescência tive uma colega de escola que nunca olhava para lojas de artigos funerários, voltava o rosto para o lado oposto sempre que passava pela porta de alguma dessas lojas, como se um simples olhar a empurrasse para dentro de uma daquelas urnas ali expostas, já que muitos têm que ganhar o sustento da sua própria vida com a morte alheia. Clarice Lispector, em um dos seus romances, se não me engano, em Um sopro de vida, pergunta: “todos têm que morrer, mas, eu também?”. Talvez por um processo inconsciente de defesa, nos surpreendamos ao admitir que nós também. Eu a vejo com naturalidade, e às vezes penso nela, sem morbidez. Pode ser, este meu comportamento, porque ela entrou na minha vida muito cedo. Eu tinha só três anos quando perdi meu pai, e essa morte nunca mais me abandonou, não como um sentimento doentio, mas com a certeza de que fui injustiçada precocemente. Era muito cedo para que me roubassem alguém tão significativo a meu universo emocional. Por toda a vida isso me entranhou um sentimento de perdedora em relação a afetos, como se perder aquele que mais me amava, me negasse o direito de tornar a ser amada. Tenho em cima do piano uma foto dele, antiga, em preto-e-branco, usando um chapéu daqueles que os homens usavam por aqueles anos. Todos os dias olho para ele e lhe sorrio. Foi um homem amoroso com os seus e generoso com os estranhos. E ele é ainda a maior razão para que me lembre dela de vez em quando.
Entretanto, me causou perplexidade um envelope que recebi há alguns dias, e estava recordando esse fato no silêncio que me provocou estas reflexões. Nada mais nada menos, a carta fazia publicidade de jazigos. Aconselhava clientes em potencial a anteciparem a aquisição do abrigo definitivo para seu repouso eterno. Já viram maior mau-gosto? Sei, todos sabemos, que estamos indo nessa direção, mas, convenhamos, nenhum de nós está com tanta pressa a ponto de antecipar o próprio funeral. Cruz credo! Vá agourar outro! Nós aqui ainda vamos ficar por alguns decênios, ainda vamos escrever e ler muitos livros, comer muito strogonoff com os amigos, reclamar muito da desfaçatez dos políticos, jogar muita conversa fora com as pessoas queridas, e até dançar muito tango argentino, por que não? Que essa megera de vida às vezes é muito má, mas é bonita demais para que a dispensemos tão depressa.


Gláucia Lemos é autora do romance A metade da maçã (Prêmio da Sec. De Cultura do Recife). Foto de josemazcona, retirada do Flickr.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

CONCEITO


Ildásio Tavares

O que importa é o amor.
E não o sexo, o credo, a idade a cor.

O amor é preferência
que é difícil nascer da inteligência.

Não se ama com a razão;
porém com a pele e com o coração –

O amor é um animal
De duas costas afinal.


Ildásio Tavares é poeta, ficionista, ensaísta. Tem dezenas de livros publicados. A foto "Ao amor...", é de LMarangoni, retirada do Flickr.

A FAMÍLIA DAS ROSAS

Robert Frost (1874-1963)

A rosa é uma rosa,
E sempre foi uma rosa.
Mas a teoria diz agora
Que a maçã é uma rosa,
E também a pérola e
assim a amora.
O que mais vão chamar de
uma rosa.
Você, claro, você é uma rosa -
Mas você sempre foi uma rosa.


Ofereço Robert Frost aos poetas Kátia Borges e Nilson Pedro como uma forma de celebrarmos a primavera que está chegando. Foto de Miguel Vila, retirada do Flickr.

COMEÇO DA OUTRA METADE DA LISTA



Gerana Damulakis


DA LISTA

51-Os resíduos do dia, Kazuo Ishiguro

52- A mulher do tenente francês, de John Fowles

53- Mar inquieto, de Yukio Mishima

54- Naufrágios, de Akira Yoshimura

55- Os ratos, de Dyonelio Machado

56- Angústia, de Graciliano Ramos

57- Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

58- O vermelho e o negro, de Stendhal

59- Madame Bovary, de Gustave Flaubert

60- Nadja, de André Breton


TRECHOS DE Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago (foto). Sei que é o 2º título de Saramago na minha lista e sei que, se a lista não tivesse limite estabelecido, seguramente acabaria colocando todos os títulos dele.

(...) todos os relatos são como os da criação do universo, ninguém lá esteve, ninguém assistiu, mas toda a gente sabe o que aconteceu.

(...) se antes de cada ato nosso nos pusessemos a prever todas as conseqüências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imaginárias, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.

Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.

(...) a experiência é realmente a mestra da vida (...).

Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse (...).

A POESIA NA PROSA DE GLÁUCIA LEMOS POR INÁ SIQUEIRA




A POESIA NA PROSA DE GLÁUCIA LEMOS, EM ”BICHOS DE
CONCHAS”, GANHADORA DO II PRÊMIO LITERÁRIO DA UBE/SCORTECCI - 2008


1)“ A Vida não traz moral da História.”

2)“(...) as ondas são como eu, nunca ficam quietas.”

3)“(...) eu gosto do vento porque ele me faz acreditar na liberdade.”

4)“Todo mundo tem direito de buscar o que quer. Se dar bem, ou se perder”.

5)“O desconforto da culpa viaja conosco por maiores que sejam as distâncias no tempo e no espaço.”

6)“Quando se abrem os olhos para o mundo pela primeira vez , começa-se a desenrolar um novelo do qual só a morte tem a derradeira ponta.”

7)“Ninguém pode cortar o fio ao meio do caminho para fazer um recomeço. Tudo o que se tecer no fio do novelo será para sempre. Pode-se fugir. Desfazer nunca mais.”

8)“É difícil aceitar a solidão que nos é imposta desde a hora predestinada(...) no ventre materno.”

9)“Passamos a vida a buscar indefinidamente o inexistente.
(...) Ninguém existe. Somos um entre todos que também são um , buscando o inexistente alguém.”

10) “Alguém tem culpa por eu não conseguir continuar escutando somente o meu próprio eco?...”

11)“Eu não fugi de você...
(...) eu fugi do seu silêncio. Eu não sei viver escondida do mundo.”

12)“Eu não aprendi a amar o que desconheço. E eu preciso sentir a vida latejando ao redor de mim...”

13)“Nenhuma mulher sabe do amor antes de ter um filho.
(...) só esse amor tem essência e raiz. Vais sofrer e ser feliz (...) vais ser feliz e sofrer e sofrer(...) definitivo, sim, ainda que levado pelas alternâncias.”

14)“Chovera dentro de mim uma chuva de vida; eu estava abençoada...”

15)“Meus olhos estavam descobrindo o milagre e foram se inundando de repente...”

16)“Não sei... Meu destino sou eu que faço. Eu sou assim mesmo. Certa ou errrada.”

17)“O sol continuou a deitar-se todas as tardes nos travesseiros vermelhos do horizonte, até que a noite abafasse as chamas das montanhas com um lençol cinzento.”

18)“A vida sempre prossegue, a despeito dos rumores humanos.”

19)“(...) a Natureza não estaciona para dar passagem aos fatos e às vicissitudes das pessoas.”

20)“Tem dores que a gente não cura, ficam doendo, mas se acostuma com elas, quando não têm remédio.”

21)“Não voas,(...,) não conseguiste voar. Será isso a liberdade?”

22)“Eu só queria ser livre, sem muros e sem grades. Só queria voar ao encontro do horizonte, quando ele ficasse pintado de vermelho, recolhendo o sol.”

23)“As dúvidas são semelhantes a carunchos roendo a cabeça.”

24)“Mesmo após decisões que pareçam mais acertadas, as dúvidas continuam teimando em fustigar o espírito, como formiguinhas roendo em volta de um bolo, reduzindo a farelos, aparentemente insignificantes, toda a paz de uma pessoa.”

25)“Vagava a alma do silêncio.
(..) até boêmios se recolhem quando a noite é feia.”

26)“Sentia que não se começa a amar de um momento para outro...”

27)“A liberdade não existe?...”

“Qualquer que seja o rumo que se toma, há sempre um preço a pagar pela conquista...”

28)“Estava de contas ajustadas comigo mesma. Pagar o preço fazia parte do processo.”

29)“Não consegui virar gaivota, nem viajar pelo vento. Já encontrei o que está do outro lado do horizonte, e é tudo igual, um lado e o outro.

30)“Conheci o muito que são os meus sonhos e o pouco que eu sou.”

31)“(...) nunca me conte o que foi que fez e o que não fez. Já aprendeu que ninguém vira gaivota.”

32)“Não são asas o que dá a liberdade. O que dá liberdade é o coração.”

33)“O que leva para longe é o sonho.”

34)“O que encarcera é a solidão.”

35)“(...) tudo está aí para ser vivido como é e como está, e isto é vida, e amar a vida é o que faz a liberdade.”

36)“(...fui entendendo que tudo estava mesmo certo e nada precisava ser mudado.”

37)“Só sei que não sei nada da vida, ainda estou aprendendo.”

38)“Não sabia que se podem encontrar duas vezes os mesmos caminhos, à mercê das marés. Não sei mesmo nada da vida; ainda preciso aprender muito...”

39)“Era muita dor para se sofrer sozinha...”

40)“Quem garante que onde estiver não está sabendo?...”


Sobre o livro há que ser dito que é o vencedor do II Concurso Literário UBE/Scortecci-2007, prêmio "O Melhor Livro", um romance intitulado BICHOS DE CONCHAS que foi lançado na Bienal de São Paulo deste ano, e é o 4º romance premiado dessa autora, Gláucia Lemos. No romance é narrada a história de uma mulher que, vivendo na solidão de um farol, casada com o faroleiro, um homem egocêntrico que vive criando arte com as conchas da praia, se cansa do silêncio, e resolve lançar-se numa aventura em busca de liberdade. As frases foram selecionadas por uma leitora, que é também escritora, e que ganhou uma menção honrosa no mesmo concurso, Isa Siqueira. O livro deverá ser lançado em Salvador em data a ser marcada.


Foto de ThaliSB, retirada do Flickr.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O AMOR É UMA COISA FEIA



Gerana Damulakis

Na nossa mais recente reunião, na casa da escritora Gláucia Lemos, o contista Lima Trindade, autor de, por exemplo, Todo Sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005), me deu um livro intitulado O amor é uma coisa feia (7Letras, 2007), pela Coleção Rocinante, de Gustavo Rios. Comecei a leitura sem expectativas porque não conheço o autor e também porque jamais li qualquer texto assinado por ele. O que é ótimo para uma avaliação totalmente honesta, destituída de parcialidades, principalmente as emocionais e afetivas. Abri o livro ao acaso, como me ensinou, há uns 10 anos ou mais, a poeta Myriam Fraga; lição que nunca esqueci. Li um conto já da segunda metade do livro e gostei. Li outro, abrindo ao acaso novamente, e gostei; daí já não abri mais o livro ao acaso, pois que li o conto seguinte até terminar o volume. Terminado, abri no primeiro conto e fui lendo rumo ao conto que determinaria que a leitura estava completa.
O conto de Gustavo Rios é curto, muito curto. Afora um ou outro, como "Cinco Palavras", a maioria se dá em duas páginas. Tudo que acontece, ali acontece sem adornos. O ponto é atingido diretamente. Alguns podem pensar, será o tipo de conto que não passa de uma mera anedota? Não. Mesmo quando o conto é, por exemplo, "Mon amour", uma história em 17 linhas,, o autor cuida para deixar aquele toque, nem que seja na última frase, que modifica tudo, que faz a diferença e a literatura. É ficção, pois, e de qualidade: irônica, vasculhando as impossibilidades do sentimento, a incomunicabilidade, o desencontro, a solidão, enfim. Da situação com aparência banal, surge a crise; da crise, tem origem o sentimento em estado mais latente; a partir da visão deste sentimento instala-se a verdade: o conto "Gota d'água" é emblemático do que acabo de afirmar. Parágrafos curtos em contos curtos, linguagem direta, diálogos objetivos, situações expostas prontamente e um mergulho forte, uma pancada. Aí está a panacada: no tom dado pelo insólito que faz parte da dinâmica da vida ou no tom dado pela mesmice na qual a vida está instalada. Finda a leitura, resta dizer: é isso mesmo, este é um livro de contos, o autor conseguiu.