quinta-feira, 7 de agosto de 2008

a invenção do amor


Fred Matos



falávamos das montanhas
da profundidade dos vales
da densidade dos metais

falávamos das diferenças
dos mares que nos separam
de barcos chegando ao cais

falávamos dos hiatos
das hipóteses plausíveis
das órbitas siderais

falávamos com tom grave
das nossas responsabilidades
plantadas em outros quintais

falávamos de um sítio
na praia ou na montanha
no sul no norte nas gerais

falávamos de um encontro
e das atitudes práticas
na construção de catedrais

falávamos as bobagens
que os amantes se dizem
desde dias ancestrais

falávamos de outonos
quando as folhas se suicidam
nos seus amarelos finais

falávamos até o instante
que o ocaso se interpôs
entre os meus e os teus ais

nos falaremos depois
acerca dos que falávamos
e dos apenas sinais

quando fizermos silêncio
será tua a decisão
do sim do mas do jamais.


Do livro inédito "nas horas e horas e meias". Fred Matos é autor de Melhor que a encomenda (FUNCEB, 2006). Foto de L!P3_RJ, retirada do Flickr.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

ALEXANDRE SOLJENITSIN (1918 - 2008)

Gerana Damulakis




Os restos mortais do Nobel da Literatura de 1970, o russo Alexandre Soljenitsin, encontram-se hoje em câmara ardente na Academia de Ciências, em Moscou, para uma última homenagem antes do funeral, quarta-feira. O escritor morreu domingo, dia 3 de agosto, aos 89 anos.
Sua obra célebre é Arquipélago Gulag, mas coloco na minha lista dos 100 livros inesquecíveis a obra-prima Um dia na vida de Ivan Denisovich, que li e tenho em edição portuguesa da Coleção "Livros de Bolso Europa-América", Publicações Europa-América .

AMOR DE CARNAVAL


Ildásio Tavares



A campainha soou, blim-blom, Almeida deixou tocar outra vez para ter certeza e se dirigiu à porta deliberadamente. Abriu e lá estava ela, os cabelos meio curtos, molhados por restos de chuva, que ela sacudiu num gesto gracioso, o decote generoso em V, mostrando os seios macios, polpudos, rijos, arfando na porta de sua casa; o corpo perfeito, a cintura fina, as coxas grossas, falsa magra como Almeida imaginara e olhando-a na porta de sua casa mal podia acreditar. Só faltava a bunda ser empinada. E como adivinhando o seu pensamento, ela se virou para pegar a sombrinha. Incrivelmente empinada e redonda. Bem feitíssima. Almeida respirou fundo.De pé na porta.
Carnaval. Sozinho em casa. A semana na repartição, segunda, terça, quarta, quinta ,sexta, todos os dias iguais, a cara feia do chefe, os colegas mal educados, o povo enchendo o saco atrás de papel, certidão, atestado, enchendo o saco, pega documento daqui, bate carimbo dali, aquela comida enjoada, PF mal amanhado, finalmente chegara o carnaval, pra dar algum movimento naquela vida.da repartição,em que Almeida levantava de sua carteira e ia, de vez em quando, ao banheiro, só pra matar o tempo.
Edileusa. Carminha. Iraildes. Eram as meninas da outra repartição onde ia de vez em quando levar um papel. Edileusa era boa demais. Um pedaço de mulata. Carminha alourada, galega e Iraildes mulatinha clara da boca bonita. Almeida fez o possível pra se entrosar na outra repartição porque na sua ele não era nem notado. Mas as meninas de lá, tanto quanto as de cá, nem davam a menor pelota. Levou até um chocolate para Edileusa, gaguejando quando o ofereceu. Ela sorriu indiferente. Almeida odiava aquela leve gagueira de sua timidez, principalmente quando falava com mulher. Foi gaguejando e dizendo a Edileusa olhe o que eu-eu trouxe pra-pra você. Que raiva.
Carnaval. E de repente bate o telefone, quem seria. Carnaval, Almeida ficava absolutamente só. Este ano, quando esteve na outra repartição, ele ouviu as meninas combinarem sair no bloco de trio, comprarem abadá. Tomou coragem e se aproximou. Vocês vão sair no bloco é-é? Iraildes respondeu seco Vamos sim, e daí. Almeida se recolheu. E mergulhou na solidão. O telefone tocou na segunda, depois de quatro dias em casa, vendo TV. Era uma voz doce, meiga, parecidíssima com a voz de Mariângela Sales, âncora do canal 12. Alô, quem fala?
Sou eu, a voz era muito doce do outro lado. Eu quem, indagou Almeida. Do outro lado ele escutou um sorriso. Diga, diga
É preciso ter nome? . De nada adiantava aquela conversa mas também de nada adiantava ficar só. Ela voltou a trinar. Se você quiser eu posso ir até aí. Aí você fica me conhecendo pessoalmente e eu lhe digo meu nome. Diga logo seu nome, Almeida insistiu. Você é Mariângela? Não, ela disse. Como é você? Tenho os cabelos meio curtos, seios, polpudos, macios, e rijos, corpo bem feito, cintura fina, coxas grossas, me chamam de falsa magra.
De pé na porta, Almeida ouviu um barulho lá dentro e virou a cabeça. Quando olhou de volta ela não estava mais lá.


Ildásio Tavares é ficcionicta, poeta, ensaísta, compositor e tradutor. Este conto faz parte de Histórias de Almeida, uma série de contos com variações do mesmo personagem. Foto retirada do Flickr, de AF Rodrigues.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

AUSÊNCIA

Gláucia Lemos















Uma verdade em teu olhar vem como um rio,
banhar tanta aridez, e me povoa
na minha fantasia, à tua ausência,
alimentando um surto imaginário.


Guardo esta dor e te oferendo o sonho,
e sacralizo inteira esta saudade
que chove sobre mim nesta hora estreita.


Vem, quando vens, a nuvem da esperança.
Ao arrepio da ausência, recupero
o ninho,
no tecer do teu abraço.


Ao sempre desabrigo do meu dorso,
vem! Vem!!!
Pois, quando vindo, és madrugada,
és pouso de andarilho,
e barco de regresso.
E eu sempre cais,
aos ventos desta espera.




Poeta, ficcionista e cronista, Gláucia Lemos tem mais de 20 títulos publicados.

"ESTOU FARTO DO LIRISMO..."

Gerana Damulakis


É fácil constatar que a crítica literária, tal como a crônica, sofre por ser datada. Ressalva feita para quando o autor está morto, portanto a obra concluída e, no extremo, sem riscos de que apareçam títulos póstumos. O fato é que avaliar um escritor em plena produção carrega uma gama de equívocos que apenas o futuro apontará.
Fica patente quando se pode averiguar isto num livro como A Leitora e seus Personagens, daquela que talvez tenha tido a maior lucidez analítica na crítica brasileira do meado do século XX: Lúcia Miguel Pereira. O brilho de seu pensamento, nas décadas de 40 e 50, percorreu as obras das mais diversas correntes literárias do país. Com uma cultura invulgar, uma bagagem de leituras invejável e uma percepção crítica como poucos, Lucia Miguel marcou seu lugar como militante na imprensa literária. Mas nada disso evitou o erro que só o tempo, implacável, acentua.
A leitura da reunião de textos críticos deixa evidente um caso interessante. Trata-se da avaliação dos, então, últimos poemas de Manuel Bandeira, vistos pela crítica no Jornal do Comércio, em 1936. Quase uma diatribe, não fosse seu cuidado para com o poeta amigo, Lúcia diz encontrar "uma nova maneira" na poesia de Bandeira. Tal maneira nova seria a ironia, avaliada como que uma negação de tudo aquilo em que o poeta acreditara, "alguma coisa de tenso, de voluntariamente desprendido". E conclui: "essa é a grande modificação". Então transcreve uma das estrofes de "Poética", poema que consta do livro Libertinagem: "Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbados/ O lirismo difícil e pungente dos bêbados/ O lirismo dos clowns de Shakespeare./ — Não quero mais saber do lirismo que não é libertação".
A crítica vê na ânsia de libertação uma obrigação do poeta em zombar de tudo e não se deixar dominar por coisa alguma, pois a ironia está "corroendo sua inspiração". Ora, tanto a poesia posterior de Bandeira quanto o próprio Manuel em seu livro Itinerário de Pasárgada, sua autobiografia literária, atestam que o lirismo não deixou os versos do poeta de Estrela da Tarde nem o poeta teve tal intenção. A feitura do poema estava intimamente ligada ao momento modernista, daí um grito, não contra o lirismo, mas contra certos tipos de lirismo: "Estou farto do lirismo comedido/ do lirismo bem comportado..."
Imagine-se se fosse levado a sério o fim do lirismo em favor da ironia absoluta. Enfim, a ironia incorporou-se à lírica moderna. Hoje, tão distantes daquele momento, atestamos o lirismo mais do que presente, a própria poesia: o lirismo pungente de Ruy Espinheira Filho quando diz: "Quero/ me apagar na noite,/ ser a noite/ esse grande silêncio/ lá fora,/ onde espero que o mundo/ não esteja mais". O lirismo Femina de Myriam Fraga: "Revesti-me de mistério/ Por ser frágil,/ Pois bem sei que decifrar-me/ É destruir-me". O lirismo a plenos pulmões de Ildásio Tavares: "Há um resto de mim em toda a parte/ Que nunca pude ser inteiramente". O lirismo musical de Aramis Ribeiro Costa: “O sol brilhando em plena madrugada/ O desejo de ser – sem ser loucura/ A vida, num segundo, iluminada”. O lirismo apurado de Florisvaldo Mattos: "Nada sei do que me contam/ as furiosas páginas dos diários mudos". Os versos líricos de Luís Antonio Cajazeira Ramos: "O sonho acabou./ Não mais acordei./ Mas tudo que sou-/ -be, no sonho, deixei". O lirismo refinado de Maria da Conceição Paranhos: "Mor ventura não há neste meu fado/ do que mirar teu corpo e usufruí-lo,/ pausadamente, a mão a desvesti-lo,/ saboreando teu olhar de dardos,..."
Lucia Miguel Pereira reclamava do fim da simplicidade de Bandeira. A lírica moderna pode não ter o acesso fácil de outros tempos, mas aí reside o seu fascínio. O lirismo é categoria tradicional e eterna na poesia, seja ele mais claro, seja obscuro e mágico. Menos mal que a crítica não pôde ver além de seu tempo.


Este texto foi publicado no Caderno 2 do jornal A TARDE, coluna Leitura Crítica, em 01/08/2001.

domingo, 3 de agosto de 2008

CAMPO DE EROS

Ruy Espinheira Filho



Amor: esta palavra acende uma
lua no peito, e tudo mais se esfuma.

E testemunho: eis que Amor deixou
ferida cada coisa que tocou.

E tudo dele fala: a mesa, a cama
(como abrasa este hálito de chama!),

o bar, cadeiras, livros e paredes
vivem, revivem: de fomes e sedes

a corpos saciados. Tudo fala,
tudo conta. Só a boca é que se cala.

Amor. Do extinto pássaro, o vôo
prossegue, inexorável. Mas perdôo,

eu, essa lâmina que me escalavra,
revolve em mim, em sua funda lavra,

amor, restos de amor, gestos quebrados,
enganos, mais amor, olhos magoados,

e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.
E a Quimera. E amor, amor, amor

por toda parte trucidado e em flor.


De Poesia Reunida e Inéditos (Record, 1998).

sábado, 2 de agosto de 2008

ELEFANTES E GUEPARDOS



Texto em homenagem ao centenário de Machado de Assis
Carlos Vilarinho

Venho sentindo nos últimos tempos, posso dizer-lhes com a franqueza da alma, pode rir-se também se quiser. Dado à estranheza e absurdo do sentimento. Mas percebo renitentemente que está em arrabaldes, no ar, na atmosfera um incomum processo, familiar até, de proximidade com o autor centenário Machado de Assis. Fico assim pairado, pois como ele morava no Cosme Velho. Era o bruxo do bairro. Eu que não sou bruxo nem nada, nem mágica para enganar criança faço, sou morador de Cosme de Farias. Moramos em bairros homônimos. Também isso não é lá grande coisa, mesmo porque os dois Cosmes eram distintos. Um era comerciante português de séculos atrás, o outro, esse mais próximo de mim, era advogado sem carta de Direito que proclamava justiça aos pobres. Não faço idéia como esse sentimento singular, misterioso e excêntrico vem iminentemente propagando-se de imediato e em princípio, acho eu, em mim mesmo.
Uma vez ao escrever um conto, não lembro qual, tive uma visão metafísica. Ou foi um sonho acordado. Ou foi uma viagem astral. Vi um homem barbudo, com um cavanhaque acentuado, muito parecido com o bruxo do Cosme Velho, dizendo a mim que eu estava caminhando sobre letras certas. Foi um enleio abstrativo. De imediato afirmo-lhe que não usei nada que me levasse a um barato lingüístico-literário-histórico. Então me lembrei dos elefantes que andam em bandos e na hora da morte trilha seu caminho sozinho para o desenlace atmosférico. Talvez o indivíduo que escreve, e que se descobre caminhando para escrever, aja assim. Claro, bem metafórica a comparação. De qualquer forma a figura do elefante bem que se parece com um escritor debruçado em livros na ânsia de absorver e em seguida escrever, criar. Eles nunca esquecem. Tanto um como o outro. Pode-se dizer, no entanto, que como em tudo que compõe a vida, o ato de traduzir o ser humano suscita também uma das mais febris dúvidas. Onde está a imaginação ou a vida? Princípio, meio e fim. Entre as infinitas centelhas de genialidade que assaltam Gabriel García Marquez, ele saiu-se com essa uma vez “... o puro prazer de narrar é talvez o estado humano que mais se parece à levitação”. E levitando provavelmente era que o bruxo do Cosme Velho deveria pender seus olhos em observações antropológicas para então dar vida (ou imaginação) à Capitu, por exemplo. Ora, ora, seria então um duelo infausto, como diria o próprio Machado em uma de suas cartas, o desafio diário e cotidiano de um observador de nuances de seus semelhantes. Retratá-las como um espelho de letras e ao final de tudo, levitar-se, como quer Gabo. Ou confessar de si mesmo, de si para si, ou para outros, como Gerana Damulakis acentuou em texto a respeito de Clarice Lispector. É essa proximidade que começa o texto, talvez familiar, ou por completar um ciclo de cem anos que nos deixa herda bruxarias lexicais, que seja, urge ser desnudado o homem do século XXI. Aparentemente igual, parecido, em paradoxo diferente, quiçá um outro tempo, mas com os mesmos anseios e dificuldades de século atrás. De épocas atrás. O homem é o mesmo desde Homero. Outros sofistas, uma inquisição “modernizada” e a mesma informação maniqueísta. Sendo que todos são bons e ruins ao mesmo tempo. Maniqueísmo em cada um de nós.
De mais a mais, sendo épocas distintas e distantes, havia e há a mesma evolução tecnológica, científica. Os mesmos discursos políticos, os mesmos dissabores sociais. Hoje um pouco mais intenso. No entanto, como diria outro ensaísta “a literatura não era pensada como manifestação autônoma, e sim tributária de uma discussão sobre o sentimento de nossa natureza, a originalidade da nação, o indianismo, enfim, a cor local”. Há originalidade nos elefantes de hoje. Não há cumplicidade entre os pares da pena, melhor, do word. Não posso, no entanto, sozinho, sentir a proximidade familiar de um bruxo centenário. Ou correr desarvorado para lugar nenhum. Correr sim, como um guepardo entre antílopes, mas coletivamente e em objetivo comum. Revelar o homem do século vinte e um.