segunda-feira, 7 de julho de 2008

A BAGAGEM DO VIAJANTE

Gerana Damulakis


(sobre a crônica de José Saramago)








Quem já leu os romances de José Saramago está acostumado com a alta qualidade literária de livros como Memorial do convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ensaio sobre a cegueira etc; daí que esse leitor pode pegar as crônicas do mesmo autor, pensando, claro!, em encontrar textos de muito boa qualidade também, mas sendo crônicas, pode ser que espere desde logo aquele “desleixo” — digamos assim — inerente à pressa com que se escreve o gênero dito menor da literatura. Ledo engano, vã espera. Saramago é sempre Saramago, seja qual o gênero que escreva. Não se lhe nota queda de qualidade, não se lhe aponta um texto aquém dele mesmo.
Mestre no relato de curto fôlego, José Saramago expressa-se com concisão nas suas crônicas, mantendo, durante todo o tempo da leitura, o interesse, como se estivesse conversando com os leitores de jornais. A crônica é uma prosa, nos dois sentidos; no sentido de gênero e no sentido de quem conversa — e aqui estamos diante, então, daquela faceta da crônica que fez o nosso Adroaldo Ribeiro Costa, cronista por 25 anos diariamente no jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, intitular sua reunião de crônicas como Conversa de Esquina.
A ironia, um dos tropos da retórica, vê-se presente, como de resto em todo aficionado do gênero, para olhar o mundo de forma a redimir todos os leitores. Afinal, “crônicas, que são? Pretextos ou testemunhas?”, pergunta-nos Saramago. A resposta pode ser o que cada um espera que seja: o lugar onde o escritor pode falar por nós, quando usa um timbre que reivindica; o espaço da perplexidade ou da constatação; o momento de reflexão filosófica ao alcance de todos ou, enfim, um exemplo de uma tomada poética tirado agora, oportunamente, da coletânea de textos publicados no diário A Capital (1969) e no semanário Jornal do Fundão (1971-72), intitulada A Bagagem do Viajante ( Companhia das Letras, São Paulo,1996, 205 pp.):

"Por causa de tudo isto me veio uma grande vontade de chorar. Ninguém me via, e eu via o mundo todo. Foi então que jurei a mim mesmo não morrer nunca".

Portanto, parece ser simples preconceito o rótulo de gênero menor; o que há é o escritor menor ou o escritor maior diante de determinados gêneros. Assim, o que coloco aqui é a capacidade de Saramago frente à crônica, sem queda, repito, da qualidade literária que lhe é freqüente no romance.
Outro ponto a considerar diz respeito a nacionalidade desse texto que nós — incluo-me no que hoje vejo como um julgamento apressado — estamos acostumados a rotular como “um gênero brasileiro”, quando mais não fosse, “carioca”, o que é mais localista ainda. Cabe refletir: mas se se acha a crônica nos jornais do mundo inteiro, se existem esses espaços para que os jornalistas desenvolvam um texto parecido com a nossa crônica, como considerá-la apenas nossa? O que difere o texto jornalístico das colunas de opinião dos periódicos mundo afora em relação aos nossos textos, talvez seja o humor sempre presente na crônica brasileira; e é com este argumento que vem a aquisição da crônica para a cultura nacional. Em outros países, essas pessoas que ocupam esse tipo de espaço no jornal são chamados de colunistas, o que, entre nós, não tem o mesmo sentido de cronista. Inserindo a tomada de posição acima na avaliação dos textos de Saramago, motivo do enfoque, constatamos que o escritor português faz crônica no estilo brasileiro. Por outra, não poderíamos olhar a questão sem xenofobia, e avaliar com mais profundidade a colocação e concluir que, independente da nacionalidade, a crônica adquire esse jeito de ser quando escrita por pessoas que a ela se moldam com facilidade, tal como se para escrevê-la tivessem determinado quociente de sensibilidade?
Com o jeito de ser da crônica, José Saramago registra a vida contemporânea, olhando o mundo ao redor para fazer uma primeira leitura, e, deitando no papel o texto para a segunda leitura do mundo. A observação atual pode levá-lo à uma lembrança de infância, ao estarrecimento ou à notificação apenas de um ocorrido que , se agora é irrelevante, depois pode ter importância dentro da recriação de uma época.
E, a propósito de um outro ponto levantado aqui, sobre a crônica ser uma conversa, sabe-se que conversar é uma arte, haja vista Sherazade. Imagine, então, quando tudo é um monólogo, quando a resposta pertence a um interlocutor que você não escuta, não vê, não conhece. Manter a conversa dentro dessas condições é como falar sozinho, contudo, espera-se que ocorra o eco. E isso se dá, seja nos comentários da turma reunida, seja através de uma manifestação do leitor explícita em carta ou, quando possível, por telefone, ou, quem sabe, ao encontrar o cronista na esquina. Afinal, estamos mesmo tratando de uma “conversa de esquina”.
Analisando esse gênero, para o qual ando me debruçando com especial interesse, notei que não escapa aos cronistas em geral o tom de confissão. Por tal veio, intitulei um capítulo de um pretenso livro da seguinte maneira: Hoje estou triste! Saramago não foge à regra, e, na crônica “Natalmente crónica”, acaba confessando-se:

Acontece porém que tenho fortes razões para não estar de bons humores, o que me permite esquivar-me desta vez, se alguma outra caí em tão ingénua fraqueza, ao jogo cúmplice do amplexo universal... Mas o leitor também lá tem a sua vida, quem sabe se dura e difícil, e não há-de aceitar que eu lhe agrave as amarguras. Desculpe o desabafo.

Constate-se o “desabafo”, a confissão e a inclusão, com segurança, deste cronista no rol dos que lá um dia resolvem “admitir” suas “amarguras” para o leitor. E é aí que acontece a cumplicidade, terminando por viciar, porque criamos o hábito de ler “o que diz hoje” o nosso amigo: a pessoa abre o jornal e vai direto procurar aquele canto onde sabe que encontra outro ritmo verbal, outro ritmo de pensamento diferentemente do restante do periódico.
O século passado consagrou a crônica, e o ganho foi da literatura, enriquecida com o texto mais verdadeiro: o texto que traz o “eu” que fala por todos. Sim, porque a crônica tem um “eu” muito rico, pois se poético quiser sê-lo, pode; se meramente narrativo de um caso esdrúxulo, idem; enfim, se ali se coloca, diz por todo um grupo de opinião; ademais de tudo isto, o “eu” do cronista está livre das amarras que a qualquer outro gênero são impostas em nome da arte. Reunindo todos esses “eus” no seu “eu” de cronista, José Saramago desfila pelo gênero com beleza e poeticidade, com mão firme do prosador que é e com o tom de grande conversador que a crônica requer.
Ampla como gênero, na hora de passar do jornal para o livro, são as características literárias de cada texto que contam pontos para a escolha da seleção. Independente das circunstâncias em que foram escritas, as crônicas ficam submetidas a um crivo, onde não importa a carga brilhante de humor e ironia frente às colocações do autor porque o que ressalta é o aspecto literário.
No total, o cronista português, motivo desse texto, transforma os fatos e os sentimentos do cotidiano em situações e sensações que merecem “não morrer” com o jornal do dia, entrando, assim, para fazer parte do que é perenal, ou, por outra, fazendo literatura.




OBRA CITADA: Saramago, José: A Bagagem do Viajante. Companhia das Letras, São Paulo, 1996.
A foto de José Saramago foi feita por Miguel A. Lopes, retirada do Flickr.

domingo, 6 de julho de 2008

UM BEIJO ROUBADO

A. Pedro






Que filme lindo! E por mais tendenciosa que esta opinião possa parecer, não é bem assim.Ouvindo pareceres controversos e alguns bem estapafúrdios, abri o coração e fui ver despido de todo e qualquer pré-conceito, esperando qualquer coisa. A surpresa foi das melhores.Réu confesso da obra de Wong Kar Wai, me arrisco a dizer que seja ele uma das coisas mais legais da atualidade- e um dos que mais sabem retratar o amor e todas as suas dores na tela. Talvez o melhor. Diretor chinês de longa data iniciou-se na década de 80, mantendo uma produção intensa e significativa durante os anos 90, quando passou a fazer sucesso em território não asiático. Mas foi a partir de 2001 que ganhou notoriedade, ao ganhar algumas indicações e levar um prêmio técnico. Amor a flor da pele, conta a sensível história de dois amantes presos pelas convenções sociais de uma Hong Kong secentista. As histórias de Kar Wai são permeadas por amores trágicos, oprimidos. Dramas recheados de lirismo e poesia. Crueza não é o seu forte. Assim, como a maioria dos profissionais de cinema que se destacam pelo mundo, dá agora o ar da sua graça em Hollywood. E é por isso que Um Beijo Roubado divide tantas opiniões. A sua aventura no cinema estadunidense mantém o lirismo, a poesia, a sensibilidade. Mas não foca na tragédia das personagens- por mais que todas elas sejam compostas por histórias sofridas, a atenção não está voltada para lá. Uma mulher desiludida com o relacionamento que termina, entra num bar para deixar as chaves de casa. Trava, então, um diálogo com o dono do estabelecimento, onde desenvolvem uma relação afetuosa e dúbia. Mas antes de se deixar envolver, ela decide deixar a cidade e viajar pelo país, encarando uma jornada solitária para se libertar do passado. Nesse climinha de Road movie, ela vai conhecendo personagens singulares, que vão, passam pela sua vida, marcando-a. Um elenco magnífico de estrelas competentes é reunido para apoiar Norah Jones, na sua estréia fofa como protagonista. Jude Law se despe da estonteante beleza cinematográfica habitual, para encarnar um dono de bar verossímil, bonito e com alguma simplicidade. Rachel Weisz aparece como uma femme fatale decadente, ex-mulher de um alcoólatra amargurado (David Strathairn). Ainda há também a participação de Natalie Portman, gloriosa, fabulosa, maravilhosa e cansativamente bem adjetivada para a eternidade por quem vos escreve. Assumo e afirmo a tietagem tendenciosa e quase-vulgar aqui.O filme todo possui uma deliciosa atmosfera de madrugada, bem conhecida por insones assumidos. A fotografia abusa das cores quentes e de ângulos inusitados, capturando grande parte das cenas atrás de vidros e vitrines, expondo as histórias e dores (por mais que não seja esse o tema, insisto) das personagens. É tudo lindo e dá uma vontade absurda de rever. Wong Kar Wai acertou mais uma vez. E ele arrasa!
A. Pedro assina o blog Primeira necessidade (entrada pelo meu). É crítico de cinema e teatro.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

CREDO I


Manuel Anastácio


Creio num só corpo,
Numa só onda,
Numa só corda,
Num só fim.

Creio, acredito
No sal bendito das lágrimas
Na concreta nudez
Da limpidez das águas
Na urgência do florir da terra
E em cobrir telas e folhas brancas
Com as transparências em que acredito.

Creio,
Num só grito.
Num só corpo,
Numa só onda,
Numa só corda.

E, por fim,
Num só múltiplo princípio.


Manuel Anastácio é um poeta português que vem nos encantando, seja pela firmeza de sua poesia, de cada verso logrado, de cada palavra escolhida, seja pelo que resulta em nós após cada leitura: aquele algo indizível, apenas reconhecido e aplaudido. Ele assina o blog Da Condição Humana: http://literaturas.blogs.sapo.pt/, ou diretamente com entrada nos meus favoritos.
A foto é “Uma furtiva lágrima”, de Silvia de Luque, retirada do Flickr.
Também retirada do Flickr foi a foto que ilustra o poema de Gláucia Lemos, “O Tigre”, intitulada “Tarde de outono”, de Tatiana.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O TIGRE


Gláucia Lemos


Não era para você me olhar assim
com aquele olhar de tigre
de vigília.

Todos os trens partiram.
Eu sei que houvera trens.
Mas já era tão noite!
No mundo só ficou
um banco qualquer
uma sala qualquer
um frio sem termo
num olhar de remorso.
O vazio enramou-se.

Inútil olhar atrás os trilhos secos.
Ademais é outono.
Um outono sem rumo
que jamais abrirá outra manhã.

Você não sabe
que o último olhar foi como o dente
que deixou cicatriz.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

AVE MARIA



Aramis Ribeiro Costa






Ave Maria, cheia de ternura
Rogai por nós, eternos pecadores
Amenizai um pouco as nossas dores
Trazei-nos fé, em nossa desventura...


Ave Maria, deusa de doçura
Cheia de graça, mãe dos sofredores
Bendita sois, nos céus e nos andores
A nos guiar no vale da amargura...


Ave Maria, deusa onipresente
Que abençoais o mundo indiferente
Ao vosso olhar de compaixão e amor...


Bendita sois, Maria, Virgem Santa
Em vossa graça eterna e sacrossanta
Em vosso manto etéreo e protetor...








Este soneto está no livro Espelho Partido - Sonetos Escolhidos - 1971/1996 (FUNCEB, Selo As Letras da Bahia, 1996).

sexta-feira, 27 de junho de 2008

TRAGÉDIA GITANA



(sobre a vida e a obra de Frederico García Lorca)





Gerana Damulakis

Numa bela tarde em Madrid estávamos, eu e uma amiga brasileira de Pernambuco, sentadas numa das mesinhas da calçada de uma cafeteria da Gran Vía. Depois de algum tempo calada, em plena contemplação, observando a quantidade de gente que sobe e desce aquela grande via, minha amiga exclama:
— E pensar que os próprios espanhóis foram capazes de matar García Lorca!
O destino de Lorca, sendo ele um filho da Espanha, assassinado pelos contra-revolucionários do período inicial da guerra civil, converteu-o num emblema, um símbolo a proceder e encabeçar, premonitório, a extensa lista das vítimas de um futuro próximo, isso às portas da Segunda Grande Guerra. Era verão de 1936, quando Granada se tornou palco da execução de um poeta apolítico, por um pelotão do exército do Generalismo Francisco Franco.
Seja na forma ou no timbre, as canções ciganas e o romanceiro popular comportam-se, na história, como exemplos de estruturas folclóricas, trágicas, alicerçadas em lendas.
Devedora e seguidora dos legados folclóricos e da lírica espanhola, a poesia de Lorca tem a marca da confluência da vanguarda e do realismo, havendo se iniciado, entretanto, sob a influência do surrealismo e do ultraísmo tendente ao escândalo, ao desejo de surpreender pela via da ironia e da obscenidade. Sendo exemplo da popularização das correntes de vanguarda fornecido pela literatura de sua terra, Lorca fincou seu nome não apenas como poeta mas também como dramaturgo. Já dizia ele que “a representação dramática é a poesia que se levanta do livro e se faz humana, fala e grita, e chora e se desespera”. Seu grupo de atores ambulantes, La Barraca, viajou pelas províncias de Espanha exibindo a sua dramaturgia. Entre as 15 peças de Lorca, O malefício da Borboleta, Yerma, A casa de Bernarda Alba, Mariana Pineda, A sapateira prodigiosa, sem dúvida é Bodas de sangue a mais conhecida, traduzindo a gente e a paixão espanholas, que resultam da mistura excepcional de povos “calientes”, como os árabes e os mouros.
Os ciganos, que têm por pátria o mundo, chegaram à Espanha, como a muitos outros lugares, fugidos do Egito, por ocasião do êxodo lendário. Listz, cantor de suas glórias, acreditava que a música era a verdadeira epopéia deste povo nômade e panteísta, que se caracteriza pelo medo e pela superstição. A filosofia aciganada alicerça os temas essenciais de Lorca desde seu Libro de poemas, ainda que a crítica aponte influências de Rubén Dario e de Antonio Machado. Sem deixar de encontrar também o populismo e a já falada ciganidade, este primeiro livro é visto como um tímido começo se comparado com os mais acentuados momentos do tema carnal cigano; tema presente no definitivo Romancero, de 1928.
De 1918 a 1928, as escolas líricas agitaram com seus “ismos”. Lorca é tido como o poeta mais afinado com o Ultraísmo, uma derivação do Barroco espanhol, um retorno da tradição, que lhe confere a elegância e ao mesmo tempo a liberdade dentro do sentido da poesia moderna. Dissolvido o grupo ultraísta, o poeta já entrevisto se agiganta com seu genial Romancero Gitano, editado pela Revista de Ocidente, em fins de 1928, que reúne 18 poemas plenos de sentido popular, tomando o romance típico da poesia hispânica desde o século XV. Os temas obsessivos cabem à perfeição: a paisagem andaluza, a “gitanaria” e o erotismo.
Entre 1931 e 1934 apareceram, em várias revistas espanholas e americanas e em antologias de poetas contemporâneos, os poemas de Poeta em Nueva York. Escritos enquanto Lorca esteve na residência estudantil da Columbia University, os textos poéticos mostram a solidão no meio hostil, porque diferente da sua civilização; a solidão acaba por deixar evidente que a poesia de García Lorca é fruto de seu meio e de seu fado, enfim, de sua raça, do cigano que trazia em si.
Quando o poeta voltou ao seu país, escreveu a elegia exaltada no Llanto por Ignácio Sánchez Mejías (Pranto por Ignácio Sanchez Mejías), onde se mostra certeiro e sem vacilos. Daí que se chega àquela velha conclusão de que quanto mais regional é o autor, mais universalidade ele alcança. O tema do mais alto lirismo andaluz, a ciganaria, confere unidade e sentido épico à obra lorquiana. O mistério regional é buscado na sua profundidade, daí que atinja a amplitude pelo que conserva de tradição e história.
Em 3a. edição bilingue, a Martins Fontes e a Editora da Universidade de Brasília acrescentam 14 sonetos inéditos à Obra Poética Completa de García Lorca, ilustrada pelo próprio poeta. É um volume precioso para os amantes da verdadeira poesia do século XX.
Estátua em homenagem a Frederico García Lorca na Plaza de Santa Ana, em Madrid, por Julio López Hernández

FOGUEIRAS, ENQUANTO TEM


Gláucia Lemos



Este ano vivi um São João aquecido. Fogueiras, muita fumaça carregada pelo vento noturno, muito espoco de bombas, e danças de faíscas pelo ar. Muito vulcão jorrando das calçadas e tanta espada arriscando a segurança dos combatentes corajosos. Fogo no ar, enfim, uma noite iluminada por uma luz que negava a nossos olhos o prazer tranqüilo de contemplar a luz das estrelas.
Havia muitos anos que não via fogueiras. O fogo é um elemento que nos proporciona um especial espetáculo de beleza. O braseiro tem um vermelho particular, brilha sem fosforescer na raiz da chama, enquanto essa se inflama amarelada quase da cor da abóbora, evoluindo sorrateira e inconstante, se elevando volúvel como em uma coreografia mentirosa, sem jamais se fixar, e acaba sendo uma ilusão que fenece sem cinzas. A chama é apenas uma ilusão.
Há muita verdade na associação do fogo aos sentimentos do coração. Paixão que arde como fogo, chama de amor, morte de amor associada a cinzas, e por aí vai.
Quanto a mim, prefiro dispensar a chama dessa paixão e acreditar no sentimento escondido que permanece na raiz da chama, no braseiro que queima quieto, e ainda permanece por muito tempo depois que a chama se extingue. E ainda quando aquele vermelho da brasa, por força das chuvinhas que sempre caem nas noites de São João, as mais frias do ano, quando ele arrefece e já não brilha para o sabermos vivo, o carvão que se apresenta negro e aparenta frieza, permanece ardente, queimando em segredo, e se lhe dermos um sopro vigoroso, estalará de leve, e se mostrará na força do braseiro que alimentara a chama anterior. Assim é o fogo das fogueiras, assim são os sentimentos amorosos mais profundos, quando os chuviscos das noites juninas da vida os ameaçam e os cobrem do negrume do carvão aparentemente apagado. Um sopro e voltarão a arder. Porque a chama é ilusão, mas a brasa é a verdade do fogo.
Perco horas contemplando uma fogueira queimando, uma fascinação. Optei por esse privilégio, neste ano. O São João que não é mais, e nunca mais será, como as noites de junho da infância da minha geração, sequer da geração dos meus filhos, ainda é uma festa de alegria, embora tenha perdido a graça da credulidade nas adivinhações tão comuns e praticadas pela juventude de ontem. Não é preciso espírito saudosista para comparar as melodias ingênuas e o ritmo dos baiões do Gonzagão com a invasão sem propósito do axé. Até o forró que era dançado alegremente aos pares frente-a-frente, agora está contaminado por passos mirabolantes de rock. A dama há que se embolar pelas costas do cavalheiro, de vez em quando, e outras acrobacias. O advento do progresso às vezes invade indevidamente alguns espaços que, por tradição cultural, deveriam ser preservados. Incluindo a solta dos balões que pontuavam o espaço com suas luzes cada vez mais distantes, cada vez mais distantes, romanticamente viajando para o nunca mais, e que, por motivos mais que justificados e corretos, foram apagados definitivamente. No entanto, ainda temos os bailes nas cidades pequenas, os forrós puxados a sanfona ou a CDs, as fogueiras estalando, fabricando fumaça espessa, e tirando lágrimas dos nossos olhos. E o sempre licor de jenipapo, de mão em mão, descontraidamente, brindando ao santo que tanto foi sacrificado e cuja homenagem faz a festa mais brilhante do ano.
E viva São João, enquanto ainda tem!

Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. Autora de mais de 20 títulos e muito premiada. Foto de jvc, retirada do Flickr.