segunda-feira, 9 de junho de 2008

UM POEMA DE KÁTIA BORGES


E se perderam no parque
como se fosse possível
encontrar na jaula dos leões
a criança que sumira
na penúltima visita. Nada


denunciaria os olhos tristes
por trás das lentes escuras
e, do sorriso da boca, o giz
da secura, nada denunciaria
que se perderam no parque
como se fosse possível
encontrar-se.






Kátia Borges é autora do livro De volta à caixa de abelhas (Selo Letras da Bahia, 2002). Seu blog, Madame K, tem entrada pelos meus "Favoritos".

Foto de Omar Júnior, retirada do Flickr.

sábado, 7 de junho de 2008

A PALAVRA

Gláucia Lemos





Tarda
e se faz longe e tarda.
Para cá do âmago do meu sacrário
e foge,
palavra úmida do escondido soluço.



Viesses
como rebentação viria,
grito de cataclismo,
ou rio,
a escandir sobre a tela pautada,
teu ritmo de dor.


Viesses,
fogo em coivara a estalar,
ou frágil flama em lenho de fogueira.
Viesses,
casca a ragar-se da amêndoa,
inflamando ignota e vívida.



E após tua voz no traço
- sangue impresso -
o silêncio,
vencendo a agonia do silêncio,
seria
a perseguida paz.











Gláucia Lemos é ficcionista premiada e tem mais de 20 títulos publicados, mas o blog está em tempo de poesia. Foto de Rodolfo Oliver, retirada do Flickr.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

UM POEMA DE CARLOS VILARINHO


Despedida
Travo a língua,
Guardo a lágrima contida,
Engulo o gosto de sangue na saliva,
Despejo o resto da bebida,
Esvazio o prato da comida,
Beiro ao desespero ante ao colapso da despedida...

Nada mais há entre nós.

Não sei quando perdi a identidade de ser alguém pra você...
Talvez no momento em que roí incertezas de quem era... de quem estava por ser...
E apesar de tudo, nunca quis abrir mão do Ser...

Ontem, li na capa de um livro: é preciso separar pra crescer,
Mas de que adianta ser grande se já não Sou com você?

Sinto-me como uma garrafa boiando na correnteza...
Estou sem tampa...
Encho... Esvazio...
Entendo que isso é o que movimenta o meu estar no mundo...

Nada mais quero ser,
Apenas estar,
Com quem acaso encontrar.



Carlos Vilarinho é ficcionista, cronista e, para surpreender a madrinha, enviou este poema.
Foto de Camafunga, retirada do Flickr.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

DE TARDE


Gerana Damulakis


O que fiz com a vida?
Embrulhei para presente,
depois joguei longe, embora.
Como esquecer o passado?
Entro em casa,
pego meus livros,
meus pedaços de mim.
Passo a noite rolando,
criando esse ser poeta,
deixando pra lá
outros sonhos, até você
(imagem que se sobrepõe).
Comigo se foi a manhã,
estou em plena tarde,
tratando de não perder
o relógio de vista.
O passado volta
(no futuro) e esse
sentimento é apenas
uma reação química
reversível
e velha - automática -
dos meus sentidos.
De Guardador de mitos (Edição do autor, 1993).

QUANTA-COISA


Goulart Gomes



A Ciência é o novo Deus da Civilização
já não cremos na Filosofia
ignoramos a Religião
somos todos são-tomés
e toda a nossa fé
sustenta-se numa equação.
Não preciso que um físico
japonês ou alemão
acelere uma partícula
quebre o prótão e o neutrão
para me provar que existe
uma outra dimensão
pois quando contemplo as estrelas
(sóis perdidos na imensidão)
sons dos astros me preenchem
e aceleram meu coração:
a razão não prova nada
só aumenta a confusão.
Cercados de incertezas
manipulamos a Natureza
em busca de explicação:
se eu modifico o fato
nunca vou jogar os dados
Ele sabe o resultado,
velocidade e posição.
Pode a probabilidade
conviver com a exatidão?
Muitos Mestres já falaram
muitos mais repetirão:
São infinitas as moradas
escolha a sua mansão.




Retirado do site de Goulart Gomes: www.goulartgomes.com/. Há entrada nos meus "Favoritos". A foto é de Miguel Valle de Figueredo, retirada do Flickr.

domingo, 1 de junho de 2008

Sobre o ROMANCE D'A PEDRA DO REINO




Goulart Gomes



“Nobres senhores e belas damas de peitos brandos”:


Fiquei espantado ao terminar a leitura do livro ROMANCE d’A PEDRA DO REINO E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI-E-VOLTA, de Ariano Suassuna José Olympio Editora, 9ª. ed, 2007). Imediatamente assisti o DVD da mini-série produzida pela Rede Globo (incluindo os extras), e meu assombro duplicou. Quando recebi, das mãos de Ariano, o meu exemplar autografado, em Recife, no dia 10 de dezembro de 2007, não fazia idéia da preciosidade que me era entregue, o verdadeiro prêmio literário que me foi concedido, naquele dia.

A partir de experiências pessoais: o assassinato de seu pai, o convívio com os tios, que inspiraram os personagens Samuel e Clemente (no filme, interpretados pelos atores baianos Frank Menezes e Jackson Costa); referências históricas: as conturbadas lutas e revoluções da década de 30; míticas: a volta do rei Dom Sebastião, as profecias de Antonio Conselheiro e culturais: toda a riqueza da literatura e música nordestina e ibérica, Ariano escreveu uma das obras magistrais da Literatura Brasileira, como ele diria, um romance de “fé, sangue, estro, ciência e planeta”.

O fantástico Dom Pedro Dinis Quaderna – Imperador do Brasil, nascido a 16 de junho de 1897, mesma data de nascimento de Ariano, 30 anos antes - misto de doido, bufão, visionário, malandro brasileiro, “Poeta-escrivão, bibliotecário, jornalista, Astrólogo, literato oficial de banca aberta, consultor sentimental, Rapsodo e diascevasta do Brasil”, magnificamente interpretado nas telas pelo ator Irandhir Santos, é um dos mais instigantes personagens da Literatura Brasileira e, consequentemente, Universal, sempre envolvido em verdadeiras intrigas palacianas, loucuras e devaneios.

Obra que demorou 13 anos para ser concluída, o “romance armorial brasileiro”, publicado em 1971, ficou vários anos sem ter reedição, devido a problemas com a editora, sendo os exemplares da primeira edição disputados a ferro e fogo por admiradores e colecionadores, nos diversos sebos. Com a maravilhosa releitura do diretor Luiz Fernando Carvalho, em 2007 ganhou as telas, conquistando mais uma legião de fãs.

Mas, qualquer coisa que se diga sobre a obra é pouco. É fundamental lê-la, com todo o carinho e atenção que merece, aprendendo a verdadeiramente amar esse Dom Quaderna, que não tem medo nem vergonha de acreditar nos seus sonhos, por mais absurdos que pareçam. Ele, que sonha ser o “Gênio da Raça Brasileira”, tem um grande adversário: o seu pai e criador, Ariano Suassuna, não apenas um dos maiores intelectuais brasileiros, mas também um ser humano admirável, por sua alegria e simplicidade, admirado e respeitado por todos que o conhecem.

“Viver é decifrar enigmas.”

(as frases entre aspas são da obra de Ariano)


Salvador, 1 de Junho de 2008.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

DEVER DE CASA



Gláucia Lemos



As chuvas passaram, pelo menos diminuíram. O sol, com toda pompa e circunstância, declara aberta a temporada de malhação.
Recomeço a caminhar nas manhãs, que não sou de malhar em academia. Chega de obrigações com hora marcada. Se as andanças satisfazem à prevenção para estimular meu motorzinho, fico com elas.
Enquanto caminho na pista do meu prédio, vou considerando por que será que, dispondo de cerca de seiscentos metros de pista, com três metros de largura, bem calçada, varrida e tranqüila, em volta do corpo do edifício, protegido por muros altos no fundo e nos lados, e na frente por grades e porteiro, a maioria dos condôminos opta por caminhar na rua, geralmente no calçadão da orla? Compreendo o prazer da proximidade daquele marzão, panorama gratuito que ninguém nos toma, privilégio inviolável. Mas, em contrapartida, até chegar ao calçadão há o estresse das sinaleiras, há a atenção redobrada em relação aos trombadinhas que não escolhem hora para tomar posse dos celulares e correntes dos caminhantes. Será que compensa?
Enquanto isso, eu estou tranqüila rodeando o prédio, e vou observando, sem indiscrição nem má fé, o comportamento dos meus vizinhos.
No fundo, ando pela ciclovia que só é utilizada pelas senhoras ou suas domésticas que levam os cachorros a passear, e não só. Mas sem bicicletas, nem precisariam. Tampouco sem pazinhas nem saquinhos plásticos. Ora, temos os zeladores, dirão... A convenção proíbe criação de cães no edifício, mas há uns quatro ou cinco poodles, um basé castanho, ontem encontrei um spaniel cabeludão e lindo, e até já houve um enorme e velho boxeur, mestiço com alguma raça de gigante, famoso no prédio, que morreu de senilidade, tendo sido pranteado pelo dono, um fisioterapeuta simpático, que, por pouco, não o acompanhou, pois passou uma semana sem se alimentar, desgostoso. Ao que parece, já reagiu, anda sorridente exibindo uma namoradinha parecida com La Arósio, e agora leva a passeio um SRD malhado, pequeno e feio, mas bastante jovem.
Deixando a ciclovia, encontro o personal trainer, treinando a si mesmo, a fazer o circuito da quadra de basquete, ao mesmo tempo em que lê o jornal do dia. Sabe aproveitar o tempo, embora esteja despendendo o dobro de energia.
De vez em quando alguém retira o carro – há que ir trabalhar, não? – e vem maciamente atrás de mim. Protejo-me procurando o pé do muro, há espaço suficiente, e ele se vai. Então faço uma descoberta interessante: crescem muitos pés de quebra-pedra, uma erva pequenina cuja folha se assemelha à folha dos tamarindeiros e que dizem ser muito eficiente para alguns males dos rins. Estão brotando justamente ao pé do muro, na junção entre o cimento do muro e o do piso, onde, ao que parece, não há terra. Não é à toa que tem esse nome. Receio que o jardineiro os arranque, e gostaria de pedir que não o faça. Mas entendo que tem que cumprir sua tarefa e garantir seu emprego. Por que tem que ser assim? Por que não existem regras intermediárias? Para tudo?
Na portaria, as auxiliares do lar estão chegando, parecem vir os blocos na mesma condução, pois chegam aos lotes. Umas entram apressadas como se estivessem atrasadas, umas param e pegam o jornal dos patrões das mãos do porteiro, umas demoram para um papo simpático com o porteiro do horário, só depois da terceira ou quarta risada resolvem finalmente entrar. Lentamente.
Estou vindo da minha quinta volta. O sol se esconde de repente e começam a cair uns pingos grossos, que me obrigam a correr para descer e me abrigar junto das garagens do subsolo. O porteiro que vai render o da noite está chegando. Ri da minha carreira e brinca amavelmente: Ê, dona Gláucia, hoje a chuva não deixou! É o porteiro mais antigo, aquele que já é amigo de todo mundo, discreto e educado. Também rio confirmando, no subsolo entro no elevador.
Subo. Da minha sala olho a rua e, um pouco decepcionada, vejo que o sol já começa a abrir-se novamente. Os condôminos que caminham na orla estão retornando. A mulher das toalhas de pratos ainda está abrigada sob a copa do pé de fícus. Há uma fila de carros aguardando o sinal. Um Picasso cinza-metálico está se aproximando e a mulher vai até ele exibindo as toalhas. O motorista não compra. Baixa o vidro, só um pouco, entrega-lhe alguma coisa. Algum dinheiro, suponho. O sinal mostra o verde, o Picasso se movimenta, a mulher acena em agradecimento e retorna à calçada de olhos na mão entreaberta.
A propósito, fico pensando se Picasso em vida teria sido generoso. Nunca li nada sobre isso. Mas não importa.



Gláucia Lemos é ficcionista premiada e tem mais de 20 títulos. Suas crônicas são inéditas neste blog. Foto de Luis Benedito, retirada do Flickr.