quarta-feira, 28 de maio de 2008

ap[EGO]


Goulart Gomes




se eu lhe toco
é o apego do meu ego
que lhe afaga

se eu lhe foco
é o gozo do meu ego
que me afoga

se eu compro
o meu ego aplaca a fome
e me consome

quando luto, ele ganha
me derrota e me arrasta
em sua sanha

se me foge uma amiga
o ego e seu ciúme
fazem todas, inimigas

se me quedo no aconchego
e me cego para o mundo
ego-abismo, em que me afundo

e o ego tudo engole
em sua sede de tornado
e me queda, en-si-mesmado



Salvador, 28/05/2008

Goulart Gomes é autor de Minimal entre tantos títulos. A foto é de denis collette, retirada do Flickr.

O TANTO QUE NÃO FOSTE


Gláucia Lemos




E agora que te trago como rastro amargo

nessa viagem sem verões nem pássaros,

sinto que como chuva,

eras.

Eu te viajava como espaço,

como terra,

como garças em bando,

como plenilúnio e maré cheia

e lago a transbordar.



Eras vida, sendo lua e eclipse.

Eu te conhecia

como marfim aos dedos no piano,

como algas à areia,

como penumbra à véspera da luz.



E agora, que te trago mero rastro,

vou.

Viagem sem verões,

sem marés

e sem pássaros.





Gláucia Lemos é ficionista premiada e tem mais de 20 títulos publicados. Mas, além disto, ou, talvez, exatamente por isto, é também poeta.Foto Graças cinzentas por jvverde, retirada do Flickr.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O PROFESSOR

Gerana Damulakis

A João Cabral de Melo Neto

Imagens procuradas por
imagens atropelam-se
como ondas em vagalhões
ou sinos num turbilhão.

No oposto da vegetação,
o esforço é para domar
o nada, deserto em canção,
excluída a magia da fada.

O que não encontro
no significado de uma
lâmina, faca sem cabo,
é o que entendi da lama.

Do homem da lama,
tirando, da lama mesma,
a luta oriunda da chama,
já essa lama não é só lama.

Que essa lama é emblema
da força que força a lutar
no silêncio que clama
vencer, da lama sair; voar.



De Guardador de mitos (Edição do autor, 1993).

POEMA DO MÊS


Eli Eli lama sabachthani?



Manuel Anastácio


Promete não dizeres mais nada

Entre os arcos desenhados pela minha voz.

De nós, nada mais deve restar agora

Que os dois num só, a sós.

Promete não dizeres mais nada

Enquanto durar a nossa constelação.

Promete manter o céu em silêncio

Até que venha a hora

Em que peçam explicação,

E remoam o espanto

Perante o silêncio de água e sangue

Que escorre dos meus flancos

– Depois de ter gritado a última acusação

Que ninguém compreenderá.

Porque, nessa hora, não me terás abandonado,

Mas aberto a porta

Para que, enfim, retorne, e entre de novo em mim.




Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/): há entrada para ele diretamente do leitoracritica.blogspot.com/, na coluna “Favoritos”.
Aqueduto de Pegões. Foto de Manuel Anastácio em Creative Commons

sexta-feira, 23 de maio de 2008

PERDA


Gláucia Lemos


Palavras se foram
e ainda se enramam como fios
nos saltos dos meus sapatos.
O que é meu e tenho dentro
em mim, delas se plasma
como o sumo branco da uva branca
no meu copo
a alimentar meu corpo.
Elas sou eu
com o rigor da minha febre.

Neste início de noite
eu as tenho mudas
e a míngua habita o fosso
que ficou.



Gláucia Lemos é ficcionista premiada e aplaudida, com mais de 20 títulos. No entanto, a poesia também habita em seu talento e sabe mostrar sua presença.

Foto de Lu Arte, retirada do Flickr.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

HOMENAGEM

SALOMÃO CORRÊA, DINHA E ZÉLIA GATTAI

Goulart Gomes


Neste mês de maio de 2008 me senti um pouco Forrest Gump, testemunha do tempo que passa, e com ele leva pessoas amigas, populares e queridas. Este mês de maio – mês das noivas, das mães, das mulheres – também foi um mês de dar adeus (ou até breve!) a três pessoas com as quais, de forma próxima ou distante, convivi.
Luiz Carlos Salomão Corrêa (1947-2008), romancista e pintor, era meu colega de trabalho e de letras, um homem versátil, extrovertido, cordial, participativo. Conversávamos sempre, nos corredores da empresa, entre um cafezinho e um copo d’água. Participávamos dos eventos culturais internos, trocávamos informações e impressões. Ilheense, com um riquíssimo curriculum acadêmico, publicou quatro romances: Geraldo, o boi (1996); O segredo de Noca (1997); O vôo de Ícaro (1998) e Os Calores de Viridiana (2001) e preparava um novo livro para 2008. Em férias, na Europa, foi vitimado por problemas cardíacos. Sempre em busca de novos desafios, estava contente, ultimamente, com a sua inclusão em duas obras de referência enciclopédica na Bahia, nas quais aparecia como romancista contemporâneo. Em seus livros, o retrato das personagens populares, em histórias contadas com descontração e fluência. Um grande camarada, que nos deixou repentinamente.
Dinha (Lindinalva de Assis, 1952-2008), a famosa baiana do acarajé, foi fazer seus quitutes para São Pedro. Com certeza, a exemplo daquela famosa personagem de Manoel Bandeira, será recebida de braços abertos, por seus orixás, nas terras de Aruanda. Figura alegre, simpática, assim com um jeito da Tia Nastácia, de Monteiro Lobato, encontrávamos com ela todas as semanas, no “caixa” da sua tenda, no estacionamento de um supermercado, no bairro do Costa Azul, cobrando de nós o delicioso acarajé (com camarão e pimenta, claro!), que as suas discípulas preparavam: “Cobre aí, três e cinquenta”.
Já sobre a Zélia Gattai (1916-2008), quem sou eu para falar, diante de tantos intelectuais que com ela conviveram! Apesar de vivermos na mesma cidade, o mais próximo que estive dela foi como verbete, no Dicionário de Autores Baianos. Mas não tenho a menor dúvida que essa baiana de São Paulo era mesmo de Oxum: esbanjava simpatia, carinho, felicidade, harmonia. Quando comecei a publicar meus primeiros livros e antologias, sempre enviava, pelos Correios, um exemplar para o casal Amado. Não sei se os liam, mas tinham a gentileza de, por intermédio de suas secretárias, agradecer o envio, em papel timbrado. E vocês não sabem o quanto isso, para um escritorzinho em começo de carreira, como eu, era importante! Saber que aqueles que “chegaram lá” têm um mínimo de atenção e respeito pelos das novas gerações que, inclusive, são também seus leitores.
Nesses momentos, o pouco que podemos fazer é agradecer a essas pessoas pelo que elas foram e pelo que representaram em nossas vidas, pelo que nos legaram, pelo que de bom contribuíram, por algum instante que seja, para a nossa própria existência, seja conversando e trocando risadas; nos proporcionando o prazer de degustar um maravilhoso acarajé, após um dia cansativo de trabalho ou “perdendo” um pouco do seu tempo para nos escrever algumas linhas (em um tempo em que e-mail nem existia!). Fica aqui o meu muito obrigado a todos eles e que Deus os abençoe, hoje e sempre.
Salvador, Bahia, 20 de maio de 2008.

domingo, 18 de maio de 2008

HOMENAGEM


"Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores."
Zélia Gattai (02/07/1916 - 17/05/2008)