segunda-feira, 26 de maio de 2008

POEMA DO MÊS


Eli Eli lama sabachthani?



Manuel Anastácio


Promete não dizeres mais nada

Entre os arcos desenhados pela minha voz.

De nós, nada mais deve restar agora

Que os dois num só, a sós.

Promete não dizeres mais nada

Enquanto durar a nossa constelação.

Promete manter o céu em silêncio

Até que venha a hora

Em que peçam explicação,

E remoam o espanto

Perante o silêncio de água e sangue

Que escorre dos meus flancos

– Depois de ter gritado a última acusação

Que ninguém compreenderá.

Porque, nessa hora, não me terás abandonado,

Mas aberto a porta

Para que, enfim, retorne, e entre de novo em mim.




Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/): há entrada para ele diretamente do leitoracritica.blogspot.com/, na coluna “Favoritos”.
Aqueduto de Pegões. Foto de Manuel Anastácio em Creative Commons

sexta-feira, 23 de maio de 2008

PERDA


Gláucia Lemos


Palavras se foram
e ainda se enramam como fios
nos saltos dos meus sapatos.
O que é meu e tenho dentro
em mim, delas se plasma
como o sumo branco da uva branca
no meu copo
a alimentar meu corpo.
Elas sou eu
com o rigor da minha febre.

Neste início de noite
eu as tenho mudas
e a míngua habita o fosso
que ficou.



Gláucia Lemos é ficcionista premiada e aplaudida, com mais de 20 títulos. No entanto, a poesia também habita em seu talento e sabe mostrar sua presença.

Foto de Lu Arte, retirada do Flickr.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

HOMENAGEM

SALOMÃO CORRÊA, DINHA E ZÉLIA GATTAI

Goulart Gomes


Neste mês de maio de 2008 me senti um pouco Forrest Gump, testemunha do tempo que passa, e com ele leva pessoas amigas, populares e queridas. Este mês de maio – mês das noivas, das mães, das mulheres – também foi um mês de dar adeus (ou até breve!) a três pessoas com as quais, de forma próxima ou distante, convivi.
Luiz Carlos Salomão Corrêa (1947-2008), romancista e pintor, era meu colega de trabalho e de letras, um homem versátil, extrovertido, cordial, participativo. Conversávamos sempre, nos corredores da empresa, entre um cafezinho e um copo d’água. Participávamos dos eventos culturais internos, trocávamos informações e impressões. Ilheense, com um riquíssimo curriculum acadêmico, publicou quatro romances: Geraldo, o boi (1996); O segredo de Noca (1997); O vôo de Ícaro (1998) e Os Calores de Viridiana (2001) e preparava um novo livro para 2008. Em férias, na Europa, foi vitimado por problemas cardíacos. Sempre em busca de novos desafios, estava contente, ultimamente, com a sua inclusão em duas obras de referência enciclopédica na Bahia, nas quais aparecia como romancista contemporâneo. Em seus livros, o retrato das personagens populares, em histórias contadas com descontração e fluência. Um grande camarada, que nos deixou repentinamente.
Dinha (Lindinalva de Assis, 1952-2008), a famosa baiana do acarajé, foi fazer seus quitutes para São Pedro. Com certeza, a exemplo daquela famosa personagem de Manoel Bandeira, será recebida de braços abertos, por seus orixás, nas terras de Aruanda. Figura alegre, simpática, assim com um jeito da Tia Nastácia, de Monteiro Lobato, encontrávamos com ela todas as semanas, no “caixa” da sua tenda, no estacionamento de um supermercado, no bairro do Costa Azul, cobrando de nós o delicioso acarajé (com camarão e pimenta, claro!), que as suas discípulas preparavam: “Cobre aí, três e cinquenta”.
Já sobre a Zélia Gattai (1916-2008), quem sou eu para falar, diante de tantos intelectuais que com ela conviveram! Apesar de vivermos na mesma cidade, o mais próximo que estive dela foi como verbete, no Dicionário de Autores Baianos. Mas não tenho a menor dúvida que essa baiana de São Paulo era mesmo de Oxum: esbanjava simpatia, carinho, felicidade, harmonia. Quando comecei a publicar meus primeiros livros e antologias, sempre enviava, pelos Correios, um exemplar para o casal Amado. Não sei se os liam, mas tinham a gentileza de, por intermédio de suas secretárias, agradecer o envio, em papel timbrado. E vocês não sabem o quanto isso, para um escritorzinho em começo de carreira, como eu, era importante! Saber que aqueles que “chegaram lá” têm um mínimo de atenção e respeito pelos das novas gerações que, inclusive, são também seus leitores.
Nesses momentos, o pouco que podemos fazer é agradecer a essas pessoas pelo que elas foram e pelo que representaram em nossas vidas, pelo que nos legaram, pelo que de bom contribuíram, por algum instante que seja, para a nossa própria existência, seja conversando e trocando risadas; nos proporcionando o prazer de degustar um maravilhoso acarajé, após um dia cansativo de trabalho ou “perdendo” um pouco do seu tempo para nos escrever algumas linhas (em um tempo em que e-mail nem existia!). Fica aqui o meu muito obrigado a todos eles e que Deus os abençoe, hoje e sempre.
Salvador, Bahia, 20 de maio de 2008.

domingo, 18 de maio de 2008

HOMENAGEM


"Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores."
Zélia Gattai (02/07/1916 - 17/05/2008)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

DO AMOR I



Manuel Anastácio

Amor,
Minha só e única razão
para chorar o eterno deserto
interno em mim.
Minha só e única razão
Pensamento e fim:
Fizesse eu de luz o poema
que deveria, por maior razão, nos teus olhos se reflectir
e limitar-me-ia a descobrir,
ainda mais,
a minha boçal, trivial, banalidade.

É por isso,
por mero egoísmo,
e medo de te perder,
de nos perder,
que prefiro a escuridão dos caminhos abertos pelas palavras.




Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana (http://literaturas.blogs.sapo.pt/): há entrada para ele diretamente do leitoracritica.blogspot.com/, na coluna “Favoritos”. Tal como Saramago exige, que a ortografia portuguesa seja conservada, ainda que o livro esteja circulando aqui no Brasil em edição da Companhia das Letras (editora brasileira), também conservei, no texto de Manuel Anastácio, a ortografia usada em Portugal, daí o “reflectir”.

A foto é Labirinto do amor, por Felipe Arte, retirada do Flickr.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

MAIS UM LIVRO DO MESTRE DO CONTO CONTEMPORÂNEO





Gerana Damulakis










Foi-se o tempo em que se comprava o livro desejado nas livrarias. É tempo de compras pela internet. Eu mesma sou assídua compradora da livrariacultura.com.br., ou da cosacnaify.com.br. Mas vou indicar a compra do livro que cito abaixo diretamente pela imagoeditora.com.br. Trata-se do mais recente livro de contos de Aramis Ribeiro Costa. Se no seu primeiro livro de contos, A nota de Rosália (Editora Marfim, 1989), predominava a situação cotidiana que retirava o indíduo de sua rotina para colocá-lo frente ao acaso, no seu segundo livro, A assinatura perdida (Iluminuras, 1996), o insólito aparecia dentro de uma plausível ironia que desestabilizava o momento, sem esquecer de mirar também circunstâncias dramáticas, elas próprias independentes do traçado previsível pelo personagem, o qual não aguardava a mão do fado. Isto tudo se adensou em O mar que a noite esconde (Iluminuras, 1999), pois que o acaso já antes apontado vai se mesclando com um quê de espefacto diante de surpresas mais distantes ainda da previsibilidade. Faz-se necessário aqui apontar alguns exemplos. Se de A nota de Rosália retiro o conto "Praia" para ilustrar o acaso interferindo na vida cotidiana, haja vista um ocorrido banal ser suficiente para estragar o clima prazeroso de uma família numa manhã divertida na praia, vejo-me conduzida a retirar de A assinatura perdida, o conto mesmo que dá título a tal volume para mostrar a forma irônica como a mente pode nos trair a qualquer instante. Já no volume O mar que a noite esconde está o conto "A rosa de Natália", para mim magistral exemplo do comportamento humano, da incapacidade de lidarmos com as forças internas que nos colocam diante de surpresas criadas pelos desejos, pela pungência desses desejos, pela urgência em quebrar regras para sentir a vida, pela necessidade até de criar o drama pessoal. Não fica por aí a caminhada: O fogo dos infernos (Iluminuras, 2002), classificado como reunião de novelas, traz textos com elaboração e carga dramáticas mais complexas, desde logo graças ao texto estruturado para o gênero, constituindo uma leitura de peso dentro do universo do autor. Por esta via tenho que citar também a novela Episódio em Curicica (Selo Letras da Bahia, 2001) e o romance Uma varanda para o jardim (Editora Marfim, 1993). Para ficar na contística, vale lembrar que Baú dos inventados (Imago, 2003) é uma reunião de contos que o autor colheu dos livros anteriores e que Os bandidos (Imago, 2005) é um marco, uma plataforma quase, visando confirmar o autor como um contista de seu tempo, inteiramente de olhos abertos para os problemas do hoje, do aqui e da maneira como se está vivendo este aqui e este agora. Chegamos a Reportagem urbana (imago, 2008): sete contos fortes, sete vezes o momento crucial diante de nós. Sete é um número que diz muito: os sete dias da criação, os sete anos que Jacob serviu Raquel, as sete portas de Tebas, os sete pecados capitais, os sete muros que cercam a cidade Celeste, as sete obras da misericórdia,, os sete dons do Espírito, os sete andares do Céu, os sete planetas e os sete metais, as sete maravilhas da Terra, as sete estrelas do grupo das Plêiades, os sete braços dos sete candelabros empunhados pelos sete anjos que rodeiam o trono divino e que soarão as sete trombetas do Dia do Juízo ( lista de Almeida Faria, autor de O conquistador). De cada conto, um interessante confronto, grandioso e impactante. E mais não digo, apenas registrarei aqui o meu conto preferido deste livro: "A interminável noite de Percival". Leia o livro, opine aqui no blog, escolha o seu conto preferido.

O MAIS RECENTE LIVRO DE CONTOS DE ARAMIS


Aramis Ribeiro Costa é um dos nomes mais representativos da literatura baiana contemporânea. Com uma dezena de livros em edição nacional, sua ficção vem contemplando o conto, a novela e o romance, com predominância do conto. Após OS BANDIDOS, pela Imago Editora, conjunto de narrativas curtas em que se evidencia a violência urbana, particularmente a violência das cidades grandes, na qual todas as medidas vêm sendo ultrapassadas, uma violência que agride e esmaga o indivíduo em todos os sentidos e que parece não ter jeito, Aramis apresenta REPORTAGEM URBANA. Trata-se de um novo conjunto de contos que também recriam ficcionalmente a condição humana no contexto da realidade das grandes urbes, onde os obstáculos, os perigos e as decepções se sucedem, violentando e destruindo o indivíduo.